Poemas neste tema

Corpo

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A tua saia, que é curta,

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.
1 340
Camila Sintra

Camila Sintra

Geometria dos corpos

A menor distância
entre dois pontos
está na conjunção
de nossos corpos
que se atraem na razão inversa
da razão e do verso.

Beija meus senos
percorre minha hipotenusa
para te perderes no triângulo
molhado sob minhas bermudas
e descobrir minhas incógnitas
me rasgando com teu cateto.

Encaixa teu cilindro
em meu cone que te precisa
e acha, usa e abusa,
descobre o meu ponto G...

Encontra a quadratura do círculo
na curva de meus quadris.

1 156
João dos Sonhos

João dos Sonhos

Ascensão

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

946
Lúcia Afonso

Lúcia Afonso

Não há partes prediletas

Não há partes prediletas de teu corpo
que me excitem os sentidos
e me façam
as pupilas e a vagina mais molhadas,
como pedaços de um ícone quebrado.

Te quero pleno, inteiro e articulado
se enroscando em meus pedaços, a dar-me
uma visão inteira de mim mesma,
no espelho abissal de teu abraço.

Não há partes prediletas de teu corpo,
pois o que seria de mim, sob teu peso,
ao sentir teu pênis meu e teso
sem, antes, um afago nos cabelos?

Não há partes no todo predileto
de teu corpo, lábios, nuca,
a pequena marca sobre o peito,
mamilos, calcanhares, a garganta.

Partes...
e inteiro
me ficas, predileto,
no teu cheiro espalhado sobre a cama.

884
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei
entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,
braços pousados sobre os olhos na escuridão,
afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei tua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber,
caralho atormentado na escuridão, atacando,
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos,
coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra
e os olhos, olhos cintilando encantadores,
abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos, na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão
e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos
e beijos de adeus –
tudo isso antes que a mente desperte,
atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.
3 507
Liz Christine

Liz Christine

Apaixonada

Como posso me sentir
Ridicularizada
Por estar apaixonada?
Tenho mais é que sorrir
Porque o amor é tão lindo
Mesmo quando não correspondido
E não mais temo
Esse amor que tenho
Porque é maravilhoso
Desejar
E ser amado
E delicioso
No simples beijar
Eletrizado, extasiado
Sorrindo e repetindo
Esse amor, paixão, tem nome

E se digo palavrões
E se chego a escrever
Algumas baixarias
É pela intensidade das emoções
E se falo em fuder
É porque doces poesias
Belos poemas declamados
Não podem traduzir
A intensidade dos apaixonados
Palavras formais
Me fode com violência
Tesão, sadismo
E indecência
Te amo demais
Te amo com paixão
É assim meu romantismo
Meu doce, sincero palavrão
Te amo com tesão
Amo, amo e chamo
Venha me fuder
Venha me dizer
Que me ama
De verdade
E que sou sua putana
Com total fidelidade

Fidelidade
É sempre dizer
A verdade
E você já deve saber
Que é minha única paixão
E está tão além do simples tesão

Você é tesão complexo
Mais que sexo
É amor único
Te amo, te amo e te chamo
Venha me fuder
Venha me satisfazer
Venha me completar
Só você pode me penetrar
E só você eu posso amar

1 128
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Magu

Magu, Magu, maga magra,
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!

Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
718
Fernando Correia Pina

Fernando Correia Pina

Shemale

(para o Luís Meneses)

Essa mulher que olhei como os parolos,
em plena rua, descaradamente,
essa fonte de incontáveis torcicolos,
loira explosão de desejo urgente,

engatei-a com papas e com bolos
ou seja – notas, resumidamente,
e na cama a meti entre dois golos
de uma rara e velhíssima aguardente.

Despiu-se então ela à minha frente,
da cintura para cima e, de repente,
já não cabia em si meu duro malho.

Porém, logo murchou apavorado
ao ver sob as cuecas enrolado,
entre negros colhões, viril caralho.

1 246
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Sumo

tê-la inteira
na sensação palmar
dos seus seios;
deixar eriçados
os desejos,
borbulhante a paixão.

em seu suculento
momento
sou suco-sumo,
um corpo friável,
deslizante sensual.

e você
folheia Joyce
na manhã em que
escuros
deixam claros
gozos,
ecoados na
escuridão do quarto.

1 005
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Morrer

língua
não rima com nádega
mas desliza
saliva
escorre vadia
lambe a maçã do amor

línguas
se enrolam úmidas
aflitas
são engolidas
em desejos movediços

seu corpo oscila
pêndulo
a movimentar segundos
ponteiros
deslizar de seios

ressoam
gritos-gemidos
meu falo abraçado
corpo inteiro
sugado
suado de prazeres
fragrâncias
que impregnaram o quarto

chuleio com os dedos
suas pregas
as nádegas
num remanso molhado
calado
corpos decantados
espraiados

ouço ruído
de navio que parte
pássaros arrebentam-se
na janela
gozam a primavera

morremos para o mundo...

896
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Surrealista

cabelos escorridos
caprichar nos bicos
seios rijos
rechear as coxas
apetrechos

nos pêlos negros
encaracolar
desejos
escorrer uma fina
depressão
uma dala erótica
um rego

palavras
lavras e cheiros
de fêmea-faminta
lambuzada de um mel
selvagem
da abelha mais nobre
a queimar a língua
a criar um delírio-macho

caldo provado
tornar chamas caladas
derreter
em cinzas

sermos sulco-sumo
uno
fêmea-macho
sem artimanhas
procriadores de efêmeros
nadas
abraçados no pescoço
surrealista de minha poesia

927
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Maçã-do-amor

abrir pétalas com
a língua
explorar
seus cheiros e sabores

levar seu néctar
para além desse momento
para colmeias
perdidas no inconsciente

nos momentos em que
nada valer a pena
ou quando você não estiver
mais presente
minha língua
lamberá a lembrança
como lambemos aquela
maçã-do-amor

lembra-se?

1 052
Carlos Alberto Pessoa Rosa

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Seda

enquanto nascem
pêlos
mulheres tecem a lã
e cabelos

disfarce táctil
fácil
escondem gozos

uma tênue como seda
esconde o pecado.

879
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

blas fêmea

Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?

E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.

Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens

(não são para mim, demasiado humano)

mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis

Goulart Gomes, Salvador, BA

886
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

a insustentável leveza do amor

Que ninguém saiba:
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;

Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.

Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;

Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.

Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;

Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.

Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;

Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.

Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;

Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.

Goulart Gomes, Salvador, BA

889
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando apertaste o teu cinto

Quando apertaste o teu cinto
Puseste o cravo na boca.
Não sei dizer o que sinto
Quando o que sinto me toca.
1 533
Giosi Lippolis

Giosi Lippolis

Amo três gestos teus

Amo três gestos teus quando, senhor,
me incendeias do teu próprio fogo.
Te serves do meu corpo, minha boca
sorves na tua, me penetras...
És poderoso, vivo, estás feliz.
Mas depois disso cada minuto é meu.

859
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Rosa Francisca

Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca,
Me dá tua boca
Dentuça e pequena,
Pequena e sabida!
Francisca, Francisca,
Me dá teus dois pés!
Teus pés tão felizes
De te pertencerem,
De neles pesares,
De andarem contigo.
Francisca, Francisca,
Me dá teus joelhos
Pontudos e finos,
Teus joelhos magros!
Francisca, Francisca,
Francisca, me dá
Tuas pestaninhas
Tão louras, tão brancas,
Tão... tão humorísticas!
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca!
1 110
Isabel Machado

Isabel Machado

Primeiro suspiro

Arromba!
Penetre entre as gretas que te enxergam
Adentre pelos poros que veneram
o teu suor no meu endoidecido...

Arromba!
Por todos os meus lados puritanos
tão virgens e tão castos, espartanos
te engulo feito louca ao teu gemido...

Arromba!
Teu gozo exploda em mim feito uma bomba
debata-se e debata-se vencido
calando o meu grunhir na tua boca...

E...
depois da casa arrombada
não reste mais nada
por viver...

1 061
João dos Sonhos

João dos Sonhos

A arte nobilitante

É preciso fazer do amor
um uso imediato e corrente
a arte nobilitante
de atravessar os dias com a luz
dos corpos enleados,
devorados na lenta florescência
de invisiveis lâmpadas,
ofegantes na lida (na pequisa)
de bocas fulgurantes,
do sabor das ancas contornadas
com dedos de zimbro
e de hortelã,
enfebrecidos sempre
e fascinados
na voragem do púbis levitado
pela língua do fauno
que o levanta.

958
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Vagas estrelas do vídeo

Vera tira a blusa atira a tiara na cara vira abusa da bunda deveras abundante paraíso vem para isso virada vem sem anda devora vara vera de tantas taras odaras que adoras por isso para com isso deusmônio atômico me veja atônito vera tônico tonico apara os cabelos de vera viagem astronteante neón de galáxias sem órbitas senhora de oras bolas argolas colchões de molas viche viajantes nas eras errantes teus lábios teus dentes por lares nunca dantes novelados se eras distante hera do húmus do hímem da terra do homem navegante pelos pelos de vera gata vera mata maltrata na terra na mata no anúncio da lata vera deusa latejante de tantas e várias varas vorazes e vídeos cacetes e ais austrais ai de quem jaz atrás de retos atrozes elegantes retro escavadeiras elefantes toda tua nudez será lambida gigantemente lambuzada vai irmão toma esse avião no chão no meio do salão dentro do seu coração na mão na mente ilusão panta fatal fantasia ponta cruel de ir ou não ia ai nave do sonho vera fraulein antes que algum verdureiro alface faça na face da vera no meio do seio de fada faminta aventura vício ventura virtude fortuna delícia de cio ciciando eine kleine fishermusik de pé de ré sem dó vera devoramifasolasi.

822
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Afeto

Como demonstrar afeto no espaço contido?
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos

E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido

O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário

A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente

A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence

No espaço do contido
Obviamente

828
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Me comovem

Me comovem
tuas mãos limpas
e tua boca suja

887
Carlos Lúcio Gontijo

Carlos Lúcio Gontijo

Concerto dos órgãos

Orgasmo, janela do corpo
Espasmo da carne
Êxtase da alma
Libido na palma da mão
Cálido tato que nos conduz
Pele aberta em flor
Órgão executando luz
Coração sem pecado original
Alvejado em duas fontes
Que se molham de amor....

916