Poemas neste tema

Corpo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mulher Adormecida

fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
705
Gonzaga Leão

Gonzaga Leão

Soneto de Mar e vôo quase pássaro

Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido

que se refaz, de vôo prometido;
são de asas silenciosas teus artelhos:
e há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido

transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase:
um mar pousado em ti, calado e breve.

Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.

1 210
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Piéce Heróique

entro por ti como por um templo canal
aço vóltio arroio satã em tesão de rio
ponho-me orago de costas cabinda rapsódia cã
iridescendo marcha em humor de Nilo
baba vanga emborrachando santa ao altíssimo vazio
entro rapando rompendo faca a remoço do teu corpo
ao meio-dia e neve na têmpera do teu índigo
entro sem [...] afundando em sol a serpente noiva
no gargalho do navegante emboco gafo no lazaento
o verbo invertido no vigor de incesto que é chamar-te pai
e vir-me para cima de todos os teus símbolos
1 329
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Meus Amigos, Tam Desaventurado

Meus amigos, tam desaventurado
me fez Deus, que nom sei hoj'eu quem
fosse no mund'em peor ponto nado,
pois ũa dona [mi] fez querer gram bem,
fea e velha, nunca eu vi tanto;
e esta dona puta é já quanto,
por que eu moir', amigos, mal pecado.

[Ca] esta dona de pram há jurado,
meus amigos, por que perca meu sem,
que jasca sempre, quand'houver guisado,
ela com outr', e nom dê por mim rem;
e, com tod'aquesto, se Deus mi valha,
jasc'eu morrendo d'amor, e sem falha,
polo seu rostro velh'e enrugado.

E desta dona moito bem diria,
se mi val[vesse]...
606
Décio Pignatari

Décio Pignatari

Escova

Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 266
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Moitos S'enfingem Que Ham Gaanhado

Moitos s'enfingem que ham gaanhado
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.

Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.

Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.

E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
509
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quantos gozam o gozo de gozar

Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
        Entre eles e o verem
        Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
        Aos outros como prémio
        De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
        Aprende o que te ensina
        Teu corpo, teu limite.
2 403
Pedro Amigo de Sevilha

Pedro Amigo de Sevilha

Elvir', a Capa Velha Dest'aqui

Elvir', a capa velha dest'aqui,
que te vendess'um judeu corretor,
e ficou contig'outra mui peior,
Elvir', a capa velha, que t'eu vi;
ca, queres sempre por dinheiros dar
a melhor capa e queres leixar
a capa velha, Elvira, pera ti.

Por que te fiqu', assi Deus ti perdom,
a capa velh', Elvira, que trager
nom quer nulh'home mais, dás a vender
melhor capa velha doutra sazom.
Elvira, nunc'a ti capa darám,
ca ficas, destas capas que ti dam,
com as mais usadas no cabeçom.

E a capa, velh'Elvira, mi pesou,
porque nom é já pera cas d'el-rei
a capa velh', Elvira, que eu sei
muit'usa[da] que contigo ficou:
ca pera corte sei que nom val rem
a capa, velh'Elvira, que já tem
pouco cabelo, tam muito s'usou.
550
Luís Gama

Luís Gama

A um Nariz

Você perdoe,
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.

Gregório de Matos

Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.

Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,

Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante

Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.

De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.

Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.

E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.

Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.

Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.

Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.

É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.

Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.

Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.

De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.


do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).

1 405
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Pelicano

enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim

Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi

que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
1 462
Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Nada tão silencioso como o tempo

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
2 202
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LE MIGNON

Let them speak ill of me. I do not care
Why shouldst thou care that fairer art than I?
My lips so oft have rested on thy hair,
So oft on thy lips, and so oft
On thy white arms that yet pretend to lie
On my dreams cushions like a vague thing soft...

Let them speak. Life is sweet if thy lips mean
Life. Love is sweet if thou art love.
The scorners cannot know what kisses screen
Our throbbing heart from heart nor prove
That full possession our mad love can scene
With perverse actions like an empire's end
That sinks among the galleys and doth blend
Its sunset with the landscape's emerald green.

Let them speak. Put thy hand within my hand
And let us love as maid and boy are said
To love. But we are none and love is red
On our hot souls thrill and understand.
Oh, to thy bed!

Oh to thy bed, fairer than maidens' couches
And curtained over with strange care for strangeness,
Let's to thy bed and kiss naked while touches
Selected from our hotter dreams transcend
Lust with thought lust acted upon our frames.
The magic misery of our wedded names
Shall light the future with impassioned strangeness.

Antinous!
1 484
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Biqueirões Caseiros

para beber o abismo deve-se bebê-lo líquido
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima

deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui

é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos

é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -

comecemos delicadamente pelo topo
1 269
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O heavy day that comes with so much glee

O heavy day that comes with so much glee
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.

O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.

My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.

He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.

Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.

Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
1 463
Max Martins

Max Martins

Uma Tela de Dina Oliveira

Meu olho
no teu olho frestas

com arcos de ouro palha
e veludo pêlos

peluzem

Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam


In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 501
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Quanto de Areia e Brita

os nossos mestres estão mortos insisto
não exagero que perdemos coragem
até à mãe que pariu isto da beata vita

deram-nos a cruz latada por onde o diabo trepa
separando por jóias os ocidentais dramas
tudo indica que fosse templo de uma reza trena
um still mudo que dissesse que é urgente tocar
à dura-máter do zoo genético, digo

aos que juram que hão-de salvar isto pela literacia
dêem-me as vossas azias cubro-as de cimento quente
esvazio-vos as barrigas, se havemos de nos ler todos
por mãos gitanas

lembrando a médica teórica da mesótes
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinhe-se a morta facilita
a cerveja assiste no limbo perfeito dos deuses
e seus anexos suicidas

torceram-nos ainda as mãos como molhando-as
sobre a cama não é certo o que dormir
e uma presença de coisas exuberando não chega
para que se imponha ao homem a própria vida

adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria

deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto

muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima
1 266
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Los Borges

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 136 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 399
Max Martins

Max Martins

O Iogue do Vale

Lado a lado as duas
montanhas repousam

Repousa o riacho

Imóvel a grande mandíbula
Tua enorme palavra parada no ar

(No vale em silêncio
somente esta ponte
secreta conduz
induz e condiz
ao desejo sutil)

Detido o teu sangue
quieto o quadril
o sagrado teu osso teúdo não sentes
Não sentes teu corpo
Viajas de ti

Belém, set. 1986


In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
1 292
Rui Queimado

Rui Queimado

Dom Estêvam, Em Grand'entençom

Dom Estêvam, em grand'entençom
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!

E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.

Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
630
Dimas Macedo

Dimas Macedo

Espelho

O corpo avança
apalpo a busca
tateio o labirinto.

Em mim
a dor lacera,
dói a solidão.

Em tudo o ser
reage aos passos
pousados no silêncio:
concluo a exatidão
da minha ausência.

No espelho
a meta se assemelha,
reajo à magia, ao perfil,
afasto a sombra.

932
David Mestre

David Mestre

Ngaieta de beiço

Cantarei
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da

minha língua (em guarda).

O oiro
o mel
o silêncio cúmplice

a arca da tua boca
magra.

Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?

Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.

Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá

1 027
Afonso X

Afonso X

Dom Gonçalo, Pois Queredes Ir Daqui Pera Sevilha

Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.

Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.

E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.

E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.

Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.

Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.

E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.

E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.

Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.

E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.

E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.

E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
728
Ruy Belo

Ruy Belo

A beringela

É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 481
Ruy Belo

Ruy Belo

Composição de lugar

Não caibo nesta tarde que me desfolhas
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que lida
e soletrada descubro inatingível como o vento a rua e a vida
As mesmas mãos que antes desfraldavam
domésticas insígnias abaixo dos beirais e
emprestam novos pássaros às árvores.
Pétala a pétala chego à corola desta minha hora
Roubo o meu ser a qualquer outro tempo
não há em mim memória de alguma morte
em nenhum outro lugar me edifiquei
Arredondas à minha volta os lábios para me dizer
recuo de repente àquele principio que em tua boca tive
Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida.
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
1 652