Poemas neste tema

Desejo

Edmilson

Edmilson

Um dia é pouco

Um dia vida minha, vou tirar você desta coisinha
e te envolver na guerra de novos abraços.
Sacar do calhamaço um último pedido e me esquecer de
ter te oferecido apenas o silêncio,
me esquecer de ter adormecido frente ao contra-senso
de esconder palavras...

Um dia bucetinha, vou colar você na ladainha
do desejo e cobrir de beijo teu mistério.
E aquele critério de mulher com classe irá por água abaixo
quando eu retirar do cacho tua vulva esperta
e detonar prazeres pelas labaredas deste corpo em chamas...

Um dia vagabunda vou ejacular na sua tumba
e desdizer que a flor da morte é mais fecunda que a dor da vida.
Vou chorar na despedida,
mas meu coração gelado
vai zombar do teu projeto mal pensado
de suicidar-se,
e desprezar os novos ares que te acolheram
e te arrastaram deste mundo louco...

Um dia, meu amor é pouco, um dia é muito pouco...

797
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esgotei o Meu Mal, Agora

Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
1 599
Liz Christine

Liz Christine

Orgia

Gemidos
Sussurro
Lábios, pele, beijo
Em seus ouvidos
Ainda procuro
Como descrever o que vejo?
O que sinto ao te ver
Em meio a essa orgia
Nunca quis te pertencer
Tão livre, e você nem sabia
Tudo que poderia
Encontrar
Experimentar
Em si mesma, você
Minha nudez
Meu prazer
Você vê
Um engano? Talvez
Eu queira ser
Sua, talvez, eu nem sei
O que eu senti?
Ao te ver me olhando
Você beijando alguém
Uma pessoa gemendo
E eu gozando
Quero o seu beijo, vem
Estou dizendo
Sussurrando
Meus lábios te procurando
E outro corpo me domina
Outra língua me fascina
Vários corpos, sua mão
E eu tento dizer
Eu te amo
Amo sua mão
Mas você nem vai saber
Que era pra você que eu falei
E foi então
Nesse exato momento
Que escutei
Algum pensamento
Alguém pensando em voz alta
"aquela ali, a ruivinha
a ruivinha é a mais tarada"
Eu, tarada?
Nem vou responder
Te amo calada
E nem vou me arrepender
De estar te pervertendo
Você não era assim
Se liberte em mim
Amor, orgia
Talvez algum dia
Você saiba que eu sentia

969
Líria Bordinhão Dahlke

Líria Bordinhão Dahlke

Mãos, toques, desejos

Aquelas mãos em toques eternos
em alguns minutos apenas horas se tornaram
Eternos movimentos das pontas dos dedos
Procuravam retorno desejado presente na pele...

Cúmplices, entrelaçados
Numa imagem sem nome, sem entendimento
Sem cobranças
Somente sentimento e desejo

Adoradora química
Dos lábios fortes em toques essenciais
Que nem o melhor de todos que já tive
Poderia imaginar...

989
Liz Christine

Liz Christine

Meu brinquedo

Você quer me algemar?
Me desnudar
Me cobrir
Com beijos
Em seu olhar
Faíscam desejos
Quero te amar
Sem medo
Quero ser
Seu brinquedo
Quero te ver
Me desvendando
Me fudendo
Com amor
Estou nua
Te dizendo
Sem pudor
Me possua
Me ame sem medo
E seja meu brinquedo

1 117
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senti Que Estava Às Portas do Meu Reino

Entre as sombras brilhavam as paisagens
Que os meus sonhos antigos desejavam.
Mas o terror expulsou-me das imagens
Onde já os meus membros penetravam.
1 102
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
1 925
Julieta Lima

Julieta Lima

Invento-te

Invento-te
Invento-me
Sem formas
Nem cor
Nem perfis
Nem tela!

Nós dois...
Esculpidos
No silêncio de uma praia
Que a anarquia do mar
Afaga e flagela!

Invento-te

Barco transparente
Em indecisos traços
Adivinhando
Ais libidinosos
No sexo da água
Em que me torno
Ousada ondulada bela
A estremecer
Quando de manso
Me rasga capitosa
A volúpia acerada
De uma vela...

1 006
Nálu Nogueira

Nálu Nogueira

Delírios da tarde

Traz-me tua boca e deixa que pouse
aqui sobre os meus seios. A tarde vai
pelo meio e desde a aurora o corpo meu
sedento te deseja.

Dá-me tua língua em minha língua para
que eu te excite, movimentos meus no
céu da boca e dentes, lábios quentes sobre
os teus deixam escapar gemidos.

Fecha os olhos, deita enquanto esfrego em
tua pele meus mamilos; tua bunda e coxas
minha boca e dentes. Ouve o meu pedido
urgente em teus ouvidos.

Sente os movimentos ondulantes meus quadris
em tuas ancas, sobe e desce lento e mexe e vira
e olha, sente. Segura meus quadris em tuas mãos
e gira e gira e puxa e tira e puxa novamente.
Olha.

Meu olhar para ti flameja e o ar me falta. Tua
boca nos meus seios, gemo. Tua mão meus pêlos,
púbis, grito. Minha voz e teus gemidos, minhas
mãos tentam tocar o infinito enquanto gozo
louca no teu colo, enquanto sinto teus
espasmos dentro.

Findo.
Minhas mãos na tua pele em lanhos do meu desejo.
Marcas púrpuras do teu beijo em meu pescoço.
O suor da tua pele no meu corpo.

Canso. E adormeço nua e acolhida em teu abraço.

1 149
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Anjos do Apocalipse – II

Este é o anjo do apocalipse
com a sua espada
filva

funda

Embainhada na nossa
vagina

Ei-lo que rompe
o espaço
com a espada

com o esperma

Anjo da justiça
com o seu pénis

Caminham com estandartes
Com espadas e paixão
Numa erecção calada

São os anjos do ódio
com a sua raiva
alada

Vestem o corpo
com o brilho das armaduras
e do vidro

e só depois voam...

Os arcanjos do sonho
com as suas asas
nocturnas de veludo

São os arcanjos
do sonho

Usando comigo
a sua espada
de aço

3 640
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Anjos do amor – III

(à minha mãe)

Vens de um sonho
tomado
da infância

quando comigo deitada nos lençois
me abraçavas
E o orgasmo te transformava as asas

Que domínio
tenho
dos teus braços?

meu amor,

ao voares sobre o que eu faço
com teu corpo de cetim
nadando em nosso abraço?

Tu voas,

como as bruxas
e os anjos

Como os rios
por dentro das nuvens

e da vagina

És o anjo
tu
das minhas asas

sobre os seios...

Suposto é de ti
que tu tens asas

luzentes:
a tremerem-te
na fala

As laminas
de metal
das tuas asas?

A lembrar o sol
a bater
nas penas dos pássaros

Tu,
és o anjo negro
da boca...

do meu corpo

4 062
Simone Barbariz

Simone Barbariz

Hemisférios

No Sul, arde o calor,
Que vai subindo por todo meu corpo,
Que vai me consumindo,
Deixando-me insana...

No Norte, há frio, há neve,
Que gela minha alma,
Que me faz tremer,
Mas não me faz chorar...

O Sul é meu sexo
Úmido e quente
Como uma floresta tropical...

O Norte é meu coração
O qual fiz uma fortaleza
Transponível, somente, por você...

857
Ildásio Tavares

Ildásio Tavares

Sonetinho de amor

Teu mamilo erecto
penetra-me a boca,
chupo, sorvo, mordo
e tu gozas louca.

Teu mamilo é um pênis,
minha boca vulva
onde escorre o leite
que tu me ejaculas.

Dá, minha senhora,
tua rija teta,
teu poeta implora
com a boca seca
a boca boceta
doida de Pandora.

1 143
Simone Barbariz

Simone Barbariz

Crime

Testemunhas: as quatro paredes.
Local do crime: a cama.
Réus: eu e você.
Crime cometido: amor louco e desenfreado,
Amor sem limites,
Amor em todas suas formas possíveis,
Em todas as formas em que éramos compatíveis.

Acoplados com a perfeição de dois módulos espaciais,
Onde qualquer erro milimétrico,
Compromete o sucesso da missão...

Missão cumprida...

A missão foi um sucesso total,
Pois dois corpos tornaram-se um!
Não mais existia eu e você,
Mas, sim, eu-você...

Cometemos um crime perfeito!

915
Calex Fagundes

Calex Fagundes

Noturno vermelho

esta noite beberei
o vinho de tua taça
e deixar-me-ei levar
pelo que insinuas

mergulhar-te-ei
em mentiras tuas
mais absurdas
cruas, de todo

entregar-me-ei
ao idílio, filho
etílico do vício
teu desde o início

quererei perder-me
em teus meandros
e lençóis bordados
instinto dos portais

tintos tais, profanos,
dos vinhos mais carnais
derramados tais
sobre os panos

teu espírito em reflexo
à taça jazente semi-plena
entre nós, circunflexo
laço, boca, cena

e a vaga-luz difusa
as mentes deixadas
ao acaso dos desejos
ensejos do porvir

e a luz desnecessária
entrega-se à noite
e o absinto de Netuno
afoga-nos em humores

quem eu? quem tu?
na comunhão de sentidos
na integração de fluídos
quem somos?

1 500
Nelson Castelo Branco Eulálio

Nelson Castelo Branco Eulálio

A cerimônia da insistência

Não consigo perdoar nem a ti nem a vida
Por negarem-me a oportunidade
De descobrir em teu corpo
Todo o mistério do universo...

Por que não pude beijar teus seios
Fontes de amor e vida?
Por que não pude beijar tua alma
Pela janela da tua feminilidade?
Por que não pude sentir por dentro
O mais recôndito do teu corpo
Mesmo que fosse por entre fios de látex?

Negar a realização do amor que nos bate à porta
É crime de lesa-natureza...
E tu serás cobrada por essa recusa
Quando perceberes que as efêmeras paixões
Que hoje te animam o ser
São apenas pálidos reflexos
Do que podias Ter e recusaste.

Por causa de tua negativa
As estrelas se quedaram silentes;
A lua ficou triste, encabulada;
O sol amanheceu constrangido.

Toda a natureza sentiu-se negada
Pela simples volição de uma mortal!
Que poder é esse que o Homem tem
De negar o Ser, de recusar-se a criar?

Que poder é esse que te foi dado
De negares a realização do amor?
Já pensaste que tu poderás querer
(e não Ter)
justamente o amor que te foi oferecido
e que tu simplesmente recusaste?

A tua recusa constrangeu todo o Olimpo
Aliás, dos deuses gregos aos romanos
De Eros a Afrodite...
Deixaste desconcertado o Cupido
Profanaste o altar de Vênus.

Mas podes crer que Zeus
Que jamais permitiu tanta soberba
De uma simples mortal (embora linda)
Vai cunhar em etéreas plagas
A sentença que encimará tua imagem de mulher
E a de todas iguais a ti:
"Aqui jaz, neste corpo de mulher
o amor estéril que não se pode realizar..."

E esta será tua sina: Ensinar a todas as mulheres
Que ao amor não se pode nada negar.

932
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Exílio

Espero tecendo os dias
Imagino e contemplo.

Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
1 546
Simone Barbariz

Simone Barbariz

Temporal de amor

Um temporal caía lá fora
E o vento soprava forte
Relâmpagos cortavam o céu
E violentos trovões podiam ser ouvidos ao longe

A Natureza estava em fúria,
Mas nada comparado
Às cobertas desalinhadas
E dois corpos suados...

Amávamos com ardente paixão
Com um desejo de fundirmo-nos
Em um só corpo, uma só alma...

Estávamos criando nosso próprio temporal,
Nossa própria tormenta
Afogando-nos em amor...

884
Simone Barbariz

Simone Barbariz

Soneto à luz de velas

Velas iluminavam o ambiente
E nossos olhos brilhavam
Diante nossos corpos nus e incandescentes
Impressão que as chamas davam

Começamos um jogo de exploração
Mãos percorrendo dorso
Causando inebriante sensação
Trazendo à mente um novo universo

Olhos ardendo em desejo
Bocas entre-abertas...
Meu corpo em seus braços despejo

Rolamos pelas cobertas
Pelo mundo temos desprezo,
Pois nossas almas somente para o nosso amor estão abertas...

1 157
Salomão Jorge

Salomão Jorge

Pecadora

Ó pecadora de olhos langorosos,
quero pecar contigo alguns momentos,
beijar teus rubros lábios saborosos
como a polpa dos frutos sumarentos!

Sentir nos meus braços luxuriosos,
alvos braços que são os meus tormentos;
beijar teus olhos úmidos de gozos,
úmidos de volúpias, sonolentos...

A mim pouco me importa o teu futuro;
o teu corpo é que quero, puro ou impuro,
na súbita explosão dos meus desejos...

Nossas horas de amor serão bem poucas;
depois vai à procura de outras bocas
que irei também em busca de outros beijos!

1 144
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dançam As Árvores Puras Sacudidas

Pelas chuvas verdes
O dia tem em si mãos interrompidas
Que um desejo absurdo ergue.
1 125
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Fêmeas

Hora do fugaz,
das cores efêmeras,
das fêmeas saírem
em blasfêmias.

Hora de rasgar
a castidade,
roçar a nudez
proibida,
do cair das
máscaras.

1 059
Pedro Miguel S. Duarte

Pedro Miguel S. Duarte

Amor

Quem ousará dizer que ele é só Alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar um puro grito
de orgasmo, num instante infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, estátuas
estátuas vestidas de suor, agradecendo
o que a um Deus acrescenta o amor terrestre.

728
Isabel Machado

Isabel Machado

Contrações

Abre e fecha
flechas de desejos
flashs instantâneos
quando penso em ti...
Pulsa o pulso
pulsa a flor que arde
curtas contrações
longos arrepios...
Abre e fecha
sangue bombeando
vida latejando
rega esse navio...
Pulsam bicos
seios bolinados
duros, retesados
querendo implodir...
Flor-de-cheiro
doce à la pom-pom
molha tua boca
sente quanto é bom...
Abre e fecha
pulsa e repuxa
flor-da-contração
arde de tesão
abre minhas coxas
rompe tuas forças
seca minhas poças
e deglutes
todas as flores roxas
que um dia
desabrochaste...

1 417