Poemas neste tema

Corpo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Deusa de Um Metro E Oitenta

sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
[parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
“vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez”.

depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.

ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.

ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.
1 227
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Dos Frutos Nocturnos

Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.

Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.

Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 066
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Convite Triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros seqüestros
(o olhar obsceno e a mão idiota),
depois vomitar e cair
e dormir.
1 271
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Já Vi Mendigos Demais Com Os Olhos Vidrados Bebendo Vinho Barato Debaixo da Ponte

você se senta comigo
no sofá
nesta noite
nova mulher.

você já viu os
documentários
sobre animais carnívoros?

eles mostram a morte.

e agora me pergunto
que animal entre
nós dois
devorará
primeiro o outro
física e
por fim
espiritualmente?

nós consumimos animais
e então um de nós
consome o outro,
meu amor.

enquanto isso
prefiro que você vá
primeiro e do primeiro jeito

se os gráficos de performance passadas
significarem alguma coisa
eu certamente irei
primeiro e do último
jeito.
1 346
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Imediata

Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante

corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.

Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 004
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Opaco

Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.

Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode

no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Plenitude

Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
1 103
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Assassina

a consistência é impressionante:
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros

ela segue de homem em homem
oferecendo carícias

ela fala de amor

então submete os homens
à sua vontade

boca fedorenta
podre por dentro

vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás

sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
1 169
Charles Bukowski

Charles Bukowski

100 Quilos

estávamos na cama e
ela começou a brigar:
“seu filho da puta! espere um minuto,
vou acabar com a sua raça!”

comecei a rir:
“qual é o problema? qual é o problema?”

“seu filho da puta!” ela gritou.

segurei-lhe as mãos enquanto ela se contorcia.

era um par de décadas mais jovem do que eu
uma maluca bem-alimentada.
ela era muito forte.

“seu filho da puta! vou acabar com a sua raça!”
ela gritou.

rolei por sobre ela com meus 100 quilos e
fiquei apenas ali.

“uugg, uuuu, meu Deus, isso não é justo, uuuu, meu
Deus!”

rolei para o lado e caminhei até a outra peça e
sentei no sofá.

“vou pegar você, cretino”, ela disse, “você não perde por
esperar!”

“só não o arranque com uma mordida”, eu disse, “ou você
[fará
triste uma meia dúzia de mulheres.”
ela subiu sobre a cabeceira da minha cama
(que possuía uma superfície plana embora estreita)
e ficou ali empoleirada assistindo às notícias na
tv.
a tv dava de frente para o quarto e a iluminava
ali sentada sobre a
cabeceira.

“pensei que você fosse normal”, eu disse, “mas é
tão louca quanto as outras todas.”

“fique quieto”, ela disse, “quero assistir ao
noticiário!”

“olhe”, eu disse, “vou...”
“SHHHH!”, ela disse.

e lá ficou sobre a cabeceira da minha cama
assistindo realmente às notícias. aceitei-a daquela
maneira.
1 331
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Losango da Pureza

Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
997
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra Ii

Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.

O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.

Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.

Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
1 141
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Incesto

Querer ainda um âmbito para um peito ou um ombro
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
1 289
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 156
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Sonâmbula

Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.

Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência

tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um No Outro

Não aceito o que ainda não tem nome. Escuto
a noite de uma árvore, um ventre sem umbigo.
Nada desejo e desejo o imóvel fundo.
Quero conhecer a pele nua e o sol da vulva.
Que a palavra respire e seja planície.
Viver é o teu ventre na frescura do começo.
Cada parcela do teu corpo expande o sangue solar.
Do fundo de mim tu caminhas para mim.
Que delícia estender-me até ao teu nome cego!
No triângulo perfeito somos um no outro.
Inundo-te como uma lava como um vento de vertigem.
Em ti penetro até ao fundo, até à perda,
ó corpo incandescente!
1 098
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Acaso

Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,

hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso

subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 061
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Real

Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.

Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.

Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 204
Martha Medeiros

Martha Medeiros

duas longas lindas

duas longas lindas
pernas no divã
convido pro cinema o analista
e resolvo este problema
amanhã
1 086
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aqui, Neera, longe

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, ó flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.


02/08/1914
1 660
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

Tereza

mãos enormes
as de Geraldo
tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza
quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche
neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo
mãos enormes
as de geraldo
tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento
841
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

O ORIENTE DA CIDADE

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe

entre putas e pombos construí poemas
773
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Árida

Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?

Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.

Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
1 022
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Dia

Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,

nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.

No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.

Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.

Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.

Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.

Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.

O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 095