Poemas neste tema
Corpo
Asta Vonzodas
Som de mulher
Os olhos são o espelho da alma.
E se isso, verdade é,
deixe-os serem a janela,
e veja por um instante
minha alma de mulher.
Vê a borboleta
que em doces volteios
acaricia suave, seus cabelos?
São meus dedos.
Feche os olhos e sinta.
Ao som suave da brisa,
minhas carícias que
vão lhe envolvendo.
Sinta o toque na pele,
que traçando seu rosto
vai descendo mansinho
em direção ao seu peito.
São meus beijos.
Sente o roçar pela cintura,
como asas de libélula voejando?
É minha língua.
Vou adentrando.
Das vestes, já liberto,
sinta o tempo de agosto
que vai molhando seu corpo.
Estou provando seu gosto.
Segure de leve, pressionando,
minhas ancas
transformadas em rédeas,
enquanto vou cavalgando.
Fica assim...
Parado a sentir
o veludo úmido lhe envolvendo.
Você está dentro de mim.
Rápido...
Vem comigo!
Vamos chegar ao fim...
Agora abra lentamente seus olhos.
Sinta a vida transformada
em seiva que de seu corpo flui.
Não me procure.
Como a tarde dessa primavera
Eu já fui...
E se isso, verdade é,
deixe-os serem a janela,
e veja por um instante
minha alma de mulher.
Vê a borboleta
que em doces volteios
acaricia suave, seus cabelos?
São meus dedos.
Feche os olhos e sinta.
Ao som suave da brisa,
minhas carícias que
vão lhe envolvendo.
Sinta o toque na pele,
que traçando seu rosto
vai descendo mansinho
em direção ao seu peito.
São meus beijos.
Sente o roçar pela cintura,
como asas de libélula voejando?
É minha língua.
Vou adentrando.
Das vestes, já liberto,
sinta o tempo de agosto
que vai molhando seu corpo.
Estou provando seu gosto.
Segure de leve, pressionando,
minhas ancas
transformadas em rédeas,
enquanto vou cavalgando.
Fica assim...
Parado a sentir
o veludo úmido lhe envolvendo.
Você está dentro de mim.
Rápido...
Vem comigo!
Vamos chegar ao fim...
Agora abra lentamente seus olhos.
Sinta a vida transformada
em seiva que de seu corpo flui.
Não me procure.
Como a tarde dessa primavera
Eu já fui...
1 143
Paulo Netho
Olhos nus
Seu corpo nu
meus olhos vestidos
seu corpo nu
meus olhos enlouquecidos
seu corpo vestido
meus olhos nus.
meus olhos vestidos
seu corpo nu
meus olhos enlouquecidos
seu corpo vestido
meus olhos nus.
1 073
Nálu Nogueira
A pele e o vento
Quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.
E se o Vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pêlos
a Pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.
(até que o vento, em sopros
de amor
se deita sobre a Pele
e suas mãos segura.)
então a Pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do Vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do Vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo
e cândida, rende-se;
lânguida, deita-se;
ávida, molha-se;
sente nas costas o peso
do Vento
e treme;
agita-se;
inunda-se;
e sonha;
tem dentro de si o corpo
do Vento
e tranca-se;
e move-se;
e geme;
e goza
(grávida, imensa, grata, plena);
quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a Pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.
e o Vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.
E se o Vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pêlos
a Pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.
(até que o vento, em sopros
de amor
se deita sobre a Pele
e suas mãos segura.)
então a Pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do Vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do Vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo
e cândida, rende-se;
lânguida, deita-se;
ávida, molha-se;
sente nas costas o peso
do Vento
e treme;
agita-se;
inunda-se;
e sonha;
tem dentro de si o corpo
do Vento
e tranca-se;
e move-se;
e geme;
e goza
(grávida, imensa, grata, plena);
quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a Pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.
2 523
Jaci Bezerra
E não pode esperar o coração
Toda a lua e claridade
assim te quero, assim te vejo
e se te vejo o amor invade
meu corpo inteiro e o deixa aceso
e se te vejo o amor em mim
é um cheiro morno de jardim
A tua dor doendo em mim
é um rio latejando aceso
sou um cantareiro no jardim
do sonho em que te quero e vejo
primaveras de claridade
na primavera que me invade
Toda nua és um rio aceso
de primavera e claridade
mas quero mais do que o que vejo
sentindo a angústia que me invade
esse amor que doendo em mim
arde em silêncio no jardim
Extinta a angústia que me invade
te sinto perto e junto a mim
mais do que amar a claridade
amo teu cheiro de jardim
por isso à noite durmo aceso
no dia em que te sinto e vejo.
Teu coração é um jardim
tremulando na claridade
mesmo quando doendo em mim
também é a angústia que me invade
porque no dia em que te vejo
teu corpo dorme em mim aceso
No fundo dos teus olhos vejo
longe da angústia que me invade
como o amor doendo aceso
é uma trança de claridade
o coração dentro de mim
dorme abrasado em teu jardim.
assim te quero, assim te vejo
e se te vejo o amor invade
meu corpo inteiro e o deixa aceso
e se te vejo o amor em mim
é um cheiro morno de jardim
A tua dor doendo em mim
é um rio latejando aceso
sou um cantareiro no jardim
do sonho em que te quero e vejo
primaveras de claridade
na primavera que me invade
Toda nua és um rio aceso
de primavera e claridade
mas quero mais do que o que vejo
sentindo a angústia que me invade
esse amor que doendo em mim
arde em silêncio no jardim
Extinta a angústia que me invade
te sinto perto e junto a mim
mais do que amar a claridade
amo teu cheiro de jardim
por isso à noite durmo aceso
no dia em que te sinto e vejo.
Teu coração é um jardim
tremulando na claridade
mesmo quando doendo em mim
também é a angústia que me invade
porque no dia em que te vejo
teu corpo dorme em mim aceso
No fundo dos teus olhos vejo
longe da angústia que me invade
como o amor doendo aceso
é uma trança de claridade
o coração dentro de mim
dorme abrasado em teu jardim.
1 502
Norival Vieira da Silva
Gatinha
Toda ela encantadora produzida,
de seda coberta aos pés todo encoberta,
nas sem calcinha muito sedutora
com a camisola entreaberta.
Dos olhos saem chispas de desejo,
os lábios úmidos odor a exalar
de fêmea sedutora e carinhosa,
mas com a alma de mulher a excitar.
Coloca-se de quatro, qual gatinha
meiga, carinhosa, toda de desejo,
ela me chama e diz que é toda minha.
E no seu lugarzinho tão querido
ela pede que estocada seja dada
e se desmancha num doce gemido.
de seda coberta aos pés todo encoberta,
nas sem calcinha muito sedutora
com a camisola entreaberta.
Dos olhos saem chispas de desejo,
os lábios úmidos odor a exalar
de fêmea sedutora e carinhosa,
mas com a alma de mulher a excitar.
Coloca-se de quatro, qual gatinha
meiga, carinhosa, toda de desejo,
ela me chama e diz que é toda minha.
E no seu lugarzinho tão querido
ela pede que estocada seja dada
e se desmancha num doce gemido.
976
Fernando Pessoa
26 - FEVER‑GARDEN
Red living flakes of demon snow
Poison-relate the sinning air
To atom-clear red sick flowers who
Rootless jut out of Night and There
Relation being itself a clutch
Upon the throbbing veins in seeing
So the surviving over-much
Is not contiguous to being
Yet philter-aureole or lay
Sung round the rites of altared vice
The poppies of o'er-memory may
Spin cobweb-circles lusting thrice
Around the phallic selfness stood
Midway from intellect to sense
Round whose void a tongued mist thrust-dense
To the cut lips gives conscious blood
Poison-relate the sinning air
To atom-clear red sick flowers who
Rootless jut out of Night and There
Relation being itself a clutch
Upon the throbbing veins in seeing
So the surviving over-much
Is not contiguous to being
Yet philter-aureole or lay
Sung round the rites of altared vice
The poppies of o'er-memory may
Spin cobweb-circles lusting thrice
Around the phallic selfness stood
Midway from intellect to sense
Round whose void a tongued mist thrust-dense
To the cut lips gives conscious blood
4 155
Fernando Pessoa
30 - L'INCONNUE
L'INCONNUE
Let thy hand set
My hair back. Look
Into mine eyes.
There runs a brook
Right through the heat
Of my hushed cries.
Let thy hand rest
Upon my brow.
Let thine eyes smile
Into the unrest
Of mine eyes now
Thine for a while.
Ay, forget not
To let that touch
Be felt by me,
Light like a thought
Of it, and such
As hope can be.
Let thy hand sweep
Over my hair
One little while.
I seem asleep
But cannot bear
To feel me smile.
All things have failed.
All hopes are dead.
All joys are brief.
Ay, let thy hand,
As if it quailed
From feeling sad,
Give me relief!
No matter if
None understand.
Ay, on my brow
Let thy hand be.
What life is now
Is worth so little
That pain seems brittle
And thought a slough.
Put my hair back
From my brow's pain.
There runs a track
Of lightness through
My heavy brain.
What does this mean?
These are words set
To an idle tune.
What I regret
Hath never been.
Lest my rest fret,
True rest, come soon!
Let thy hand set
My hair back. Look
Into mine eyes.
There runs a brook
Right through the heat
Of my hushed cries.
Let thy hand rest
Upon my brow.
Let thine eyes smile
Into the unrest
Of mine eyes now
Thine for a while.
Ay, forget not
To let that touch
Be felt by me,
Light like a thought
Of it, and such
As hope can be.
Let thy hand sweep
Over my hair
One little while.
I seem asleep
But cannot bear
To feel me smile.
All things have failed.
All hopes are dead.
All joys are brief.
Ay, let thy hand,
As if it quailed
From feeling sad,
Give me relief!
No matter if
None understand.
Ay, on my brow
Let thy hand be.
What life is now
Is worth so little
That pain seems brittle
And thought a slough.
Put my hair back
From my brow's pain.
There runs a track
Of lightness through
My heavy brain.
What does this mean?
These are words set
To an idle tune.
What I regret
Hath never been.
Lest my rest fret,
True rest, come soon!
4 404
Fernando Pessoa
O SOBA DE BIKÁ — TRAJÉDIA
O soba de Biká, maravilhoso gajo,
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!»,
Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!»
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!»,
Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!»
1 453
Fernando Pessoa
HEART-MUSIC
HEART-MUSIC
Learning almost upon thy breast
I heard thy heart's life – made unrest...
And thy heart's beating has a sound
that reminds me of aught I heard long ago,
Long before this life, but what
I do not know, I do not know...
'Twas something going round and round
Something of terrible and of strange
That even now doth shake my soul.
I strive to remember – I fail, I fail
The unmemoried memory doth shake my soul.
'Twas something terrible and strange,
Going round and going round,
And it had a sound like thy heart's beat...
The memory hangs on my soul's darkness
But notion from my mind went round and round
And now thy heart – hath such a sound.
Alexander Search
December 1905
Learning almost upon thy breast
I heard thy heart's life – made unrest...
And thy heart's beating has a sound
that reminds me of aught I heard long ago,
Long before this life, but what
I do not know, I do not know...
'Twas something going round and round
Something of terrible and of strange
That even now doth shake my soul.
I strive to remember – I fail, I fail
The unmemoried memory doth shake my soul.
'Twas something terrible and strange,
Going round and going round,
And it had a sound like thy heart's beat...
The memory hangs on my soul's darkness
But notion from my mind went round and round
And now thy heart – hath such a sound.
Alexander Search
December 1905
4 357
Fernando Pessoa
TO A HAND
TO A HAND
Give me thy hand. With my wounded eyes
I would see what this hand contains:
Ah, what a world of hopes here lies!
What a world of feelings and doubts and pains!
Oh to thing that this hand in itself contains
The mystery of mysteries.
This hand has a meaning thou dost not know,
A meaning deeper than human fears;
This hand perchance in times long ago
Wiped off strange and unnatural tears;
Perhaps its gesture was full of snears
Perchance its clenching was full of woe.
There is that in thy hand my soul doth dream
And the shades that haunt my mind;
The howl of the wind and the flow of the stream,
The flow of the stream and the howl of the wind,
All that is horrible and undefined
Of the things that are in the things that seem.
As I look at thy hand my mind is rife
Of thoughts and memories deeper than rhyme;
Thy hand is a part af my soul's deep life,
And I knew thy hand ere the birth of time,
And in ages past it led me to crime,
(...)
A world of woes and of fears and sighs
And love that better had been hate,
And crimes and wars and victories,
And the painful fall of many a state –
All these and more that the heart abate
My raving soul in thy hand descries.
No painter mad, not a fetichist
O'er thy hand would be thus held blind.
At mere blank thought of its being kissed
By my lips I thrill with a fear none find
In the waking thoughts-of a human mind
Save when reason by its own self is missed.
Thy hand has a meaning thou dost not know,
A meaning deeper than human fears;
It has aught of the sea and of the sun's glow
And the seasons too and the months and years,
And the colour hidden in human tears
And the form and number in human woe.
Thy hand was a lofty and empty home,
A collar of pearls and a castle keep;
Thy hand knows well all the thoughts that roam,
Thy hand is the music eternal and deep
That long ere birth held my soul asleep
In a palace quaint with a curious dome.
How finely made is this hand of thine
With its fingers tapering and white,
Soft and palely warm and fine;
There is something in it of day and night.
Ah, dearest child, could I read aright
The text before me deep and divine.
There's a kind of Fact that persists and hangs
O'er thy hand, as on a scratched scroll:
Tis as if some thought had buried its fangs
In a unknown part of my soul.
In a land far in me a bell doth toll,
And my heart aches wild as it shrinks or clangs.
There is aught of new and wild and unreal
In thy hand where my look is pained:
Tis as if hand in itself could see all
Horrible thought, where fear is gained
By a drollness mad and dimly sustained
As of some wide hint out of the Ideal.
There is aught of Personal, of It, of Such
In thy hand o'er me there steals
A sense of dread like a murder's clutch;
I know not how, my hand in thine feels
An eternal thing hand my mad brain reels
As if eternity we could touch.
I see that hand not a hand, but whence
This horrible Fact that creeps in me!
Ah, I have of thy hand the seeing intense
But aught more than hand in that place I see
That abrupt elusion did make to be
Between thought of things and what we call sense.
My thought doth look at thy hand direct
Without eyes or sense or aught of this,
And my reason at such a thing is wrecked
Into such a fear that both pain hand bliss
Are plunged in conscious unconsciousness
For that is no hand that my dreams detect.
And I gaze yet more hand I shake from me
The dream of time and the dream of space,
And as a drowner who sinks in the sea
I dream of the wonders of all we trace
In everything and I plunge full-face
In the sense of what more than seems to be.
There is aught of lovely, wild and unbrute
In thy hand, and I love it well;
In fearing more than pain thoughts of hell
By a sudden portal in the Visible
I have a glimpse of the Absolute.
The sight of thy hand of a horrible heaven
The portals mute throws open again
Thy hand is like music, in it I again
Passing a wild fear and a bitter pain
Weird things more weird than the sense of Seven.
All things stare mystery at my mind,
But thy hand most, to oblivion conn'd
Thrilled with a mute life not all defined,
What is thy hand in itself beyond
The scope of sense where the heart is fond,
The realm of thought where the soul is blind?
Where is the soul that thy hand reveals
In its own there-self till its thought affrights?
What bells are those that say HAND in peals
That traverse impossible infinites?
What fills with lightnings of hands the nights
Where the sense of dread into thoughts congeals?
Take thy hand away; for I now shall dream
Of strange and grotesque and unnatural lands
Watered by many a painful stream
Whose waves are hands, whose banks of hands
Of gardens with trees whose leaves are hands
And a white stiff hand covering the sun's gleam.
(...)
Then, oh horror worst, they begin to live
With a vital life, and to grasp and clutch,
And to twitch and squirm till my thoughts unweave,
And like worms and snails that my throat should touch
My soul qualms and retches at horror such
At fear's transcendent superlative.
And what more doth follow I cannot say,
But it seems that madly I traverse, lone,
Tracts of hells where a hand doth stay
In such a manner that if a groan
Of a madman could in its soul be known
It would be to it as to night is day.
And my thoughts drag on in their weary strain;
Wild and grotesque, or quick or slow,
Uncouth and unseemly they reel in my brain,
Startingly mad as they go,
As a sudden laugh in the midst of woe
Or a clown in a funeral train.
Alexander Search
January, 1906
Give me thy hand. With my wounded eyes
I would see what this hand contains:
Ah, what a world of hopes here lies!
What a world of feelings and doubts and pains!
Oh to thing that this hand in itself contains
The mystery of mysteries.
This hand has a meaning thou dost not know,
A meaning deeper than human fears;
This hand perchance in times long ago
Wiped off strange and unnatural tears;
Perhaps its gesture was full of snears
Perchance its clenching was full of woe.
There is that in thy hand my soul doth dream
And the shades that haunt my mind;
The howl of the wind and the flow of the stream,
The flow of the stream and the howl of the wind,
All that is horrible and undefined
Of the things that are in the things that seem.
As I look at thy hand my mind is rife
Of thoughts and memories deeper than rhyme;
Thy hand is a part af my soul's deep life,
And I knew thy hand ere the birth of time,
And in ages past it led me to crime,
(...)
A world of woes and of fears and sighs
And love that better had been hate,
And crimes and wars and victories,
And the painful fall of many a state –
All these and more that the heart abate
My raving soul in thy hand descries.
No painter mad, not a fetichist
O'er thy hand would be thus held blind.
At mere blank thought of its being kissed
By my lips I thrill with a fear none find
In the waking thoughts-of a human mind
Save when reason by its own self is missed.
Thy hand has a meaning thou dost not know,
A meaning deeper than human fears;
It has aught of the sea and of the sun's glow
And the seasons too and the months and years,
And the colour hidden in human tears
And the form and number in human woe.
Thy hand was a lofty and empty home,
A collar of pearls and a castle keep;
Thy hand knows well all the thoughts that roam,
Thy hand is the music eternal and deep
That long ere birth held my soul asleep
In a palace quaint with a curious dome.
How finely made is this hand of thine
With its fingers tapering and white,
Soft and palely warm and fine;
There is something in it of day and night.
Ah, dearest child, could I read aright
The text before me deep and divine.
There's a kind of Fact that persists and hangs
O'er thy hand, as on a scratched scroll:
Tis as if some thought had buried its fangs
In a unknown part of my soul.
In a land far in me a bell doth toll,
And my heart aches wild as it shrinks or clangs.
There is aught of new and wild and unreal
In thy hand where my look is pained:
Tis as if hand in itself could see all
Horrible thought, where fear is gained
By a drollness mad and dimly sustained
As of some wide hint out of the Ideal.
There is aught of Personal, of It, of Such
In thy hand o'er me there steals
A sense of dread like a murder's clutch;
I know not how, my hand in thine feels
An eternal thing hand my mad brain reels
As if eternity we could touch.
I see that hand not a hand, but whence
This horrible Fact that creeps in me!
Ah, I have of thy hand the seeing intense
But aught more than hand in that place I see
That abrupt elusion did make to be
Between thought of things and what we call sense.
My thought doth look at thy hand direct
Without eyes or sense or aught of this,
And my reason at such a thing is wrecked
Into such a fear that both pain hand bliss
Are plunged in conscious unconsciousness
For that is no hand that my dreams detect.
And I gaze yet more hand I shake from me
The dream of time and the dream of space,
And as a drowner who sinks in the sea
I dream of the wonders of all we trace
In everything and I plunge full-face
In the sense of what more than seems to be.
There is aught of lovely, wild and unbrute
In thy hand, and I love it well;
In fearing more than pain thoughts of hell
By a sudden portal in the Visible
I have a glimpse of the Absolute.
The sight of thy hand of a horrible heaven
The portals mute throws open again
Thy hand is like music, in it I again
Passing a wild fear and a bitter pain
Weird things more weird than the sense of Seven.
All things stare mystery at my mind,
But thy hand most, to oblivion conn'd
Thrilled with a mute life not all defined,
What is thy hand in itself beyond
The scope of sense where the heart is fond,
The realm of thought where the soul is blind?
Where is the soul that thy hand reveals
In its own there-self till its thought affrights?
What bells are those that say HAND in peals
That traverse impossible infinites?
What fills with lightnings of hands the nights
Where the sense of dread into thoughts congeals?
Take thy hand away; for I now shall dream
Of strange and grotesque and unnatural lands
Watered by many a painful stream
Whose waves are hands, whose banks of hands
Of gardens with trees whose leaves are hands
And a white stiff hand covering the sun's gleam.
(...)
Then, oh horror worst, they begin to live
With a vital life, and to grasp and clutch,
And to twitch and squirm till my thoughts unweave,
And like worms and snails that my throat should touch
My soul qualms and retches at horror such
At fear's transcendent superlative.
And what more doth follow I cannot say,
But it seems that madly I traverse, lone,
Tracts of hells where a hand doth stay
In such a manner that if a groan
Of a madman could in its soul be known
It would be to it as to night is day.
And my thoughts drag on in their weary strain;
Wild and grotesque, or quick or slow,
Uncouth and unseemly they reel in my brain,
Startingly mad as they go,
As a sudden laugh in the midst of woe
Or a clown in a funeral train.
Alexander Search
January, 1906
4 519
Manuel Bandeira
Unidade
Minh'alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe
Chegaste
E desde logo foi verão
O verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sófrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo
Foi então que minh'alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.
1948
Fora de mim longe muito longe
Chegaste
E desde logo foi verão
O verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sófrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo
Foi então que minh'alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.
1948
1 303
Fernando Pessoa
ON AN ANKLE
ON AN ANKLE
A SONNET BEARING THE IMPRIMATUR
OF THE INQUISITOR-GENERAL
AND OTHER PEOPLE OF DISTINCTION AND DECENCY
I had a revelation not from high,
But from below, when thy skirt awhile lifted
Betrayed such promise that I am not gifted
With words that may that view well signify.
And even if my verse that thing would try,
Hard were it, if that work came to be sifted,
To find a word that rude would not have shifted
There from the cold hand of Morality.
To gaze is nought; mere sight no mind hath wrecked.
But oh! sweet lady, beyond what is seen
What things may guess or hint at Disrespect?!
Sacred is not the beauty of a queen...
I from thine ankle did as much suspect
As you from this may suspect what I mean.
A SONNET BEARING THE IMPRIMATUR
OF THE INQUISITOR-GENERAL
AND OTHER PEOPLE OF DISTINCTION AND DECENCY
I had a revelation not from high,
But from below, when thy skirt awhile lifted
Betrayed such promise that I am not gifted
With words that may that view well signify.
And even if my verse that thing would try,
Hard were it, if that work came to be sifted,
To find a word that rude would not have shifted
There from the cold hand of Morality.
To gaze is nought; mere sight no mind hath wrecked.
But oh! sweet lady, beyond what is seen
What things may guess or hint at Disrespect?!
Sacred is not the beauty of a queen...
I from thine ankle did as much suspect
As you from this may suspect what I mean.
4 562
Fernando Pessoa
THE LIP
THE LIP
One day in half-slumbrous raving
Where I saw strange fancies skip,
I saw in a dream, by no light's gleam,
A man with only one lip –
Absolutely, absolutely, absolutely,
Absolutely with only one lip.
I remember well that he had no face
Nor a nose with a usual tip;
He had nor eyes, nor cheks, nor hair
But only, only one lip –
Only one, only one, only one,
Only one, one, one lip.
Can ye think of it without terror?
No other lip did slip
Into the vision, nor was it a lack:
There was only, only one lip.
Could you see him as I you would grow mad.
That man with only one lip.
Alexander Search
January, 2nd 1908
One day in half-slumbrous raving
Where I saw strange fancies skip,
I saw in a dream, by no light's gleam,
A man with only one lip –
Absolutely, absolutely, absolutely,
Absolutely with only one lip.
I remember well that he had no face
Nor a nose with a usual tip;
He had nor eyes, nor cheks, nor hair
But only, only one lip –
Only one, only one, only one,
Only one, one, one lip.
Can ye think of it without terror?
No other lip did slip
Into the vision, nor was it a lack:
There was only, only one lip.
Could you see him as I you would grow mad.
That man with only one lip.
Alexander Search
January, 2nd 1908
4 385
Fernando Correia Pina
Inter pudenda
Naquela estreita, deserta região
sempre assolada pelos temporais
que entre cona e cu, em depressão,
geram grossa chuva e vendavais,
naquele curto istmo que medeia,
abandonado, entre ânus e vagina,
nessa ponte que afasta e aproxima
da fecal matéria a seminal ideia
perde-se um homem olhando o escuro
e diz para consigo – onde é que eu furo? –
e, geralmente, fura mais acima
vencida a humana incerteza,
porque da cona lhe pode vir merda
mas do cu lhe virá merda com certeza.
sempre assolada pelos temporais
que entre cona e cu, em depressão,
geram grossa chuva e vendavais,
naquele curto istmo que medeia,
abandonado, entre ânus e vagina,
nessa ponte que afasta e aproxima
da fecal matéria a seminal ideia
perde-se um homem olhando o escuro
e diz para consigo – onde é que eu furo? –
e, geralmente, fura mais acima
vencida a humana incerteza,
porque da cona lhe pode vir merda
mas do cu lhe virá merda com certeza.
1 053
Fernando Correia Pina
Na breve arquitectura de um soneto
Na breve arquitectura de um soneto,
em seus catorze versos de harmonia,
tentava ela celebrar um preto
que lhe enchia as noites de alegria.
No rosto começou. Em quatro estrofes
os beiços lhe cantou e o vasto peito,
sereno espelho de ébano perfeito,
mar embalado na maré dos bofes.
Passou depois às coxas e joelhos,
cantou-lhe o negro aço dos pintelhos
e ia já no mastro duro e liso
quando notou que fechar num terceto
quase dois palmos de caralho preto
era coisa de quem não tem juízo.
em seus catorze versos de harmonia,
tentava ela celebrar um preto
que lhe enchia as noites de alegria.
No rosto começou. Em quatro estrofes
os beiços lhe cantou e o vasto peito,
sereno espelho de ébano perfeito,
mar embalado na maré dos bofes.
Passou depois às coxas e joelhos,
cantou-lhe o negro aço dos pintelhos
e ia já no mastro duro e liso
quando notou que fechar num terceto
quase dois palmos de caralho preto
era coisa de quem não tem juízo.
1 197
Mônica Banderas
Ricardo
Com meus olhos
invadi sua privacidade.
Abri suas gavetas,
bordei meu nome
nas suas gravatas.
risquei suas cuecas com batom.
Suas pernas de calça
amarrei-as uma a uma
nas alças do meu sutiã.
Minhas calcinhas estão junto com minhas fronhas
Seu umbigo,
escondi com um chumaço de algodão.
Dos seus cinco dedos da mão esquerda
o do meio é meu.
Sou dona do seu sobrenome,
medidas, cardário,
cavidades, orifícios,
suores, odores, manifestações.
Denigro seu caráter frente ao espelho,
respiro seu ar e...
rasgo suas pernas, seus ombros,
para depois colar
parte por parte,
na minha agenda escolar...
invadi sua privacidade.
Abri suas gavetas,
bordei meu nome
nas suas gravatas.
risquei suas cuecas com batom.
Suas pernas de calça
amarrei-as uma a uma
nas alças do meu sutiã.
Minhas calcinhas estão junto com minhas fronhas
Seu umbigo,
escondi com um chumaço de algodão.
Dos seus cinco dedos da mão esquerda
o do meio é meu.
Sou dona do seu sobrenome,
medidas, cardário,
cavidades, orifícios,
suores, odores, manifestações.
Denigro seu caráter frente ao espelho,
respiro seu ar e...
rasgo suas pernas, seus ombros,
para depois colar
parte por parte,
na minha agenda escolar...
912
Murillo Mendes
Estudo Nº 6
Tua cabeça é uma dália gigante que se desfolha nos meus braços.
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios:
Virei ciumento do orvalho da madrugada,
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,
Voltaremos, deixando madréporas e conchas,
Obedecendo aos sinais precursores da morte,
Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios:
Virei ciumento do orvalho da madrugada,
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,
Voltaremos, deixando madréporas e conchas,
Obedecendo aos sinais precursores da morte,
Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.
2 067
Leila Mícollis
Confissão
Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelase as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelase as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...
1 173
Ana Marques Gastão
Sê Lenha
Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
828
Joél Gallinati Heim
Desejo e prazer
Meu corpo junto ao seu te aquece
Braços te envolvem com firmeza
Mãos percorrem sua pele macia
Línguas provam nossos sabores
Seu corpo se entrega ao prazer
Bem suave te penetro lentamente
Deslizando avanço toco seu íntimo
Um calafrio de tesão te percorre e
Você geme com uma volúpia intensa
Derramo meu leite num gozo pleno
Um instante a saborear o momento
Seu rosto iluminado com um sorriso
Vejo o desejo de quem quer mais
Então prometo ser seu para sempre.
Braços te envolvem com firmeza
Mãos percorrem sua pele macia
Línguas provam nossos sabores
Seu corpo se entrega ao prazer
Bem suave te penetro lentamente
Deslizando avanço toco seu íntimo
Um calafrio de tesão te percorre e
Você geme com uma volúpia intensa
Derramo meu leite num gozo pleno
Um instante a saborear o momento
Seu rosto iluminado com um sorriso
Vejo o desejo de quem quer mais
Então prometo ser seu para sempre.
847
Manuel Bandeira
A Fina, a Doce Ferida...
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 191
Ana Marques Gastão
Coração sexual
Não existe órgão tão sexual como o coração,
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
682
Ana Marques Gastão
Tronco
Poderia dizer-te, vem,
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
mas como descrever
essa vinda se não há
nenhum verbo que
se ajuste ao teu
nome impronunciável.
Debruço-me, hirta,
na memória do silvo,
num sono circular,
e é a sombra que vejo,
a cruz ou o seu contorno,
as pálpebras das aves
e o sonho fundo
de rosas-de-toucar.
Mas vem, a esta paragem
de névoa, é à força de não
vermos que aprendemos,
crianças ávidas de peixes
de onde o mar se levanta
num halo dourado.
Vem, nítido, mais alto
que o lamento,
mais líquido que o desejo,
num rouco movimento
que dança e renuncia
incapaz de ser ausente.
Vem, onírico, de corpo
fragmentado,
desconstruído no sonho
em forma de abecedário.
Primeiro o tronco, depois
as mãos, os pés e o falo;
os ombros, o rosto,
como o de um filho
erguido do chão,
para sempre amado.
E agora as pálpebras,
de sal vitral de pássaro
fecha-mas,
torna-me informe,
diz o meu nome,
pede-me o que nem sei
imaginar; rouba-me,
o poema, a cinza a neve,
o pulso decepado
ou quem sabe se a cor
a dor de meus olhos
mudos alvoroçados.
Leva-me
como se só Tu existisses
na intimidade das flores,
nos lábios dos mastros,
leva-me nua e morta
no dorso de teu laço
leva-me leva-me
até o coração me rebentar.
801
Ana Marques Gastão
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
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