Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
1 071
Florbela Espanca
Trazes-me em tuas mãos
Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
1 634
Arthur Rimbaud
AS CATADORAS DE PIOLHOS
Quando a fronte do infante, vermelha das tormentas,
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
3 913
Fernando Pessoa
I loved a woman;
I loved a woman; there was the story of sex relations, an emotional novelty. They were sex relations and no more. It was pleasure and no more.
703
Pablo Neruda
Manhã - XXX
Tens do arquipélago as fibras do alerce,
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.
Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.
Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,
achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.
Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.
Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,
achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
1 436
Pablo Neruda
Manhã - XIV
Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
1 298
Florbela Espanca
Filtro
Meu Amor, não é nada: – Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
2 376
Mário Hélio
32-II(Persianas)
a cor da dúvida na pele
repele muitos carinhos
e as linhas compostas
em muitos caminhos
diferem apenas do homem sozinho
de estar-se solto e completo
apesar de ver de perto do mundo o outro mundor
que só engana ao homem só e às persianas
às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças
e às divisões que as mentes fazem
mas o que eles ignoram
é que os cérebros apenas conhecem as diferenças
entre as cousas e as lousas
que eles ignoram
o instinto de bicho do homem só
e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele
e das lânguidas e insensíveis persianas
um homem fica mais só quando reflete
é assim que ficam todos os homens sós
e a solidão
mero deserto entre a palavra e o chão
estranha hora entre o clarão e a aurora
o teu aéreo olhar
que medes a distância
entre o provável e o improvável
e tudo sabes
o que não sabes é o sol que esconde
ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só
e o linho das linhas das alheias persianas
repele muitos carinhos
e as linhas compostas
em muitos caminhos
diferem apenas do homem sozinho
de estar-se solto e completo
apesar de ver de perto do mundo o outro mundor
que só engana ao homem só e às persianas
às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças
e às divisões que as mentes fazem
mas o que eles ignoram
é que os cérebros apenas conhecem as diferenças
entre as cousas e as lousas
que eles ignoram
o instinto de bicho do homem só
e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele
e das lânguidas e insensíveis persianas
um homem fica mais só quando reflete
é assim que ficam todos os homens sós
e a solidão
mero deserto entre a palavra e o chão
estranha hora entre o clarão e a aurora
o teu aéreo olhar
que medes a distância
entre o provável e o improvável
e tudo sabes
o que não sabes é o sol que esconde
ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só
e o linho das linhas das alheias persianas
605
Mário Hélio
34-IV(Vegeptil)
lâmina de carne
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
770
Florbela Espanca
Crepúsculo
Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
2 130
Pablo Neruda
Noite - LXXXII
Amor meu, ao fechar esta porta noturna
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.
Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!
Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.
Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.
Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!
Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.
Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.
1 254
António Ramos Rosa
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
1 021
António Ramos Rosa
A Mulher Dilacerada
Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
1 098
Pablo Neruda
A noite
Oh, noite, oh substância que muda teu corpo e devolve à terra a estrela,
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
953
Florbela Espanca
Divino Instante
Ser uma pobre morta inerte e fria,
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
1 932
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 271
Marcelo Almeida de Oliveira
A parte e o todo
Seres-células,
ser homem-esperma,
ser mulher-óvulo,
engenheiros-mãos constroem,
lixeiros-intestinos eliminam
lixo-excremento,
comunicações-sinápticas
anunciam guerras-alérgicas,
artistas-cancerígenos.
INDIVÍDUO = TODO
TODO = INDIVÍDUO
ser homem-esperma,
ser mulher-óvulo,
engenheiros-mãos constroem,
lixeiros-intestinos eliminam
lixo-excremento,
comunicações-sinápticas
anunciam guerras-alérgicas,
artistas-cancerígenos.
INDIVÍDUO = TODO
TODO = INDIVÍDUO
888
Tomás Antônio Gonzaga
Lira IV
Já, já me vai, Marília, branquejando
loiro cabelo, que circula a testa;
este mesmo, que alveja, vai caindo,
e pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas cores,
e vão-se sobre os ossos enrugando,
vai fugindo a viveza dos meus olhos;
tudo se vai mudando.
Se quero levantar-me, as costas vergam;
as forças dos meus membros já se gastam;
vou a dar pela casa uns curtos passos,
pesam-me os pés e arrastam.
Se algum dia me vires desta sorte,
vê que assim me não pôs a mão dos anos:
os trabalhos, Marília, os sentimentos
fazem os mesmos danos.
Mal te vir, me dará em poucos dias
a minha mocidade o doce gosto;
verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
voltar a cor ao rosto.
No calmoso Verão as plantas secam;
na Primavera, que aos mortais encanta,
apenas cai do Céu o fresco orvalho,
verdeja logo a planta.
A doença deforma a quem padece;
mas logo que a doença faz seu termo,
torna, Marília, a ser quem era d'antes
o definhado enfermo.
(...)
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
loiro cabelo, que circula a testa;
este mesmo, que alveja, vai caindo,
e pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas cores,
e vão-se sobre os ossos enrugando,
vai fugindo a viveza dos meus olhos;
tudo se vai mudando.
Se quero levantar-me, as costas vergam;
as forças dos meus membros já se gastam;
vou a dar pela casa uns curtos passos,
pesam-me os pés e arrastam.
Se algum dia me vires desta sorte,
vê que assim me não pôs a mão dos anos:
os trabalhos, Marília, os sentimentos
fazem os mesmos danos.
Mal te vir, me dará em poucos dias
a minha mocidade o doce gosto;
verás brunir-se a pele, o corpo encher-se,
voltar a cor ao rosto.
No calmoso Verão as plantas secam;
na Primavera, que aos mortais encanta,
apenas cai do Céu o fresco orvalho,
verdeja logo a planta.
A doença deforma a quem padece;
mas logo que a doença faz seu termo,
torna, Marília, a ser quem era d'antes
o definhado enfermo.
(...)
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
4 356
Pablo Neruda
Tarde - LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.
1 139
António Ramos Rosa
Com a Tua Boca Ou o Teu Nome
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
e o vigor simples do fundo e o vulnerável rosto.
Sobre a areia te ergues sobre o silêncio e a cinza
e na tua nudez jogas a água limpa que é um arco sobre o tempo.
É possível com a tua boca escrever uma palavra frágil
e que sem vidros se estenda com a sua trémula elegância.
É possível com a delgada língua acender a matéria dos arbustos
e nos rectângulos brancos incendiar um corpo na glória de um instante.
É possível com o teu nome escrever a tua boca
que se apaga no muro e no silêncio do papel.
É possível com as palavras de água do teu corpo
despertar as pedras dos teus músculos silenciosos.
É possível com a tua boca compreender as palavras
mais lisas que adormecem na frescura vegetal.
É possível com o teu nome ser uma folha de sombra
ou uma pedra na água na simplicidade cintilante.
580
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 145
Caio Valério Catulo
CARMEM 56
Mas que coisa mais ridícula e jocosa,
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
1 358
Pablo Neruda
Noite - LXXXIX
Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,
para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pelo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,
para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pelo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.
1 611
Castro Alves
Aquela Mão
Pálidos versos a um primor divino
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
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