Poemas neste tema
Desejo
Florbela Espanca
Divino Instante
Ser uma pobre morta inerte e fria,
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
1 930
António Ramos Rosa
Com a Tua Boca Ou o Teu Nome
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
580
Caio Valério Catulo
CARMEM 56
Mas que coisa mais ridícula e jocosa,
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
1 358
Caio Valério Catulo
CARMEM 32
Eu te peço, minha doce Ipsitila,
Delícia e encanto deste meu viver:
Convida-me a passar contigo a sesta.
Caso me convidares, cuida bem
De que não ponham tranca em tua porta
E não te dê vontade de sair.
Fica em casa, tranquila, praparando-te
Para nove trepadas sucessivas.
Se preferires, vou agora mesmo:
Almocei bem e ora farto, ressupino,
Furo, de impaciência, túnica e toga.
Delícia e encanto deste meu viver:
Convida-me a passar contigo a sesta.
Caso me convidares, cuida bem
De que não ponham tranca em tua porta
E não te dê vontade de sair.
Fica em casa, tranquila, praparando-te
Para nove trepadas sucessivas.
Se preferires, vou agora mesmo:
Almocei bem e ora farto, ressupino,
Furo, de impaciência, túnica e toga.
1 745
Castro Alves
A Bainha do Punhal
Fragmento
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
2 149
Fernando Pessoa
Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
1 496
Vicente de Carvalho
Sugestões do Crepúsculo
Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 862
Castro Alves
O Sibarita Rornano
Este olhar, estes lábios, estas rugas
exprimem uma sede impaciente e
impossível de saciar. Quer e não pode.
Sente o desejo e a impaciência.
LAVATER
Escravo, dá-me a croa de amaranto
Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.
Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,
Quero o mole perfume do Oriente.
Lança nas chamas dessa etrusca pira
O nardo trescalante de Medina.
Vem... desenrola aos pés do meu triclínio
As felpas de uma colcha bizantina.
Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,
Pelas nereidas louras embalado,
Vogo em minha galera ao som das harpas,
Da cortesã nos seios recostado.
Debalde, em meu palácio altivo, imenso,
De mosaicos brilhantes embutido,
Nuas, volvem as filhas do Oriente
No morno banho em termas de porfido.
Só amo o circo... a dor, gritos e flores,
A pantera, o leão de hirsuta coma;
Onde o banho de sangue do universo
Rejuvenesce a púrpura de Roma.
E o povo rei — na vítima do mundo
Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,
E ergue-se o grito extremo dos cativos:
— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!
Escravo, quero um canto... Vibra a lira,
De Orfeu desperta a fibra dolorida,
Canta a volúpia das bacantes nudas,
Fere o hino de amor que inflama a vida.
Doce, como do Himeto o mel dourado,
Puro como o perfume... Escravo insano!
Teu canto é o grito rouco das Eumênides,
Sombrio como um verso de Lucano.
Quero a ode de amor que o vento canta
Do Palatino aos flóreos arvoredos.
Quero os cantos de Nero... Escravo infame,
Quebras as cordas nos convulsos dedos!
Deixa esta lira! como o tempo é longo!
Insano! insano! que tormento sinto!
Traze o louro falerno transparente
Na mais custosa taça de Corinto.
Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!
Dá-me a taça, e do ergástulo das servas
Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!
Quero em seu seio... Escravo desgraçado,
A este nome tremeu-te o braço exangue?
Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,
Irás manchar o Coliseu com o sangue!...
exprimem uma sede impaciente e
impossível de saciar. Quer e não pode.
Sente o desejo e a impaciência.
LAVATER
Escravo, dá-me a croa de amaranto
Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.
Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,
Quero o mole perfume do Oriente.
Lança nas chamas dessa etrusca pira
O nardo trescalante de Medina.
Vem... desenrola aos pés do meu triclínio
As felpas de uma colcha bizantina.
Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,
Pelas nereidas louras embalado,
Vogo em minha galera ao som das harpas,
Da cortesã nos seios recostado.
Debalde, em meu palácio altivo, imenso,
De mosaicos brilhantes embutido,
Nuas, volvem as filhas do Oriente
No morno banho em termas de porfido.
Só amo o circo... a dor, gritos e flores,
A pantera, o leão de hirsuta coma;
Onde o banho de sangue do universo
Rejuvenesce a púrpura de Roma.
E o povo rei — na vítima do mundo
Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,
E ergue-se o grito extremo dos cativos:
— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!
Escravo, quero um canto... Vibra a lira,
De Orfeu desperta a fibra dolorida,
Canta a volúpia das bacantes nudas,
Fere o hino de amor que inflama a vida.
Doce, como do Himeto o mel dourado,
Puro como o perfume... Escravo insano!
Teu canto é o grito rouco das Eumênides,
Sombrio como um verso de Lucano.
Quero a ode de amor que o vento canta
Do Palatino aos flóreos arvoredos.
Quero os cantos de Nero... Escravo infame,
Quebras as cordas nos convulsos dedos!
Deixa esta lira! como o tempo é longo!
Insano! insano! que tormento sinto!
Traze o louro falerno transparente
Na mais custosa taça de Corinto.
Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!
Dá-me a taça, e do ergástulo das servas
Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!
Quero em seu seio... Escravo desgraçado,
A este nome tremeu-te o braço exangue?
Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,
Irás manchar o Coliseu com o sangue!...
1 563
António Ramos Rosa
Mutação
Inacabado e sem saber
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
1 019
T. S. Eliot
UMA DEDICATÓRIA A MINHA ESPOSA
A quem devo o súbito prazer
Que me estimula os sentidos nas horas acordadas
E o ritmo que nos governa o repouso nas horas dormidas,
A respiração em uníssono
Dos amantes cujos corpos cheiram um ao outro
Que pensam os mesmo pensamentos sem precisar de palavras
E balbuciam as mesmas palavras sem precisar de sentido.
Nenhum vento de inverno impertinente vai gelar
Nenhum sol de trópico rabugento vai fazer murchar
As rosas no rosal que é nosso que é só nosso
Mas esta dedicatória é para outros lerem:
São palavras reservadas dirigidas a você em público.
Que me estimula os sentidos nas horas acordadas
E o ritmo que nos governa o repouso nas horas dormidas,
A respiração em uníssono
Dos amantes cujos corpos cheiram um ao outro
Que pensam os mesmo pensamentos sem precisar de palavras
E balbuciam as mesmas palavras sem precisar de sentido.
Nenhum vento de inverno impertinente vai gelar
Nenhum sol de trópico rabugento vai fazer murchar
As rosas no rosal que é nosso que é só nosso
Mas esta dedicatória é para outros lerem:
São palavras reservadas dirigidas a você em público.
3 005
Charles Bukowski
Olhando Para Os Colhões Do Gato
sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
1 191
Jean de La Fontaine
Invocação à volúpia
Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.
Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.
Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...
1 633
Charles Baudelaire
AS PROMESSAS DE UM ROSTO
Amo, ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos.
Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: Amante, se o apelo
Queres seguir da musa plástica
Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;
Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,
Um rico tosão que á tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!
(Tradução
José Paulo Paes)
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos.
Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: Amante, se o apelo
Queres seguir da musa plástica
Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;
Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,
Um rico tosão que á tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!
(Tradução
José Paulo Paes)
3 296
Edith Sitwell
GREEN FLOWS THE RIVER OF LETHE - O
Verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
1 249
Fernando Pessoa
Em vão procuro o bem que me negaram.
Em vão procuro o bem que me negaram.
As flores dos jardins herdadas de outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?
As flores dos jardins herdadas de outros
Como hão-de mais que perfumar de longe
Meu desejo de tê-las?
1 454
António Ramos Rosa
Corpo Escrito
Como pintar um corpo ainda submerso pela lama?
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
1 219
Gaio Petrónio Árbitro
FOEDA EST IN COITUS
Brutal na posse e é breve uma volúpia,
Quanto a que a Vénus a exaustão persegue.
Não bestas somos, ao precipitá-la,
Na rapidez final a que corremos
(O amor se queima em sua própria chama).
Mas lá, oh, lá, nas férias sempiternas,
Nos possuiremos de oscular perene.
Lá cansaço não há, nem carne triste.
Lá só de gozo o gozo gozará.
Lá não acaba o que começa sempre.
Quanto a que a Vénus a exaustão persegue.
Não bestas somos, ao precipitá-la,
Na rapidez final a que corremos
(O amor se queima em sua própria chama).
Mas lá, oh, lá, nas férias sempiternas,
Nos possuiremos de oscular perene.
Lá cansaço não há, nem carne triste.
Lá só de gozo o gozo gozará.
Lá não acaba o que começa sempre.
981
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 052
Vinicius de Moraes
Invocação À Mulher Única
Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
1 110
João Marcio Furtado Costa
Utopia e Paixão
Utopia e Paixão
(10/92)
Poderia ser longa a minha espera,
Não estivesses sendo tu, a esperada.
Me encheria, quem sabe, o peito, a ansiedade,
De ser teu sonho e, também, realidade.
Preferia no entanto, por mais efêmera,
Que fosse a tua, igual a minha vontade,
De estares em meu tato e na minha visão,
Na audição, no paladar e no olfato.
Pois em meus sentidos, não serias utopia.
Por mais fugaz que fosse o sentimento,
Certamente seria uma paixão.
(10/92)
Poderia ser longa a minha espera,
Não estivesses sendo tu, a esperada.
Me encheria, quem sabe, o peito, a ansiedade,
De ser teu sonho e, também, realidade.
Preferia no entanto, por mais efêmera,
Que fosse a tua, igual a minha vontade,
De estares em meu tato e na minha visão,
Na audição, no paladar e no olfato.
Pois em meus sentidos, não serias utopia.
Por mais fugaz que fosse o sentimento,
Certamente seria uma paixão.
853
Konstantínos Kaváfis
NUM LIVRO VELHO
NUM LIVRO VELHO
Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».
Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».
Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.
Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».
Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».
Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.
1 421
António Ramos Rosa
Terra
Terra verde e ensanguentada
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
1 161
Murillo Mendes
Grafito para Ipólita
1
A tarde consumada, Ipólita desponta.
Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.
Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.
A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.
Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.
O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo
O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!
Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre
Desata as rédeas ao cavalo interno.
2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.
Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)
Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.
3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.
4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.
Roma 1965
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
A tarde consumada, Ipólita desponta.
Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.
Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.
A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.
Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.
O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo
O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!
Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre
Desata as rédeas ao cavalo interno.
2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.
Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)
Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.
3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.
4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.
Roma 1965
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
1 746
João Marcio Furtado Costa
Ingenuidade
Ingenuidade
(07/86)
Sei que és como um rio
Que possui águas turvas,
Mas prefiro na estrada
A surpresa das curvas,
À certeza das retas.
Certas coisas são certas,
Assim como os segredos,
Que existem em seus olhos,
E que só dentro deles
É que se pode ver:
Que eu não posso ser tudo,
Muito menos ser nada
Que eu não posso ser sonho,
Nem felicidade,
Que eu não posso ser vida,
Assim sem você.
(07/86)
Sei que és como um rio
Que possui águas turvas,
Mas prefiro na estrada
A surpresa das curvas,
À certeza das retas.
Certas coisas são certas,
Assim como os segredos,
Que existem em seus olhos,
E que só dentro deles
É que se pode ver:
Que eu não posso ser tudo,
Muito menos ser nada
Que eu não posso ser sonho,
Nem felicidade,
Que eu não posso ser vida,
Assim sem você.
1 016