Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Nicanor Parra
JOVENS
Escrevam o que queiram.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.
Em poesia tudo é permitido.
Com a condição expressa
é evidente
de superar-se o papel em branco.
No estilo que lhes pareça melhor.
Passou demasiado sangue sob as pontes
para continuar-se a crer
que possa seguir-se um só caminho.
Em poesia tudo é permitido.
Com a condição expressa
é evidente
de superar-se o papel em branco.
1 221
Torquato Neto
O Poeta é a Mãe das Armas
O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso:ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.
poetemos pois
torquato neto /8/11/71 & sempre.
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso:ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.
poetemos pois
torquato neto /8/11/71 & sempre.
2 092
Linhares Filho
Reencontro
Fiel ao amor e à arte entre proteus,
encontro a luz aquém do terremoto.
A arte e o amor são em mim síntese, foto
do Ser e a fotossíntese que os meus
respiros pedem. No imo é que devoto
o culto mais leal a encantos seus.
E, na luta, assemelho-me aos Ateus:
contactando o meu chão, de novo broto.
Quanto mais acho, tanto mais procuro
o bem de amar e criar no tempo e espaço
da vigília e do sonho dos Orfeus.
Reencontro-me, autêntico misturo
Poesia e Amada num grandioso abraço,
imagens do infinito amor de Deus!
encontro a luz aquém do terremoto.
A arte e o amor são em mim síntese, foto
do Ser e a fotossíntese que os meus
respiros pedem. No imo é que devoto
o culto mais leal a encantos seus.
E, na luta, assemelho-me aos Ateus:
contactando o meu chão, de novo broto.
Quanto mais acho, tanto mais procuro
o bem de amar e criar no tempo e espaço
da vigília e do sonho dos Orfeus.
Reencontro-me, autêntico misturo
Poesia e Amada num grandioso abraço,
imagens do infinito amor de Deus!
685
Lourdes Cabral
Pensamentos
Meus pensamentos se estendem
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...
787
Loyola Rodrigues
Ângelo Monteiro
Subterrânea voz, então desperta
do silêncio da página esquecida,
qual da concha mais íntima, ferida,
áureas cordas vibrando em cada verso
que espadanas das mãos, como os cabelos
longos dos vossos príncipes esguios
aurifluindo, em seus ombros, como rios
de protesto ou em líricos novelos
de sol cristalizado ou, mais ainda,
tal cordas de algum morto violino
há muito sepultado nos teus seios
se secreta mulher ou musa extrema
valsando, sem cessar, seu destino
sem passar dos limites do poema.
do silêncio da página esquecida,
qual da concha mais íntima, ferida,
áureas cordas vibrando em cada verso
que espadanas das mãos, como os cabelos
longos dos vossos príncipes esguios
aurifluindo, em seus ombros, como rios
de protesto ou em líricos novelos
de sol cristalizado ou, mais ainda,
tal cordas de algum morto violino
há muito sepultado nos teus seios
se secreta mulher ou musa extrema
valsando, sem cessar, seu destino
sem passar dos limites do poema.
1 050
Mário Hélio
11-I(Formas)
vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
916
Mário Hélio
15-V(Evangelho)
quantos poetas prováveis
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.
610
Leopoldo Neto
Boa Vista
A natureza foi para ti bondosa
Desabrochando-te neste lavrado imenso
Pra desfilares, sobre ti mesma vaidosa
Despreocupada com o crescimento intenso!...
És a divina musa, que me faz brotar versos
A dadivosa que abriga toda gente
Acalento das tristezas e dos reversos
A namorada pura, a dona da minha mente !...
És a lira , que dá musicalidade a vidas
Afago dos desiludidos e injustiçados !...
Orquestra sinfônica dos desconsolados !...
Do norte do Brasil és a princesa
De Roraima és a receita da certeza
Que dá sucesso garantido para toda lida !...
Desabrochando-te neste lavrado imenso
Pra desfilares, sobre ti mesma vaidosa
Despreocupada com o crescimento intenso!...
És a divina musa, que me faz brotar versos
A dadivosa que abriga toda gente
Acalento das tristezas e dos reversos
A namorada pura, a dona da minha mente !...
És a lira , que dá musicalidade a vidas
Afago dos desiludidos e injustiçados !...
Orquestra sinfônica dos desconsolados !...
Do norte do Brasil és a princesa
De Roraima és a receita da certeza
Que dá sucesso garantido para toda lida !...
926
Leão Moysés Zagury
Nascimento
O poema debate-se por existir.
Existir!
Inicia-se um sonho, uma luta.
O herói das palavras,
a poetar burila-o.
.................................................
A caneta àvida,
desvirginando o papel,
imprime traços
vigor,
forma,
vida!
Existir!
Inicia-se um sonho, uma luta.
O herói das palavras,
a poetar burila-o.
.................................................
A caneta àvida,
desvirginando o papel,
imprime traços
vigor,
forma,
vida!
802
Leão Moysés Zagury
Pronomes
Procuro pronomes
para um novo poetar.
Procuro , procuro em vão.
Novidades vem e vão
construindo você.
Todavia, me causa espanto
tanta busca.
Costruo-lhe dando uma forma
original , mais talentosa.
A forma original
ainda está sem o brilho ideal.
O talento investido
requer apuro , sensibilidade.
Você se debate
por um existir repleto de alegria e transparência.
Autor do poema
pede atenção do leitor,
durante tal construção.
Devagar , dou-lhe
a forma ideal.
Os pronomes marcam
a vida advinda por sofrimento,
contradições.
O nascer se refaz quotidianamente,
marcado sonoramente
por um metafórico recriar...
Palavras tentando poetar,
ilustrando o repetido
vai e vem frenético do poema.
para um novo poetar.
Procuro , procuro em vão.
Novidades vem e vão
construindo você.
Todavia, me causa espanto
tanta busca.
Costruo-lhe dando uma forma
original , mais talentosa.
A forma original
ainda está sem o brilho ideal.
O talento investido
requer apuro , sensibilidade.
Você se debate
por um existir repleto de alegria e transparência.
Autor do poema
pede atenção do leitor,
durante tal construção.
Devagar , dou-lhe
a forma ideal.
Os pronomes marcam
a vida advinda por sofrimento,
contradições.
O nascer se refaz quotidianamente,
marcado sonoramente
por um metafórico recriar...
Palavras tentando poetar,
ilustrando o repetido
vai e vem frenético do poema.
945
Luís Inácio Araújo
As Indefinidas Palavras
Qualquer palavra que eu te diga ou te silencie
é tão sem sentido —
para o meu poema que é só bruma
voz muda esferográfica:
e o que sobre é esse silêncio pesando sobre os corpos,
esse chumbo,
o exaurir do carbono,
o vão dos corpos.
Agora quero inventar um poema
com isso que em mim é aresta,
arpão, fratura exposta,
berro içado sobre setembro,
estilhaço, beijo esgarçado,
grifar minha mudez sem fundo
afundada de tantas palavras.
Solto o poema como uma vertigem,
desse perigo não há fuga:
a nona sinfonia arrebenta num revés de crepúsculo.
Inverter o caos da tarde em melodia
ou aceitar o que um poema fabrica
de naufrágio?
pela página?
Num lapso: me escapam o salto e o grito irisado,
e daqui fotografo o abismo em cores kodak.
Palavras desabam numa catástrofe:
quero agora o vazio das margens,
a intransferível brecha,
o vão da palavra impronunciável.
Em que poema jogar fora
as palavras onde sempre esbarro?
— Vida & Morte
Deus & Sexo —
Escrever é o que se arquiteta
do deserto de uma falta,
infância e cio,
o turvo de alguém,
antro de uma boca.
Mas o que escrevo é noite cava,
emparedamento, poço
e não cabe no estreito de nenhum poema.
É só por afronta e voracidade
que escrevo escavo: indefinidamente
até preencher com o poema
a branca ausência: impreenchível.
é tão sem sentido —
para o meu poema que é só bruma
voz muda esferográfica:
e o que sobre é esse silêncio pesando sobre os corpos,
esse chumbo,
o exaurir do carbono,
o vão dos corpos.
Agora quero inventar um poema
com isso que em mim é aresta,
arpão, fratura exposta,
berro içado sobre setembro,
estilhaço, beijo esgarçado,
grifar minha mudez sem fundo
afundada de tantas palavras.
Solto o poema como uma vertigem,
desse perigo não há fuga:
a nona sinfonia arrebenta num revés de crepúsculo.
Inverter o caos da tarde em melodia
ou aceitar o que um poema fabrica
de naufrágio?
pela página?
Num lapso: me escapam o salto e o grito irisado,
e daqui fotografo o abismo em cores kodak.
Palavras desabam numa catástrofe:
quero agora o vazio das margens,
a intransferível brecha,
o vão da palavra impronunciável.
Em que poema jogar fora
as palavras onde sempre esbarro?
— Vida & Morte
Deus & Sexo —
Escrever é o que se arquiteta
do deserto de uma falta,
infância e cio,
o turvo de alguém,
antro de uma boca.
Mas o que escrevo é noite cava,
emparedamento, poço
e não cabe no estreito de nenhum poema.
É só por afronta e voracidade
que escrevo escavo: indefinidamente
até preencher com o poema
a branca ausência: impreenchível.
865
Fernando Fabião
Dá-me Sempre Esse Dom
Dá-me sempre
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
750
Fernando Pessoa
Desperto sempre antes que raie o dia
Desperto sempre antes que raie o dia
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
4 520
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
628
Herberto Helder
Texto 10
Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
620
José Echegaray
Cómo hago dramas
Escojo una pasión, cojo una idea,
un problema, un carácter... y lo infundo,
cual densa dinamita, en lo profundo
de un personaje que mi mente crea.
La trama al personaje le rodea
de unos cuantos muñecos, que en el mundo
o se revuelcan por el cieno inmundo,
o se calientan a la luz febea.
La mecha enciendo. El fuego se propaga,
el cartucho revienta sin remedio,
y el astro principal es quien lo paga.
Aunque a veces también en este asedio
que al Arte pongo y que al instinto halaga,
¡me coge la expresión de medio a medio!
un problema, un carácter... y lo infundo,
cual densa dinamita, en lo profundo
de un personaje que mi mente crea.
La trama al personaje le rodea
de unos cuantos muñecos, que en el mundo
o se revuelcan por el cieno inmundo,
o se calientan a la luz febea.
La mecha enciendo. El fuego se propaga,
el cartucho revienta sin remedio,
y el astro principal es quien lo paga.
Aunque a veces también en este asedio
que al Arte pongo y que al instinto halaga,
¡me coge la expresión de medio a medio!
678
Fernando Pessoa
Vai alta a nuvem que passa.
Vai alta a nuvem que passa,
Branca, desfaz-se a passar,
Até que parece no ar
Sombra branca que esvoaça.
Assim no pensamento
Alta vai a intuição,
Mas desfaz-se em sonho vão
Ou em vago sentimento.
E se quero recordar
O que foi, nuvem ou sentido
Só vejo alma ou céu despido
Do que se desfez no ar.
15/06/1933
Branca, desfaz-se a passar,
Até que parece no ar
Sombra branca que esvoaça.
Assim no pensamento
Alta vai a intuição,
Mas desfaz-se em sonho vão
Ou em vago sentimento.
E se quero recordar
O que foi, nuvem ou sentido
Só vejo alma ou céu despido
Do que se desfez no ar.
15/06/1933
8 622
Luís Quintais
Do gelo
Para J G Ballard
À psicologia profunda tudo devemos.
Acima de todas as coisas, devemos-lhe
o que não comunica, o que a inocência
e o esquecimento traem.
É à ímpia hipótese que tudo devemos:
que no cérebro espelha abominações
e que nos faz balbuciar o seu fogo
e o seu reino.
As lições do gelo são a melhor explicação
da arte das cesuras e dos caprichos:
o que não fará certamente a cidade,
o que não compõe um segredo
que não seja a plena paixão do ilegível.
À psicologia profunda tudo devemos.
Acima de todas as coisas, devemos-lhe
o que não comunica, o que a inocência
e o esquecimento traem.
É à ímpia hipótese que tudo devemos:
que no cérebro espelha abominações
e que nos faz balbuciar o seu fogo
e o seu reino.
As lições do gelo são a melhor explicação
da arte das cesuras e dos caprichos:
o que não fará certamente a cidade,
o que não compõe um segredo
que não seja a plena paixão do ilegível.
733
Luís Quintais
Fome
A fome desata os nós da consciente
vontade que a escrita denuncia.
Literacias são perfeitas rituais
entregas do acaso,
e tu recensearás acasos,
porque a fome te acomete
sem reservas, sem interlúdios.
O que és transbordará
em longos signos negros.
A luz virá como um sortilégio
de Verão em pleno Inverno.
Um bicho gritará a sem harmonia
que te desenha, a tão real ficção
dessa fome.
vontade que a escrita denuncia.
Literacias são perfeitas rituais
entregas do acaso,
e tu recensearás acasos,
porque a fome te acomete
sem reservas, sem interlúdios.
O que és transbordará
em longos signos negros.
A luz virá como um sortilégio
de Verão em pleno Inverno.
Um bicho gritará a sem harmonia
que te desenha, a tão real ficção
dessa fome.
723
Luís Quintais
Subjectivas mesas
(sobre Wallace Stevens)
É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.
Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.
O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.
Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a polis de anátema
que se instala no texto.
Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável
destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas
que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.
É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.
Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.
O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.
Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a polis de anátema
que se instala no texto.
Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável
destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas
que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.
679
Fernando Pessoa
Não tenho quinta nenhuma.
Não tenho quinta nenhuma.
Se a quero ter pra sonhar,
Tenho que a extrair da bruma
Do meu mole meditar.
E então, desfazendo a névoa
Que há sempre dentro de nós,
Progressivamente elevo-a
Até uma quinta a sós.
Vejo os tanques, vejo as calhas
Por onde a água vai pequena,
Vejo os caminhos com falhas,
Vejo a eira erma e serena.
E, contente deste nada
Que em mim mesmo faço externo,
Gozo a frescura relvada
Da não-quinta em que me interno.
Vilegiatura impossível,
Dou-lhe nós para lembrar,
E esqueço-a ao primeiro nível
Do meu mole meditar.
30/03/1931
Se a quero ter pra sonhar,
Tenho que a extrair da bruma
Do meu mole meditar.
E então, desfazendo a névoa
Que há sempre dentro de nós,
Progressivamente elevo-a
Até uma quinta a sós.
Vejo os tanques, vejo as calhas
Por onde a água vai pequena,
Vejo os caminhos com falhas,
Vejo a eira erma e serena.
E, contente deste nada
Que em mim mesmo faço externo,
Gozo a frescura relvada
Da não-quinta em que me interno.
Vilegiatura impossível,
Dou-lhe nós para lembrar,
E esqueço-a ao primeiro nível
Do meu mole meditar.
30/03/1931
4 136
Nelly Sachs
EM MEU QUARTO
Em meu quarto,
onde fica minha cama
uma mesa uma cadeira
o fogão
o universo está ajoelhado como em toda parte
para ser salvo
da invisibilidade –
Eu traço uma linha
escrevo o alfabeto
pinto o lema suicida na parede
de onde brotam imediatamente os renascimentos
já prendo as constelações à verdade
então a terra começa a martelar
a noite se afrouxa
desprende-se
dente morto da dentadura –
onde fica minha cama
uma mesa uma cadeira
o fogão
o universo está ajoelhado como em toda parte
para ser salvo
da invisibilidade –
Eu traço uma linha
escrevo o alfabeto
pinto o lema suicida na parede
de onde brotam imediatamente os renascimentos
já prendo as constelações à verdade
então a terra começa a martelar
a noite se afrouxa
desprende-se
dente morto da dentadura –
573
Fernando Pessoa
No fundo do pensamento
No fundo do pensamento
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
4 221
Fernando Pessoa
Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito muitos versos,
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.
Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».
E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.
12/04/1934
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.
Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».
E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.
12/04/1934
3 780