Poemas neste tema
Corpo
Silvaney Paes
Desejo
Porque
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?
Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?
Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?
Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?
Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..
me negar o desejo
Que nessa carne reclama,
De não provar de teu beijo
Se a libido é quem clama?
Porque te negar essa carne
Que de tão fresca te chama,
De saciar tua fome
Se a libido é quem clama?
Porque me negar à mistura
Que nessa carne se entrança,
De delirar na entrega
Se a libido é quem clama?
Porque adiar essa entrega
Que nesse medo se aplaina,
De saciar minha fome
Se a libido é quem clama?
Porque se a libido é quem chama
Que nessa fome se entrança,
Devo queimar nessa chama
Se ouvir o desejo que clama..
957
Domingos Carvalho da Silva
A Bem Amada no Mar
Alva gaivota hesitante
a bem-amada insinua
ao dorso de um mar sem ilhas
seu corpo de garça nua.
Suas mãos voam como pássaros
de fina garra escarlata.
No búzio de sua orelha
ressoam segredos de água.
A bem-amada se esconde
atrás de fortins de espuma.
De cem espelhos truncados
sobem reflexos de lua,
E o mar, como um polvo, aperta
sua cintura delgada.
Já as estrelas desfalecem
nos olhos da bem-amada.
Já os seus seios afloram
como "ice-bergs" na bruma.
E um batel de algas negras
entre suas coxa flutua...
Já os seus cabelos se soltam
como sargaços errantes.
Já em suas mãos embaraça
o galopar de hipocampos.
E quando morrer a lua
e o sol afagar seu rosto
as andorinhas do mar
virão noivar em seu corpo.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
a bem-amada insinua
ao dorso de um mar sem ilhas
seu corpo de garça nua.
Suas mãos voam como pássaros
de fina garra escarlata.
No búzio de sua orelha
ressoam segredos de água.
A bem-amada se esconde
atrás de fortins de espuma.
De cem espelhos truncados
sobem reflexos de lua,
E o mar, como um polvo, aperta
sua cintura delgada.
Já as estrelas desfalecem
nos olhos da bem-amada.
Já os seus seios afloram
como "ice-bergs" na bruma.
E um batel de algas negras
entre suas coxa flutua...
Já os seus cabelos se soltam
como sargaços errantes.
Já em suas mãos embaraça
o galopar de hipocampos.
E quando morrer a lua
e o sol afagar seu rosto
as andorinhas do mar
virão noivar em seu corpo.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
1 260
António Ramos Rosa
Mediadora da Construção
Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
508
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência Nupcial
Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
1 055
Jorge Viegas
Antecipadamente escorregadia
Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio
Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais
O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado
Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada
Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio
Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais
O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado
Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada
Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
960
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 066
António Ramos Rosa
A Que Aparece Nua
A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
1 039
Rosa Leonor Pedro
MA E MI
Meu amor, procuro o ritmo do teu corpo no meu corpo,
procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.
Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.
Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.
Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...
procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.
Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.
Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.
Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...
1 015
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 027
Olegário Mariano
Fulaninha
Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 031
António Ramos Rosa
Uma Felicidade Nos Dedos
Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
1 111
António Ramos Rosa
Mediadora da Nudez
Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.
Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.
Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.
Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.
Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
926
Stéphane Mallarmé
Tristeza de verão
O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
1 651
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 004
António Ramos Rosa
Descida Oblíqua Leve
Descida oblíqua leve
iluminação do corpo
Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
iluminação do corpo
Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
989
António Ramos Rosa
Um Corpo Se Retrai E Se Constrói
Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
955
Agostina Akemi Sasaoka
Gênese
O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
873
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 025
António Ramos Rosa
Inexplicável Para Não Explicar
Inexplicável para não explicar
saborear na língua a virulência
de uma circulação
de um influxo
Ligeiros jogos na aparência
mas o trabalho sempre do arado
o rosto exposto
à incessante ressaca
da terra
Material e método de uma experiência
a vida aberta gasta
até à transparência
aqui e além de uma palavra
Corpo e língua acesos
pela mesma obscura deflagração
saborear na língua a virulência
de uma circulação
de um influxo
Ligeiros jogos na aparência
mas o trabalho sempre do arado
o rosto exposto
à incessante ressaca
da terra
Material e método de uma experiência
a vida aberta gasta
até à transparência
aqui e além de uma palavra
Corpo e língua acesos
pela mesma obscura deflagração
893
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Ii
Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
1 142
João Cabral de Melo Neto
Escritos com o Corpo
I
Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.
E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.
Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,
queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
II
De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.
Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,
porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,
se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,
pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.
III
Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.
Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.
É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.
Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.
Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,
até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.
IV
Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.
Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.
Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.
Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,
e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:
como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.
E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.
Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,
queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
II
De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.
Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,
porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,
se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,
pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.
III
Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.
Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.
É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.
Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.
Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,
até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.
IV
Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.
Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.
Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.
Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,
e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:
como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
1 630
João Cabral de Melo Neto
O que se diz ao editor a propósito de poemas
A José Olympio e Daniel
Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.
E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,
terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.
Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.
Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.
Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.
Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.
E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,
terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.
Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.
Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.
Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.
841
Agostina Akemi Sasaoka
Ligações Cruas
Gemeu
a escuridão...
No abraço silencioso
entre o muro e a noite,
tombaram os corpos.
Sobre as almas,
escorreram a dor e a paixão...
Por todas as esquinas,
esqueceram seus beijos
os amantes nictálopes.
Cada beco
ficou úmido, extático...
Tocaram, trocaram-se.
Um gomo de prazer
fartou o sono.
Assim,
o sexo se ajoelhou
perante as estrelas
e transpirou amor.
a escuridão...
No abraço silencioso
entre o muro e a noite,
tombaram os corpos.
Sobre as almas,
escorreram a dor e a paixão...
Por todas as esquinas,
esqueceram seus beijos
os amantes nictálopes.
Cada beco
ficou úmido, extático...
Tocaram, trocaram-se.
Um gomo de prazer
fartou o sono.
Assim,
o sexo se ajoelhou
perante as estrelas
e transpirou amor.
824
João Cabral de Melo Neto
A palavra seda
A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.
(Quaderna, 1956-1959)
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.
(Quaderna, 1956-1959)
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