Cultura e Tradição
Jorge Luis Borges
A Israel
laberinto de ríos seculares
de mi sangre, Israel? ¿Quién los lugares
que mi sangre y tu sangre han recorrido?
No importa. Sé que estás en el sagrado
libro que abarca el tiempo y que la historia
del rojo Adán rescata y la memoria
y la agonía del Crucificado.
En ese libro estás, que es el espejo
de cada rostro que sobre él se inclina
y del rostro de Dios, que en su complejo
y arduo cristal, terrible se adivina.
Salve, Israel, que guardas la muralla
de Dios, en la pasión de tu batalla.
"Elogio de la sombra"
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 313 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Los gauchos
Mestizos de la sangre del hombre blanco, lo tuvieron en poco, mestizos de la sangre del hombre rojo, fueron sus enemigos.
Muchos no habrán oído jamás la palabra gaucho, o la habrán oído como una injuria.
Aprendieron los caminos de las estrellas, los hábitos del aire y del pájaro, las profecías de las nubes del Sur y de la luna con un cerco.
Fueron pastores de la hacienda brava, firmes en el caballo del desierto que habían domado esa mañana, enlazadores, marcadores, troperos, capataces, hombres de la partida policial, alguna vez matreros; alguno, el escuchado, fue el payador.
Cantaba sin premura, porque el alba tarda en clarear, y no alzaba la voz.
Había peones tigreros; amparado en el poncho el brazo izquierdo, el derecho sumía el cuchillo en el vientre del animal, abalanzado y alto.
El diálogo pausado, el mate y el naipe fueron las formas de su tiempo.
A diferencia de otros campesinos, eran capaces de ironía.
Eran sufridos, castos y pobres. La hospitalidad fue su fiesta.
Alguna noche los perdió el pendenciero alcohol de los sábados.
Morían y mataban con inocencia.
No eran devotos, fuera de alguna oscura superstición, pero la dura vida les enseño el culto del coraje.
Hombres de la ciudad les fabricaron un dialecto y una poesía de metáforas rústicas.
Ciertamente no fueron aventureros, pero un arreo los llevaba muy lejos y más lejos las guerras.
No dieron a la historia un sólo caudillo. Fueron hombres de López, de Ramírez, de Artigas, de Quiroga, de Bustos, de Pedro Campbell, de Rosas, de Urquiza, de aquel Ricardo López Jordán que hizo matar a Urquiza, de Peñaloza y de Saravia.
No murieron por esa cosa abstracta, la patria, sino por un patrón casual, una ira o por la invitación de un peligro.
Su ceniza está perdida en remotas regiones del continente, en repúblicas de cuya historia nada supieron, en campos de batalla, hoy famosos.
Hilario Ascasubi los vio cantando y combatiendo.
Vivieron su destino como en un sueño, sin saber quienes eran o qué eran.
Tal vez lo mismo nos ocurre a nosotros.
"Elogio de la sombra" (1969)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 318 e 319 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Luís Filipe Castro Mendes
CALICUTE: AQUI DESEMBARCOU VASCO DA GAMA
Luís Filipe Castro Mendes
Lendo Traduções de Poemas Antigos
Luís Filipe Castro Mendes
Os Ghats
Jorge Luis Borges
Leones
Ni del jaguar los signos prefijados
Ni del gato el sigilo. De la tribu
Es el menos felino, pero siempre
Ha encendido los sueños de los hombres.
Leones en el oro y en el verso,
En patios del Islam y en evangelios,
Vastos leones en el orbe de Hugo,
Leones de la puerta de Micenas,
Leones que Cartago crucifica.
En el violento cobre de Durero
Las manos de Sansón lo despedazan.
Es la mitad de la secreta esfinge
Y la mitad del grifo que en las cóncavas
Grutas custodia el oro de la sombra.
Es uno de los símbolos de Shakespeare.
Los hombres lo esculpieron con montañas
Y estamparon su forma en las banderas
Y lo coronan rey sobre los otros.
Con sus ojos de sombra lo vio Milton
Emergiendo del barro el quinto día,
Desligadas las patas delanteras
Y en alto la cabeza extraordinaria.
Resplandece en la rueda del Caldeo
Y las mitologías lo prodigan.
Un animal que se parece a un perro
Come la presa que le trae la hembra.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 484 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Islandia
Islandia de los mares, que existas.
Islandia de la nieve silenciosa y del agua ferviente.
Islandia de la noche que se aboveda
sobre la vigilia y el sueño.
Isla del día blanco que regresa,
joven y mortal como Baldr.
Fría rosa, isla secreta
que fuiste la memoria de Germania
y salvaste para nosotros
su apagada, enterrada mitología,
el anillo que engendra nueve anillos,
los altos lobos de la selva de hierro
que devorarán la luna y el sol,
la nave que Alguien o Algo construye
con uñas de los muertos.
Islandia de los cráteres que esperan,
y de las tranquilas majadas.
Islandia de las tardes inmóviles
y de los hombres fuertes
que son ahora marineros y barqueros y párrocos
y que ayer descubrieron un continente.
Isla de los caballos de larga crin
que engendran sobre el pasto y la lava,
isla del agua llena de monedas
y de no saciada esperanza.
Islandia de la espada y de la runa,
Islandia de la gran memoria cóncava
que no es una nostalgia.
"Historia de la noche" (1977)
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 490 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Pedro Nava
Noite de São João
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
Carlos Drummond de Andrade
Carnaval E Moças
As moças vão para o corso fantasiadas de Malandrinhas.
Não cantam “A malandragem eu não posso deixar”
nem “Eu quero é nota”,
mas do alto dos carros de capota arriada,
sorrindo, atirando serpentinas nos outros carros,
entoam desenvoltas
“Levanta o pé,
esconde a mão,
quero saber se tu gostas de mim
ou não”.
Os pais deixaram.
Aí vem o Bloco Papai Deixou:
as Tamm de Lima, as Franzen de Lima,
as Tamm Bias Fortes, as Tamm Loreto,
irmãs, primas, cunhadas, a família mineira
descobrindo e revelando uma alegria carioca,
a alegria do carnaval.
Moulin Rouge? Assim também não. Mas pode ser Moulin Bleu
com Maria Rosa Pena, Célia de Carvalho,
Iolanda Vieira, Iolanda Bandeira,
outras que vão desfilando, vão cantando
ou, se não cantam, cantam os seus braços.
Cuidado! capitalistas de Belo Horizonte,
a Mão Negra está chegando e ameaçando.
Maria Geralda Sales, Irene e Pequetita Giffoni
fazem tremer o mineiro, que tem sempre
um dinheirinho guardado nas dobras do silêncio
e um pecado, talvez, de todos ignorado.
Felizmente nos salvam os Três
ou as Três Mosqueteiras, galhardas e galantes.
Lúcia Machado é Porthos,
Maria Helena Caldeira é Athos,
e Aramis, Maria Helena Pena.
Cadê o D’Artagnan? Elas respondem:
“Foi ferido no último duelo,
mas nós três damos conta do recado”.
Neste bloco maior vejo as Boêmias,
Ilka e Luizinha Andrada, Lurdes Rocha,
Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,
e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.
Nomeá-las todas não posso: são dois carros
e é preciso olhar, passando na Avenida,
as Sevilhanas, as Aviadoras,
os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,
as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,
as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),
e na calçada os Netos de Gambrinus
fantasiados de Barril de Chope.
Meu Deus, de cada rua
no bloco irrompe, e é tudo animação.
Bailarinas do Xeque, sem o Xeque,
nem eu queria vê-lo: elas sozinhas
cercam de Oriente minha sertanice.
De cada município agora sinto
afluir foliões em sarabanda.
Minas perdeu o sério. Minas pula,
revoluteia, grita, esquece a história
comedida, o severo “vou pensar”.
Minas não pensa mais, Minas se agita
ao som do jazz, ao som do bumbo, zum-zum-zum.
Vejo tudo isto ou estou sonhando
à mesa do Trianon, junto de Emílio,
poeta amigo, e Almeida,
sorvendo uma frappée, lenço molhado
de Rodo, pasárgada dos tímidos?
Ao clube não irei, nem aspirante
de sócio me tornei. Na minha face
gravado foi por lei hereditária:
“Este não dança”. Sei apenas ver,
e o que vejo na Rua da Bahia
é chuva chuva chuva sem parar,
é chuva e guarda-chuva, luva-dilúvio
a envolver os dedos da cidade.
Na cara dos garçons, nas fustigadas
árvores, no desolado cão fuginte,
na deserta calçada noturnal,
esta leitura faço, da sentença:
“Por aqui, a Quaresma
no sábado de carnaval é que começa”.
Carlos Drummond de Andrade
Dificuldades do Namoro
se te levar ao cinema
levo também tua irmã,
teu irmãozinho, tua mãe.
Porém a mesada é curta
e se eu levar ao cinema
a tua família inteira
como passarei o mês
depois dessa brincadeira?
Prefiro dizer que a fita
na opinião da Cena Muda
não vale dois caracóis.
(Esse Wallace Reid, coitado,
anda muito decadente.)
Outro programa não tenho
nem poderia outro haver
por força da lei mineira
durante as horas noturnas.
Proponho então que fiquemos
nesta sala de jantar
até dez horas em ponto,
(hora de a luz apagar
e todos se recolherem
a seus quartos e orações)
lendo, sentindo, libando
o literário licor
dos sonetos de Camões.
Eis no que dá namorar
o estudante sem meios
nesta década de 20
a doce, guardada filha
de uma dona de pensão.
Jorge Lauten
Não Mais Sob a Árvore de Bô
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo
enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô
Glauco Mattoso
Tropicalista, 1999
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.
Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.
Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.
Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.
In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
Carlos Drummond de Andrade
A Língua E o Fato
português a este desporto.
De resto, o nome genérico
nem tem cara de vernáculo.
Lincoln, de latim provido,
hesita entre bulopédio
e globipédio. Afinal
define-se por ludopédio
no jornal oficial.
Aprovado o lançamento
por força da lei mineira
não assinada mas válida,
eis que súbito estraleja
barulho estranho lá fora.
A redação se interroga.
Que foi? Que não foi? Acode
o servente noticioso
e conta que espatifou-se
a vidraça da fachada
por bola de futebol.
Paulo Setúbal
Volta ao Arraial
Os bandeirantes, derrotados e murchos, têm, ao penetrarem no arraial, esta inesperada e vivíssima surpresa: são festivamente recebidos com gritos, estrondos de mosquete, ronqueiras, grossa barulhada! Que é aquilo? Que significam tão quentes júbilos? A boa-nova espalha-se instantaneamente:
— Ouro!
A peonada grita, e arremessa os chapéus, e baila, e está toda num ébrio fanfarreio de alegria.
— Ouro! Ouro!
Mas como? Onde? Pascoal Moreira, desta vez, quer saber os detalhes do acontecido. Manda buscar os peões para inteirar-se do que houve. Sabe então que os peões — "os que haviam ficado na bagage" — haviam resolvido, para matar o tempo, explorar as barrancas do Coxipó.
Eram as mesmas barrancas onde os dois moleques haviam dado com as primeiras oitavas. Principiaram eles o trabalho de manhãzinha. Mas não trabalharam muito tempo: duas horas após, com gritos de júbilo, toparam aqueles homens com riquíssima pinta de ouro. Que pinta soberba! Foi uma das maiores que já se achou no Brasil. Do chão bruto, como por milagre, jorrou logo, às mãos dos caboclos, larga manancial de ouro. Os bagageiros, por entre alegrias infrenes, atiraram-se então a um cavocar furioso: "huns achavam cem oitavas, outros meia libra, outros cincoenta oitavas, conforme o que cada um fez em cavar com as maons, que outros instrumentos de minerar não havia. . ."
Pascoal Moreira ouve e vê. O ouro — aquele ouro real, tangível, que ali reluz às mãos da peonada — esbraseia, afinal, o ânimo frio do povoador. Pascoal, tocado de súbito entusiasmo, sai também a mineirar. E logo, ao esbrugar os primeiros torrões, irrompe entre os bandeirantes o mesmo grito mágico:
— Ouro!
Que surpreendente colheita! Grãos e folhetas faíscam a rodo no cascalho. Basta dizer que "os que haviam acompanhado o Capitão Paschoal Moreira, mais aproveitados, assim como o mesmo Capitão, acharam cada um libra e meia de ouro..." Não podia haver, para a derrota sofrida com os Coxiponés, epílogo mais fascinante. O retorno ao arraial das bagagens, aquele doloroso retorno de vencidos, foi o lustre e a glória da bandeira.
Por isso, no sertão bravo do Coxipó, nessa noite, lá naquele humilde arraial improvisado, tão longe dos homens e do mundo, viveram aqueles toscos sertanejos a sua grande noite de sonho e febre. Não podiam dormir. E com razão! Todos eles, tontos de gozo, "cantavam victoria contra as fadigas da pobreza, davam-se huns aos outros parabens de suas fortunas, e, reciprocamente, offereciam-se laudencias de alegria".
Pascoal Moreira, no seu mísero rancho de sapé, podia enfim, bem merecidamente, descansar das suas longas e rudes fadigas de bandeirante. O paulista, é verdade, não conquistara o ambicionado Coxiponé: conquistara, o que é bem mais, as ruidosas minas do sertão.
Estava descoberto o ouro de Cuiabá.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 38-40. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Paulo Setúbal
A Veluda
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".
Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.
Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.
Lá foram.
De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".
Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".
Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".
Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Carlos Drummond de Andrade
Esplendor E Declínio da Rapadura
de alta prosopopeia
nunca tinham comido rapadura.
Provam com repugnância
o naco oferecido pelo mineiro.
Pedem mais.
Mais.
Ao acabar, há um pequeno tumulto.
Daí por diante todos encomendam
rapadura.
Fazem-se negócios em torno de rapadura.
Há furtos de rapadura.
Conflitos por causa de rapadura.
Até que o garoto de Botafogo parte um dente
da cristalina coleção que Deus lhe deu
e a rapadura é proscrita
como abominável invenção de mineiros.
Joaquim Manuel de Macedo
A Capela e o Recolhimento de N S Bom Parto
Estevão Dias de oliveira deixara por sua morte uma avultada soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns legados que dispusera.
Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do desterro, fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mais de quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado, à fundação de um recolhimento para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século, fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento.
No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.
Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.
Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado.
Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.
Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam, e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois , com as voluntárias.
A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.
Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada eu tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era o seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.
Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.
Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar, como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerado prelado.
O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara Recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.
E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber mo piedoso retiro educação moral e religioso.
É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que deu lugar o Recolhimento do Parto.
Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.
D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde eu, vestido de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo rito no oficio divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto, benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente de mitra fluminense, que lhe deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem pelo nome de chácara do bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.
O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou fingindo açoitar-se, davam muita graça às procissões, apraziam às senhoras, e o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de entretenimento.
O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem às igrejas por qualquer motivo desde o tanger de Ave-Maria até a hora matutina, executando-se desta última proibição unicamente as pobres que corressem às missas e confissões de madrugada.
Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente. Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação do Recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento, não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.
Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito o que louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas com às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.
Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra o belo sexo à custa dos quarenta mil cruzados do finado Estevão Dias de Oliveira.
Naquele tempo (no bom tempo), m grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.
Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para as vítimas e as culpadas, fundando o Recolhimento do Parto.
Em um ou outro caso, sempre por exceção acontecia que alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem licença do papai ou da mamãe, e tin
Henriqueta Lisboa
Lenda das Pedras Verdes
deixa a Uiara dormir!
Tem um sabor secular
ressoando dentro da noite,
a voz monótona do índio.
A Serra Resplandecente
fulge ao luar junto à lagoa.
Pela escada de Jacó
sobem e descem estrelas.
– Ai, Serra Resplandecente,
Lagoa Vupabuçu!
Tantos anos de procura
como é que os hei de perder!
– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!
A vida da tribo está
no grande sono da Uiara.
O grande sono da Uiara
reside nos seus cabelos.
Seus cabelos eram de água,
tornaram-se em pedras verdes.
Voz de raça moribunda
Fernão Dias não escuta.
– Sete anos há que deixei
minha terra e meu sossego
em troca de uma esperança
que é meu respiro e bordão.
Da Serra da Mantiqueira
até o Rio Uaimi,
quantos montes, quantos vales
para descer e subir,
que de sombras e emboscadas
antes do raiar do dia!
Vem de mais longe, profunda,
a voz do índio recordando:
– Nas noites de lua cheia
quando a Uiara cantava
branca e linda, emoldurada
pelas ondas dos cabelos,
mais de um valente guerreiro
por ela se suicidava.
Foi então que Macachera
com prudência soube agir,
mandando Uiara dormisse
velada por sentinelas
um sono igual ao da pedra.
– Vós que velais o seu sono,
desembaraçai as armas!
Ah! esse canto escondido,
essa beleza roubada,
esses cabelos que brilham
com viva luz de esmeraldas!
Ser guerreiro, ser valente,
depois dormir para sempre
nos verdes braços da Uiara!
– Fernão Dias, Fernão Dias!
deixa a Uiara dormir!
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 214-216
José Eustáquio da Silva
Belos
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
Florbela Espanca
Meu fado meu doce amigo
Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!
Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d’amor!
Eu quero ouvir-te também
P’r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!
Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...
Carlos Drummond de Andrade
Conhecimento de Jorge de Lima
de seu negro vergel. E eram trombetas,
salmos, carros de fogo, esses murmúrios
de Deus a seus eleitos, eram puras
canções de lavadeira ao pé da fonte,
era a fonte em si mesma, eram nostálgicas
emanações de infância e de futuro,
era um ai português desfeito em cana.
Era um fluir de essências e eram formas
além da côr terrestre e em volta ao homem,
era a invenção do amor no tempo atômico,
o consultório mítico e lunar
(poesia antes da luz e depois dela),
era Jorge de Lima e eram seus anjos.
Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
Carlos Drummond de Andrade
Dois Fantasmas
natural de Ouro Preto,
ninguém mais fala nele.
Desistiu; apagou.
Nos lentos, velhos tempos
cumpria seu destino
com toda a sisudez.
Era grave, pontual,
a ninguém assustava.
Surgia à meia-noite
e trinta, ponderado,
no nevoeiro de junho,
a pessoas seletas
que voltavam de festa.
Deixava-se ficar
junto a portões de chácaras
e lembrava sem gesto
a convivial presença
das almas do outro mundo
no coração mineiro.
Há muito ninguém volta
de festa na Floresta
ou qualquer outro bairro.
A rua embalsamada
permanece vestida
de solidão-magnólia.
Por falta de assistentes,
retira-se o fantasma
rumo ao País do Tédio.
Chega a vez do avantesma
da popular Lagoinha,
noutro extremo da vida.
Sinal de coisas novas.
É excêntrico, forja
diabruras cruéis.
Espanta motorneiros
sentando-se entre os trilhos
sem mover uma palha
se o bonde tilintante
desce a rampa. Conserva-se
em calmo desafio
à potência rangente.
O motorneiro, morto
de pavor, pula fora,
o condutor imita-o,
os raros passageiros
dessa hora glacial
aos gritos se levantam,
e, no tremendo instante
de esmagar o duende
ou de morrermos todos,
ele, o senhor de preto,
sem rosto, mas sarcástico
na postura insolente,
dissolve-se qual sonho
que não quer ser sonhado.
Em estrondar de rodas
de súbito freadas,
o pesadelo extingue-se.
Apenas se distingue
no interior do bonde
o convulsivo choro,
e na rua teatro
ao sol da lua cheia,
vago cheiro de enxofre.
Bruno de Menezes
Maria D'Aparecida, 1963
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros