Poemas neste tema

Corpo

Herberto Helder

Herberto Helder

I G

Se te inclinas nos dias inteligentes — entende-se
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
1 057
Herberto Helder

Herberto Helder

I H

Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
1 063
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sem Que Eu Pedisse, Fizeste-Me a Graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.
1 391
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Árvore Aberta

Dobrei os teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
a faca rasgou a barreira do ventre
a tua face abriu-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti

exílio
pátria            sobre o chão
e fuga

furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
1 107
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mimosa Boca Errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
1 526
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Federico García Lorca

Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra côr espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.

Vergonha de há tanto tempo
viveres — se morte é vida —
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.

Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.

(Amanhecerá.)

Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
— ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo —
que para sempre viverão

os poetas martirizados.
1 745
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Boca Para Ler, Para Abrir E Devorar

Boca para ler para abrir e devorar
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
1 151
Herberto Helder

Herberto Helder

I M

Porque abalando as águas côncavas o acordou a lua e empurrou para fora,
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
1 120
Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

A Origem do Mênstruo

De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de
Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.

(...)

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava,
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...

Essa ninfeta travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre pupúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...

(...)

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...

— "Estou perdida!" — trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...

(...)

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspeto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

— "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."

Amém! Amém! com voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...


In: GUIMARÃES, Bernardo. Elixir do Pajé. A Origem do Mênstruo. A Orgia dos Duendes. Introd. Romério Rômulo. Il. Fausto Prats. Sabará: Ed. Dubolso, 1988
2 382
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Bloco Intacto

Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 118
José Saramago

José Saramago

Em Violino Fado

Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Ouro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.
1 352
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Nus Se Banharam Em Grandes Praias Lisas

Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
1 272
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii J

Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 221
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii E

Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas —
a boca na ponta de um animal e na outra
o ânus, e o sangue ponta a ponta, ou uma haste para correr
o líquido do ouro — ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalhou no flanco
uma estrela que batesse de dentro para fora como um nome de baptismo,
o meu nome se me olho,
chaga atrás do paredão de um astro,
na obscuridade se a estaca rebenta
— e já se nomeia onde é mais suave,
cordão em torno do cérebro
doce quando sangra na soldadura dos cornos,
porque já se nomeia,
escuro na pedra e frio na água, quando
molha os dedos,
quando murmura por cima,
quando o sopro se levanta à altura dos ouvidos,
que nome tem, próximo
do seu estilo
duro, unha na falangeta, e o dedo que soletra cegamente
botão a botão,
estaca,
ah se a estaca fremisse tão pontuada como um corpo entregue ao sono,
poros à vista e tripas no avesso,
e não se diz em que idioma
dorme ou acorda, diz-se que a sua palavra se entrança
com a nossa, vasos com vasos cingindo o sangue
poderoso.
1 015
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii I

Músculo, tendão, nervo, e o peso da veia que leva,
entre caos e mecânica,
o sangue da memória ao aparelho de mármore
fechado, contínuo, poderoso,
brilhando de tremor molecular por fora
e de sangue recôndito.
963
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii B

A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
1 038
José Saramago

José Saramago

8

Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará

Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento

Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham

Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos

Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres

Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra

Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega

Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores

Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas

Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo

Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se

Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar

Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas

Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados

Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular

E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
967
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii A

Ninguém sabe de onde pode soprar.
De onde a prata abrasada sopra,
a lua contra o lado frio da água.
Quem do ar movido com mão baixa
faz
de si mesmo um respiradouro,
uma vibração
térmica. Os raios da corola hábil, a fole
depressa, plena, se o forno trabalha
para tanto luxo,
tanto vir cá fora: que o sangue metido a fundo na pessoa
transborda do nome dela.
A matéria queimada num enlace das tubagens ao meio
de quem não sabe de onde sopra quem sopra. Que
coisa nunca dita é soprada.
E como alguém se torna leve, de nenhures, quando ela toca e chameja,
calcina, aqui, a coisa para lavrar que sopraram
de espádua a espádua, dos pés à testa,
nome,
a toda a página alta, a alta
labareda.
1 020
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Eu Vos Direi a Grande Praia Branca

Eu vos direi a grande praia branca
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
1 163
Max Martins

Max Martins

Uma Tela de Dina Oliveira

Meu olho
no teu olho frestas

com arcos de ouro palha
e veludo pêlos

peluzem

Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam


In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 501
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii H

Marfim desde o segredo rompendo pela boca,
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
1 004
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii J

O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 190
Max Martins

Max Martins

O Iogue do Vale

Lado a lado as duas
montanhas repousam

Repousa o riacho

Imóvel a grande mandíbula
Tua enorme palavra parada no ar

(No vale em silêncio
somente esta ponte
secreta conduz
induz e condiz
ao desejo sutil)

Detido o teu sangue
quieto o quadril
o sagrado teu osso teúdo não sentes
Não sentes teu corpo
Viajas de ti

Belém, set. 1986


In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
1 293
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii I

Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
949