Poemas neste tema

Desejo

Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez um gato chinês

era uma vez um gato chinês
que me chamou para comer um frango
xadrez
no boteco onde ele era freguês


e eu, como gata vadia
topei porque sempre podia
e fiz dele meu prato do dia
1 211
Emiliano Perneta

Emiliano Perneta

A Uma Desconhecida

Tua beleza é como essa tentação que passa,
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.

Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!

Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!

Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!


Publicado no livro Setembro (1934).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 301
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Cubismo

Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...

No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...

Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...

Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
10 318
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Luzia Sánchez, Jazedes Em Gram Falha

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha
comigo, que nom fodo mais nemigalha
d'ũa vez; e, pois fodo, se Deus mi valha,
fic'end'afrontado bem por tercer dia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Vejo-vos jazer migo muit'aguada,
Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;
mais se eu vos per i houvesse pagada,
pois eu foder nom posso, peer-vos-ia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já nom pode sol cospir a saíva
e, de pram, semelha mais morta ca viva,
e se lh'ardess'a casa, nom s'ergeria.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deitarom-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tam desguisados,
cuidades dos colhões, que trag'inchados,
ca o som com foder e é com maloutia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
626
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez uma foto em preto e branco

era uma vez uma foto em preto e branco
em que eu me via fumando um charo
com o olho vidrado em você
minhas mãos tinham algo de estátua
mas a cabeça vibrava que eu via


a boca entreaberta pedia
um beijo pra me tatuar
1 039
Lara de Lemos

Lara de Lemos

Cantiga do Pressentir

A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.

Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.

E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.

Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.


Poema integrante da série Canto Breve.

In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
1 472
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quero um homem quente

quero um homem quente
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
1 061
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tempo-será

A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
2 028
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Orador Debaixo de Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.

não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.

agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.

seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...

muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.

continua chovendo.

elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.

preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”

é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.

eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 142
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu quero

eu quero
amor piscina
que sobe e desce trampolins
cai e sai nadando
amor em que se afunda e simplesmente
sai se amando
1 106
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Ai Meu Amigo, Meu, Per Bõa Fé,

Ai meu amigo, meu, per bõa fé,
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.

Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.

Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
       quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
       ca nunca fui tam leda pois naci.
556
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nada No Instante do Tremor

Nada no instante do tremor
nada precede nada
o movimento surge instando conduzindo
numa área de emergência ambígua
até que o enlace intangível nos desnude.
1 032
Martha Medeiros

Martha Medeiros

este sol não me engana

este sol não me engana
tá se pondo pra me pôr na cama
961
Martha Medeiros

Martha Medeiros

rock

rock
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
1 084
Gilka Machado

Gilka Machado

Encantamento

A Francisco Alves
- O perfeito intérprete da canção brasileira

Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.

(...)


Publicado no livro Sublimação (1938).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335
2 334
Colombina

Colombina

Episódio

O reflexo do ocaso ensanguentado
doirava ainda aquele fim de dia...
De um frasco de cristal, mal arrolhado,
um cálido perfume se esvaía...

Junto ao teu corpo nu, convulsionado,
que de desejo e de volúpia ardia,
o meu corpo, nessa hora de pecado,
uma ânfora de gozo parecia.

Na quietude da tarde agonizante,
um beijo prolongado, delirante,
a flama da paixão veio acender.

E toda a minha feminilidade
era uma taça de sensualidade,
transbordante de vida e de prazer!


Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 179
Colombina

Colombina

Intimidade

Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual de delícias sem conta...


Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 348
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Se falo

Se falo falta-me um

silêncio rápido no papel: entre as pernas.

Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso

do corpo, aqui é a cama, o congresso.


Venais movimentos do corpo na cama; o peso.

Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.

Breve morte que sobre o coração

páras tua mortal perversão, a tua morte,


falta-me subitamente com a tua

mão e que eu morra como um corpo

dentro do coração da luz do silêncio

que me cale que não viva nem esteja morto.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012

1 131
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem Secretamente Aberta

Vem secretamente aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
1 099
Lourenço

Lourenço

Já 'Gora Meu Amigo Filharia

Já 'gora meu amigo filharia
de mi o que el tiinha por pouco:
de falar migo; ca tant'era louco
contra mi que ainda mais queria;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

Tam muito mi dizem que é coitado
por mi, des quando nom falou comigo,
que nom dorme [já], nem há sem consigo,
nem sabe de si parte nem mandado;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

Ca est el home que mais demandava
e nom ar quis que comigo falasse,
e ora jura que já se quitasse
de gram sandic'em que m'ante falava;
       e já filharia, se m'eu quisesse,
       de falar mig', e nunca lh'al fezesse.

E jura bem que nunca mi dissesse
de lh'eu fazer rem que mal m'estevesse.

Em tal que comigo falar podesse,
já nom há preito que mi nom fezesse.
443
Manuel António Pina

Manuel António Pina

A mensagem do teu

A mensagem do teu lábio superior

salta bip o parapeito que nos separa

e habita urgentemente nos meus olhos

e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos

para a saudade publicada na tua cara

com slogans de néon interior

Sei que sabes uma palavra indecente

e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse

a tua roupa de dentro


Sei o que pensas sei o que fazes

sei coisas que tu mesma não sabes

Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim

afinal de contas é sargento de infantaria?

Mas deixa lá homens é o que há mais

E (sabes?) os oficiais


O morse lábio bip bip noticia:

ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA

E sei pormenores da tua respiração

concretos, fotografias



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012

1 214
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dorme enquanto eu velo...

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.


(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 535
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Iminência

Lentidão de membros voluptuosa
Um turbilhão compacto de sinais evola-se
Este é o vazio secreto da iminência

Do fundo das pedras nasce uma respiração

A serenidade da suspensão não insegura
mas atenta vibrante o esplendor
que se demora em seu arco de estar

Sabemos na claridade um saber de vento e ervas

Ser aqui
no sopro da aragem vago e amplo
De novo a promessa nos limites

Eclipse talvez de tanta coisa
Terra que promete o corpo que o corpo compreende

Ar ignorado ar do ignorado
aérea lucidez nos corpos nus
1 025
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...
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