Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!

Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
1 584
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Animal Te Chamei, Te Chamo E Chamo

Animal te chamei, te chamo e chamo
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.

O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.

Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.

Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
1 145
Rui Costa

Rui Costa

Bar do acaso

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro

e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.

654
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Meu Trabalho É Este Sobre a Página Branca

O meu trabalho é este sobre a página branca
com a lâmpada branca desvendar as cores
do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,
dilatação de vasos, circulação de rios.

Ordenar lá do fundo o vigor que me impele
e me converte na força da página vivida
por um sangue de amar e de rasgar as folhas,
unir na casa única a multiplicidade.

Meu amor — agora sim — posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.

Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.
975
Rui Costa

Rui Costa

A peça

A menina à porta do teatro
não faz parte da peça. Pelo
menos até ao momento
em que começo a imaginar-lhe
um outro vestido. Ela vê o
aproximar-me da porta e
quase olha para o escuro
da sala: Percebe-se que
acabo de fazer uma escolha.
Ela agora vai esquecer-se de
mim, inventar um homem que
entra numa sala como a fugir
da luz.
E no entanto é isto que fizemos

sempre.

311
Rui Costa

Rui Costa

Não são poemas

Não são poemas o que eu escrevo
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo
São espelhos onde os rostos principiam.

583
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Ritual

seus olhos
ovulam um verde mediterrâneo
espermatozóides
agitam-se em gôndolas
sua língua
passeia em minha boca
meu pênis
endurece e penetra sua vagina

gozemos
há um ritual de procriação
mergulhado
nesses olhos verdes
: quem sabe
dele nascerá algum poeminha?

1 063
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nascer Com a Palavra

à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página

É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome

Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave

Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta

Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo

Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..

Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida

As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia

Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
1 020
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Exploração Submarina

a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam

de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto

primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente

aqui mais forte o nome

da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando

o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro                 onde culminam
secretas palavras                     que iluminam um rosto

as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas

evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo             O corpo abre-se

Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água

a pupila dilata-se

a pele entrega-se             só um corpo
existe             entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)

e a figura ilumina-se

no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa

Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase                                 e os vários níveis
dos templos                                    do tempo

(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado

um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 004
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Em Abandono Límpido Tocar

Em abandono límpido tocar
a margem ou centro sob o sol
no perfeito e inacabado arco
do poema

em delírio de um avanço no silêncio
incorporar o escuro sopro de uma sombra
percurso lúcido e essencial de uma palavra
até ao limite intransponível
até ao hálito inicial
de uma boca
de terra e ar
fresca do silêncio no avanço
de um espaço branco e negro
margem e centro terra sempre
no fundo a secreta praia lisa
talvez o incessante respirar
992
Maria Carlos Loureiro

Maria Carlos Loureiro

Primeiro foram os dedos

Primeiro foram os dedos
que travaram conhecimento.
Depois os olhos pousaram-me
na mão e levaram-na a percorrer
a curva da cintura. E a sua boca
procurou a minha boca
sem sobressaltos e deixou-a depois
para percorrer o meu corpo.

É assim a descoberta do poeta,
apesar de tudo se passar na sua cabeça,
dando origem a mais um poema.

770
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Imediato Descobrir do Ar

No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
1 022
Amália Bautista

Amália Bautista

Xerazade

Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.

569
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 208
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Página Final

A página final
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil

A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos

tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
510
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

49 - MOOD

My thoughts are something my soul fears.
        I tremble at my very glee.
        Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
        A lust‑like spirituality.

It makes me one with all the grass.
        My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
        Shakes off red petals from my hours
        And my heart sulters without showers.

Then God becomes a vice of mine
        And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
        And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.

My thoughts and feelings mingle and form
        A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
        A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.

My parched thoughts mix and occupy
        Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
        Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.

I am a drunkard of my thoughts.
        My feelings' juice o'erruns my soul.
        My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
        To beauty in my verses' dole.
1 531
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

The unending gift

Un pintor nos prometió un cuadro.
Ahora, en New England, sé que ha muerto. Sentí, como otras
veces, la tristeza de comprender que somos como un sueño.
Pensé en el hombre y en el cuadro perdidos.
(Sólo los dioses pueden prometer, porque son inmortales.)
Pensé en un lugar prefijado que la tela no ocupará.
Pensé después: si estuviera ahí, sería con el tiempo una cosa más,
una cosa, una de las vanidades o hábitos de la casa;
ahora es ilimitada, incesante, capaz de cualquier forma y
cualquier color y no atada a ninguno.
Existe de algún modo. Vivirá y crecerá como una música y
estará conmigo hasta el fin. Gracias, Jorge Larco.
(También los hombres pueden prometer, porque en la promesa
hay algo inmortal.)


"Elogio de la sombra" (1969)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 302 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
3 104
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre o Frio E o Sol

A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.

Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?

Nenhum ardor possível.

Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.

Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.

Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.

A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.

Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.

Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.

O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 036
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Invocación a Joyce

Dispersos en dispersas capitales,
solitarios y muchos,
jugábamos a ser el primer Adán
que dio nombre a las cosas.
Por los vastos declives de la noche
que lindan con la aurora,
buscamos (lo recuerdo aún) las palabras
de la luna, de la muerte, de la mañana
y de los otros hábitos del hombre.
Fuimos el imagismo, el cubismo,
los conventículos y sectas
que las crédulas universidades veneran.
Inventamos la falta de puntuación,
la omisión de mayúsculas,
las estrofas en forma de paloma
de los bibliotecarios de Alejandría.
Ceniza, la labor de nuestras manos
y un fuego ardiente nuestra fe.
Tú, mientras tanto, forjabas
en las ciudades del destierro,
en aquel destierro que fue
tu aborrecido y elegido instrumento,
el arma de tu arte,
erigías tus arduos laberintos,
infinitesimales e infinitos,
admirablemente mezquinos,
más populoso que la historia.
Habremos muerto sin haber divisado
la biforme fiera o la rosa
que son el centro de tu dédalo,
pero la memoria tiene sus talismanes,
sus ecos de Virgilio,
y así en las calles de la noche perduran
tus infiernos espléndidos,
tantas cadencias y metáforas tuyas,
los oros de tu sombra.
Qué importa nuestra cobardía si hay en la tierra
un sólo hombre valiente,
qué importa la tristeza si hubo en el tiempo
alguien que se dijo feliz,
que importa mi perdida generación,
ese vago espejo,
si tus libros la justifican.
Yo soy los otros. Yo soy todos aquellos
que ha rescatado tu obstinado rigor.
Soy los que no conoces y los que salvas.


"Elogio de la sombra" (1969)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 321 e 322 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 237
Liz Christine

Liz Christine

Dor

Sozinha e vulnerável
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar

O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada

997
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ponto — Traço

Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
1 030
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Sorriso No Silêncio

a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.

Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?

Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!

Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
504
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Elefante

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente.
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no nó
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
1 527
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Daqui Deste Deserto Em Que Persisto

Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 197