Poemas neste tema
Desejo
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
509
Henriqueta Lisboa
Horizonte
Alma em suspiro
pelo encontro
do que fica
sempre mais longe
Publicado no livro Reverberações (1976).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
pelo encontro
do que fica
sempre mais longe
Publicado no livro Reverberações (1976).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 710
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
624
António Ramos Rosa
Horizontal Linguagem
Há demasiadas sombras sobre a pedra
aqui o sol é branco o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra a sombra e o desejo
Ruptura ou inversão do objecto
do desejo a sua cor é a do animal
na água a água aqui no novo
espaço
A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água
Na página o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas
Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca
e de súbito vermelha num território de verdura ardente
Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui
Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue
Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem
E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te
Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto
Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente
Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude Agora
ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo
A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante
Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos
Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue
Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?
Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão
Onde de novo a luz do sol
Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro
Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio
Sangue
argila
fogo
ou terra
Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra
E recomeçam E recomeçam
aqui o sol é branco o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra a sombra e o desejo
Ruptura ou inversão do objecto
do desejo a sua cor é a do animal
na água a água aqui no novo
espaço
A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água
Na página o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas
Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca
e de súbito vermelha num território de verdura ardente
Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui
Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue
Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem
E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te
Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto
Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente
Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude Agora
ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo
A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante
Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos
Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue
Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?
Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão
Onde de novo a luz do sol
Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro
Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio
Sangue
argila
fogo
ou terra
Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra
E recomeçam E recomeçam
1 198
António Ramos Rosa
Ela Desloca o Corpo Ao Alto
Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 065
António Ramos Rosa
Quase Nada Ou Nada
Por quase nada ou nada
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
1 035
António Ramos Rosa
Ó Treva Ó Música Na Extensão do Vazio
Ó treva ó música na extensão do vazio
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
560
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 116
António Ramos Rosa
Pedra Plana,…
Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 255
António Ramos Rosa
Desejo E Deserto,…
Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 276
António Ramos Rosa
Terra Para Pronunciar…
Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
1 307
António Ramos Rosa
Os Primeiros Sinais Diferentes…
Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
1 361
António Ramos Rosa
A Boca Desviada,…
A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
1 312
António Ramos Rosa
2. a Perda da Pedra Inerte E Pobre
2
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
1 041
António Ramos Rosa
9. Contra Algo, Inconsistente, Interrogado
9
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
1 138
Edmir Domingues
Consuelito Morales
Entonces tus dos brazos se tornaban
como rosa y claveles de pintura,
fue preciso romper a la armadura,
lanzas que los instantes ofertaban.
Y se hizo la forma en noche oscura
donde ojos como espuma se gravaban,
a lo lejos los líquidos se alzaban
haciéndose himno, fuente, rosa impura
Tus brazos son peninsulas, tenidas
entre deseo y ensueiio, coloridas
con las tintas de espanto y desatino.
Mientras nuestros caballos funerals
se deshacen, tus brazos son puiiales
con yestos que son carne y labios vino.
como rosa y claveles de pintura,
fue preciso romper a la armadura,
lanzas que los instantes ofertaban.
Y se hizo la forma en noche oscura
donde ojos como espuma se gravaban,
a lo lejos los líquidos se alzaban
haciéndose himno, fuente, rosa impura
Tus brazos son peninsulas, tenidas
entre deseo y ensueiio, coloridas
con las tintas de espanto y desatino.
Mientras nuestros caballos funerals
se deshacen, tus brazos son puiiales
con yestos que son carne y labios vino.
679
António Ramos Rosa
11. o Desenlace a Marca o Timbre
11
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
523
António Ramos Rosa
22. a Pergunta da Mão Aberta
22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
943
António Ramos Rosa
20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde
20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
901
António Ramos Rosa
26. Aprendi o Jogo E o Não Jogo
26
Aprendi o jogo e o não jogo
com a lâmpada obscura na nudez das ervas
declinando sempre a perda das palavras
e a prática pedestre das pernas obscenas.
Restituir e não restituir ou seja o rastro
os joelhos negros o incêndio límpido
e sóbrio membro o único unicórnio.
A figura é isto: os quatro membros: e o membro
branco e erecto sol sal e sangue
e a interrupção dos aspectos prática poética.
Aprendi o jogo e o não jogo
com a lâmpada obscura na nudez das ervas
declinando sempre a perda das palavras
e a prática pedestre das pernas obscenas.
Restituir e não restituir ou seja o rastro
os joelhos negros o incêndio límpido
e sóbrio membro o único unicórnio.
A figura é isto: os quatro membros: e o membro
branco e erecto sol sal e sangue
e a interrupção dos aspectos prática poética.
878
Edmir Domingues
Soneto da vinda
Venha quando não possa (quando possa
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
646
Ascenso Ferreira
Toré
Os dois maracás,
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
2 516
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
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Edmir Domingues
soneto V - Os loucos e eu somente
Quero os loucos somente, que as crianças
já não são mais ternura e ingenuidade,
e em loucos, neles só, terão reflexos
meus desejos que vêm de infância antiga.
E seremos na sombra as borboletas
de uma sombra maior, de um mundo morto,
mundo em que ardem de febre e enfermidade
os que brincam de roda na calçada.
Comporemos, os loucos e eu somente,
castelos sobre céus abandonados
e um carnaval de lâmpadas mortiças.
E à noite, quando houver faltado o azeite,
cantaremos canções, canções tão lúcidas
que alguns nem saberão que somos loucos.
já não são mais ternura e ingenuidade,
e em loucos, neles só, terão reflexos
meus desejos que vêm de infância antiga.
E seremos na sombra as borboletas
de uma sombra maior, de um mundo morto,
mundo em que ardem de febre e enfermidade
os que brincam de roda na calçada.
Comporemos, os loucos e eu somente,
castelos sobre céus abandonados
e um carnaval de lâmpadas mortiças.
E à noite, quando houver faltado o azeite,
cantaremos canções, canções tão lúcidas
que alguns nem saberão que somos loucos.
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