Poemas neste tema

Desejo

Jorge de Sena

Jorge de Sena

Bucólica e Nâo

Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
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Diva Cunha

Diva Cunha

Em casa sozinha

Em casa sozinha
para matar meu desejo
leio poesias
não beijo
Me masturbo
e me contorço
leio poesias
não ouço
a voz
onda da pele clara
que aflora
sobre meus ossos
Em casa
entre coqueiros e arcos
ouço o desejo e passo
pelo fim do meu desejo
portas adentro atravesso
prendo sonhos entre paredes
minhas mãos prendem nos versos
os meus desejos inda verdes.



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Olga Savary

Olga Savary

Caiçuçáua

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.


In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.

NOTA: Do tupi = amor, amad
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Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

A Ti

Aos trista e sete anos do teu corpo,
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde

Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.

E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
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Juan Gelman

Juan Gelman

Oração

Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um como meu sangue.
Tua boca entre em minha boca.
Teu coração aumente o meu até estalar.
Desgarra-me.
Caias inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos em minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés.
Arde-me, arde-me.
Cobre-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito.
Que já não posso mais assim, com esta sede
queimando-me.
Com esta sede queimando-me.
A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.
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Emília Casas

Emília Casas

Missa profana

Nesta hora santa,
orai em meu altar de linho.
Dominus vobiscum!
Meu senhor está em mim.
Bendita sou entre as mulheres!
Alisai-me com carinho,
Curvai-vos,
Beijai meu ventre
E entre orações
E cantos
Explorai meus encantos.
Abri minha alma-missal:
Sou a boa-nova
Que se renova a cada leitura
Em mim, profana escritura.
Tomai meu seio:
É o vosso pão,
Pão da vida
Retorcida de prazer.
Comei-o com sofreguidão.
Levai meu cálice à boca,
Bebei do vinho que escorre.
Quem bebe deste vinho
Só morre de amor.
Vinde a mim,
Vosso reino,
Sou ofertório inteiro.
Comungai...comungai meu prazer
Amai-me
- Amém.

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Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Tu que nunca serás

Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.

Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado...

Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio

E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

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Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Cio

Quero dormir com você ou pelo menos
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.

Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.

ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse

desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
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Herberto Sales

Herberto Sales

Bruma Rubra

Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.

Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.

Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.

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Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Por Decoro

Quando me esperas, palpitando amores,
E os grossos lábios úmidos me estendes,
E do teu corpo cálido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,
Nesta prisão de músculos te prendes,
E aos meus beijos de sátiro te rendes,
Furtando as rosas as púrpureas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,
Entrefechados, lânguidos, tranquilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,
Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
Dos teus abraços de letais flexuras,
Produzem sensações de agres torturas,
Dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
Que prendem, tetanizam como os herpes,
Dos delírios na trêmula coorte...

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
Braços de estranhas correções marmóreas,
Abertos para o Amor e para a Morte!


Publicado no livro Broquéis (1893).

In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.10
6 769 1
Gilka Machado

Gilka Machado

Particularidades

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica...

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.


Publicado no livro Estados da Alma (1917).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado.
Rio de Janeiro: L. Christiano: Funarj, 1991. p.150
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Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

A cadela

Atraídos pelo cheiro de sangue de suas entranhas
os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito
de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico
que talvez merecesse ser chamado de amor.
A cadela finge que a perseguição a incomoda
e negaceia como as mulheres requestadas.
Um odor penetrante de vida a acompanha
entre os dois sóis que limitam a passagem do dia.
À noite, quando a encerram no galpão,
os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis.
E seus ganidos na escuridão nos ensinam
que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.

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Susana Thénon

Susana Thénon

Sede

Sei que tua sede se estendeu
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
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Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
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Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral

Navegações Doentes

Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo

os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos

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Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema do Apelo

Eu sei que à insônia desta noite
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.

... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.

Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.

...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...

Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.

...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.

Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)

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Jonas da Silva

Jonas da Silva

Paisagens da Carne

O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.

Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.

E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.

E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos

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Carvalho Júnior

Carvalho Júnior

IV - O Perfume

A Artur de Oliveira

Unge-te a pela fina e setinosa
Um perfume sutil, insinuante,
Igual à planta da Ásia venenosa,
Cuja sombra atraiçoa o viandante;

O nardo, o benjoim e a tuberosa,
As tépidas essências do Levante,
Do Meio-Dia a flora luxuosa,
De cores e de aromas abundante,

Não disputam-lhe o passo, a primazia,
Nem produzem-me a lânguida apatia
Que em noites de verão, lentas, calmosas,

Sinto quando debruço-me em teu seio,
Afogando-me em morno devaneio
Num mar de sensações voluptuosas.



In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Noites de Inverno

Enquanto a chuva cai, grossa e torrencial,
Lá fora; e enquanto, ó bela!
A lufada glacial
Tamborila a bater nos vidros da janela;

Dentro, esse áureo torçal
Do cabelo que, rico, em ondas se encapela,
Deslaça; e o alvor ideal
Do teu corpo à avidez do meu olhar revela;

Porque, à avidez do olhar
Do amante, é grato, ao menos,
Destas noites no longo e monótono curso,

— Claro como o luar —
Ver um busto de Vênus
Surgir dentre as lãs e dentre as peles de urso.


Publicado no livro Versos e Versões, 1883/1886 (1887).

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.111
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Herberto Helder

Herberto Helder

O Amor Em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, apedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas —
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele — imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
— Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
Imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra — invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo —
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.

Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida — e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira — para que tudo cante
pelo teu poder fechado.

Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
— Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
— Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
— o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
— E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
— No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
— Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
— aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mimo lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. O meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável —
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água — e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
9 454 1
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Noite Branca

insônia sem seu corpo
desejo no vazio
frio e chuvoso

hora tanta larga e lenta
sem sono sem movimento

só um som se inicia nesse suspiro
imagem insidiosa e incendiária
esses "ésses" se insinuando
na memória das suas curvas
no sonho silêncio dos seus seios

1986


In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. p. 81. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimento
1 292 1
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Anjo és

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
Não vejo a croa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios damor.
Teus olhos têm negra a cor,
cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?

2 843 1
Antônio Mendes Cardoso

Antônio Mendes Cardoso

Árvore de Frutos

Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!

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