Poemas neste tema
Desejo
Carlos Drummond de Andrade
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
1 104
Carlos Drummond de Andrade
Pacto
Que união floral existe
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?
Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?
Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?
E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?
E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?
É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?
São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?
Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?
Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?
Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?
E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?
E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?
É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?
São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?
Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.
1 064
Fernando Pessoa
IV - Leva-me longe, meu suspiro fundo.
IV
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
1 250
Giselda Medeiros
Foz
Faze-me a embocadura
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.
da turbulência de tuas águas
de semeadura,
que eu te mostrarei
onde se escondem
gritos e sussurros,
gestos e ânsias
à espera da correnteza.
1 058
Fernando Pessoa
APOLLO UNTO NEPTUNE
Apollo unto Neptune said:
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
1 439
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.
Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
953
Fernando Pessoa
O avental, que à gaveta
O avental, que à gaveta
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?
2 366
Raquel Nobre Guerra
Piéce Heróique
entro por ti como por um templo canal
aço vóltio arroio satã em tesão de rio
ponho-me orago de costas cabinda rapsódia cã
iridescendo marcha em humor de Nilo
baba vanga emborrachando santa ao altíssimo vazio
entro rapando rompendo faca a remoço do teu corpo
ao meio-dia e neve na têmpera do teu índigo
entro sem [...] afundando em sol a serpente noiva
no gargalho do navegante emboco gafo no lazaento
o verbo invertido no vigor de incesto que é chamar-te pai
e vir-me para cima de todos os teus símbolos
aço vóltio arroio satã em tesão de rio
ponho-me orago de costas cabinda rapsódia cã
iridescendo marcha em humor de Nilo
baba vanga emborrachando santa ao altíssimo vazio
entro rapando rompendo faca a remoço do teu corpo
ao meio-dia e neve na têmpera do teu índigo
entro sem [...] afundando em sol a serpente noiva
no gargalho do navegante emboco gafo no lazaento
o verbo invertido no vigor de incesto que é chamar-te pai
e vir-me para cima de todos os teus símbolos
1 329
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 266
Pedro Amigo de Sevilha
Quer'eu Gram Bem a Mia Senhor
Quer'eu gram bem a mia senhor
polo seu mui bom parecer;
e, porque me nom quer veer
pobre, lhi quer'eu já melhor:
ca diz que, mentr'eu alg'houver,
que nunca já será molher
que mi queira por en peior.
Conselha-me mia senhor,
como se houvess'a levar
de mim algo, pois mi o achar;
e diz-mi-o ela, com sabor
que houvess'eu algo de meu,
ca diz que tant'é come seu,
pois que mi há por entendedor.
polo seu mui bom parecer;
e, porque me nom quer veer
pobre, lhi quer'eu já melhor:
ca diz que, mentr'eu alg'houver,
que nunca já será molher
que mi queira por en peior.
Conselha-me mia senhor,
como se houvess'a levar
de mim algo, pois mi o achar;
e diz-mi-o ela, com sabor
que houvess'eu algo de meu,
ca diz que tant'é come seu,
pois que mi há por entendedor.
397
Jamerson Lemos
Um Soneto
vou fazer pra você um soneto
rimado, consoante o seu olhar
de avenca e musgo do pomar —
mestiço escuro noturno preto.
um soneto solto, lírico no ar,
pétala-ninfa, luz no alto-mar,
lâmpada azul a clarear do teto
à cama — lâmpada-luz-objeto.
Pra você e esses seus cabelos.
belos.
Pra você.
um soneto rimado de sorrisos,
pequenina barca — S.O.S.
Estou nu, Vê?
rimado, consoante o seu olhar
de avenca e musgo do pomar —
mestiço escuro noturno preto.
um soneto solto, lírico no ar,
pétala-ninfa, luz no alto-mar,
lâmpada azul a clarear do teto
à cama — lâmpada-luz-objeto.
Pra você e esses seus cabelos.
belos.
Pra você.
um soneto rimado de sorrisos,
pequenina barca — S.O.S.
Estou nu, Vê?
1 006
Max Martins
Um Rosto Soletrado
Traço
do meu gozo aos gozos de Anaiz — Joana
Arcanjo
de Laarcen
os lábios desta jaula:
Teu nome de amargura me instrumenta
funda o que me escreve e nego transferindo-me
dos jardins de mim ao resto de tuas frases
Aprendiz das folhas, úmido, o musgo mostra
olha
o texto amado, o rosto soletrado
o frio silêncio tátil duvidando-nos
E quem sou eu para guardar os ecos
o cheiro agudo e bárbaro de tua vulva
o formigueiro?
Oh égua aveludada — juventude
arranca de meu beijo este saber, sabor de cinzas!
O silêncio invulnerável de dois insetos copulando
(e que inversamente é crespo neste leito)
colhe
da maciez de um seio, o gume, a jóia de uma fresta,
a flama
e a sombra rente, rápida do olhar: frutos sobre a mesa
fartos
e opulentos de silêncio
apodrecendo
Publicado no livro Caminho de Marahu (1983).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.116-117. (Verso & reverso, 2
do meu gozo aos gozos de Anaiz — Joana
Arcanjo
de Laarcen
os lábios desta jaula:
Teu nome de amargura me instrumenta
funda o que me escreve e nego transferindo-me
dos jardins de mim ao resto de tuas frases
Aprendiz das folhas, úmido, o musgo mostra
olha
o texto amado, o rosto soletrado
o frio silêncio tátil duvidando-nos
E quem sou eu para guardar os ecos
o cheiro agudo e bárbaro de tua vulva
o formigueiro?
Oh égua aveludada — juventude
arranca de meu beijo este saber, sabor de cinzas!
O silêncio invulnerável de dois insetos copulando
(e que inversamente é crespo neste leito)
colhe
da maciez de um seio, o gume, a jóia de uma fresta,
a flama
e a sombra rente, rápida do olhar: frutos sobre a mesa
fartos
e opulentos de silêncio
apodrecendo
Publicado no livro Caminho de Marahu (1983).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.116-117. (Verso & reverso, 2
1 411
Max Martins
Minha Arte
pois que há uma canção em ti
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
submarina
uma promessa
de água e soma
um som premissa Eu
Eros
quero
te dizer, disseminar, minar-te
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 700
Gilson Nascimento
Beijo injeitado
Cabôca, si tu subesse
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
976
Fernando Pessoa
LE MIGNON
Let them speak ill of me. I do not care
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...
Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.
Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!
Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.
Antinous!
1 484
Rui Queimado
Por Mia Senhor Fremosa Quer'eu Bem
Por mia senhor fremosa quer'eu bem
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
651
Raquel Nobre Guerra
Biqueirões Caseiros
para beber o abismo deve-se bebê-lo líquido
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima
deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui
é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos
é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -
comecemos delicadamente pelo topo
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima
deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui
é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos
é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -
comecemos delicadamente pelo topo
1 269
Fernando Pessoa
O heavy day that comes with so much glee
O heavy day that comes with so much glee
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
1 463
Rui Queimado
Sempr'ando Cuidando Em Meu Coraçom
Sempr'ando cuidando em meu coraçom
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
641
Max Martins
Uma Tela de Dina Oliveira
Meu olho
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 501
Judas Isgorogota
Mercador de Escravas
Sonhei que eu era um mercador de escravas
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...
E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...
Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...
Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...
Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...
E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...
E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...
Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...
Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...
Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...
E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!
1 256
Dílson Catarino
Quero-Quero
A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
839
Fernando Pessoa
Eu te pedi duas vezes
Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.
1 256
Max Martins
O Iogue do Vale
Lado a lado as duas
montanhas repousam
Repousa o riacho
Imóvel a grande mandíbula
Tua enorme palavra parada no ar
(No vale em silêncio
somente esta ponte
secreta conduz
induz e condiz
ao desejo sutil)
Detido o teu sangue
quieto o quadril
o sagrado teu osso teúdo não sentes
Não sentes teu corpo
Viajas de ti
Belém, set. 1986
In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
montanhas repousam
Repousa o riacho
Imóvel a grande mandíbula
Tua enorme palavra parada no ar
(No vale em silêncio
somente esta ponte
secreta conduz
induz e condiz
ao desejo sutil)
Detido o teu sangue
quieto o quadril
o sagrado teu osso teúdo não sentes
Não sentes teu corpo
Viajas de ti
Belém, set. 1986
In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
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