Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Marcus Accioly
XVIII - Do Improviso
— Vamos rimar pé quebrado?
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.
— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...
— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...
— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...
— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...
— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?
— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.
— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...
— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...
— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...
— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...
— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?
— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
1 373
Bocage
Em louvor do grande Camões
Sobre os contrários o terror e a morte
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teuco forte:
Embora o bravo Macedónio corte
Coa fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:
Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:
Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O céu de Amor, o inferno do Ciúme.
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teuco forte:
Embora o bravo Macedónio corte
Coa fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:
Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:
Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O céu de Amor, o inferno do Ciúme.
1 942
Marcus Accioly
VII - Do Caminhão no Caminho-Grande
Caminhão de tábua
de descer ladeira
desço numa prise
subo na primeira
passo a reduzida
meto o pé no freio
caminhão de tábua
carro-de-passeio.
— Chevrolet ou Ford?
— Não tem marca assim.
— Tem muita ferrugem?
— Tem muito cupim.
— Tem boa buzina?
— Tem o seu au-au.
— Tem os pneus novos?
— Tem rodas de pau.
Caminhão de tábua
muito corredor
pois qualquer descida
serve de motor
sua gasolina
não precisa não
pois ele é de tábua
mas é caminhão.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.27-28. (Série biblioteca juvenil
de descer ladeira
desço numa prise
subo na primeira
passo a reduzida
meto o pé no freio
caminhão de tábua
carro-de-passeio.
— Chevrolet ou Ford?
— Não tem marca assim.
— Tem muita ferrugem?
— Tem muito cupim.
— Tem boa buzina?
— Tem o seu au-au.
— Tem os pneus novos?
— Tem rodas de pau.
Caminhão de tábua
muito corredor
pois qualquer descida
serve de motor
sua gasolina
não precisa não
pois ele é de tábua
mas é caminhão.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.27-28. (Série biblioteca juvenil
1 352
Armando Freitas Filho
Calder
para Mário Pedrosa
Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia
desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio
medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento
oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo
célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.
Publicado no livro Dual, 1963/1966 (1966).
In: CHAMIE, Mário. Instauração práxis I: manifestos, plataformas, textos e documentos críticos, 1959 a 1972. São Paulo: Quíron, 1974. v.1, p.188. (Logos. Série crítica e história literária, 3
Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia
desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio
medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento
oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo
célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.
Publicado no livro Dual, 1963/1966 (1966).
In: CHAMIE, Mário. Instauração práxis I: manifestos, plataformas, textos e documentos críticos, 1959 a 1972. São Paulo: Quíron, 1974. v.1, p.188. (Logos. Série crítica e história literária, 3
1 216
Antônio Massa
Gozo
o poetasonhaabsorveamadespeama de novoadornae eterniza a palavra com o suor do seu íntimo
1 040
Ilka Brunhilde Laurito
VIII [Olhos que tacteais este poema
Olhos que tacteais este poema
como instruídos dedos
sobre as nervuras do espalmar
do texto,
olhos, lúcidos parceiros
da voz alinhavada em letras,
a luz que vos guia o íntimo
passeio,
cegos videntes,
é a que decifra os gestos desta
mão
que fala e canta
imprimindo as rugas do seu
críptico desenho
na lisa pele do papel em branco.
Leitor,
meu quiroamante.
Poema integrante da série Máquina de Escrever.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
como instruídos dedos
sobre as nervuras do espalmar
do texto,
olhos, lúcidos parceiros
da voz alinhavada em letras,
a luz que vos guia o íntimo
passeio,
cegos videntes,
é a que decifra os gestos desta
mão
que fala e canta
imprimindo as rugas do seu
críptico desenho
na lisa pele do papel em branco.
Leitor,
meu quiroamante.
Poema integrante da série Máquina de Escrever.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
1 163
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
841
Sebastião Uchoa Leite
Biografia de uma Idéia
ao fascínio do poeta pela palavra
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 552
Cida Villela
Decepção
Suave, serenamente,
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.
Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
Olhava em seus olhos,
Distantes dos meus,
E a cada olhar,
Por demais atento,
Brotavam, em pensamento,
Versos que seriam seus.
Então desejei amar você.
Juntar palavras a te definir.
Mas antes que eu conseguisse
Definir-te em versos,
Com um simples gesto,
Mero falar,
Conseguiste de súbito
Meus versos quebrar
1 133
Flora Figueiredo
A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
1 375
Raniere Rodrigues dos Santos
Sou Poeta
Para provar que sou poeta
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
828
Raul de Leoni
Platônico
As idéias são seres superiores,
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.
Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.
Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,
Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.
Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.
Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,
Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.
1 609
Rosani Abou Adal
Semifusa de Pétalas
Se as rosas expressassem meus sentimentos,
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
914
Rosani Abou Adal
Imagens
Meus pensamentos voam até o pico,
alcançam a mais alta altitude.
Alguns metros abaixo voltam
a respiram, sorrir,
pensar e sonhar.
Sonham com um céu lilás,
observam estrelas cadentes.
Eles não têm medo de nada,
respiram fundo e descem ao abrigo.
O guarda da guarita tem medo
de atravessar as fronteiras da imaginação.
Meus pensamentos voam, descem o morro,
avistam cachoeiras, mares, lagos,
um casebre atrás das árvores,
homens amando na grama,
borboletas pousam nas pétalas,
crianças sorrindo e brincando,
um bando de passarinhos cantando.
Meus pensamentos voam até a base
e voltam à plenitude.
alcançam a mais alta altitude.
Alguns metros abaixo voltam
a respiram, sorrir,
pensar e sonhar.
Sonham com um céu lilás,
observam estrelas cadentes.
Eles não têm medo de nada,
respiram fundo e descem ao abrigo.
O guarda da guarita tem medo
de atravessar as fronteiras da imaginação.
Meus pensamentos voam, descem o morro,
avistam cachoeiras, mares, lagos,
um casebre atrás das árvores,
homens amando na grama,
borboletas pousam nas pétalas,
crianças sorrindo e brincando,
um bando de passarinhos cantando.
Meus pensamentos voam até a base
e voltam à plenitude.
956
Márcia Cristina Silva
Viagem vital
Às vezes
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
1 076
Myriam Fraga
Possessão
O poema me tocou
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
1 735
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 343
Adailton Medeiros
Pré-texto para Cassiano Ricardo
amanhã o bom dia
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
949
António Manuel Couto Viana
Poesia
Com a mão alada procuroO emocional desenho puro:A linha é frágil; o verso é duro.
A claridade dos cimos!Por alcançar nos desmedimos:Turvam a fonte os humanos limos.
Fique meu gesto suspensoComo o branco sinal dum lençoPor sobre o mundo noturno e imenso.
A claridade dos cimos!Por alcançar nos desmedimos:Turvam a fonte os humanos limos.
Fique meu gesto suspensoComo o branco sinal dum lençoPor sobre o mundo noturno e imenso.
1 444
Aleilton Fonseca
teoria particular (mas nem tanto) do poema
1
ovídio: escrever 200 versos
para, dentre, recolher 20 linhas
que contivessem a poesia
de todo o processo:
mas o caudal imenso
não se investe só dos vestidos
da forma nem se conforma
2
mas, há o tempo: é preciso,
por humana deficiência,
o instante grafado:
embora o fluxo da essência,
contínuo, jamais se desfaça
na mão: o poema acabado,
tal como lemos,
é somente convenção
3
pois
o que acaba de se compor,
já desmorona,
se desdiz, se rediz, mildiz,
novas palavras no invento,
novo inventário
em dez dobras vezes n
desdobra-se
no princípio
e agora e sempre
4
a ilíada são muitas ilíadas,
quão homeros a escrevê-la
e talvez por concluí-la ainda:
as estrofes que agora lemos
à falta da mão de homero
damos então por findas
5
mas no poema: cada verso,
é reverso do verso, diverso
no próximo segundo;
cada palavra cede
seu lugar, chama
a outra, que logo apaga,
outra chama, reacende sílabas,
rimas, sentidos,
rios incontidos
6
os lusíadas de camões,
o que lhe sobrou de naufrágios,
para sempre incompletos
daquilo que virou água,
ou que ficou disperso,
dos versos tornados mares,
onde camões? (oh, finitude!)
para prosseguir o que não deu tempo:
com engenho e virtude
e arte
7
o poema muda
de cor e de nome a cada piscar
de olhos,
se alonga, se encurta,
cada rima some
no som que emite
e transmite a centelha
à outra rima, parelha:
corrida de som infinda
poemando-se
8
baudelaire reescreveu as flores
até o fim de sua vida
e as flores ali contidas
não estão terminadas,
a não ser por convenção
e favor à comodidade:
baudelaire houvesse vivo,
as flores contínuas, mudadas
9
cada versão, tal rima a esmo,
reinscritos versos,
os ex-certos, nem mais
nem menos certos,
o mesmo intérmino texto,
em eterno palimpsesto
10
os calligrammes de apollinaire
necessitam de revisão:
pena que o poeta
não esteja aqui a fazê-la
e que assim seja
"para o bem da convenção"
11
pois o poeta e o poema,
entre si adotados, convivem
diários, instantâneos, côngruos,
mesmo se esquecidos um do outro
cada um é outro e o mesmo;
que a cada golpe de ar
novos sensos se acumulam
nos joelhos das palavras
12
quantas pe(r)sso(n)as e vozes
no baú de inéditos do pessoa
à espera de nome e signo
e profissão e biografia:
e não fosse a vã cirrose
quantas mensagens ele a refaria?
13
o poema é o fazer incompleto,
o refazer nunca pronto
14
pois o poema,
já no instante que pronto,
já recomeça,
em processo difuso,
inconcluso,
intransitivo, de re-flexões:
15
que não há o poema particípio,
mas sempre o poema gerúndio
em constante fervura:
é novo e outro, na leitura,
nos reciclos dos segundos
16
o poema que se lê
é tábua de aproximação
17
o poema publicado: trato caduco,
que junto ao poeta já está mudado:
mesmo que não o mude a letra,
mesmo que não o mude a rima,
que não mais o toque,
por respeito ao senhor editor,
por respeito ao senhor leitor,
ao senhor pesquisador
ao senhor louvor:
mesmo que o poeta
assine a convenção do texto
pronto (para o mercado?)
ou mesmo abandone o texto,
a pretexto de acabado,
o poema disporá da hora
de ser outra vez revelado
se outra voz o adota
18
e o poeta, com seu texto pronto,
se já se embebe de elogios eunucos
já saliva manifestações de apreço,
e a poesia paga o preço
19
o poema publicado:
mera marca provisória,
impresso para as provas
de que se faz a história:
é o rastro de um vôo veloz
que poesia é rio que recomeça na foz;
quando se digita o ponto
final, já é hora de apagá-lo
que a corrente segue em frente,
os seus elos sem intervalo
20
contudo, pobres humanos,
só sabemos existir
imprecisos
entre pausas: comer, beber
ir ao banheiro,
ganhar e gastar dinheiro,
dormir, sonhar, sorrir;
as causas para o viver
a pausa para morrer:
a poesia perde por esperar
21
somente em alguns momentos
somos o poeta, em vigília e fé:
em que a poesia, nosso invento,
nos inventa
e nos dá a concessão do poema,
mero quadro, em interrupção,
que ela é onda contínua em nós
mesmo se nos deixa sós
22
então, poetas,
que já me ensinam o sem início
nem fim:
o ponto final, abolido!
o ponto inicial, abolido!
o começo, simples acerto de pares,
o fim o sem-fim inumérico,
infinita água de mares,
o poema dito no instante
que a poesia o dita
23
pois a poesia, estado de ser,
não se captura no humano molde
de letras; ela resiste e insiste
diante dos olhos invisíveis
do poeta que se sabe seu
que a sabe sua,
e sabe: a poesia nua,
companheira e algoz,
toma-lhe o fôlego e a voz,
suspende suas noites,
retira-o da vida, e, num átimo,
se entrega por um instante
entremostra-se, falso-domada
em registro parcial
da luta jamais vã,
mal rompe a manhã
24
a poesia: o rosto na água;
o poema, sua inconstante
aparência, forma mutante,
em recorrência, minúsculas
mudanças em contínua
ação
25
poetas, retomem os seus poemas
despregando-os do papel impresso,
raspando-os da tinta áfona,
em renovada contradança
de metáforas em processo:
o poema, colado no branco da página,
clama por fluir e refluir
em novas sintaxes,
em novas vírgulas,
em novos sentidos;
desdobrar-se em leques vários,
entremostrar, desde as entrelinhas,
seus novos significandos
em poessência
26
que se o poema se esgota,
da poesia abandonado,
torna-se somente corpus,
de pesquisa e enunciados,
em autópsia textual
que lhe decreta o sentido,
em seu mais "último grau",
de seus versos dissecados
27
oh, amém, poema finado
28
mas não há a poesia finita,
mas corrente, em espiral, sem termo
o poema é o instante,
dessa corrente em passagem
re-fulminante,
diante dos olhos atônitos
do poeta, às vezes surpreso,
em agônico gesto
29
o poema re-preso no papel,
em tinta enformado,
sob tratos cosméticos, convencionados,
esconde sua verdade;
o poema é mais que o brilho de letras
para olhos desavisados,
e, como não há parto asséptico,
assim nasce, corpo de palavras,
entre suor e risos e gases e lágrimas
30
sempre o poema-sendo-ando-indo,
em gerundivo estando, em contínuo...
aleilton fonseca, sp, ago 94
nota
4Eet/c.js>
ovídio: escrever 200 versos
para, dentre, recolher 20 linhas
que contivessem a poesia
de todo o processo:
mas o caudal imenso
não se investe só dos vestidos
da forma nem se conforma
2
mas, há o tempo: é preciso,
por humana deficiência,
o instante grafado:
embora o fluxo da essência,
contínuo, jamais se desfaça
na mão: o poema acabado,
tal como lemos,
é somente convenção
3
pois
o que acaba de se compor,
já desmorona,
se desdiz, se rediz, mildiz,
novas palavras no invento,
novo inventário
em dez dobras vezes n
desdobra-se
no princípio
e agora e sempre
4
a ilíada são muitas ilíadas,
quão homeros a escrevê-la
e talvez por concluí-la ainda:
as estrofes que agora lemos
à falta da mão de homero
damos então por findas
5
mas no poema: cada verso,
é reverso do verso, diverso
no próximo segundo;
cada palavra cede
seu lugar, chama
a outra, que logo apaga,
outra chama, reacende sílabas,
rimas, sentidos,
rios incontidos
6
os lusíadas de camões,
o que lhe sobrou de naufrágios,
para sempre incompletos
daquilo que virou água,
ou que ficou disperso,
dos versos tornados mares,
onde camões? (oh, finitude!)
para prosseguir o que não deu tempo:
com engenho e virtude
e arte
7
o poema muda
de cor e de nome a cada piscar
de olhos,
se alonga, se encurta,
cada rima some
no som que emite
e transmite a centelha
à outra rima, parelha:
corrida de som infinda
poemando-se
8
baudelaire reescreveu as flores
até o fim de sua vida
e as flores ali contidas
não estão terminadas,
a não ser por convenção
e favor à comodidade:
baudelaire houvesse vivo,
as flores contínuas, mudadas
9
cada versão, tal rima a esmo,
reinscritos versos,
os ex-certos, nem mais
nem menos certos,
o mesmo intérmino texto,
em eterno palimpsesto
10
os calligrammes de apollinaire
necessitam de revisão:
pena que o poeta
não esteja aqui a fazê-la
e que assim seja
"para o bem da convenção"
11
pois o poeta e o poema,
entre si adotados, convivem
diários, instantâneos, côngruos,
mesmo se esquecidos um do outro
cada um é outro e o mesmo;
que a cada golpe de ar
novos sensos se acumulam
nos joelhos das palavras
12
quantas pe(r)sso(n)as e vozes
no baú de inéditos do pessoa
à espera de nome e signo
e profissão e biografia:
e não fosse a vã cirrose
quantas mensagens ele a refaria?
13
o poema é o fazer incompleto,
o refazer nunca pronto
14
pois o poema,
já no instante que pronto,
já recomeça,
em processo difuso,
inconcluso,
intransitivo, de re-flexões:
15
que não há o poema particípio,
mas sempre o poema gerúndio
em constante fervura:
é novo e outro, na leitura,
nos reciclos dos segundos
16
o poema que se lê
é tábua de aproximação
17
o poema publicado: trato caduco,
que junto ao poeta já está mudado:
mesmo que não o mude a letra,
mesmo que não o mude a rima,
que não mais o toque,
por respeito ao senhor editor,
por respeito ao senhor leitor,
ao senhor pesquisador
ao senhor louvor:
mesmo que o poeta
assine a convenção do texto
pronto (para o mercado?)
ou mesmo abandone o texto,
a pretexto de acabado,
o poema disporá da hora
de ser outra vez revelado
se outra voz o adota
18
e o poeta, com seu texto pronto,
se já se embebe de elogios eunucos
já saliva manifestações de apreço,
e a poesia paga o preço
19
o poema publicado:
mera marca provisória,
impresso para as provas
de que se faz a história:
é o rastro de um vôo veloz
que poesia é rio que recomeça na foz;
quando se digita o ponto
final, já é hora de apagá-lo
que a corrente segue em frente,
os seus elos sem intervalo
20
contudo, pobres humanos,
só sabemos existir
imprecisos
entre pausas: comer, beber
ir ao banheiro,
ganhar e gastar dinheiro,
dormir, sonhar, sorrir;
as causas para o viver
a pausa para morrer:
a poesia perde por esperar
21
somente em alguns momentos
somos o poeta, em vigília e fé:
em que a poesia, nosso invento,
nos inventa
e nos dá a concessão do poema,
mero quadro, em interrupção,
que ela é onda contínua em nós
mesmo se nos deixa sós
22
então, poetas,
que já me ensinam o sem início
nem fim:
o ponto final, abolido!
o ponto inicial, abolido!
o começo, simples acerto de pares,
o fim o sem-fim inumérico,
infinita água de mares,
o poema dito no instante
que a poesia o dita
23
pois a poesia, estado de ser,
não se captura no humano molde
de letras; ela resiste e insiste
diante dos olhos invisíveis
do poeta que se sabe seu
que a sabe sua,
e sabe: a poesia nua,
companheira e algoz,
toma-lhe o fôlego e a voz,
suspende suas noites,
retira-o da vida, e, num átimo,
se entrega por um instante
entremostra-se, falso-domada
em registro parcial
da luta jamais vã,
mal rompe a manhã
24
a poesia: o rosto na água;
o poema, sua inconstante
aparência, forma mutante,
em recorrência, minúsculas
mudanças em contínua
ação
25
poetas, retomem os seus poemas
despregando-os do papel impresso,
raspando-os da tinta áfona,
em renovada contradança
de metáforas em processo:
o poema, colado no branco da página,
clama por fluir e refluir
em novas sintaxes,
em novas vírgulas,
em novos sentidos;
desdobrar-se em leques vários,
entremostrar, desde as entrelinhas,
seus novos significandos
em poessência
26
que se o poema se esgota,
da poesia abandonado,
torna-se somente corpus,
de pesquisa e enunciados,
em autópsia textual
que lhe decreta o sentido,
em seu mais "último grau",
de seus versos dissecados
27
oh, amém, poema finado
28
mas não há a poesia finita,
mas corrente, em espiral, sem termo
o poema é o instante,
dessa corrente em passagem
re-fulminante,
diante dos olhos atônitos
do poeta, às vezes surpreso,
em agônico gesto
29
o poema re-preso no papel,
em tinta enformado,
sob tratos cosméticos, convencionados,
esconde sua verdade;
o poema é mais que o brilho de letras
para olhos desavisados,
e, como não há parto asséptico,
assim nasce, corpo de palavras,
entre suor e risos e gases e lágrimas
30
sempre o poema-sendo-ando-indo,
em gerundivo estando, em contínuo...
aleilton fonseca, sp, ago 94
nota
4Eet/c.js>
1 213
Aleilton Fonseca
o(fí)cio
há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
1 192
Nuno Júdice
Extractos
Uma distracção que prolonga o alfabeto
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
- tal é o sentido actual das minhas palavras.
Voo sobre as linhas semelhantes, as outras asas;
elas dissipam a turbulência dos meus gestos, prevendo
que vou cair. Já não é possível a exploração interior de
[um espírito calcinado.
De cada vez que me impeço de ser preciso
vomito água pelas orelhas. Surgirá um barco?
O monótono enjoo do mar,
a inteligente mecânica do fumo.
Compreenda-se a minha atitude.
Para que é que sirvo durante um tremor de alma?
Para que é que me fecho num canto?
Senti que a obstinação do ritmo romperia algo na vida.
Voei sem asas, sem a vertigem da altitude, sem sentimento para
[o Azul.
Como se a literatura se ficasse pelo chão...
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 78 | Quetzal Editores, 1991
1 123
Nuno Júdice
Outono
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folham juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 30 | Quetzal Editores, 1991
1 694
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
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