Poemas neste tema

Desejo

Lúcia Nobre

Lúcia Nobre

Lui Lui

Dois meninos
Rapazes
Felinos

Enlaços
Cavalgos
Relaxos

Beijos
Sussuros
Gemidos

Belo
macho
Amor

880
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Testamento

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

25 de janeiro de 1943
1 502
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bem sei que ela era a Rainha.

Bem sei que ela era a Rainha.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…

Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.

Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
1 752
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cossante

Ondas da praia onde vos vi,
Olhos verdes sem dó de mim,
Ai Avatlântica!

Ondas da praia onde morais,
Olhos verdes intersexuais.
Ai Avatlântica!

Olhos verdes sem dó de mim,
Olhos verdes, de ondas sem fim,
Ai Avatlântica!

Olhos verdes, de ondas sem dó,
Por quem me rompo, exausto e só
Ai Avatlântica!

Olhos verdes, de ondas sem fim,
Por quem jurei de vos possuir,
Ai Avatlântica!

Olhos verdes sem lei nem rei,
Por quem juro vos esquecer,
Ai Avatlântica!
1 456
Isabel Machado

Isabel Machado

Baratas freudianas

Falo que barata não é falo
ouso discordar do Freud-Deus
ao gerar polêmica, me calo!
Quem, perante Freud-Deus, sou eu?

Devo ter então medo de sexo
preciso ficar a meditar
Penso na barata e não tem nexo
mas insisto e volto a repensar...

Não devo berrar mais quando a vejo
nem com meu chinelo destruí-la.
Se a barata é meu puro desejo
devo então amá-la ou possuí-la...

Acho que é melhor eu consultar
quem melhor entende desse tema.
Ou profundamente pesquisar
a resposta desse vil dilema...

A resposta está profundamente
nas entranhas do meu "eu" profundo
que faz da barata, inconsciente,
o falo que mais amo nesse mundo!

1 063
Djalma Filho

Djalma Filho

Eclipse

Vem
menina vadia
te darei o meu dia
te farei sol nascer

Vem
menina moleca
te farei uma festa
te darei meu prazer

Vem
menina dengosa
te encantarei formosa
te enfeitarei com meu ser

Vem em ti
todas as meninas carentes
todas as mulheres santas
todos os amores proibidos
todas amantes desvairadas

Dispa
em definitivo teus pudores
deflore toda tua nudez
que arde... agora afoita
em avalanche de néctar

Abrace-me
sem culpas nem escrúpulos
penetre nessa loucura
que arde... agora ereto
vermelho a te querer

Fique-me
em eclipse... em
superposições de sóis
querendo e ardendo
definitivamente nós!!!

1 008
Djalma Filho

Djalma Filho

Ainda os lençóis

Lençóis abaixo
Lençóis acima
Trocentas diversões
Meu traço risca teu
espaço em voz e direção
Meu corpo encurva
e te submete a mais
uma exploração...

Lençóis abaixo
Lençóis acima
Perco o diapasão
Há um afinar de
corpos pelo ouvido
Quero te ouvir sempre
em movimentos entônicos
de orgasmos

Lençóis abaixo
Lençóis acima
Caio de quatro
Percebo no ato o
penetrar manso
Estou alucinado
pelos movimentos sutis
de descobertas

Lençóis abaixo
e acima...
estou em ti...
como voraz os pés
da cama...
e a teus pés eu
declamo
harmonias loucas
perdidas e lúcidas
já sem lençóis,
sanidade
ou sensatez.

810
Djalma Filho

Djalma Filho

Entre lençóis

Envoltos pela névoa de linho
os amantes se olham
indescobertos...

Envoltos por sins e temores
os amantes se tocam
cautelosamente...

Envoltos por olhos ardentes...
os amantes se desejam
misteriosamente...

Envoltos... no quarto fechado
há um não sobrar de
espaço para dois

As palavras sussurram delicadamente
prazeres inconfessáveis e não ditos
Mãos espalmadas em busca de espaço
desafiando as leis da física...
Pernas, ora trançadas ora retesadas...
querendo quebrar todos os limites
Bocas em beijos, em cada milímetro...
engolindo toda a possível resistência

Entre lençóis,
os amantes se esquecem
eternamente do tempo ...

Para quê tempo?
se, entre lençóis, eles
vivem tão intensamente?...

E... bem cá entre nós
- Para quê mais os lençóis?...

929
Niandra LaDez

Niandra LaDez

Erótico puritano

As pontas dos meus seios apontam para o céu
inchados e duros
pequenos e brancos
reluzem e gritam
enquanto as estrelas queimam e umedecem
meus santos orifícios
com seus toques inesperados.
sou cega, muda, espasmódica.
pernas abertas por um mundo melhor.

778
Ernesto de Melo e Castro

Ernesto de Melo e Castro

Hermafrodita

De Hermes e de Afrodite o filho esbelto e amado,
de Salmacis oscula o corpo melodioso,
e a ninfa treme e ondeia o moço deslumbrado,
com um prazer que chega até a ser doloroso...

Ela – dócil, a arfar, como, ao vento, as searas...
Ele – forte, a arquejar, como, com cio, um touro...
O cabelo da ninfa inunda as duas caras,
e há beijos musicais sob essa chuva de ouro...

Enleandos um ao outro, a asa de uma mosca
não caberia não! entre esses corpos belos,
que se enroscam, sensuais, febris, como se enrosca
no tronco a vide em flor, e a hera nos castelos.

Dos dois corpos a união, entre lascivos ais,
cada vez, cada vez se torna mais completa,
e aquelas coxas cada vez se agitam mais:
uma brancas, de luar, outras rijas, de atleta...

Num doido frenesi, entrar parecem querer
ela – no corpo dele, ele – no corpo dela!
Choram, gemem, dão ais... e no auge do prazer,
começam a gritar para o céu que se estrela:

– «Ó deuses! atendei esta súplica ardente:
se é verdade que ouvis as vozes que vos chamam,
os nossos corações, fundi-os num somente,
fundi num corpo só nossos corpos que se amam!»

Chegou ao vasto Olimpo a rogativa louca;
e Zeus, o grande Zeus, cuja força é infinita,
as duas bocas transformou numa só boca,
e dos dois corpos fez um só: HERMAFRODITA!

1 785
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dá-me as mãos por brincadeira

Dá-me as mãos por brincadeira
Na dança que não dançamos,
Porque isso é uma maneira
De dizer o que pensamos.

Dá-me as mãos e sorri alto,
A vigiar o que rio,
Bem sabes que assim já falto
A pensar coisas a fio.

Não quero largar as mãos
Assim dadas por brinquedo.
Deixa-as ficar: há irmãos
Que brincam assim a medo.

Não largues, ou faz demora
A arrastar, a demorar,
As mãos pelas minhas fora,
E já deixando de olhar.

Que segredos num contacto!
Que coisas diz quem não fala!
Que boa vista a do tacto
Quando a vista desiguala!

Deixa os dedos, deixa os dedos,
Deixa-os ainda dizer
Aqueles dos teus segredos
Que não podes prometer!

Deixa-me os dedos e a vida!
Os outros dançam no chão,
E eu tenho a alma esquecida
Dentro do teu coração.

Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho.
Mais vale ter enganado
Do que ter porque não tenho.
1 555
Isabel Machado

Isabel Machado

Bis

Da base ao topo
deslizantes areias
uma cama de teias
de aranhas
e manhas.
E a manhã escondida
por detrás da cortina
permitiu meia-luz
ante dois corpos nus.
Despidos do dia
entregues à euforia
de fazer chorar
Imersos em bocas
sussurros e roucas
palavras de amar
A língua percorre
o habitat natural
em doses perfeitas
de açúcar e sal
Adentra profundo
arromba as entranhas
teu sexo um mundo
fecundo...

Cravada em teu corpo
como em sonhos te quis
pensamento segreda:
- quero bis...

1 132
Isabel Machado

Isabel Machado

Diz

Sim... pode falar...
fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer...

Diga... diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer...
... proteção...

Diz... diz que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração...
é tudo permitido
êxtase de emoção.

1 098
Liz Christine

Liz Christine

Madrugada

Comer de madrugada
é um ato sublime!
E clandestino.
Como um machão lendo gibi do Cascão

Solitário como masturbação
Nós e estômago
Nós, uma mão
Comer de madrugada
Cair de boca
em comida gelada

À procura de leite condensado
Capuccino com chantilly misturado
Biscoito de morango recheado
Doce-de-leite saboreado
Humm!...
isto dá... tesão...

e nada mais Madrugada
sensação apaixonada
Que a paixão!

833
Isabel Machado

Isabel Machado

Secundário

No círculo
dos quatro cantos
no meio, nós
somos dois ou um?
Abrimos os corpos
as pernas, a vida
adentram os poros
a seiva
a cada subida
e cada entrega
rega
o suor de orgasmos
múltiplos
sem clímax...
O poder do toque
nas mãos
não qualquer um
mas aquele
não qualquer língua
mas a sua
não qualquer sexo
mas o tanto
possante que me adentra
saliva que alimenta
o gozo
extraordinário
que torna o auge
do ato
um ato
secundário

1 065
Isabel Machado

Isabel Machado

Inevitável

Inevitável foi o toque
a procura
a consumação da loucura
a transformar nós dois
em um.
Nada foi comum
Tudo foi vital
anormal...
dentro da normalidade contida
no ato.
Inevitável foi o tato
e meus seios foram teus
... tudo... o corpo todo
sentiu-te em gula
nas entranhas
nas loucas manhas
da manhã-festim...

Inevitável
tatear-me em falso
pra sentir-te pleno
em mim...

939
Mônica Banderas

Mônica Banderas

Útil estima

De suas partes
a que mais gosto
é a que tem vontade própria
a que se levanta em riste
e que, às vezes, obedece à minha vontade:
uso e abuso,
ordenho a haste,
corro riscos,
devoro e devolvo,
e depois
de maravilhosamente gozada,
me encara e dorme.

960
Mônica Banderas

Mônica Banderas

Benditas mães de meus amantes

Marcar com ferro em brasa
as nádegas
das vacas parideiras,
leiteiras,
que amamentam homens
para serem amantes
e jorrarem leite
criando mais homens
para deitar comigo
todos os dias
um para cada dia...

888
Jorge de Sousa Braga

Jorge de Sousa Braga

Escalada

Chamar-te colibri sussurrar-te
ao ouvido coisas acidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nadegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas

Selar-te as palpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas

A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua

De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.

2 225
Julio Ludemir

Julio Ludemir

Escarpas

As minhas mãos escapam
pelas escarpas do seu corpo
e esculpem sensações indecifráveis
quando nos vemos nus em Vênus
ou nas vezes que navegamos até Veneza
descendo lentamente pelas correntezas do orgasmo.

1 100
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Solange

Para que não falem as más
Línguas, declaro aqui, Solange:
Não sou como os velhos gagás;
De Solange quero só Pange.
1 093
Anjo Hazel

Anjo Hazel

Façamos um trato esta noite

Façamos um trato esta noite... não sejamos tão realistas.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite... efêmera é esta carne que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.

Façamos um trato esta noite... as lágrimas são cristais do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...
Façamos um trato esta noite... não adianta fugir da própria vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite... prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.

1 401
Dois Santos dos Santos

Dois Santos dos Santos

Mulher que ama fica úmida

Mulher que ama fica úmida
faz água
tem nos olhos um brilho molhado
de lágrima perdida
intenso como vidro lavado
No fundo da mulher que ama
há ternuras líquidas
desejos derretidos em doces resistências
afetos quentes escorrendo dentro
paredes meladas
rios invisíveis
que nascem da sensação de amar
Cristalizações se dissolvem
o que era duro passa a ser macio
o que era pesado leve
o áspero suave
Num certo ponto
mulher que ama arrebenta
vaza por tudo

1 278
Giuseppe Belli

Giuseppe Belli

A embocadura

Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.

Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.

Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.

É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.

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