Poemas neste tema

Desejo

Olympia Mahu

Olympia Mahu

Espera

A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.

Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.

Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...

Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...

Olimpya Mahu, nov/91

898
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Ester

Gosto de sentir sua pele
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.

Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer

Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render

Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.

1 187
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Um Operário E Seu Desejo

De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
1 021
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Os Odiantes

Vejo que faz barulho
de ferrolho contra ferrolho
o mesmo ranger do mergulho
de um olho em outro olho

1 050
Raphael Luiz Junqueira

Raphael Luiz Junqueira

Soneto XVI

Não conheço que força ingente e estranha
Impeliu-me tristonho a tal afeto...
Nem sei que bem... que palpitar secreto
Põe-me ditoso e Amor meu Peito ganha!

Dos suspiros o som sereno e manso
Tomou-me ultimamente o peito aflito.
Ah! sonhos de paixão em que me agito!
Ah! vigílias em febre sem descanso!

Não sei que força esplêndida e plangente,
No coração o amor me vai soprando
Em me levando a esse suspiro infindo...

Não me importa saber — sentir somente:
Vivendo em ti eu morrerei cantando,
Morrendo em mim tu viverás sorrindo!

1 001
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Chave

Existe um lugar.
Além...

Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.

Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.

A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.

A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.

As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.

Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.

Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,

Do caminho.

902
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Secos

Sentimentos secos.

Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.

E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.

Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.

E em crus colchões
Expõe.

A água da fonte.

914
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Orvalho

Os cabelos estão molhados
Escorrendo gotas,
Que deslizam, suavemente,
Como lágrimas.
Deixando límpidas marcas,
Na passagem,
Sobre a pele de mel.

Todo o corpo encharcado
Colando o desêjo,
No úmido trocar de carícias errantes,
Ao olhar penetrante,
Que disparam
Seus olhos macios.

A face revela a vontade.
Sua imagem reduz a paisagem
Ao contorno montanhoso do corpo.
Ao relêvo exato
De uma paixão constatada,
Sobre as gotas,
Que depois desta chuva,
Restou sobre a relva orvalhada.

934
Rogério F. P.

Rogério F. P.

A Tanatus

Que gosto tem, no final da tarde, cálida criatura,
tornar-se a figura que assusta minhalma
dando fim a toda a minha calma,
e se afastar levando consigo a última parede do meu abrigo?

Seus olhos são archotes fumegantes de pavor.
Sua boca traz blasfêmias do inferno
mas, mesmo assim, pobre enfermo,
acendo pra você uma vela
em sinal de reverência.

Leve-me embora, já é tempo,
finda-se a hora.
O tempo escoa sobre os andrajos desse corpo imundo,
já pende a carne carcomida e ofereço-a a você, minha querida!

Tem a sua frente um adorador.
Leve-me, meu amor,
envolva-me em seus braços
e faça, finalmente, dessa existência demente
uma estátua posta no inferno!

944
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Gulletos, oh amante irremediável

Gulletos, oh amante irremediável.
Inescrupulosa masoquista.
Arrancarei de ti os mais loucos
gritos, tendo sua fronte como alvo!

No seu rosto jas estampado o esboço da
satisfação, enquanto morres em vão,
entrelaçada em meus braços.
Rainha dos escárnios !

785
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Ausência

Sonho te possuir nos meus braços
nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.

1 034
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Código Morse

Bolhas de espuma boiam sobre a água,
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.

1 009
Raniere Rodrigues dos Santos

Raniere Rodrigues dos Santos

Onde Estás?

Eu te amo,
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.

Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.

850
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Fragilidade

Teu corpo ausente do meu corpo,
sou tão frágil como um instante,
uma onda que se quebra no ninho de ostras.
Tuas mãos não repousam sobre meu ventre,
sou tão pequena como um segundo.
Tuas mãos não aquecem meu coração,
sou tão fria quanto a neve.
Sou uma camponesa colhendo
tâmaras, pistache, misk e snôbar.
Não sinto frio, teu corpo me aquece.
És sementes florescendo nos campos.

809
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Mistérios da Intimidade

Nossa intimidade é tão secreta
quanto as confidências de um soberano.
Nosso amor, cinto de castidade,
ninguém descobre nossas mãos proibidas.
Comemos maçãs e semeamos segredos
distantes do mundo e da vida.
Fugimos das pessoas como crianças carentes
em busca de carinho e afeto.
Ninguém nos percebe cercados de quatro paredes,
ninguém desvenda nossos mistérios.
Somos Édipo e Jocasta da era tecnológica.
Num pequeno vaso grego lapidamos
nossos sonhos, fantasias, medos,
verdades, mentiras,
fragilidades e sentimentos.
Vivemos o medo de ser descobertos
como meninos que roubam frutas
dos quintais e correm dos cachorros bravos.
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?

680
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Princesa dos Cabelos Negros

Princesa dos Cabelos Negros

Princesa dos cabelos negros,
compridos e perfumados.
Venha até mim,
me abraça e
me ama como se fosse teu único amor,
teu único anseio.
Abraça-me com força
e me mostra o caminho do amor.
Caminho este de alegria e suavidade ...
Suavidade de tua pele branca,
doce, perfumada de jasmim.
Toca com tuas pequeninas mãos meu rosto,
me faz um carinho e
me beija com teus lábios macios.
Deseja me amar para sempre
E este sempre durara
enquanto estiver a meu lado
O Linda Princesa
dos cabelos negros.

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