Poemas neste tema

Desejo

Herberto Helder

Herberto Helder

63

resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
1 230
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal Muito Fácil

Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.

Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.

Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.

Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,

Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
1 388
Alice Vieira

Alice Vieira

Taxidermias

(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)

 
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
678
Adélia Prado

Adélia Prado

Gregoriano

O que há de mais sensual?
Os monges no cantochão.
Espalmo como só pode fazê-lo
uma flor toda aberta,
desperta a espumilha-rosa
contra o melancólico e o cinza.
“Um dia veremos a Deus com nossa carne.”
Nem é o espírito quem sabe,
é o corpo mesmo,
o ouvido,
o canal lacrimal,
o peito aprendendo:
respirar é difícil.
1 061
Renato Russo

Renato Russo

Daniel na cova dos leões

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e te navego
E sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.

1 360
Renato Russo

Renato Russo

Eu sei

Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também

Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também

Eu sei

Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas

A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e estórias

Somos pássaro novo longe do ninho

Eu sei

1 421
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Visão Ausência Presença Encontro

No vento inteira
No vento nua
Plena e branca

À beira d’água
verga suavemente ou é presença grave
cabeleira compacta
pernas harmoniosas justas

Demasiado duras
Demasiado inteiras
No vento ainda
esta presença obcecante branca
à beira d’água
*
A sua mão diz o amor das folhas
as suas ancas chamam os cavalos
Que inquietação te move, incorporada
ao vento, à água, ao sol?

Se me ignoras, porque não te despes
e não procuras confundir-te na água
ou não te deitas na erva, preciosa?

Sou livre e só, procuro-te, compacta.
Neste silêncio do sol e da água lisa
declino-te os braços que me inundam.
*
Se nos teus seios as chamas me queimassem
a água lavaria o duro fogo
o vento o corpo inteiro gravar-te-ia.

Se nos teus olhos os olhos se me perdessem
nova água, sol e vento se fariam
através de um só corpo de alegria.
*
Ausente nas folhagens
no rumor do vento,
o vestido branco
ou um cavalo?
*
Ela
entre as árvores
precipitada
ou o vento apenas
dizendo a crueldade clara?

Ela, a vida
banhando-se na água
pleno odor de fêmea
corpo grave?
*
Se ela é plena na água
e se os meus olhos a vêem
se pleno me confundo
na própria água que a rodeia
na delícia infinita que ela vive?

Se todo o corpo entre o ar e a água
é um tronco que vibra
na verdura plenitude?

Se todo eu sou a água
deliciada em extensão perfeita?
*
Na água
deitada ou levantada!
*
Erguida como um jorro
ou plena plana sobre a água como um barco

Ao sabor da água
ao gosto do ar
cabeleira desatada sobre os ombros
árvore culminada.
*
Regressar a terra
vir aos braços do vento
e às carícias da folhagem
abraçar o tronco
cabeleira exausta

Caminhar sobre a terra
ou sobre a água
ou nos braços do vento?
*
No ombro côncavo
meu rosto encontra
plena inserção

puro abandono
mas não do sono
de vida encontrada
*
Vitória propagada pela sombra
cabeleira compacta, firmes membros,
uma respiração feliz ombro a ombro
um caminhar sem solidão na noite.
1 097
Herberto Helder

Herberto Helder

79

basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
966
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Do Mar Para Terra

Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.

Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas

— sobre a terra,
mas formado no mar.
610
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tentando a Possibilidade

Com o gosto obscuro da terra
de um corpo que abracei
— mais lento espero
mais dentro da noite estou.

Obscuro e nu procuro
esta evidência nova
— um rosto que consinto
ao ar presente, incerto.

O quarto não é uma caverna verde
— bate-lhe o sol tranquilamente.

Há um canto onde me insiro como um lagarto
entre duas pedras

mas nesta cadeira móvel
procuro dirigir os raios
tão lentamente quanto me é possível
sobre um objecto vivo

Que ele fale
que eu fale por ele
ou ele fale por mim
— que esta distância fale,
novo equilíbrio entre diferenças.
*
Violento o corpo,
água entre paredes, estrela presa
e firme, dentes claros,
água renovada surgindo boca a boca
— e firme e novo, água subindo,
paredes altas,
água que o vento alastra sobre as árvores,
cabelos que esvoaçam ao ar livre
e firme, um corpo novo entre a espuma.
1 001
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Suspensão

Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.

O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.
1 276
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Febre Feliz

Febre feliz, de entre a sombra me incita,
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.

Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…

Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
1 044
D. Dinis

D. Dinis

Meu Amig', U Eu Sejo

Meu amig', u eu sejo,
nunca perço desejo
senom quando vos vejo,
       e por en vivo coitada
com este mal sobejo
       que sofr'eu, bem talhada.

U quer que sem vós seja,
sempr'o meu cor deseja
vós, atá que vos veja,
       e por en vivo coitada
com gram coita sobeja
       que sofr'eu, bem talhada.

Nom é senom espanto,
u vos nom vejo, quanto
       hei desej', e quebranto,
e por en vivo coitada
com aqueste mal tanto
       que sofr'eu, bem talhada.
627
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Nascimento do Poema

O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa

É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua

Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas

Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira

E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva

Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu

Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada

exacta e verde e viva

Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas

Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu

como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou

só onde ele se ergue

Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é

nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva

essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas

onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria

Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem

Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo

e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova

de ser tão ser em si

a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 106
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Romanza

Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.

Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.

Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia

Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.

Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.

Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.

Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.

Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto

Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?

Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.

Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

1 268
D. Dinis

D. Dinis

Coitada Viv', Amigo, Porque Vos Nom Vejo

Coitada viv', amigo, porque vos nom vejo,
e vós vivedes coitad'e com gram desejo
de me veer e mi falar, e por en sejo
sempr'em coita tam forte
que nom m'é senom morte,
come quem viv', amigo, em tam gram desejo.

Por vos veer, amigo, vivo tam coitada,
e vós por me veer, que oimais nom é nada
a vida que fazemos, e maravilhada
sõo de como vivo,
sofrendo tam esquivo
mal, ca mais mi valria de nom seer nada.

Por vos veer, amigo, nom sei quem sofresse
tal coita qual eu sofr'e vós, que nom morresse,
e, com aquestas coitas, eu, que nom nacesse,
nom sei de mim que seja,
e da mort'hei enveja
a tod[o] home ou molher que já morresse.
709
Adélia Prado

Adélia Prado

Nem Um Verso Em Dezembro

Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma ideia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a ideia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim
[ao mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato, a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
1 103
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para a Linguagem Necessária

Minhas palavras, meus saltos
bruscos, pontiagudos
para dizer o espaço
que subjaz sempre novo.

Para dizer o que resta
ou o que falta de súbito,
o que nos faz continuar,
água livre.
*
A linguagem sem pintura
mas bela de natural
envelhecendo ao sol
carne pungente e dura
com nervos de pedra à mostra
*
Não saber não querer e no silêncio
desejar esse abraço inerte e idêntico
a liberdade de não querer
o desejo de ser esse não ser
de pedra e água sem ninguém,
descer à imóvel dureza do osso,
ganhar a força elástica do animal.
*
Insisto, não insisto, é só uma tentativa,
porque desejo o gosto renovado,
perder-me é encontrar-me aberto, sem desejos,
o corpo reunido, intensamente solto,
o ar suspenso.
614
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

E Vem o Dia

E vem o dia, as casas juntas,
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
539
Adélia Prado

Adélia Prado

Bairro

O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
1 901
Herberto Helder

Herberto Helder

Não Te Queria

Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
— aterrada pela riqueza —
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som e unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra.

Nome do mundo, diadema.
578
Herberto Helder

Herberto Helder

1

nunca estive numa só linha a tão vertiginosa altura,
oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!
quando nos vimos nus um em frente do outro,
na nossa primeira noite nos começos do mundo,
numa pensão rasca de um bairro de quinta ordem,
o putedo sai que entra pelos quartos à volta
— peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido
seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.
591
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Que Há de Vir

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração.

Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.

É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.
1 220
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Animal Olhar

Meus olhos não fabricam
a realidade ou tu:
limpos barcos,
novidade acesa como a terra viva,
movimento de braços, amálgama
exacta duna.

Meus olhos não fabricam mas encontram.

A terra que se enche já vem cheia,
o hálito começa na claridade do céu.
Os homens dançam por vezes.
Este momento é teu.
*
Ó calmo olhar animal
da terra ao mar, popa
de espuma.
O mundo é natural, ridente, quando o verde rompe,
animal olhar.
Não estou só: porque te acendo entre as pedras,
abarco tua altura larga e teu ombro,
essência da fome visual e braço e nome.
*
Do teu calor me nutro e fortifico,
no silêncio da tua espera.
Brilha o teu tecido circular,
a terra é um átrio: o mar é perto.
Há passos de mulher descalça.
O mundo é novo.
A terra clara.
*
Eu sou o homem que te ama e escuta
concentradamente no calor dum muro.
Cerrado, oiço a tua unidade plural,
vejo teus dedos grossos,
tuas marcas fêmeas, tua elegância dolorosa.
Teus seios me nutrem, olhando-te.
*
Mastigo-te, raiz, e quase te oiço.
Construo um músculo verbal em teu ouvido,
alimento-me do teu mar visual e lento:
renasço pouco a pouco no teu horizonte dado.
Revejo-me num corpo ao pé do mar.
*
Silêncio no teu olhar, na tua boca.
Em tua língua primitiva o mar se olha.
É o deserto e falas, boca brusca
de ignorado alento.
Não te construo, constróis-me, construo-te
construo-te, mar,
parede pura,
criada.
*
Aqui onde o sol se acende em carne,
onde a casa é um nome de mar,
e os frutos e os espelhos
amadurecem o corpo solidário:
É Verão.

Aqui tu és
lenta verdade no sossego do sangue:
circulação de nomes e de peixes.
*
Aqui, à fome dos nomes e dos seres,
respondes, corpo do mar, coluna real
e teus acidentes se cumprem como ondas.
Aqui te palpo, vela, aqui te vejo, pomo,
formas meus braços, se te enleio,
desato simplesmente os teus anéis,
bebo-te sem te extinguir e sem me esperares.
Amanhã serás tu, sendo já hoje.
*
Recebendo-te como outra, outra nasces
e a ti mesma te igualas, porque és mar.
Teu corpo denso se aproxima, ora se afasta.
Há um perfume de uma noite inextinguível
nas tuas coxas claras.
*
Oiço-te ampla sob os ruídos.
Vária e verde, tapete derramado
sobre os ombros: acordas.
Não te peço qualquer nome, tu és banho
de calor fecundo, ondulação de frutos
sobre a mesa de pedra em que te aceito.
*
Em tua boca respiram as janelas.
Tua música de muros e varandas
abre-se ao céu e às ténues páginas.
*
Vejo-te abundante e a minha sede cresce,
obscura ainda, renascente já.
Quero claramente reconhecer-me em ti.
Entrego-me sem espelhos, amálgama,
no teu silêncio me envolvo e te circundo.
És mais exacta, mais dura, mais viva.
A tua recusa cresce como um céu
por sobre o muro.
*
Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga.
*
O que sei de ti: ignorância
conquistada, lábios que se movem,
forma de vertigem declinada,
aridez, aridez: cabeça rente
às perspectivas fechadas.
O que sei: ocupação de ti, nunca ocupada,
aberta, ignorada, sempre viva,
ó encontrada!
*
O que sei de ti é olhar e não te ver,
é fuga abrupta, mar que se fecha sob pálpebras,
pupila violenta, larga lâmina,
facilidade pura
sem rede, sem degraus: só verde, extensa,
ramificada parede de sol,
perpétuo lar do instante amadurecido,
virgem, verde, real,
alento que respiro,
brilho, beijo na pedra.
*
Teus nomes, tua mesa
onde disponho os copos:
à luz demasiado crua e logo ténue
as palavras serão simples, vagarosas.

Entre nós, quantas paredes repercutem
esta dureza aguda.
Um corpo desenhado nos seus ossos.

Um olhar entre o gume da faca
e a simplicidade do pão.
Uma fala justa.
*
Às vezes sinto-te entre o sol e o papel,
às vezes oiço-te quase respirar
nas tranquilas coisas repousadas,
mas sempre estou a procurar-te.

Não te detenho nem fiel te sou,
às vezes, simplesmente, sem que o queira
e de tanto te querer, já o sou,
roda rodando no meu pulso,
ao lento baile em que a visão começa.
*
Sou pobre antes de ti. Pobre, regresso
a esta mão póstuma, a este olhar difuso.
Pobre te quero, te saúdo ainda.
A ti voltarei, nudez com veias,
mais do que pobre, aceso e nu à mesa.
*
É sobre o silêncio e sobre a noite,
sobre a miséria, sobre o ventre, sobre o amor,
mas ainda mais sobre o corpo inominado:
sobre a fome, sobre a luz do corpo exacto,
o corpo brando e duro: o corpo intacto,
o corpo pleno e vivo à luz das ruas:
pão descoberto, aberto, sem fissuras.
*
É pão e onda e tem sabor a terra
e tem sabor a mar.
Até aos ombros coluna e fogo alto,
forma palpável do sol desenrolada,
ao olhar, às mãos, à língua,
a luz que se fez corpo
e baila nas calçadas.
*
Respiração e fome conjugadas
no abraço sem nuvens,
pão de sol comido língua a língua,
ó novo alento, ó nova criatura,
sempre a que nasce doutra e é mais pura.
*
Defronte os ombros nus,
o espaço aberto: uns braços longos.
Defronte: um corpo. Serenidade.
Eu tudo sei do corpo ao dia,
da terra ao espaço, de mim a ti.

Eu tudo sei e assim descubro
a luz, a água, o pão, o corpo:
habito a terra, habito mais,
contra mim mesmo descanso e nasço.
*
Esta ciência de inocência e água
se toco, delicado, ou pão ou página,
ou corpo, ou fruto, ou verde folha,
este pisar que é duro e leve,
a frescura e a sombra, o ar, a luz
— tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.
*
E a terra mais próxima e as ervas
e os bichos translúcidos entre pedras,
a serena eclosão dos nomes, cabeleira
sobre o corpo fresco, intenso e nu.
Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,
paz que se alonga às searas por um corpo amado,
renhidamente amado entre a verdura
na noite de estrelas claras e estáticas.
*
Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.

Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.
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