Cultura e Tradição
Sophia de Mello Breyner Andresen
De Pedra E Cal
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras
De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas
De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas
Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras
Caminha devagar
Porque o chão é caiado
Sophia de Mello Breyner Andresen
Crepúsculo Dos Deuses
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cedrenus, Resumo da História).
Roberto Pontes
Para O Bem da Poesia
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
Pablo Neruda
VIII - A ilha
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
Pablo Neruda
Os Deuses do Rio
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
Marcus Accioly
Seis Vozes d’África
1
Eras (antes d’América) a América
de negro sol na pele escura (ó África)
teu rei era um leão que (da floresta)
fazia sua expedição de caça
e (de juba ou coroa na cabeça)
reinava a solidão que te reinava
com a própria liberdade (uma leoa
que era tua rainha sem coroa)
mas morreu esse rei e outros vieram
(astralopitecínios que emergiram
dos animais) e todos te quiseram
e todos (nos seus reinos) dividiram
a rainha-leoa ou lhe impuseram
a própria escravidão que conseguiram
através de uma história que te fez
monopólio do Império Português
(sim) que Diogo Cão chegou ao Congo
(Bartolomeu ao Cabo das Tormentas)
e o velho Gama (em seu percurso longo)
sentiu as tuas terras sob as ventas
(a lei do teu comércio foi o escambo
dos teus filhos que já não amamentas
do leite e que amamaentam com seu sangue
o mundo que com eles fiou grande)
continente gigante e pigmeu
(lavrado pela daba primitiva)
se aa Esfinge do Egiyo te comeu
perto do Cabo Branco (na Tunísia)
a África do Sul (que conheceu
o apartheid do branco que domina)
tem um leão (Mandela) que te traz
(com sua pele negra) a branca paz
A Cor é Negra
2
a cor (a cor) a cor (a cor) a cor
é negra (sim) é negra (por que não?)
negro é o universo e este universo (por
tanto sol abrasado) é a escuridão
total (escuridão que faz supor
a cegueira da luz) a dimensão
infinita do escuro (o absoluto
manto da solidão) ó rei de luto
(continente-africano) ó rei de escura
pele (ó couro de rei) ó rei curtido
e enrugado no trono (ó carne dura
que veste o rei do seu real vestido
sobre o marfim dos ossos) rei à altura
de outros reis-continentes (rei erguido
feito a águia que ao sol em fogo voa)
ó rei mais alto que a própria coroa
(ó rei-leão) ó rei-jaguar (rei-tigre)
hipópotamo-rei (rei-elefante)
macaco-rei (rei zebra) rei-antílope
(rei-leopardo e rei-rinoceronte)
ó rei que vive (com a rainha) livre
(rei-esposo) marido-rei (amante-
da-liberdade) rei que sabe a lei
do seu reinado (a lei da selva) ó rei
de cor (de cor) de cor (de cor) de cor
negra (sim) de cor negra (por que não?)
já não quero cantar a tua dor
(continente-africano) é uma canção
que te quero cantar ( o teu senhor
é Deus) basta de tanta escravidão
(ó continente-rei) basta de açoite
que o sol é sangue ( a lua é sangue ) a noite
O Sangue era Vermelho
3
esfolaram à faca a tua cor
(extraíram-te as vísceras) notaram
que o sangue era vermelho e (dentro) a dor
também doía igual (não encontraram
qualquer vestígio de alma nem rumor
de humano sentimento contemplaram
onde o teu coração) "é um animal"
(e tratada tu foste como tal)
o sol curtiu teu couro feito um céu
espichado por varas (o simum
dobrou do centro ao norte o seu chapéu-
de-vento em teu cabelo ruim) "algum
dia erguerei da boca um escarcéu
que subirá a Deus" (disseste em um
tom que não disfarçava a voz azeda
e pediste os relâmpagos da zebra)
"ó escada do pescoço da girafa
deixa eu subir pr ti meus pés Àquele
(suplicaste) "leão de férrea-pata
dá-me da tua força e tu (ó pele-
de-aço) rinoceronte (de blindada
carapaça) consente que eu te sele
feito um cavalo e (com teu chifre) arrombe
o mal que (perto) veio de longe "
(continuaste) "e tu também (cavalo-
de-rio) ó boi chamado de hipopótamo
que és obra-prima do Senhor (deitado
à sombra do teu junco e do teu loto)
não me negues o teu furor guardado
nos abismos da lama (onde teu osso
de baleia é encalhado) eu sou a África"
(e choraste através da negra náscara)
Benjamin Moloise
4
Benjamin (Benjamin Moloise) acorda
os teus olhos da morte (negro) eu ouço
o teu canto subindo pela corda
onde balança ao vento teu pescoço
sob a "gravata" (branca) e sob a bota
(de Botha) a cal é viva no teu fosso
próximo ao muro da prisão (ó África-
do-Sul) pérola-negra (escura-lágrima)
marfim-queimado no elefante-vivo
(noite dentro do túnel) Benjamin
vejo teu canto sob o poste (grito
e o meu grito é teu grito até o fim
da voz apunhalada no conflito
do Cabo ou Jahannnesburgo) antes assim
(poeta-guerrilheiro) antes ser homem
(tua raça se orgulha do teu sangue)
já não importa o pesadelo (sonhas
e ninguém pode dominar teu sonho
que é mais forte e mais alto que as montanhas)
em teu carvão se acende um fogo estranho
com a estranha luz que trazes das entranhas
da África do Sul (do seu medonho
mundo) da capital sem paz (Pretória)
que com teu giz-noturno escreve a história
(o carrasco descansa) "executado"
(ó República d’África do Sul)
te canto à esquerda margem do rachado
continente (ou d’América) ó tu
e eu estamos cada um de um lado
do mar (ou da cadeia) em que jaz nu
sob o pó (Benjamin) até que vento
cubra com a minha voz o seu silêncio
Nelson Mandela
5
"ó África do Sul (Nelson Mandela
o teu filho é meu filho: eu sou a América)
quando a noite era toda teta
de cor (e teu mamilo a sua estrela)
o teu leite era luz e eras (mãe-negra
de onde a raça de Winnie) forte e bela
(feito a girafa erguias o pescoço
a um céu de sangue e nervo e carne e osso)
até que os holandeses (africânderes
e boêres) seguidos por ingleses
(nitilanders) vieram das distantes
terras sobre o teu povo e tuas reses
e as presas de marfim dos elefantes
e o ouro em Transvaal (porém teus chefes
saltaram do Kraal como se antílopes
com as lanças dos seus chifres contra os tigres)
ó Áfricapartaid (enquanto a hiena
gargalhava à pantera) do teu coito
com a árvore-real da tribo themba
(reserva de Transkei) veio a dezoito
de julho de dezoito (última lenda
da tua história) o homem (sonho afoito
de liberdade) aquele que seria
pastor dos teus leões (Mandela) o guia
(ó minha negra-irmã) quase três décadas
de prisão não dobraram o espinhaço
do lutador-de-boxe (entre as celas
raiadas no seu pêlo) nenhum braço
logrou forjar seu ferro entre perpétuas
condenações pois ( sob o mesmo espaço
na jaula de Mandela) estavas tu
(leoa escura) África do Sul"
Zumbi
6
"uma cria de sexo masculino
com escassos dias de existência" (no ano
de mil seiscentos e cinquenta e cinco)
foi achada entre os presos de um mocambo
palmarino e chamada de Francisco
por seu preceptor ( o padre Antônio Melo)
sua cor negra era a da onça-
preta ou pantera (como conta a crônica)
fugiu aos quinze anos (coroinha
tornou-se guerrilheiro)foi Zumbi
("deus-da-guerra") na crespa carapinha
pôs palmas dos Palmares e dali
dividiu sua guerra entre a guerrilha
contra Domingos Jorge Velho e
a luta contra o tio Ganga-Zumba
que baixava o Quilombo ao rés da tumba
(tinha uma cobra armada em cada mão
e um gavião pousado em cada olho)
combatendo Manuel Lopes Galvão
sofreu um ferimento (ficou coxo)
por Antônio Soares (à traição)
foi furado a punhal e (do seu corpo
castrado na raiz) teve (na oca
garganta) o próprio pênis preso à boca
(América) porém ainda hoje
(da queda de Macaco) se
Pablo Neruda
O Anjo da Poesia
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
Murillo Araújo
Toada do Negro do Banzo
quando cava, quando cansa,
quando pula, quando tomba,
quando grita, quando dança,
quando brinca, quando zomba
sente gana de chorá...
Negro —
quando nasce, quando cresce,
quando luta, quando corre,
quando sobe, quando desce,
quando véve, quando morre
negro pena sem pará...
Negro, aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Negra nua, nua —
ai Umbanda!
toma a bença à lua —
ai Umbanda!
samba nua... Oôu!
Xangô!
Meu céu secureceu.
Exú me despachou...
Calunga me prendeu...
Xangô! Xangô! Xangô!
Meu rancho se acabou...
Meu reino — mar levou...
Meu bem morêu... morreu.
Negro —
negro chora, negro samba
na macumba do quilombo,
com malafo pra moamba
dando bumba no ribombo!
do urucungo e do ganzá!
Negro —
cae no congo, cae no congo,
dos mirongas ao muganga,
todo o bando nesse jongo...
roda, negro — roda a tanga
chora banzo no gongá.
Negro aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Se Xangô chegasse...
ai Umbanda!
E me carregasse —
ai Umbanda!
Coisa boa... Oôu!
Marcelo Almeida de Oliveira
Vomitei as trufas de chef Clement
temperos esdrúxulos
talheres de prata
pra quê?
(pouco no prato!)
pato
(de nome estranho)
gesto
(mão na barriga)
indigesto...
Cadê o feijão de Dona Maria?
O acarajé da baiana?
O pastel com caldo de cana?
Pão para quem come com a mão,
e tem fome!
Florbela Espanca
No Minho
Onde guardam os tesouros,
As fadas d’olhos azuis
E lindos cabelos loiros.
Filtros de beijos em flor,
Corações de namoradas,
Nas casas brancas do Minho
Guardam ciosas as fadas.
Affonso Romano de Sant'Anna
O Que Sei Dos Etruscos
é o que deixaram inscrito em seus sarcófagos:
imagem de danças
música
esportes
banquetes
desenhos de demônios
enfim
o conhecimento do dia a dia
feito arte funerária:
espécie de jornal
enciclopédia
essência
daquilo que da morte sempre resta, poesia.
Jorge Luis Borges
El Oriente
sobre una tela con frescura de agua
y entretejidas formas y colores
que han traído a su Roma las remotas
caravanas del tiempo y de la arena.
Perdurará en un verso de las Geórgicas.
No la había visto nunca. Hoy es la seda.
En un atardecer muere un judío
crucificado por los negros clavos
que el pretor ordenó, pero las gentes
de las generaciones de la tierra
no olvidarán la sangre y la plegaria
y en la colina los tres hombres últimos.
Sé de un mágico libro de hexagramas
que marca los sesenta y cuatro rumbos
de nuestra suerte de vigilia y sueño.
¡Cuánta invención para poblar el ocio!
Sé de ríos de arena y peces de oro
que rige el Preste Juan en las regiones
ulteriores al Ganges y a la Aurora
y del hai ku que fija en unas pocas
sílabas un instante, un eco, un éxtasis;
sé de aquel genio de humo encarcelado
en la vasija de amarillo cobre
y de lo prometido en la tiniebla.
¡Oh mente que atesoras lo increíble!
Caldea que primero vio los astros.
Las altas naves lusitanas; Goa.
Las victorias de Clive, ayer suicida;
Kim y su lama rojo que prosiguen
para siempre el camino que los salva.
El fino olor del té, el olor del sándalo.
Las mezquitas de Córdoba y del Aksa
y el tigre, delicado como el nardo.
Tal es mi Oriente. Es el jardín que tengo
para que tu memoria no me ahogue.
"La rosa profunda" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 425 e 426 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
México
la tradición de espadas, la plata y la caoba,
el piadoso benjuí que sahúma la alcoba
y ese latín venido a menos, el castellano.
¡Cuántas cosas distintas! Una mitología
de sangre que entretejen los hondos dioses muertos,
los nopales que dan horror a los desiertos
y el amor de una sombra que es anterior al día.
¡Cuántas cosas eternas! El patio que se llena
de lenta y leve luna que nadie ve, la ajada
violeta entre las páginas de Nájera olvidada,
el golpe de la ola que regresa a la arena.
El hombre que en su lecho último se acomoda
para esperar la muerte. Quiere tenerla, toda.
"La moneda de hierro" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 442 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
El gaucho
Hijo de algún confín de la llanura
Abierta, elemental, casi secreta,
Tiraba el firme lazo que sujeta
Al firme toro de cerviz oscura.
Se batió con el indio y con el godo,
Murió en reyertas de baraja y taba;
Dio su vida a la patria, que ignoraba,
Y así perdiendo, fue perdiendo todo.
Hoy es polvo de tiempo y de planeta;
Nombres no quedan, pero el nombre dura.
Fue tantos otros y hoy es una quieta
Pieza que mueve la literatura.
Fue el matrero, el sargento y la partida.
Fue el que cruzó la heroica cordillera.
Fue soldado de Urquiza o de Rivera,
Lo mismo da. Fue el que mató a Laprida.
Dios le quedaba lejos. Profesaron
La antigua fe del hierro y del coraje,
Que no consiente súplicas ni gaje.
Por esa fe murieron y mataron.
En los azares de la montonera
Murió por el color de una divisa;
Fue el que no pidió nada, ni siquiera
La gloria, que es estrépito y ceniza.
Fue el hombre gris que, oscuro en la pausada
Penumbra del galpón, sueña y matea,
Mientras en el oriente ya clarea
La luz de la desierta madrugada.
Nunca dijo: soy gaucho. Fue su suerte
No imaginar la suerte de los otros.
No menos ignorante que nosotros,
No menos solitario, entró en la muerte.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 356 e 357 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Fernando Pessoa
O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
Jorge Luis Borges
Milonga de Don Nicanor Paredes
con el permiso de ustedes,
le estoy cantando, señores,
a don Nicanor Paredes.
No lo vi rígido y muerto
ni siquiera lo vi enfermo;
lo veo con paso firme
pisar su feudo, Palermo.
El bigote un poco gris
pero en los ojos el brillo
y cerca del corazón
el bultito del cuchillo.
El cuchillo de esa muerte
de la que no le gustaba
hablar; alguna desgracia
de cuadreras o de taba.
De atrio, más bien. Fue caudillo,
si no me marra la cuenta,
allá por los tiempos bravos
del ochocientos noventa.
Lacia y dura la melena
y aquel empaque de toro;
la chalina sobre el hombro
y el rumboso anillo de oro.
Entre sus hombres había
muchos de valor sereno;
Juan Muraña y aquel Suárez
apellidado el Chileno.
Cuando entre esa gente mala
se arma algún entrevero
él lo paraba de golpe,
de un grito o con el talero.
Varón de ánimo parejo
en la buena o en la mala;
"En casa de jabonero
el que no se cae se refala."
Sabía contar sucedidos,
al compás de la vihuela,
de las casas de Junín
y de las carpas de Adela.
Ahora está muerto y con él
cuánta memoria se apaga
de aquel Palermo perdido
del baldío y de la daga.
Ahora está muerto y me digo:
¿Qué hará usted, don Nicanor,
en un cielo sin caballos
ni envido, retruco y flor?
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 275 e 276 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 26
Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
Jorge Luis Borges
Milonga de los morenos
como si cantara flor,
hoy, caballeros, le canto
a la gente de color.
Marfil negro los llamaban
los ingleses y holandeses
que aquí los desembarcaron
al cabo de largos meses.
En el barrio de Retiro
hubo mercado de esclavos;
de buena disposición
y muchos salieron bravos.
De su tierra de leones
se olvidaron como niños
y aquí los aquerenciaron
la costumbre y los cariños.
Cuando la patria nació
una mañana de Mayo,
el gaucho sólo sabía
hacer la guerra a caballo.
Alguien pensó que los negros
no eran ni zurdos ni ajenos
y se formó el Regimiento
de Pardos y de Morenos.
El sufrido regimiento
que llevó el número seis
y del que dijo Ascasubi:
"Más bravo que gallo inglés".
Y así fue que en la otra banda
esa morenada, al grito
de Soler, atropelló
en la carga del Cerrito.
Martín Fierro mató a un negro
y es casi como si hubiera
matado a todos. Sé de uno
que murió por la bandera.
De tarde en tarde en el Sur
me mira un rostro moreno,
trabajado por los años
y a la vez triste y sereno.
¿A qué cielo de tambores
y siestas largas se han ido?
Se los ha llevado el tiempo,
el tiempo, que es el olvido.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 281 e 282 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
El títere
que era el patrón y el ornato
de las casas menos santas
del barrio de Triunvirato.
Atildado en el vestir
medio mandón en el trato;
negro el chambergo y la ropa,
negro el charol del zapato.
Como luz para el manejo
le firmaba un garabato
en la cara al más garifo,
de un solo brinco, a lo gato.
Bailarín y jugador,
no se si chino o mulato,
lo mimaba el conventillo,
que hoy se llama inquilinato.
A las pardas zaguaneras
no les resultaba ingrato
el amor de ese valiente,
que les dio tan buenos ratos.
El hombre según se sabe,
tiene firmado un contrato
con la muerte. En cada esquina
lo anda acechando el mal rato.
Un balazo lo tumbó
en Thames y Triunvirato;
se mudó a un barrio vecino,
el de la Quinta del Ñato.
"Para las seis cuerdas"
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 279 e 280 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Oda escrita en 1966
que, alto en el alba de una plaza desierta,
rige un corcel de bronce por el tiempo,
ni los otros que miran desde el mármol,
ni los que prodigaron su bélica ceniza
por los campos de América
o dejaron un verso o una hazaña
o la memoria de una vida cabal
en el justo ejercicio de los días.
Nadie es la patria. Ni siquiera los símbolos.
Nadie es la patria. Ni siquiera el tiempo
cargado de batallas, de espadas y de éxodos
y de la lenta población de regiones
que lindan con la aurora y el ocaso,
y de rostros que van envejeciendo
en los espejos que se empañan
y de sufridas agonías anónimas
que duran hasta el alba
y de la telaraña de la lluvia
sobre negros jardines.
La patria, amigos, es un acto perpetuo
como el perpetuo mundo. (Si el Eterno
Espectador dejara de soñarnos
un solo instante, nos fulminaría,
blanco y brusco relámpago, Su olvido.)
Nadie es la patria, pero todos debemos
ser dignos del antiguo juramento
que prestaron aquellos caballeros
de ser lo que ignoraban, argentinos,
de ser lo que serían por el hecho
de haber jurado en esa vieja casa.
Somos el porvenir de esos varones,
la justificación de aquellos muertos;
nuestro deber es la gloriosa carga
que a nuestra sombra legan esas sombras
que debemos salvar.
Nadie es la patria, pero todos lo somos.
Arda en mi pecho y en el vuestro, incesante,
ese límpido fuego misterioso.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 252 e 253 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Milonga para los orientales
dedica a los orientales,
agradeciendo memorias
de tardes y de ceibales.
El sabor de lo oriental
con estas palabras pinto;
es el sabor de lo que es
igual y un poco distinto.
Milonga de tantas cosas
que se van quedando lejos;
la quinta con mirador
y el zócalo de azulejos.
En tu banda sale el sol
apagando la farola
del Cerro y dando alegría
a la arena y a la ola.
Milonga de los troperos
que hartos de tierra y camino
pitaban tabaco negro
en el Paso del Molino.
Milonga del primer tango
que se quebró, nos da igual,
en las casas de Junín
o en las casas de Yerbal.
Como los tientos de un lazo
se entrevera nuestra historia,
esa historia de a caballo
que huele a sangre y a gloria.
Milonga de aquel gauchaje
que arremetió con denuedo
en la pampa, que es pareja,
o en la Cuchilla de Haedo.
¿Quién dirá de quienes fueron
esas lanzas enemigas
que irá desgastando el tiempo,
si de Ramírez o Artigas?
Para pelear como hermanos
era buena cualquier cancha;
que lo digan los que vieron
su último sol en Cagancha.
Hombro a hombro o pecho a pecho,
cuántas veces combatimos.
¡Cuántas veces nos corrieron,
cuántas veces los corrimos!
Milonga del olvidado
que muere y que no se queja;
milonga de la garganta
tajeada de oreja a oreja.
Milonga del domador
de potros de casco duro
y de la plata que alegra
el apero del oscuro.
Milonga de la milonga
a la sombra del ombú,
milonga del otro Hernández
que se batió en Paysandú.
Milonga para que el tiempo
vaya borrando fronteras;
por algo tienen los mismos
colores las dos banderas.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 283, 284 e 285 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Sosigenes Costa
do poema longo Iararana
Fernando Pessoa
«Das flores que há pelo campo
O rosmaninho é rei...»
É uma velha cantiga...
Bem sei, meu Deus, bem o sei.
Jorge Luis Borges
Milonga de Calandria
y Ño Calandria el apodo;
no lo sabrán olvidar
los años, que olvidan todo.
No era un científico de esos
que usan arma de gatillo;
era su gusto jugarse
en el baile del cuchillo.
Cuántas veces en Montiel
lo habrá visto la alborada
en brazos de una mujer
ya tenida y ya olvidada.
El arma de su afición
era el facón caronero.
Fueron una sola cosa
el cristiano y el acero.
Bajo el alero de sombra
o en el rincón de la parra,
las manos que dieron muerte
sabían templar la guitarra.
Fija la vista en los ojos,
era capaz de parar
el hachazo más taimado.
¡Feliz quien lo vio pelear!
No tan felices aquellos
cuyo recuerdo postrero
fue la brusca arremetida
y la entrada del acero.
Siempre la selva y el duelo,
pecho a pecho y cara a cara.
Vivió matando y huyendo.
Vivió como si soñara.
Se cuenta que una mujer
fue y lo entregó a la partida;
a todos, tarde o temprano,
nos va entregando la vida.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 289 e 290| Debolsillo, 3ª. edição, 2016