Poemas neste tema
Desejo
José Saramago
Música
Grave som de alegria, o violoncelo
Passa lento na alma, em ela freme:
Murmuremos então ao corpo duplo,
Às bocas e às mãos, e aos desmaios,
Às secretas pesquisas que não temem
Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:
É isto amor, um arco de alegria
Sobre a corda retensa do orgasmo.
Passa lento na alma, em ela freme:
Murmuremos então ao corpo duplo,
Às bocas e às mãos, e aos desmaios,
Às secretas pesquisas que não temem
Nem vergonha, nem dor, nem a verdade:
É isto amor, um arco de alegria
Sobre a corda retensa do orgasmo.
1 187
José Saramago
Teu Corpo de Terra E Água
Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho
Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho
Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho
Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminho
Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas teu centro
Teu fogo de verde pinho
Tua boca verdadeira
Teu destino minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho
Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho
1 179
José Saramago
Branco o Teu Peito
Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem nas dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
1 089
Ana Marques Gastão
Assunção
Não há ciência para nós, nem o corpo é semente dispersa
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
de uma memória exacta. Somos tu e eu, elevados da terra
a um círculo de luz, espessa música. Descansa em minha
sombra para lá da superfície do tempo, escreve-se a noite
a toda a largura do mundo que prossegue sem nos ver.
Nada pode fixar-se ou ganhar forma, pois forma já não
temos quando tuas asas curvas desenham o movimento
do fogo. Aperto-te contra mim; nada do que se possa dizer
convém à dor de carne suada, morre-se de um beijo com
um grito dentro e a paisagem, límpida, pode quebrar-se
em nossas mãos. Sobrevive-nos a cor incendiada, porém,
porque só o irrepetível se eterniza e só o humano é divino.
Ergue-me, assim, de uma vida cheia de sangue.
Deixa-me ir, primeiro os pés, a luminescência, depois
o tronco, húmido, levitando nas entranhas de água, a cabeça
já sem rosto pregada a uma estrela cadente na cicatriz
de um chão sacro. Vê como a alucinação traz meu coração
de sal ao desastre da boca, áspero lugar, crepúsculo primeiro,
falha. Desejo-te quando caminhas por entre a seiva, fechado
à distância do lápis. Empurra-me agora, vagarosamente,
sem despedidas trágicas ou poemas flutuantes, sob a linha
recta da voz. O riso de Deus é trémulo e cintilante. E o anjo,
criança sábia, nada diz. As palavras morrem se forem ditas.
692
José Saramago
Palma Com Palma
Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São espelhos rigorosos da verdade
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.
1 122
Vinicius de Moraes
Soneto de Despedida
Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.
Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.
Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.
Rio, 1940
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.
Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.
Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.
Rio, 1940
1 436
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Dons do Amante
Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
1 210
Vinicius de Moraes
Pescador
Pescador, onde vais pescar esta noitada:
Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão?
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa...
Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador!
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador!
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador!
Traz uma tainha gorda para Maria Mulata
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador!
Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira?
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador.
Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira?
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador!
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador...
Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador?
Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador...
Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador!
É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha?
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso
E tu nem dás caso da tua vida, pescador...
Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos?
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua?
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador.
Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador...
Não achas que a mulher parece com a água, pescador?
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma?
Que o ventre parece a areia mole do fundo?
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador?
Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente!
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador!
És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda
Ou é a luz da bóia boiando na entrada do recife, pescador?
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador!
Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria!
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador!
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador!
Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador?
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador...
Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na
guerra
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé.
Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe.
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador.
Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar...
Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida...
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte
Um dia a morte também te pesca, pescador!
Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador:
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador!
Quero banhar meu coração na aurora, pescador!
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador!
Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador!
Ouve o canto misterioso das águas no firmamento...
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada
A noite se desincorpora, pescador, em sombra
E a sombra em névoa e madrugada, pescador!
Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora
És tão belo que nem sei se existes, pescador!
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua
O pranto com que matas a sede de amor do mar!
Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada
E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.
Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão?
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa...
Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador!
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador!
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador!
Traz uma tainha gorda para Maria Mulata
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador!
Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira?
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador.
Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira?
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador!
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador...
Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador?
Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador...
Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador!
É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha?
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso
E tu nem dás caso da tua vida, pescador...
Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos?
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua?
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador.
Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador...
Não achas que a mulher parece com a água, pescador?
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma?
Que o ventre parece a areia mole do fundo?
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador?
Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente!
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador!
És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda
Ou é a luz da bóia boiando na entrada do recife, pescador?
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador!
Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria!
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador!
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador!
Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador?
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador...
Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na
guerra
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé.
Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe.
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador.
Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar...
Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida...
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte
Um dia a morte também te pesca, pescador!
Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador:
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador!
Quero banhar meu coração na aurora, pescador!
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador!
Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador!
Ouve o canto misterioso das águas no firmamento...
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada
A noite se desincorpora, pescador, em sombra
E a sombra em névoa e madrugada, pescador!
Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora
És tão belo que nem sei se existes, pescador!
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua
O pranto com que matas a sede de amor do mar!
Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada
E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.
1 455
Ana Marques Gastão
Alvo
Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
722
Ana Marques Gastão
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
653
João Garcia de Guilhade
Estas Donzelas Que Aqui Demandam
Estas donzelas que aqui demandam
os seus amigos que lhis façam bem,
querrei, amigas, saber ũa rem:
que [é] aquelo que lh'e[le]s demandam?
Ca um amigo que eu sempr'amei
pediu-mi [a] cinta e já lha er dei,
mais eles cuido que a[l] lhis demandam.
O meu seria perdudo conmigo
por sempr', amigas, se mi pediss'al;
mais pedir cinta nom é nulho mal,
e por aquesto nom se perdeu migo;
mais se m'el outra demanda fezesse,
Deus me cofonda, se lh'eu cinta desse,
e perder-s'ia já sempre [con]migo.
Maila donzela que muit'há servida
o seu amigo, esto lh'é mester:
dé-lhi sa cinta, se lhi dar quiser,
se entender que a muito há servida;
mais se x'el quer outro preito maior,
maldita seja quem lh'amiga for
e quem se del tever por [bem] servida.
E de tal preito nom sei end'eu rem;
mais, se o ela por amigo tem,
nom lhi trag'el lealdade comprida.
os seus amigos que lhis façam bem,
querrei, amigas, saber ũa rem:
que [é] aquelo que lh'e[le]s demandam?
Ca um amigo que eu sempr'amei
pediu-mi [a] cinta e já lha er dei,
mais eles cuido que a[l] lhis demandam.
O meu seria perdudo conmigo
por sempr', amigas, se mi pediss'al;
mais pedir cinta nom é nulho mal,
e por aquesto nom se perdeu migo;
mais se m'el outra demanda fezesse,
Deus me cofonda, se lh'eu cinta desse,
e perder-s'ia já sempre [con]migo.
Maila donzela que muit'há servida
o seu amigo, esto lh'é mester:
dé-lhi sa cinta, se lhi dar quiser,
se entender que a muito há servida;
mais se x'el quer outro preito maior,
maldita seja quem lh'amiga for
e quem se del tever por [bem] servida.
E de tal preito nom sei end'eu rem;
mais, se o ela por amigo tem,
nom lhi trag'el lealdade comprida.
675
José Saramago
Inventário
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
1 480
Vinicius de Moraes
O Apelo
Que te vale, minha alma, essa paisagem fria
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
1 139
José Saramago
Aspa
Sobre o leito desmanchado te derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
1 194
Sophia de Mello Breyner Andresen
Glosa
«Dá a surpresa de ser
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa
Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro
Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol
Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema
Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo
Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa
Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro
Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol
Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema
Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo
Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
1 206
José Saramago
Corpo-Mundo
Que caminhos do teu corpo não conheço,
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lonjuras
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados?
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lonjuras
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados?
1 332
José Saramago
Mitologia
Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
1 254
João Garcia de Guilhade
Martim Jograr, Ai Dona Maria
Martim jograr, ai Dona Maria,
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
507
João Garcia de Guilhade
Elvira López, Que Mal Vos Sabedes
Elvira López, que mal vos sabedes
vós guardar sempre daqueste peom
que pousa vosc[o], e há coraçom
de tousar vosc', e vós nom lh'entendedes;
hei mui gram medo de xi vos colher
algur senlheira; e se vos foder,
o engano nunca lho provaredes.
O peom sabe sempr'u vós jazedes,
e nom vos sabedes dele guardar:
siquer poedes [em] cada logar
vossa maeta e quanto tragedes;
e dized'ora, se Deus vos perdom:
se de noite vos foder o peom,
contra qual parte o demandaredes?
Direi-vos ora como ficaredes
deste peom, que tragedes assi
vosco, pousando aqui e ali:
e vós já quanto que ar dormiredes,
e o peom, se coraçom houver
de foder, foder-vos-á, se quiser,
e nunca del[e] o vosso haveredes.
Ca vós diredes: - Fodeu-m'o peom!
E el dirá: - Bõa dona, eu nom!
E u las provas que lhi [vós] daredes?
vós guardar sempre daqueste peom
que pousa vosc[o], e há coraçom
de tousar vosc', e vós nom lh'entendedes;
hei mui gram medo de xi vos colher
algur senlheira; e se vos foder,
o engano nunca lho provaredes.
O peom sabe sempr'u vós jazedes,
e nom vos sabedes dele guardar:
siquer poedes [em] cada logar
vossa maeta e quanto tragedes;
e dized'ora, se Deus vos perdom:
se de noite vos foder o peom,
contra qual parte o demandaredes?
Direi-vos ora como ficaredes
deste peom, que tragedes assi
vosco, pousando aqui e ali:
e vós já quanto que ar dormiredes,
e o peom, se coraçom houver
de foder, foder-vos-á, se quiser,
e nunca del[e] o vosso haveredes.
Ca vós diredes: - Fodeu-m'o peom!
E el dirá: - Bõa dona, eu nom!
E u las provas que lhi [vós] daredes?
601
José Saramago
Analogia
Que é o mar? Lonjura desmedida
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
1 516
Vinicius de Moraes
Cântico
Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
1 388
Isabel Mendes Ferreira
respiro-te devagar
respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.
1 241
João Lobeira
Muitos Que Mi Oem Loar Mia Senhor
Muitos que mi oem loar mia senhor
e falar no seu bem e no seu prez
dizem eles que algum bem me fez;
e dig'eu: o bem do mundo melhor
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
Fal'eu da sa bondad'e do seu sem,
e dizem-m'eles, quand'esto dig'eu,
que bem mi fez, porque sõo tam seu;
e dig'eu: o bem sobre todo bem
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
e falar no seu bem e no seu prez
dizem eles que algum bem me fez;
e dig'eu: o bem do mundo melhor
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
Fal'eu da sa bondad'e do seu sem,
e dizem-m'eles, quand'esto dig'eu,
que bem mi fez, porque sõo tam seu;
e dig'eu: o bem sobre todo bem
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
594
Carlos Drummond de Andrade
Por Quê?
Amor meu, minhas penas, meu delírio,
aonde quer que vás, irá contigo
meu corpo, mais que um corpo, irá um’alma,
sabendo embora ser perdido intento
o de cingir-se forte de tal modo
que, desde então se misturando as partes,
resultaria o mais perfeito andrógino
nunca citado em lendas e cimélios.
Amor meu, punhal meu, fera miragem
consubstanciada em vulto feminino,
por que não me libertas de teu jugo,
por que não me convertes em rochedo,
por que não me eliminas do sistema
dos humanos prostrados, miseráveis,
por que preferes doer-me como chaga
e fazer dessa chaga meu prazer?
aonde quer que vás, irá contigo
meu corpo, mais que um corpo, irá um’alma,
sabendo embora ser perdido intento
o de cingir-se forte de tal modo
que, desde então se misturando as partes,
resultaria o mais perfeito andrógino
nunca citado em lendas e cimélios.
Amor meu, punhal meu, fera miragem
consubstanciada em vulto feminino,
por que não me libertas de teu jugo,
por que não me convertes em rochedo,
por que não me eliminas do sistema
dos humanos prostrados, miseráveis,
por que preferes doer-me como chaga
e fazer dessa chaga meu prazer?
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