Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Reinaldo Ferreira
No amplo e ermo degredo
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
1 921
Reinaldo Ferreira
Marta
Marta,
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
Protagonista da tragédia ideada
E que eu não fiz,
De esperara que eu a criasse,
No meu intuito adormeceu feliz.
Dormiam lá também o sono antigo
Ilda, Miguel,
A lírica Raquel,
E todos quantos
Acham não ser comigo.
Aromas só
E pó antes do pó.
Agora chamo-a em vão,
Como quem vê levar,
E não entende,
Um filho no caixão.
E absurdo, alta noite,
Invoco a que se esconde:
Marta! Marta! Onde estás?
Não sei se me ouve ou não.
Mas não responde.
1 789
António Ramos Rosa
84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita
84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 001
António Ramos Rosa
Não É Um Texto:
Não é um texto:
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
1 038
António Ramos Rosa
Uma Falha Entre
Uma falha entre
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
975
Reinaldo Ferreira
Volver às rimas suaves
Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...
Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...
Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.
1 820
Lívia Araújo
Sobre Fundo Azul
Nas noites
em claro
A vela acesa
No desabafo
O desafio.
Mau altar, papel azul
O brilho tênue
O vinho doce
E a promessa.
Estou aqui
Desconhecida
Que se desnuda
E pede ajuda.
Salto aos teus olhos
No meu desenho
Um ser estranho
Cantando, Blue.
em claro
A vela acesa
No desabafo
O desafio.
Mau altar, papel azul
O brilho tênue
O vinho doce
E a promessa.
Estou aqui
Desconhecida
Que se desnuda
E pede ajuda.
Salto aos teus olhos
No meu desenho
Um ser estranho
Cantando, Blue.
648
António Ramos Rosa
O Anel do Insecto Luxúria Mínima
O anel do insecto luxúria mínima
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
1 050
António Ramos Rosa
No Peito da Página
No peito da página
o pulsar das pálpebras nas palavras
uma nova terra
na mão nova
o pulsar das pálpebras nas palavras
uma nova terra
na mão nova
1 045
António Ramos Rosa
A Casa Animal
A casa animal
de calor e sombra
respira
sobre a página
de calor e sombra
respira
sobre a página
1 154
António Ramos Rosa
Um Espaço de Silêncio
(Proposições sobre a pintura de Vieira da Silva)
O instante
suspende-se metamorfose da abolição
VISÃO VAZIA
restituição do mínimo no ABERTO
as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério
o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência Ausência-Presença
Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio
relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio
na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito
janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)
Libertação da opacidade libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra
le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit
uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se
destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição
matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos
transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado
Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão
Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter
estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio
amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa
teia aberta
dilatando-se retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço
pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras
paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio
vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo
mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade
as múltiplas portas salas janelas células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
O instante
suspende-se metamorfose da abolição
VISÃO VAZIA
restituição do mínimo no ABERTO
as primeiras minúcias de um estranho e límpido mistério
o puro amor a cada coisa
o absoluto no ínfimo
Presença-Ausência Ausência-Presença
Não o além do mundo mas o além no aqui
o aqui entreabrindo o Instante
a distância interior constelando-se em silêncio
relação liberta livre
com o desconhecido o irrevelado
não de um outro mundo mas do mundo outro
(o Mesmo)
a infinita abertura do mundo na luz do seu silêncio
na profundidade liberta
em espaços de espaços
o diverso no uno
indissolúvel unidade do ínfimo e do infinito
janelas ou portas que se abrem
(que abrem para:)
Libertação da opacidade libertação da Ausência
Ausência extrema da Presença desaparecendo
desaparecida
tudo raiou de sua luz de silêncio e sombra
le vide n’abolit pas l’inconnu mais l’éblouit
uma imponderável ponderabilidade de palácio-aéreo
as salas abriram-se
destruição das aparências reinvenção das suas cinzas
filhas do relâmpago da Presença
lampejos da Presença no momento da desaparição
matéria de um sabor e sabor de uma matéria
que respira em minúsculos abismos
transubstanciação da fulguração total
as cintilações imobilizaram-se no silêncio
de um rastro no vazio
constelado
Tudo arde ainda na minuciosa paciência de uma
dádiva na subtil pontuação de uma apaixonada visão
Intensidade e tensão
da atenção pura
que sabe conter o que não se pode conter
estremecimento que não treme
tudo respira no silêncio
tudo se tornou respiração do silêncio
amorosos dedos de um amor da terra
revelam suspenso
o incessante fluxo
rios de uma extensa estrela tensa
teia aberta
dilatando-se retendo-se
suspensa e retida
pela interminável e silenciosa paciência
das raízes da terra
estrela de sabor a pão
tapete de velha e antiquíssima sabedoria
com um cheiro a trigo e de amêndoa
estrela
e navio submerso
multiplicando-se no espaço
multiplicando o espaço
pedra de infinita transparência
em que se lêem os sonhos e as sombras
paciência ardente
que dominou a fascinação da miragem
pela fascinação clara do vazio
vazio amante
constelado
terra recuperada na distância da infinita proximidade de tudo
mão que penetrou no impenetrável
com a suavidade de uma flexível inflexibilidade
as múltiplas portas salas janelas células
a permanência do intacto
a infinita intensidade do contacto
1 084
António Ramos Rosa
Não-Canto a Camões
O dia em que eu nasci moura e pereça,
Camões
Oh! que não sei que escrevo nem que falo!
Camões
Morrendo estou na vida e em morte vivo
Camões
Junto de um seco, fero e estéril monte
Camões
Quem gritaria se eu gritasse
se ———————
A impossibilidade do grito o não-grito do grito no ilegível silêncio entre as letras do livro letra a letra no livro
Vejo um muro branco
sem uma sombra
A impossibilidade do canto é a possibilidade de uma parede de palavras que aniquilam uma a uma o silêncio do canto
Um braço
até ao muro
O poema é devorado letra a letra por um silêncio que o atravessa sem tocar nas palavras nem no silêncio do poema
Na aridez do frio
nenhum insecto vibra
nem uma fibra estala
Quem pode erguer o canto
sem uma pedra
sem uma sombra
sem um grito
Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito
A impossibilidade do canto é talvez a possibilidade de um impossível canto Com as palavras nuas e vazias de uma pobreza exausta talvez possa ainda ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas e de frases na ausência do amor e no silêncio de um corpo destroçado
Só a página em branco
e a ferida sem nome
no silêncio
O sangue? Será sangue? No insondável silêncio em que se abismam as palavras?
Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra do silêncio inacessível o centro ausente da linguagem o extremo em que a palavra se destrói e renasce no grito que se cala na p a l a v r a
Obscura promessa do silêncio da palavra
A palavra nada diz
ou diz tudo
na iminência de o dizer
O silêncio fala na palavra ou é a palavra que devolve o silêncio à palavra que se segue ao espaço entre as palavras?
Um corpo não um corpo à distância de um corpo
no vazio da palavra
à espera da palavra
a palavra que ilumina o silêncio que ilumina a palavra
Um rosto incendiado ou só um rastro
branco na brancura
porquê oh porquê
não vejo mais que um sulco
um ponto
uma palavra?
Surgirá um dia o rosto deste rosto deserto?
E será ele o teu rosto que nunca será teu?
Na luz do eclipse
vejo um rosto vazio
um rosto ou rastro errante
— o luminoso enigma?
as sílabas do sol despedaçado intacto
Camões
Oh! que não sei que escrevo nem que falo!
Camões
Morrendo estou na vida e em morte vivo
Camões
Junto de um seco, fero e estéril monte
Camões
Quem gritaria se eu gritasse
se ———————
A impossibilidade do grito o não-grito do grito no ilegível silêncio entre as letras do livro letra a letra no livro
Vejo um muro branco
sem uma sombra
A impossibilidade do canto é a possibilidade de uma parede de palavras que aniquilam uma a uma o silêncio do canto
Um braço
até ao muro
O poema é devorado letra a letra por um silêncio que o atravessa sem tocar nas palavras nem no silêncio do poema
Na aridez do frio
nenhum insecto vibra
nem uma fibra estala
Quem pode erguer o canto
sem uma pedra
sem uma sombra
sem um grito
Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito
A impossibilidade do canto é talvez a possibilidade de um impossível canto Com as palavras nuas e vazias de uma pobreza exausta talvez possa ainda ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas e de frases na ausência do amor e no silêncio de um corpo destroçado
Só a página em branco
e a ferida sem nome
no silêncio
O sangue? Será sangue? No insondável silêncio em que se abismam as palavras?
Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra do silêncio inacessível o centro ausente da linguagem o extremo em que a palavra se destrói e renasce no grito que se cala na p a l a v r a
Obscura promessa do silêncio da palavra
A palavra nada diz
ou diz tudo
na iminência de o dizer
O silêncio fala na palavra ou é a palavra que devolve o silêncio à palavra que se segue ao espaço entre as palavras?
Um corpo não um corpo à distância de um corpo
no vazio da palavra
à espera da palavra
a palavra que ilumina o silêncio que ilumina a palavra
Um rosto incendiado ou só um rastro
branco na brancura
porquê oh porquê
não vejo mais que um sulco
um ponto
uma palavra?
Surgirá um dia o rosto deste rosto deserto?
E será ele o teu rosto que nunca será teu?
Na luz do eclipse
vejo um rosto vazio
um rosto ou rastro errante
— o luminoso enigma?
as sílabas do sol despedaçado intacto
1 200
António Ramos Rosa
Nada Se Transcreve Quando
Nada se transcreve quando
simplesmente se passa
num lugar Mas tudo vai transpor-se num silêncio de
passos sobre o chão feliz ou uma terra a descer em
cada linha
e cai no papel em chão deserto
ou um eco de um princípio
inacessível
Escrever é perder perder para respirar
simplesmente se passa
num lugar Mas tudo vai transpor-se num silêncio de
passos sobre o chão feliz ou uma terra a descer em
cada linha
e cai no papel em chão deserto
ou um eco de um princípio
inacessível
Escrever é perder perder para respirar
539
António Ramos Rosa
Um Pouco Um Quase Nada Não Para o Fogo da Palavra
Um pouco um quase nada Não para o fogo da palavra
Arde só o branco e são as folhas disjuntas unindo-se
desfazendo-se Incertas Exactas No despojamento
o fogo branco
e altas crespas ervas
percorridas pela sombra
Arde só o branco e são as folhas disjuntas unindo-se
desfazendo-se Incertas Exactas No despojamento
o fogo branco
e altas crespas ervas
percorridas pela sombra
1 161
António Ramos Rosa
Diante da Folha Branca…
Diante da folha branca. A tentação de escrever. Porquê? Que tenho eu para dizer? Nada. Talvez nada. Desisto. Não. O papel branco branco. Esta palavra «branco» é a primeira palavra? É o branco que me tenta antes de escrever. De súbito — como? o que se passa? — a primeira palavra, a primeira frase surgiu — irrompeu? O branco, a página? O branco da página? Uma página está cheia de caminhos. E que caminho escolher que caminho quando não se sabe qual o caminho ou se um caminho nos leva a algum lado? Mas escolho eu algum caminho? Faço eu acaso esta pergunta quando estou diante do papel? O que se passa ou não se passa ou vai passar-se o que está já a passar-se ainda antes de o texto principiar não é um problema a resolver (se fosse um problema, possivelmente nunca o resolveria, nunca poderia — começar a — escrever). Algo obscuro, de súbito, uma palavra, uma frase; um verso — explodiu? Eis que escrevo. Explodiu, disse, é talvez um exagero. Seria magnífico se o texto principiasse por essa bela metáfora: explosão. Que o texto, todo ele, fosse uma explosão. Por vezes, sim, por momentos e nem sempre logo no início… as palavras intensificam-se, tornam-se incandescentes? fluviais? a aridez do percurso volve-se na fluência de um insondável rio. Mas quantas vezes, que dificuldade! Como que escrevo para respirar fora dos caminhos conhecidos, fora das barreiras em que nos asfixiam(os). São os caminhos cheios de sentidos que se nos querem impor, que se nos impõem. Começo então a escrever. É uma aventura talvez sem sentido, vou talvez perder-me — como evitar o absurdo? Mas é preciso correr o risco do absurdo, é necessário que eu me perca. Trata-se de uma condição do acto de escrever, poderei talvez atingir alguma dimensão desconhecida. É indispensável não evitar tal risco, não temer perder-me ou, antes, temer e não temer perder-me. É necessário, pois, perder-me no sem-sentido, mas este não é o sem-sentido dos sentidos já não sentidos, por desgaste ou por demais sentidos na sua violência asfixiante. É uma busca obscura, incerta, cega, em que tento romper, abrir um caminho fora dos caminhos conhecidos — um caminho incerto entre mil caminhos ou um caminho que não o será talvez. Um caminho em que tudo é incerto porque os caminhos na página não estão traçados de antemão. E, no entanto, no incerto percurso há uma direcção obscura, indubitável. Uma palavra surge: espaço ou árvore e outras, tronco, insecto, pedra, palavras que traduzem um impulso e um desejo, um desejo que cresce e é já um ritmo, uma secreta vibração da língua, uma pulsação. Como que um oculto íman os atrai.
Que dizem estas palavras?
Que diz esta árvore
que não é exactamente a árvore que nós vemos
mas que na página respira
porque a palavra contém ar
e nela vibra o rumor do vento
como a árvore real que nós vemos lá fora?
As palavras dizem algo inicial
nascem da sede e do desejo
dizem e são a sede e o desejo
a pedra que era pedra e só pedra
é já mais do que pedra o próprio corpo
a dureza do corpo intacto
e de súbito a pedra de água
um novo caminho nasce, um novo espaço
a magia de uma imagem
e outra imagem
iluminam a página
Porque certas palavras se repetem no caminho
pedra folha insecto tronco
pedra pedra a pedra do poema
uma palavra uma pedra
as sílabas de um corpo
um sinal opaco
intenso
nítido
exacto
que nos diz o quê?
a pedra pulsa
fixa a pulsação
pedra palavra intensa
inexplicável
pura
O tronco é uma intensidade bronca
e branca
um trovão horizontal
a energia da língua vertical
da árvore
do corpo
a palavra mais forte sobre a página
a que implanta o intacto
a imagem mais visível do opaco
a sua identidade
inexplorável
O insecto o imperceptível quase
mínima forma
táctil
de um olhar
em que o ínfimo palpita
ao rés da terra ardente
Todo o poema é um tecido de relações
um corpo de palavras
e nesse corpo arde o desejo do corpo
O poema retorna sempre ao desejo inicial
insaciavelmente branco
incandescente
as palavras surgem renovadas
como se o poema as dissesse pela primeira vez
numa outra língua
mas é a mesma língua
de todos
um pouco mais nua
ardente
e branca
Que dizem estas palavras?
Que diz esta árvore
que não é exactamente a árvore que nós vemos
mas que na página respira
porque a palavra contém ar
e nela vibra o rumor do vento
como a árvore real que nós vemos lá fora?
As palavras dizem algo inicial
nascem da sede e do desejo
dizem e são a sede e o desejo
a pedra que era pedra e só pedra
é já mais do que pedra o próprio corpo
a dureza do corpo intacto
e de súbito a pedra de água
um novo caminho nasce, um novo espaço
a magia de uma imagem
e outra imagem
iluminam a página
Porque certas palavras se repetem no caminho
pedra folha insecto tronco
pedra pedra a pedra do poema
uma palavra uma pedra
as sílabas de um corpo
um sinal opaco
intenso
nítido
exacto
que nos diz o quê?
a pedra pulsa
fixa a pulsação
pedra palavra intensa
inexplicável
pura
O tronco é uma intensidade bronca
e branca
um trovão horizontal
a energia da língua vertical
da árvore
do corpo
a palavra mais forte sobre a página
a que implanta o intacto
a imagem mais visível do opaco
a sua identidade
inexplorável
O insecto o imperceptível quase
mínima forma
táctil
de um olhar
em que o ínfimo palpita
ao rés da terra ardente
Todo o poema é um tecido de relações
um corpo de palavras
e nesse corpo arde o desejo do corpo
O poema retorna sempre ao desejo inicial
insaciavelmente branco
incandescente
as palavras surgem renovadas
como se o poema as dissesse pela primeira vez
numa outra língua
mas é a mesma língua
de todos
um pouco mais nua
ardente
e branca
1 298
António Ramos Rosa
A Trave do Sol Pisada Entre Ramos
A trave do sol pisada entre ramos
A noite perto respira
Fragmentos de luz formam um pólen
sob os passos em branco
O sopro imóvel nas letras
sobre o solo
imóvel a palavra
o espaço alto de árvores negras
a nitidez da página o vento
que limpa e desloca estas palavras
A noite perto respira
Fragmentos de luz formam um pólen
sob os passos em branco
O sopro imóvel nas letras
sobre o solo
imóvel a palavra
o espaço alto de árvores negras
a nitidez da página o vento
que limpa e desloca estas palavras
1 180
António Ramos Rosa
Apontamentos Para Um Estudo Sobre Fernando Echevarría
APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO
SOBRE FERNANDO ECHEVARRÍA
Elogio da linha rítmica luminosa: verso.
Reaparecido o melodioso pássaro do número.
Visibilidade do fundo à superfície.
Torre lúcida de força harmoniosa.
A geometria com a música.
O conceito repentino, concêntrico (o timbre).
A estrutura — respiração.
A música que não flui sem as pedras das palavras.
A densidade clara, forte: o ritmo da energia, do intacto.
Pulsação e perfil da pedra.
rosa
O exacto esplendor — arrasa, fulgura: ————.
terramoto
O centro em cada palavra Cai arrasante.
Com coração
de grande terra sonora
A pedra-espelho: retina rua, dentro fora.
O infinito condicional. Sintaxe do incondicional.
Irrupção da rosa no seu rigor inicial.
A (im)pressão do compacto
a gestação
apresentando-se irrupção
re-presentando-se de um facto
e a fulguração-florescência
de forma virgem e completa:
o poema-rosa
A exactidão musical e plástica da dicção tensa flexibilidade do inflexível número
O viço e o vigor do vocábulo na dicção de pedra musical (branca-torre)
A pureza forte da palavra
palavra material
branca incandescência
de ritmo verde
Um novo canto e um novo en-canto:
a revolução entendida ao mesmo tempo como
um movimento de um astro
e uma insurreição da palavra no re-novo da revolução
A tradição
deixa de ser a traição de um esquecimento
e desdizendo-se retorna repentinamente
ao que gera a sua ficção.
O tempo do poema echevarriano é o tempo que um astro gasta em percorrer a sua órbita ou a girar em torno do seu eixo.
Amadurecimento. Gravitação.
O poema é uma rosa, uma torre, um astro
O poema é simultaneamente lento e repentino
com uma profunda ressonância
cuja profundidade
se resolve totalmente na superfície material verbal do poema
espessa e luminosa
subtil e grave
concêntrica
redonda:
Amadurece. Procura
sumos e pesos por dentro,
que cumulem a estrutura
de ti. Que te espera um centro
de escura gravitação
em terra. Com coração
de grande terra sonora.
Cai arrasante. Que o fruto
destruirá o tempo à hora
do golpe em que já te escuto.
SOBRE FERNANDO ECHEVARRÍA
Elogio da linha rítmica luminosa: verso.
Reaparecido o melodioso pássaro do número.
Visibilidade do fundo à superfície.
Torre lúcida de força harmoniosa.
A geometria com a música.
O conceito repentino, concêntrico (o timbre).
A estrutura — respiração.
A música que não flui sem as pedras das palavras.
A densidade clara, forte: o ritmo da energia, do intacto.
Pulsação e perfil da pedra.
rosa
O exacto esplendor — arrasa, fulgura: ————.
terramoto
O centro em cada palavra Cai arrasante.
Com coração
de grande terra sonora
A pedra-espelho: retina rua, dentro fora.
O infinito condicional. Sintaxe do incondicional.
Irrupção da rosa no seu rigor inicial.
A (im)pressão do compacto
a gestação
apresentando-se irrupção
re-presentando-se de um facto
e a fulguração-florescência
de forma virgem e completa:
o poema-rosa
A exactidão musical e plástica da dicção tensa flexibilidade do inflexível número
O viço e o vigor do vocábulo na dicção de pedra musical (branca-torre)
A pureza forte da palavra
palavra material
branca incandescência
de ritmo verde
Um novo canto e um novo en-canto:
a revolução entendida ao mesmo tempo como
um movimento de um astro
e uma insurreição da palavra no re-novo da revolução
A tradição
deixa de ser a traição de um esquecimento
e desdizendo-se retorna repentinamente
ao que gera a sua ficção.
O tempo do poema echevarriano é o tempo que um astro gasta em percorrer a sua órbita ou a girar em torno do seu eixo.
Amadurecimento. Gravitação.
O poema é uma rosa, uma torre, um astro
O poema é simultaneamente lento e repentino
com uma profunda ressonância
cuja profundidade
se resolve totalmente na superfície material verbal do poema
espessa e luminosa
subtil e grave
concêntrica
redonda:
Amadurece. Procura
sumos e pesos por dentro,
que cumulem a estrutura
de ti. Que te espera um centro
de escura gravitação
em terra. Com coração
de grande terra sonora.
Cai arrasante. Que o fruto
destruirá o tempo à hora
do golpe em que já te escuto.
1 059
António Ramos Rosa
Quando
Quando
não há sinal na noite em que se escreve o clarão é branco
alucinante o traço nulo marca no vazio o caminho
talvez um túnel ou descampado
a órbita branca oscila
a noite é que governa as sílabas
Há uma surpresa e um equilíbrio na intensidade
o vento treme o obscuro emigra
um aglomerado de pedras
e a torre de palavras e de fogo
não há sinal na noite em que se escreve o clarão é branco
alucinante o traço nulo marca no vazio o caminho
talvez um túnel ou descampado
a órbita branca oscila
a noite é que governa as sílabas
Há uma surpresa e um equilíbrio na intensidade
o vento treme o obscuro emigra
um aglomerado de pedras
e a torre de palavras e de fogo
1 069
António Ramos Rosa
Sucedem-Se As Imagens
Sucedem-se as imagens
sobre imagens
em busca de um alvo que recua a cada avanço inacessível
É preciso deter esta corrida e procurar o caminho da palavra
no branco que a desloca
suscitando
a nitidez nua de umas frases
que esparsas se reúnam num só corpo
sobre imagens
em busca de um alvo que recua a cada avanço inacessível
É preciso deter esta corrida e procurar o caminho da palavra
no branco que a desloca
suscitando
a nitidez nua de umas frases
que esparsas se reúnam num só corpo
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António Ramos Rosa
Como Dizer a Outra Face Num Vislumbre
Como dizer a outra face num vislumbre
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
uma figura respirando
na transparência
e a face transposta no suplício ou no prazer
das linhas
no branco o novo solo
Lê-las ou pisá-las com o estrume
tremendo no temor de estarem vivas
com raízes inextricáveis e vivazes
567
António Ramos Rosa
Será Viva Entre Acidentes
Será viva entre acidentes
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina
Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe a água nua
de uma figura incerta principia
Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina
Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe a água nua
de uma figura incerta principia
Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
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António Ramos Rosa
Escrever a Um Outro Nível de Crescimentos Simples De
Escrever a um outro nível de crescimentos simples de
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
914
António Ramos Rosa
Dizem Que É Jardim
Dizem que é jardim
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
935
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
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