Poemas neste tema
Corpo
Manuel Bandeira
Idílio na Praia
Nudez anatômica
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
1 163
Lúcia Helena de Andrade
Retrato de um Homem
Eu quero um homem
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
763
Lúcio José Gusman
O pirilampo
Um pirilampo indiscreto,
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.
Mas eu não sou o pirilampo...
920
Augusto Massi
Siesta
O sangue fluindo,
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 000
Lúcio José Gusman
Sabor
E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
852
Luís Filipe Castro Mendes
Lendo Traduções de Poemas Antigos
(traduções de poemas sânscritos)
Que ficará das palavras
que tantos escreveram sobre a terra?
Às vezes, num velho mosteiro, aparece um rolo
manuscrito e os poemas sânscritos são tão vivos, maliciosos,
e ao mesmo tempo tão obedientes às fórmulas e às metáforas
consagradas,
como os poemas helenísticos da Antologia Palatina.
Um mesmo espírito liga esses gregos romanizados
aos hindus decadentes e fesceninos que tais versos escreveram
no oitavo século já da nossa era.
Os corpos reinam: próximos, confundem-se
numa aproximação eterna de tão efémera
e assumidamente mortal. Eram assim os deuses, dizes?
Algum dia saberemos?
1 252
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Onda Arrasta Ainda Outra Sombra
A sombra de uma onda arrasta ainda outra sombra.
À onda de uma sombra sucede-se outra onda.
Ao meu cavalo perdido hei-de abrir o caminho
de outro cavalo mais forte e a tudo simultâneo.
O verde azul sombrio de uma colina ou nuvem.
(A tempestade arrebatou-te as vestes). Nus
somos agora a verde água de um seio
e o pão branco da casa sobre as dunas.
Despidos ao sol somos animais fulvos, vermelhos,
dos elementos nutrindo-se à sombra do cavalo,
à claridade do ócio e nas traves dos barcos.
O dia. Os seios. A água. A sombra. A luz. A febre.
Rodopia uma roda do pulso até à árvore
num céu todo aberto à sede mais feliz.
À onda de uma sombra sucede-se outra onda.
Ao meu cavalo perdido hei-de abrir o caminho
de outro cavalo mais forte e a tudo simultâneo.
O verde azul sombrio de uma colina ou nuvem.
(A tempestade arrebatou-te as vestes). Nus
somos agora a verde água de um seio
e o pão branco da casa sobre as dunas.
Despidos ao sol somos animais fulvos, vermelhos,
dos elementos nutrindo-se à sombra do cavalo,
à claridade do ócio e nas traves dos barcos.
O dia. Os seios. A água. A sombra. A luz. A febre.
Rodopia uma roda do pulso até à árvore
num céu todo aberto à sede mais feliz.
1 042
António Ramos Rosa
Animal Te Chamei, Te Chamo E Chamo
Animal te chamei, te chamo e chamo
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
1 145
António Lobo de Carvalho
Soneto CXXXIX
A um sargento-mor de Alcácer, por nome Pedro de tal,
que mandava o seu retrato à sua noiva
Soneto CXXXIX
que mandava o seu retrato à sua noiva
Soneto CXXXIX
Um olho cor de esponja, outro albacento,
cinco dentes fronteiros putrefactos,
casaca, veste, e todos os mais fatos
tudo roupa de preso, assaz nojento:
A peruca, de pêlo de jumento;
a bolsa, ninho de um casal de ratos,
as tombas sempre avulsas nos sapatos,
besuntadas as meias de ungento:
Este o Pedro primeiro galicado,
que tem sido da história para adorno
do exército de putas atacado:
Com que, Filis, falemos sem suborno:
veja você, depois de estar casado,
se um traste destes deixa de ser corno?
cinco dentes fronteiros putrefactos,
casaca, veste, e todos os mais fatos
tudo roupa de preso, assaz nojento:
A peruca, de pêlo de jumento;
a bolsa, ninho de um casal de ratos,
as tombas sempre avulsas nos sapatos,
besuntadas as meias de ungento:
Este o Pedro primeiro galicado,
que tem sido da história para adorno
do exército de putas atacado:
Com que, Filis, falemos sem suborno:
veja você, depois de estar casado,
se um traste destes deixa de ser corno?
(Poesias Joviais e Satíricas)
1 388
Leila Mícollis
Poema ao Mais Recente Amor
Estar entre teus pêlos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1993. v.4, p.5
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1993. v.4, p.5
1 184
Juan Gelman
claro que morrerei
claro que morrerei e hão de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente
claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra
eu cá não quero caixão
nem roupa
que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente
claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra
eu cá não quero caixão
nem roupa
que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
1 765
António Ramos Rosa
Entre o Desejo E As Flores As Raparigas Altas
Entre o desejo e as flores as raparigas altas
medem a densidade de uma pureza impura,
jogam o jogo intenso da majestade e usura,
raparigas levadas pelas linhas fluentes.
Viver as raparigas no pudor da negrura,
vivê-las altamente e pelas suas virilhas,
tomá-las o mais rápido até ao centro delas,
rodopiando o fogo no ventre de merecê-las.
Ó vivas raparigas da cor do próprio alento,
aprisionai-me a um muro ou entre vós eu caia
no perfume desatado dos vossos corpos límpidos.
medem a densidade de uma pureza impura,
jogam o jogo intenso da majestade e usura,
raparigas levadas pelas linhas fluentes.
Viver as raparigas no pudor da negrura,
vivê-las altamente e pelas suas virilhas,
tomá-las o mais rápido até ao centro delas,
rodopiando o fogo no ventre de merecê-las.
Ó vivas raparigas da cor do próprio alento,
aprisionai-me a um muro ou entre vós eu caia
no perfume desatado dos vossos corpos límpidos.
993
Angela Santos
Alvorecer
Será
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
1 131
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nossa Senhora da Piedade
Acolho-te em meus braços
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
1 060
Bruna Lombardi
COR DE MARAVILHA
Confesso que mal o conheço mas meu desejo é igual
cacho amarelo de acácia imperial
tenho braços fortes e pernas grossas
exibo o que posso, o que não dê
demais intimidade
mas às vezes perco a cabeça, faço coisas
de que me espanto mais tarde
- é tão fraca minha força de vontade-
Ontem à noite por causa de umas estrelas
e de umas coisas duvidosas
entrei no quarto dele, tirei o vestido
e me abri como uma rosa
ele olhava maravilhado
essa mulher tão generosa.
cacho amarelo de acácia imperial
tenho braços fortes e pernas grossas
exibo o que posso, o que não dê
demais intimidade
mas às vezes perco a cabeça, faço coisas
de que me espanto mais tarde
- é tão fraca minha força de vontade-
Ontem à noite por causa de umas estrelas
e de umas coisas duvidosas
entrei no quarto dele, tirei o vestido
e me abri como uma rosa
ele olhava maravilhado
essa mulher tão generosa.
2 953
Angela Santos
Escrita Invisível
Quando as
palavras, imprecisas
derem lugar aos sinais
de um corpo indiviso
metáfora do ser.....
Quando deitada
num chão de luz, te disser:
vem, atravessa comigo, este caminho
que outros não trilharam
ou se o fizeram, o chamado
de um chão virgem não sentiram
Crê, a voz que chama
ressoa do que em mim
resta de uma estrela,
do magma vulcânico,
dos corpúsculos e cristais
da memória longínqua e viva
que a minha alma
em ti procura.
palavras, imprecisas
derem lugar aos sinais
de um corpo indiviso
metáfora do ser.....
Quando deitada
num chão de luz, te disser:
vem, atravessa comigo, este caminho
que outros não trilharam
ou se o fizeram, o chamado
de um chão virgem não sentiram
Crê, a voz que chama
ressoa do que em mim
resta de uma estrela,
do magma vulcânico,
dos corpúsculos e cristais
da memória longínqua e viva
que a minha alma
em ti procura.
993
António Ramos Rosa
Os Membros Desterrados Tão Longe do Amor
Os membros desterrados tão longe do amor
o pobre sexo amado no seu pequeno púbis
o seu nome perdido a sua glória exausta
a terra alucinada por um odor atroz
a cidade traída e a dor da ferida única
a dor de não saber trémula de sangue
Que bandeira vibrar que não seja a mais negra
que pedra senão a singular
e que outros nomes senão os mais pobres
a pobre mão o sexo a boca os dedos
lívidos
o pobre sexo amado no seu pequeno púbis
o seu nome perdido a sua glória exausta
a terra alucinada por um odor atroz
a cidade traída e a dor da ferida única
a dor de não saber trémula de sangue
Que bandeira vibrar que não seja a mais negra
que pedra senão a singular
e que outros nomes senão os mais pobres
a pobre mão o sexo a boca os dedos
lívidos
916
António Ramos Rosa
Entre o Fogo E Os Dedos Desligados
Entre o fogo e os dedos desligados
entre a cabeça longe na terra ainda vermelha
e a água sem dançar e o corpo sem o verde
enterrado no canal negro
impetuosamente nulo
o nome raso com o odor a fêmea
em que coxas comprimido ou em que boca
trucidado sem nascer
com os pulsos abertos
e os olhos coagulados sobre o muro
serei eu sou eu pedra sem lamento
pedra sem amargura e sem ventre
cabeça sobre o céu deserto
e sem a sede e no vazio e no deserto
entre a cabeça longe na terra ainda vermelha
e a água sem dançar e o corpo sem o verde
enterrado no canal negro
impetuosamente nulo
o nome raso com o odor a fêmea
em que coxas comprimido ou em que boca
trucidado sem nascer
com os pulsos abertos
e os olhos coagulados sobre o muro
serei eu sou eu pedra sem lamento
pedra sem amargura e sem ventre
cabeça sobre o céu deserto
e sem a sede e no vazio e no deserto
1 067
Angela Santos
O acordar dos sentidos
Emudecida,
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
1 120
Angela Santos
Exercícios de Luz
Na vespertina luz tacteio o corpo branco
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.
Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.
Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.
Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.
Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.
Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.
Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.
683
Daniel Faria
Um coração de sangue
Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença
Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 988
António Ramos Rosa
Refaz a Pequena Chama da Montanha
Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
1 260
Angela Santos
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
1 092
António Ramos Rosa
Uma Distância de Sombra Sem Palavras
Uma distância de sombra sem palavras
Uma distância e uma palavra mas não era
a distância nem a sombra era só ela
ela na nudez da ausência ela só ela
Seria a terra o pé e a sombra do seu braço
já não era a pedra do seu peito mas a erva
a sua perfeição de sombra sobre o rosto
e o seu rosto nu o seu rosto sem sombra
Era a distância e o alto corpo frágil
na distância e na presença em sua água
com os frutos frágeis do seu ser e o medo
de ser tão pura no ardor de ser
Uma distância e uma palavra mas não era
a distância nem a sombra era só ela
ela na nudez da ausência ela só ela
Seria a terra o pé e a sombra do seu braço
já não era a pedra do seu peito mas a erva
a sua perfeição de sombra sobre o rosto
e o seu rosto nu o seu rosto sem sombra
Era a distância e o alto corpo frágil
na distância e na presença em sua água
com os frutos frágeis do seu ser e o medo
de ser tão pura no ardor de ser
1 142