Poemas neste tema
Desejo
Dílson Catarino
Cores e Odores
As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
870
Afonso X
Med'hei do Pertigueiro Que Tem Deça
Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
- Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
656
Fernando Pessoa
A tua irmã é pequena,
A tua irmã é pequena,
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
1 690
Dílson Catarino
Eu Você
quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
974
Fernando Pessoa
Vem cá dizer-me que sim.
Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P’ra ao pé do meu coração.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P’ra ao pé do meu coração.
1 438
Rui Queimado
Pois Minha Senhor Me Manda
Pois minha senhor me manda
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
524
Fernando Pessoa
Ai, os pratos de arroz-doce
Ai, os pratos de arroz-doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!
1 696
Fernando Pessoa
41 - TO ONE SINGING
O voice the angels kissed when unbreathed yet!
O lips made spiritual with uttering it!
O eyes wild with the lust of the divine
In thy felt presence, making thee its shrine!
O that this moment of thee were Thyself!
That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf
Of gathered days with avarice of living,
Touched thee not from this moment of God's giving!
O eternal actuality of thee!
O by thy voice sculptured immutably
In some stone‑flesh of spirit! O set free
From being all contained in being seen!
O firmament of joy purely serene
With spaciousness of soul and stars of song
Above thyself, God's human heights among!
Sing on, and let thy singing be a couch
To that of me which to my soul doth vouch
Of God as of a self and of a home!
Dissolve me to thy notes! Make me become
An outside of myself, and have in me
Nought but a selfless sense of hearing thee!
Let me pertain to the sounds thou dost voice!
Let me be other than I and rejoice
Hearing time like a breeze pass by the place
Thy song imprisons in its halcyon grace!
Thy voice compels to parapets from heaven
Dim winged happinesses whence is woven
To our souls such a glamour, spirit‑fair,
That, feeling it, all life becomes despair
And all the sense of life to wish to die.
Sing on! Between the music's human cry
And thy song's meaning there is interposed
Some third reality, less life‑enclosed,
Some subtler tenderness than music makes
Or words sung, and its moonless moonlight takes
Our visionary moods by their child‑hand
And our tired steps begin to understand.
Sing, nor stop singing till bliss ache too much!
O that I could, without moving my hand,
Stretch forth some hand imaginary and touch
That body of thine thy singing giveth thee!
That kiss‑like touch would wake eternity
In me again, and, as by a great morn,
The night my body makes of me were torn
Away from being, and my unbodied shape
Would, like a ship doubling the final cape,
Come to that sight of port and shiver of coming
That God allows to those whose bliss of roaming
Is no more than the wish to find His peace
And mingle with it as a scent with the breeze.
O lips made spiritual with uttering it!
O eyes wild with the lust of the divine
In thy felt presence, making thee its shrine!
O that this moment of thee were Thyself!
That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf
Of gathered days with avarice of living,
Touched thee not from this moment of God's giving!
O eternal actuality of thee!
O by thy voice sculptured immutably
In some stone‑flesh of spirit! O set free
From being all contained in being seen!
O firmament of joy purely serene
With spaciousness of soul and stars of song
Above thyself, God's human heights among!
Sing on, and let thy singing be a couch
To that of me which to my soul doth vouch
Of God as of a self and of a home!
Dissolve me to thy notes! Make me become
An outside of myself, and have in me
Nought but a selfless sense of hearing thee!
Let me pertain to the sounds thou dost voice!
Let me be other than I and rejoice
Hearing time like a breeze pass by the place
Thy song imprisons in its halcyon grace!
Thy voice compels to parapets from heaven
Dim winged happinesses whence is woven
To our souls such a glamour, spirit‑fair,
That, feeling it, all life becomes despair
And all the sense of life to wish to die.
Sing on! Between the music's human cry
And thy song's meaning there is interposed
Some third reality, less life‑enclosed,
Some subtler tenderness than music makes
Or words sung, and its moonless moonlight takes
Our visionary moods by their child‑hand
And our tired steps begin to understand.
Sing, nor stop singing till bliss ache too much!
O that I could, without moving my hand,
Stretch forth some hand imaginary and touch
That body of thine thy singing giveth thee!
That kiss‑like touch would wake eternity
In me again, and, as by a great morn,
The night my body makes of me were torn
Away from being, and my unbodied shape
Would, like a ship doubling the final cape,
Come to that sight of port and shiver of coming
That God allows to those whose bliss of roaming
Is no more than the wish to find His peace
And mingle with it as a scent with the breeze.
1 398
Fernão Garcia Esgaravunha
Que Grave Cousa, Senhor, D'endurar
Que grave cousa, senhor, d'endurar
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
664
David Mestre
Ngaieta de beiço
Cantarei
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da
minha língua (em guarda).
O oiro
o mel
o silêncio cúmplice
a arca da tua boca
magra.
Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?
Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.
Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da
minha língua (em guarda).
O oiro
o mel
o silêncio cúmplice
a arca da tua boca
magra.
Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?
Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.
Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá
1 027
Fernão Garcia Esgaravunha
Ora Vej'eu o Que Nunca Cuidava,
Ora vej'eu o que nunca cuidava,
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
665
Fernão Garcia Esgaravunha
Se Vos Eu Amo Mais Que Outra Rem
Se vos eu amo mais que outra rem,
senhor fremosa que sempre servi,
rog'[eu] a Deus que tem em poder mi
e vós, senhor, que me dê vosso bem!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor.
Se vos eu amo mais doutra molher,
nem ca outr'home, mais ca mi nem al,
rog'eu a Deus, que muito pod'e val,
que El mi dê vosso bem se quiser!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor!
senhor fremosa que sempre servi,
rog'[eu] a Deus que tem em poder mi
e vós, senhor, que me dê vosso bem!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor.
Se vos eu amo mais doutra molher,
nem ca outr'home, mais ca mi nem al,
rog'eu a Deus, que muito pod'e val,
que El mi dê vosso bem se quiser!
E se assi nom éste, mia senhor,
nom me dê vosso bem nem voss'amor!
676
Fernão Garcia Esgaravunha
Punhei Eu Muit'em Me Quitar
Punhei eu muit'em me quitar
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
de vós, fremosa mia senhor,
e nom quis Deus nem voss'amor;
e poilo nom pudi acabar,
dizer-vos quer'eu ũa rem
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
De querer bem outra molher
punhei eu, há i gram sazom,
e nom quis o meu coraçom;
e pois que el nem Deus nom quer,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
E, mia senhor, per bõa fé,
punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud'; e pois assi é,
dizer-vos quer'eu ũa rem,
senhor que sempre bem quige:
or sachaz veroyamen
que je soi votr'home lige.
514
Fernando Pessoa
Thou needst not scorn me. All my praise of thee
Thou needst not scorn me. All my praise of thee
Though't be of that which opens men's desire
(Being of thy beauty), from desire is free.
My flame upon thine altars has no fire.
Beauty should beauty mate, lest by addition
It do subtraction suffer. So I name
Thy true mate beautiful. Thus my perdition
Myself desire and mine own love disclaim.
That this renouncement of the very thought
Of thy possible love, were't such or no,
Gives pain, is sure; yet the pain given does not
From the renouncement, but its reason, flow.
The gods that fated me not beautiful
Fated this just renouncement possible.
Though't be of that which opens men's desire
(Being of thy beauty), from desire is free.
My flame upon thine altars has no fire.
Beauty should beauty mate, lest by addition
It do subtraction suffer. So I name
Thy true mate beautiful. Thus my perdition
Myself desire and mine own love disclaim.
That this renouncement of the very thought
Of thy possible love, were't such or no,
Gives pain, is sure; yet the pain given does not
From the renouncement, but its reason, flow.
The gods that fated me not beautiful
Fated this just renouncement possible.
1 381
Fernando Pessoa
Há dois dias que não vejo
Há dois dias que não vejo
Modo de tornar-te a ver.
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.
Modo de tornar-te a ver.
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.
1 272
Fernando Pessoa
Boca de romã perfeita
Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
1 191
Fernando Pessoa
Boca de riso escarlate/Com dentes brancos no meio,
Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.
1 511
Almeida Garrett
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
3 212
Nuno Fernandes Torneol
Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom
Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
637
Fernando Pessoa
IX - Now is she gowned completely, her face won
IX
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
1 223
Idea Vilariño
Dizer não
Dizer não
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o vire
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.
--- // ---
Decir no
decir no
atarme al mástil
pero
deseando que el viento lo voltee
que la sirena suba y con los dientes
corte las cuerdas y me arrastre al fondo
diciendo no no no
pero siguiéndola.
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o vire
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.
--- // ---
Decir no
decir no
atarme al mástil
pero
deseando que el viento lo voltee
que la sirena suba y con los dientes
corte las cuerdas y me arrastre al fondo
diciendo no no no
pero siguiéndola.
1 521
Affonso Romano de Sant'Anna
Velhice Erótica
Estou vivendo a glória de meu sexo
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
a dois passos do crepúsculo.
Deus não se escandaliza com isto.
O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.
1 229
Fernando Pessoa
Rezas a Deus ao deitar-te
Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
1 306
Pero da Ponte
Pois Vos Ides Daqui, Ai Meu Amigo
Pois vos ides daqui, ai meu amigo,
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
722