Poemas neste tema
Desejo
José Saramago
Orgulho de D. João No Inferno
Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.
1 139
José Saramago
Lamento de D. João No Inferno
Das ameaças do céu me não temi
Quando da terra as leis desafiei:
O lugar dos castigos é aqui,
Do céu nada conheço, nada sei.
O cilício do Diabo não me cinge,
Nem a mercê de Deus aqui me segue:
A chama mais ardente é a que finge
Este cheiro de mulher que me persegue.
Quando da terra as leis desafiei:
O lugar dos castigos é aqui,
Do céu nada conheço, nada sei.
O cilício do Diabo não me cinge,
Nem a mercê de Deus aqui me segue:
A chama mais ardente é a que finge
Este cheiro de mulher que me persegue.
1 262
João Mendes de Briteiros
Eia, Senhor, Aque-Vos Mim Aqui!
Eia, senhor, aque-vos mim aqui!
Que coita houvestes, ora, d'enviar
por mim? Nom foi senom por me matar,
pois todo meu mal teedes por bem:
por en, senhor, mais val d'eu ir daquém
ca d'eu ficar, sem vosso bem fazer,
de mais haver esses olhos veer
e desejar o vosso bem, senhor,
de que eu sempre foi desejador;
e meus desejos e meu coraçom
nunca de vós houveram se mal nom;
e, por est', é milhor de m'ir, par Deus,
u eu nom possa poer estes meus
olhos nos vossos, de que tanto mal
me vem, senhor; e gram coita mortal
me vós destes eno coraçom meu;
e, mia senhor, pero que m'é mui greu,
nulh'home nunca mi o [e]straĩará.
E, pois m'eu for, mia senhor, que será?
Pois mi assi faz o voss'amor ir já,
como vai cervo lançad'a fugir.
Que coita houvestes, ora, d'enviar
por mim? Nom foi senom por me matar,
pois todo meu mal teedes por bem:
por en, senhor, mais val d'eu ir daquém
ca d'eu ficar, sem vosso bem fazer,
de mais haver esses olhos veer
e desejar o vosso bem, senhor,
de que eu sempre foi desejador;
e meus desejos e meu coraçom
nunca de vós houveram se mal nom;
e, por est', é milhor de m'ir, par Deus,
u eu nom possa poer estes meus
olhos nos vossos, de que tanto mal
me vem, senhor; e gram coita mortal
me vós destes eno coraçom meu;
e, mia senhor, pero que m'é mui greu,
nulh'home nunca mi o [e]straĩará.
E, pois m'eu for, mia senhor, que será?
Pois mi assi faz o voss'amor ir já,
como vai cervo lançad'a fugir.
509
José Carlos Souza Santos
A Visão
Mirei-me na profundeza
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
873
José Carlos Souza Santos
Poemeto I
Jamais eu ficaria quieto
exercendo o direito
de te olhar
a não ser
que aprisionássemos
o tempo
exercendo o direito
de te olhar
a não ser
que aprisionássemos
o tempo
1 038
Isabel Mendes Ferreira
há em cada pastor
há em cada pastor a influência do deslumbre do pasto . como se o encanto fosse a flor e o rio um afluente a correr ao contrário da sede que é sempre mais seda que o fio que nos estala.
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
649
Valter Hugo Mãe
nenhum amor escapa impune
deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo
queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim
572
Carlos Drummond de Andrade
Casamento do Céu E do Inferno
No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.
Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.
Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando. . .
Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.
Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem o ouvido fino
que nem violino.
São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.
Lá em baixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.
E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.
Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.
Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.
Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando. . .
Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.
Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem o ouvido fino
que nem violino.
São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.
Lá em baixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.
E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.
Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.
1 838
1
Vinicius de Moraes
Balada Das Meninas de Bicicleta
Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
1 142
João Soares Coelho
Atal Vej'eu Aqui Ama Chamada
Atal vej'eu aqui ama chamada
que, dê'lo dia em que eu naci,
nunca tam desguisada cousa vi,
se por ũa destas duas nom é:
por haver nom'assi, per bõa fé,
ou se lho dizem porque est amada.
Ou por fremosa, ou por bem talhada
- se por aquest'ama dev'a seer,
é-o ela, podêde-lo creer,
ou se o é pola eu muit'amar;
ca bem lhe quer'e posso bem jurar:
poila eu vi, nunca vi tam amada.
E nunca vi cousa tam desguisada:
de chamar home ama tal molher,
tam pastorinh'é, se lho nom disser
por tod'esto que eu sei que lh'avém:
porque a vej'a todos querer bem,
ou porque do mund'é a mais amada.
[E] é-o de como vos eu disser:
que, pero me Deus bem fazer quiser,
sem ela nom me pode fazer nada!
que, dê'lo dia em que eu naci,
nunca tam desguisada cousa vi,
se por ũa destas duas nom é:
por haver nom'assi, per bõa fé,
ou se lho dizem porque est amada.
Ou por fremosa, ou por bem talhada
- se por aquest'ama dev'a seer,
é-o ela, podêde-lo creer,
ou se o é pola eu muit'amar;
ca bem lhe quer'e posso bem jurar:
poila eu vi, nunca vi tam amada.
E nunca vi cousa tam desguisada:
de chamar home ama tal molher,
tam pastorinh'é, se lho nom disser
por tod'esto que eu sei que lh'avém:
porque a vej'a todos querer bem,
ou porque do mund'é a mais amada.
[E] é-o de como vos eu disser:
que, pero me Deus bem fazer quiser,
sem ela nom me pode fazer nada!
588
Vinicius de Moraes
Repto
V ossos olhos raros
Jovens guerrilheiros
Aos meus, cavalheiros
Fazem mil reparos...
Se entendeis amor
Com vero brigar
Combates de olhar
Não quero propor.
Sei de um bom lugar
Onde contender
E haveremos de ver
Quem há de ganhar.
Não sirvo justar
Em pugna tão vã...
Que tal amanhã
Lutarmos de amar?
Em campos de paina
Pretendo reptar-vos
E em seguida dar-vos
Muita, muita faina
Guerra sem quartel
E tréguas só se
Pedires mercê
Com os olhos no céu.
Exaustão de gozo
Que tal seja a regra
E longa a refrega
Que aguardo ansioso
E caiba dizer-vos
Que inda vencedor
Sou, de vossos servos
O mais servidor...
Jovens guerrilheiros
Aos meus, cavalheiros
Fazem mil reparos...
Se entendeis amor
Com vero brigar
Combates de olhar
Não quero propor.
Sei de um bom lugar
Onde contender
E haveremos de ver
Quem há de ganhar.
Não sirvo justar
Em pugna tão vã...
Que tal amanhã
Lutarmos de amar?
Em campos de paina
Pretendo reptar-vos
E em seguida dar-vos
Muita, muita faina
Guerra sem quartel
E tréguas só se
Pedires mercê
Com os olhos no céu.
Exaustão de gozo
Que tal seja a regra
E longa a refrega
Que aguardo ansioso
E caiba dizer-vos
Que inda vencedor
Sou, de vossos servos
O mais servidor...
1 077
Vinicius de Moraes
O Poeta E a Lua
Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.
1 185
Isabel Mendes Ferreira
fosse este mar
fosse este mar capaz de te ser ilharga continente mapa sem naufrágios. água da minha sede. sede de uma só morada. nudez nupcial e núcleo e passagem. este mar de rompante a ser penugem e nome de oásis. olfacto oleoso doce e pacífico no entanto a norte do meu olhar. nascente e morrente prolixo e pretexto de chover no teu peito em pigmentos de luz e sombra . fosse este mar o único pormenor persistente e personagem da ida sem volta das voltas sem prazo. e eu barco. e eu perpendicular no pino de um pretérito sempre presente. sem correntes nem ressonâncias. apenas renascença. deste mar.
696
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lá
Lá num país de selvas e lianas
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas
Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta
Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas
Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta
Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
1 281
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
891
João Soares Coelho
Ai Deus, a Vó'lo Digo
Ai Deus, a vó'lo digo:
foi s'ora o meu amigo;
e se o verei, velida?
Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
e se o verei, velida?
Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
e se o verei, velida?
Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
e se o verei, velida?
foi s'ora o meu amigo;
e se o verei, velida?
Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
e se o verei, velida?
Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
e se o verei, velida?
Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
e se o verei, velida?
815
Colombina
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo nesse instante
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 432
José Saramago
Nesta Esquina do Tempo
Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
1 666
João Soares Coelho
Ai Meu Amigo, Se [Vós] Vejades
Ai meu amigo, se [vós] vejades
prazer de quanto no mund'amades:
levade-me vosc', amigo.
Por nom leixardes mi, bem talhada,
viver com'hoj'eu vivo coitada,
levade-me vosc', amigo.
Por Deus, filhe-xi-vos de mim doo;
melhor iredes migo ca soo:
levade-me vosc', amigo.
prazer de quanto no mund'amades:
levade-me vosc', amigo.
Por nom leixardes mi, bem talhada,
viver com'hoj'eu vivo coitada,
levade-me vosc', amigo.
Por Deus, filhe-xi-vos de mim doo;
melhor iredes migo ca soo:
levade-me vosc', amigo.
389
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
688
José Saramago
Virgindade
Não essa que o pudor um dia larga,
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
1 197
João Soares Coelho
Joam Fernándiz, Mentr'eu Vosc'houver
Joam Fernándiz, mentr'eu vosc'houver
aquest'amor que hoj'eu com vosc'hei,
nunca vos eu tal cousa negarei
qual hoj'eu ouço pela terra dizer:
dizem que fode quanto mais foder
pod'o vosso mouro a vossa molher.
[E] pero que foss'este mouro meu
já me terria eu por desleal,
Joam Fernándiz, se vos negass'eu
atal cousa qual dizem que vos faz:
ladinho como vós jazedes, jaz
com vossa molher, e m'end'é mal.
E direi-vos eu quant'en vimos nós:
vimos ao vosso mouro filhar
a vossa molher e foi-a deitar
no vosso leit'; e mais vos en direi
quant'eu do mour[o] aprendi e sei:
fode-a como a fodedes vós.
aquest'amor que hoj'eu com vosc'hei,
nunca vos eu tal cousa negarei
qual hoj'eu ouço pela terra dizer:
dizem que fode quanto mais foder
pod'o vosso mouro a vossa molher.
[E] pero que foss'este mouro meu
já me terria eu por desleal,
Joam Fernándiz, se vos negass'eu
atal cousa qual dizem que vos faz:
ladinho como vós jazedes, jaz
com vossa molher, e m'end'é mal.
E direi-vos eu quant'en vimos nós:
vimos ao vosso mouro filhar
a vossa molher e foi-a deitar
no vosso leit'; e mais vos en direi
quant'eu do mour[o] aprendi e sei:
fode-a como a fodedes vós.
666
José Saramago
Estudo de Nu
Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho o selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho o selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
1 173
Joaquim Manuel de Macedo
Bonita e marotinha, (Ato IV, Cena III)
(...)
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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