Poemas neste tema
Corpo
Carlos Seabra
Cio
dedo macio
doce siririca
fêmea no cio
doce siririca
fêmea no cio
1 254
Rose Rosas
Viver corpos de outros
Viver corpos de outros
abrir-me
em espreguiçar de ostras
ser solta
decifrar diálogos
de golfinhos
prender calcinhas em
pontas de estrelas
me virar pelo avesso
ser o reverso do
poema
e assim
alcançar você...
meu desejo
meu todo prazer!
abrir-me
em espreguiçar de ostras
ser solta
decifrar diálogos
de golfinhos
prender calcinhas em
pontas de estrelas
me virar pelo avesso
ser o reverso do
poema
e assim
alcançar você...
meu desejo
meu todo prazer!
837
Francis Whiteman
A palavra 31
Detectei teu sangue
Em minhas mãos suas roupas
Em minha cama o corpo
que ante o nu me oferece
Delírios de poesia tola
Como as bocas, seus lábios
Me recitam falas roucas
Com a lareira fria atiro-me morto
Para sua posse, você que me tem
Às falas loucas e te amo
por ares hábitos e ágil, moça
Frente a masmorra que te prende
Com braços paternos que te estrangulariam
mas detectei teu corpo&espírito
Ante minhas mãos
Que escrevem
Ante aos meus lábios que recitam
Ante ao meu pênis
Que admiras
Com amor
E combate ao tudo sem vícios
À minha boca que baba
Que babar na sua presença, exuberante...
E vês os barbitúricos que caminham
E detectam meu sangue
E protejo-me
E vou ao teu colo
Vasculhar o teu útero
Subindo ao centro de você
Até que chegue o medo...
Em minhas mãos suas roupas
Em minha cama o corpo
que ante o nu me oferece
Delírios de poesia tola
Como as bocas, seus lábios
Me recitam falas roucas
Com a lareira fria atiro-me morto
Para sua posse, você que me tem
Às falas loucas e te amo
por ares hábitos e ágil, moça
Frente a masmorra que te prende
Com braços paternos que te estrangulariam
mas detectei teu corpo&espírito
Ante minhas mãos
Que escrevem
Ante aos meus lábios que recitam
Ante ao meu pênis
Que admiras
Com amor
E combate ao tudo sem vícios
À minha boca que baba
Que babar na sua presença, exuberante...
E vês os barbitúricos que caminham
E detectam meu sangue
E protejo-me
E vou ao teu colo
Vasculhar o teu útero
Subindo ao centro de você
Até que chegue o medo...
970
Asta Vonzodas
Desejo
Vem...
Que te espero... nua...
Não mais ha lugar para o pudor...
Vem...que te quero, nu...
Fecha-me os olhos com teus beijos,
faz-me sonhar com teus desejos...
Faça-me mulher com teu ardor...
Vem...
Que quero agora
acariciar teu corpo levemente,
beijar-te os lábios, sofregamente...
Sugar tua seiva com minha
boca quente...
Deixar-me penetrar por teu furor...
Vem...
que sou mulher,
te quero homem,
vem...
deixa-me viver esta fantasia
de amor...
Que te espero... nua...
Não mais ha lugar para o pudor...
Vem...que te quero, nu...
Fecha-me os olhos com teus beijos,
faz-me sonhar com teus desejos...
Faça-me mulher com teu ardor...
Vem...
Que quero agora
acariciar teu corpo levemente,
beijar-te os lábios, sofregamente...
Sugar tua seiva com minha
boca quente...
Deixar-me penetrar por teu furor...
Vem...
que sou mulher,
te quero homem,
vem...
deixa-me viver esta fantasia
de amor...
1 464
Asta Vonzodas
O ato
Nossos corpos se abraçam,
as mãos se entrelaçam.
Nos olhos o desejo,
nas bocas que se unem
a ânsia dos beijos.
A respiração se entrecorta.
Minhas mãos acariciam seu corpo,
que responde ao meu
em busca da posse.
Meus seios, nas suas mãos,
duas taças que transbordam
o vinho do prazer.
Suas mãos, as minhas..
caminham entre nossas pernas,
buscando passagens secretas.
A fenda que umedece, se abre,
recebe o falo ereto
que penetra, mete, arremete,
se inunda de louco prazer...
Minha voz num sussurro,
tenta eliminar seu cansaço...
Sua fronte no meu colo pousa,
serena, em descaso...
Minhas mãos,
Qual plumas,
passeiam ávidas pelo teu corpo...
Minha boca te acaricia
e no mais profundo
do teu ser... Vem amparar teu gozo.
Sempre e mais, nos debatemos
nesse desejo louco,
que cresce, entumece, alaga e
despe nossas almas
e nos faz feliz, por ora...
Com tão pouco!
as mãos se entrelaçam.
Nos olhos o desejo,
nas bocas que se unem
a ânsia dos beijos.
A respiração se entrecorta.
Minhas mãos acariciam seu corpo,
que responde ao meu
em busca da posse.
Meus seios, nas suas mãos,
duas taças que transbordam
o vinho do prazer.
Suas mãos, as minhas..
caminham entre nossas pernas,
buscando passagens secretas.
A fenda que umedece, se abre,
recebe o falo ereto
que penetra, mete, arremete,
se inunda de louco prazer...
Minha voz num sussurro,
tenta eliminar seu cansaço...
Sua fronte no meu colo pousa,
serena, em descaso...
Minhas mãos,
Qual plumas,
passeiam ávidas pelo teu corpo...
Minha boca te acaricia
e no mais profundo
do teu ser... Vem amparar teu gozo.
Sempre e mais, nos debatemos
nesse desejo louco,
que cresce, entumece, alaga e
despe nossas almas
e nos faz feliz, por ora...
Com tão pouco!
1 079
Carlos Seabra
Teu fruto
Chupo
teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher
teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher
1 139
Léa Waider
Gozo
Viro, reviro,
Revido.
Torço
Abraço
Atiro
Me afasto.
Grito
Afago
Aninho.
Me deito
Te agarro
Nos mordemos
Nos amamos.
Num impulso
te expulso.
Me seguras,
Penetras,
Me apertas
Te enlouqueço
Gozamos.
Eita, doidera boa!
Revido.
Torço
Abraço
Atiro
Me afasto.
Grito
Afago
Aninho.
Me deito
Te agarro
Nos mordemos
Nos amamos.
Num impulso
te expulso.
Me seguras,
Penetras,
Me apertas
Te enlouqueço
Gozamos.
Eita, doidera boa!
1 304
Léa Waider
Meu corpo teu ninho
A simples lembrança dos teus dedos na minha nuca me arrepiam
Teu cheiro me habita a alma e meu peito, arfante, te recebe.
Me abraça, vem dormir comigo
Me ajuda a apagar do peito aquela dor do querer.
A noite se instala em mim.
Lá fora, apenas o silêncio da noite do teu olhar.
Vem.
Ocupa com teu corpo esse abrigo que te chama.
Volta a ser minha morada, teu abrigo
Faz de mim tua caverna, teu porto seguro.
Faz do meu corpo teu ninho.
Atordoada pelas saudades crescentes,
meu corpo todo se ouriça à tua procura.
Teu cheiro me habita a alma e meu peito, arfante, te recebe.
Me abraça, vem dormir comigo
Me ajuda a apagar do peito aquela dor do querer.
A noite se instala em mim.
Lá fora, apenas o silêncio da noite do teu olhar.
Vem.
Ocupa com teu corpo esse abrigo que te chama.
Volta a ser minha morada, teu abrigo
Faz de mim tua caverna, teu porto seguro.
Faz do meu corpo teu ninho.
Atordoada pelas saudades crescentes,
meu corpo todo se ouriça à tua procura.
1 086
Lúcia Nobre
Da arte da trepada
ou
Do bem fazer na cama
Bom trepador
não é naïf
pau em riste
Bom trepador
pau alado
namorado
Bom trepador
mil bocas e mão
Sherazade do tesão
Bom trepador
uiva sussur
ra urra
Bom trepador
não come
degusta
Bom trepador
não chupa
sorve
Bom trepador
beija beija
beija-flor
Bom trepador
seus três sexos
num amplexo
Bom trepador
lamour toujours
uma trepada
Bom trepador
se trepa
flecha
Bom trepador
na árvore
floresce
Bom trepador
desfruta
desfrutado
Bom trepador
macho, gay ou bi
um colibri
Bom trepador
nem bom nem trepa
é poeta
Do bem fazer na cama
Bom trepador
não é naïf
pau em riste
Bom trepador
pau alado
namorado
Bom trepador
mil bocas e mão
Sherazade do tesão
Bom trepador
uiva sussur
ra urra
Bom trepador
não come
degusta
Bom trepador
não chupa
sorve
Bom trepador
beija beija
beija-flor
Bom trepador
seus três sexos
num amplexo
Bom trepador
lamour toujours
uma trepada
Bom trepador
se trepa
flecha
Bom trepador
na árvore
floresce
Bom trepador
desfruta
desfrutado
Bom trepador
macho, gay ou bi
um colibri
Bom trepador
nem bom nem trepa
é poeta
1 268
Renata Pallottini
Cerejas, meu amor
Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.
E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba
e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.
E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba
e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...
2 149
Helga Holtz
Já espero
Certo livro de Jaspers despenca da estante fria,
acerta o ventre do meu corpo ao chão morno...
Há chamas em minhas mucosas; nos seios, fogo.
Incendeiam-me as inspirações transcendentais
Salvem, atirem as concepções do mundo à pia!
Traga-me, bombeiro, o além do mito/ideologia;
Apague toda dor, agonia e mea culpa depois...
Atire água na morte, o avesso atalho da fantasia.
Faça-me prenha com uma genital Philosophie,
transparentemente. À luz: Karlquer um, nós Dois.
acerta o ventre do meu corpo ao chão morno...
Há chamas em minhas mucosas; nos seios, fogo.
Incendeiam-me as inspirações transcendentais
Salvem, atirem as concepções do mundo à pia!
Traga-me, bombeiro, o além do mito/ideologia;
Apague toda dor, agonia e mea culpa depois...
Atire água na morte, o avesso atalho da fantasia.
Faça-me prenha com uma genital Philosophie,
transparentemente. À luz: Karlquer um, nós Dois.
847
Fernando Pessoa
POEMA PIAL
Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 113
Helga Holtz
Partida
Em torno de ti tudo o que é ser
balança incansável a cauda...
Eu desaponto teu fiel séquito
com a desobediência civil
da minha atormentada alma.
Incontáveis lendas legendam
teu porte, tua alvíssima pele.
A mim, consideram partida...
Mas do teu pau, tantas asas,
quantos castelos construíram?
Eu desmonto teu exército
de bacantes, ovelhas rivais...
Exibo, impassível, a todas,
as feridas abertas, latejantes
da tua morada em meus canais.
balança incansável a cauda...
Eu desaponto teu fiel séquito
com a desobediência civil
da minha atormentada alma.
Incontáveis lendas legendam
teu porte, tua alvíssima pele.
A mim, consideram partida...
Mas do teu pau, tantas asas,
quantos castelos construíram?
Eu desmonto teu exército
de bacantes, ovelhas rivais...
Exibo, impassível, a todas,
as feridas abertas, latejantes
da tua morada em meus canais.
918
Eliane Pantoja Vaidya
Álbum japonês
A gueixa dentro de mim
aprova o homem que tu és
Já meu samurai
retesou-se ao máximo
quando a mulher dentro de ti
soltou os cabelos
nuvens douradas sobre os ombros
]e ofereceu-me sensualmente
a cabeça para que os prendesse
As minhas mãos
prontas para o vôo
ficaram ao longe de meu corpo
nenhum músculo se mexeu.
Só meu coração
era cavalo bravo
galopando
alucinado
de desejo.
aprova o homem que tu és
Já meu samurai
retesou-se ao máximo
quando a mulher dentro de ti
soltou os cabelos
nuvens douradas sobre os ombros
]e ofereceu-me sensualmente
a cabeça para que os prendesse
As minhas mãos
prontas para o vôo
ficaram ao longe de meu corpo
nenhum músculo se mexeu.
Só meu coração
era cavalo bravo
galopando
alucinado
de desejo.
975
Nálu Nogueira
Espera
1.
A pele anseia o toque, arrepia,
transbordando desejos. Lábios e
língua antecipam o beijo esperado
olhos semicerrados
boca entreaberta
(delírios!)
Sobre os lençóis em desalinho,
ela espera
(seios que se oferecem,
coxas que se contraem)
espera.
O corpo dela exala as secreções
mais belas
ancas de acasalar
(tortura!)
a mão passeia lânguida no lento
passar das horas, como a confortar
pele, púbis, pêlos,
os dedos procuram consolo, não quer
espera.
Ainda que a noite esteja deixando
seus olhos, espera; ainda que o fogo
da lareira se apague, espera.
2.
Esta noite quer apenas o homem
que espera, entregar-se a ele,
amá-lo por toda a noite como a
ninguém, antes. Olhá-lo do modo
lindo que inventou,
então espera.
(O desejo a consome, o contato
dos lençóis na pele nua, as mãos
tocando displicentemente os
mamilos à luz amarela e frágil
da lareira que ilumina o corpo
em torturante expectativa)
Guarda-se pare ele. Espera.
Porque seu desejo só se realiza
no desejo dele, na cumplicidade dos dois
fundindo-se, ardentes, executando
o mais belo e primitivo ballet
3.
(sôfregos, lindos, dançando
lentos, girando,
bocas, línguas, mãos, suores,
girando
o corpo dela em movimentos
sensuais de amores
ele dentro dela, delírios,
para sempre dentro dela
a alma o corpo, o amor o olhar
lindo que ela inventou
paixão, ternura, naqueles olhos tudo
o corpo dele sobre o dela
o seu beijo
a língua
a pele
as mãos)
imagens que ela inventa
antes de adormecer.
A pele anseia o toque, arrepia,
transbordando desejos. Lábios e
língua antecipam o beijo esperado
olhos semicerrados
boca entreaberta
(delírios!)
Sobre os lençóis em desalinho,
ela espera
(seios que se oferecem,
coxas que se contraem)
espera.
O corpo dela exala as secreções
mais belas
ancas de acasalar
(tortura!)
a mão passeia lânguida no lento
passar das horas, como a confortar
pele, púbis, pêlos,
os dedos procuram consolo, não quer
espera.
Ainda que a noite esteja deixando
seus olhos, espera; ainda que o fogo
da lareira se apague, espera.
2.
Esta noite quer apenas o homem
que espera, entregar-se a ele,
amá-lo por toda a noite como a
ninguém, antes. Olhá-lo do modo
lindo que inventou,
então espera.
(O desejo a consome, o contato
dos lençóis na pele nua, as mãos
tocando displicentemente os
mamilos à luz amarela e frágil
da lareira que ilumina o corpo
em torturante expectativa)
Guarda-se pare ele. Espera.
Porque seu desejo só se realiza
no desejo dele, na cumplicidade dos dois
fundindo-se, ardentes, executando
o mais belo e primitivo ballet
3.
(sôfregos, lindos, dançando
lentos, girando,
bocas, línguas, mãos, suores,
girando
o corpo dela em movimentos
sensuais de amores
ele dentro dela, delírios,
para sempre dentro dela
a alma o corpo, o amor o olhar
lindo que ela inventou
paixão, ternura, naqueles olhos tudo
o corpo dele sobre o dela
o seu beijo
a língua
a pele
as mãos)
imagens que ela inventa
antes de adormecer.
1 084
Nálu Nogueira
Duplar
eu e você
deixar a boca
resvalar para
a outra boca
no beijo úmido
intenso, ávido
duplar
eu e você
em par
em perna
em mão
em coração batendo
lírico, lúcido
ímpeto
de estar
de entrar
sair
ficar
entrar
gozar
em par
duplar
em voz
em beijo sôfrego
em língua úmida
nos seios túrgidos
duplos
pêssegos
bicos tépidos
duplar
em olhos cúmplices
em mãos de artífice
na pele ardente
nas mucosas cálidas
límpidas, púrpuras
em pernas escancaradas
envolventes
sobre
as costas pálidas
duplar
eu em você
em secreções, saliva
você em mim
em contrações
espamos
múltiplos
nós dois
como um barco
à deriva
sem hora ou
lugar
para chegar
duplar
eu em você
você em mim
ávidos
máximos
gozar
em par
de modo ímpar
até ficarmos
fartos
cansados
tontos
de orgasmos
múltiplos
tantos
únicos
duplar
eu em você
dormir
e nem perceber
o corpo
sorrir.
deixar a boca
resvalar para
a outra boca
no beijo úmido
intenso, ávido
duplar
eu e você
em par
em perna
em mão
em coração batendo
lírico, lúcido
ímpeto
de estar
de entrar
sair
ficar
entrar
gozar
em par
duplar
em voz
em beijo sôfrego
em língua úmida
nos seios túrgidos
duplos
pêssegos
bicos tépidos
duplar
em olhos cúmplices
em mãos de artífice
na pele ardente
nas mucosas cálidas
límpidas, púrpuras
em pernas escancaradas
envolventes
sobre
as costas pálidas
duplar
eu em você
em secreções, saliva
você em mim
em contrações
espamos
múltiplos
nós dois
como um barco
à deriva
sem hora ou
lugar
para chegar
duplar
eu em você
você em mim
ávidos
máximos
gozar
em par
de modo ímpar
até ficarmos
fartos
cansados
tontos
de orgasmos
múltiplos
tantos
únicos
duplar
eu em você
dormir
e nem perceber
o corpo
sorrir.
942
Nálu Nogueira
O terceiro elemento
eram ele e ela
dois,
os dois apenas
ela por ele
em cima
ele dentro
embaixo
atrás
ao lado
dentro dela
ela gemia
ele sorria
ela gritava
ele batia
puxava os cabelos
dela e ela inclinava
ainda mais as ancas
giros fortes
ela
ele
dentro dela,
apenas os dois.
então ela por cima
o comia
feito um homem
dizia quieto
dizia mexe
dizia goza
ela por cima
dele,
ele dentro dela
ela pedia
dizia mete
dizia fode
mandava nele
e ele só fazia
o que ela queria.
e então um dia
ele dentro dela
o dedo dela
escorregou pra
dentro dele
ele gemeu
brigou
não quero
machuca
e ela ouviu
sorriu
enquanto o dedo
dela brincava gentil
dentro dele
e ele não mais
resistia.
e não bastou
para ela, não.
ela sabia
o que ele queria
embora ele não
soubesse que podia
então no ouvido
dele
sussurrava
coisas esquisitas
aflita, louca
ele dentro dela
sempre
ela se contorcia
em gozo, tonta
mas queria outro
com eles
queria outro
na sua boca
enquanto ele
a fodia.
então dizia rouca
a ele
a sua fantasia
no ouvido dele
o outro descrito
como ela queria
contava e ele
o que o outro
fazia
enquanto ele,
cada vez mais louco
a fodia
forte
um garanhão
ela
tesão que o consumia
pedia mais
mais forte
enquanto dizia
e ele o que seus
olhos viam: o outro
sobre ele
enquanto ele a
comia
as pernas dele
abertas
enquanto ela
puxava as nádegas
dele e o abria
para o outro
que o fodia
o outro que a
beijava sobre
os ombros dele
e ele via
e punha a própria
língua entre as
línguas deles: do outro
que o comia e dela, que
ele fodia bem e forte
como só ele sabia
ela falava
e ele via
e ele sentia
e queria
desvairado
louco
tonto
embarcar naquela
fantasia
que era dela - e por
ser dela,
ele se desculpava
isso o redimia
e então ele
podia
ser o macho
ser a fêmea
e ele podia
ser qualquer
coisa
qualquer forma
de prazer valia
e ele punha
os dedos dele, juntos
na boca que ela
oferecia
e junto com ela
lambia
chupava os dedos
grossos,
os dois
ao mesmo tempo
e os dedos eram
o pênis do
outro que ela
queria.
juntos
podiam tudo
até tornar o outro
mais que fantasia
e isso era
o que ele mais queria
e isso era
o que ele mais temia.
dois,
os dois apenas
ela por ele
em cima
ele dentro
embaixo
atrás
ao lado
dentro dela
ela gemia
ele sorria
ela gritava
ele batia
puxava os cabelos
dela e ela inclinava
ainda mais as ancas
giros fortes
ela
ele
dentro dela,
apenas os dois.
então ela por cima
o comia
feito um homem
dizia quieto
dizia mexe
dizia goza
ela por cima
dele,
ele dentro dela
ela pedia
dizia mete
dizia fode
mandava nele
e ele só fazia
o que ela queria.
e então um dia
ele dentro dela
o dedo dela
escorregou pra
dentro dele
ele gemeu
brigou
não quero
machuca
e ela ouviu
sorriu
enquanto o dedo
dela brincava gentil
dentro dele
e ele não mais
resistia.
e não bastou
para ela, não.
ela sabia
o que ele queria
embora ele não
soubesse que podia
então no ouvido
dele
sussurrava
coisas esquisitas
aflita, louca
ele dentro dela
sempre
ela se contorcia
em gozo, tonta
mas queria outro
com eles
queria outro
na sua boca
enquanto ele
a fodia.
então dizia rouca
a ele
a sua fantasia
no ouvido dele
o outro descrito
como ela queria
contava e ele
o que o outro
fazia
enquanto ele,
cada vez mais louco
a fodia
forte
um garanhão
ela
tesão que o consumia
pedia mais
mais forte
enquanto dizia
e ele o que seus
olhos viam: o outro
sobre ele
enquanto ele a
comia
as pernas dele
abertas
enquanto ela
puxava as nádegas
dele e o abria
para o outro
que o fodia
o outro que a
beijava sobre
os ombros dele
e ele via
e punha a própria
língua entre as
línguas deles: do outro
que o comia e dela, que
ele fodia bem e forte
como só ele sabia
ela falava
e ele via
e ele sentia
e queria
desvairado
louco
tonto
embarcar naquela
fantasia
que era dela - e por
ser dela,
ele se desculpava
isso o redimia
e então ele
podia
ser o macho
ser a fêmea
e ele podia
ser qualquer
coisa
qualquer forma
de prazer valia
e ele punha
os dedos dele, juntos
na boca que ela
oferecia
e junto com ela
lambia
chupava os dedos
grossos,
os dois
ao mesmo tempo
e os dedos eram
o pênis do
outro que ela
queria.
juntos
podiam tudo
até tornar o outro
mais que fantasia
e isso era
o que ele mais queria
e isso era
o que ele mais temia.
1 142
Naâmir
Égua
Égua
légua
correndo
deitada
é regra
é régua
de mão
mede anca
ânsia
seio
suor
cone
ciclone
indefeso
indeciso
entra
vem
sai
vai
cai
no poço
lodo
no visgo
de todas
as bocas
frouxas
força
na coxa
de louça
mordido
beiço
pêlo
lambido
agora
é mera
Mula
turra
nua
curra
surra
de porra
caldo
deitado
no rego
sebo
seco
nau
de carne
a pique
cozendo
no sal
da entranha:
sopa
de sexo
légua
correndo
deitada
é regra
é régua
de mão
mede anca
ânsia
seio
suor
cone
ciclone
indefeso
indeciso
entra
vem
sai
vai
cai
no poço
lodo
no visgo
de todas
as bocas
frouxas
força
na coxa
de louça
mordido
beiço
pêlo
lambido
agora
é mera
Mula
turra
nua
curra
surra
de porra
caldo
deitado
no rego
sebo
seco
nau
de carne
a pique
cozendo
no sal
da entranha:
sopa
de sexo
460
Lui Bucallon
Teu corpo solto
Teu corpo solto
Abandonado ao êxtase de estar
Tuas curvas
Tortuosas
Delirantes
São varridas pelo tecido
Que te envolve a pele
Que desliza em cantiga
Acalanto
Tua carne desnuda
Túrgida
Alva
Trêmula
Palpitar de fruta fresca
Teus olhos; iluminam o quarto
Tua boca tece o silêncio
Teus ouvidos segredam notas
Teus seios macios
Salientes
Calientes
Doces
Que minhas mãos envolvem
A descobrirem
Os róseos medalhões
Que tocam o céu
O céu de minha boca
Faminta
Sedenta
Tuas pernas
Colunas
Arco de flores
Roliças
Se abrem
Feito portais de mistérios
Intemporais
Leutos
Descerram
Imbecilizado vislumbro
Tua corbelha de flores
Flor de lótus
Pérola oculta
Tua Rosa que desabrocha
Tua flor que aflora
Beijo teus vermelhos lábios
Longamente
Vasculho essa mística boca
Entre doces pétalas
Dela
Extraio o néctar
Polinizo assim minha garganta
Mas o desejo
De cobri-la
De conquistá-la
Feito guerreiro
Só e derradeiro...
Numa fusão de corpos
de suor
de carne
de calor
Meu velo de couro
Devagar
Invade tua rubra taça
Tange
dilacera
deflora tua flor que aflora
Possui tuas entranhas
latente pulsa
Impulsa
Entre sussurros desconexos
E imagens a fins
Derramo o leite dos Deuses
E transbordo
Teu cálice de Amor.
Abandonado ao êxtase de estar
Tuas curvas
Tortuosas
Delirantes
São varridas pelo tecido
Que te envolve a pele
Que desliza em cantiga
Acalanto
Tua carne desnuda
Túrgida
Alva
Trêmula
Palpitar de fruta fresca
Teus olhos; iluminam o quarto
Tua boca tece o silêncio
Teus ouvidos segredam notas
Teus seios macios
Salientes
Calientes
Doces
Que minhas mãos envolvem
A descobrirem
Os róseos medalhões
Que tocam o céu
O céu de minha boca
Faminta
Sedenta
Tuas pernas
Colunas
Arco de flores
Roliças
Se abrem
Feito portais de mistérios
Intemporais
Leutos
Descerram
Imbecilizado vislumbro
Tua corbelha de flores
Flor de lótus
Pérola oculta
Tua Rosa que desabrocha
Tua flor que aflora
Beijo teus vermelhos lábios
Longamente
Vasculho essa mística boca
Entre doces pétalas
Dela
Extraio o néctar
Polinizo assim minha garganta
Mas o desejo
De cobri-la
De conquistá-la
Feito guerreiro
Só e derradeiro...
Numa fusão de corpos
de suor
de carne
de calor
Meu velo de couro
Devagar
Invade tua rubra taça
Tange
dilacera
deflora tua flor que aflora
Possui tuas entranhas
latente pulsa
Impulsa
Entre sussurros desconexos
E imagens a fins
Derramo o leite dos Deuses
E transbordo
Teu cálice de Amor.
1 214
Eliane Stoducto
Pororocas
Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
294
Bernardo Guimarães
A origem do mênstruo
De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompéia e
vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)
– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
– "Estou perdida!" – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?
Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?
Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...
Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
coa voz ora as alenta, ora coa ponta
das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...
Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...
vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)
– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
– "Estou perdida!" – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?
Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?
Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...
Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
coa voz ora as alenta, ora coa ponta
das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...
Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...
1 775
Manuel Bandeira
Piscina
Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
1 497
Fernando Pessoa
Só com um jeito do corpo
Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
1 458
Evandro Moreira
Proserpina
Quero perder-me em teu abraço forte,
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.
Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.
Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.
Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.
Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.
Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.
Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!
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