Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 156
António Ramos Rosa
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
545
Carlos Drummond de Andrade
Cariocas
Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 264
Carlos Drummond de Andrade
Em Louvor da Miniblusa
Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
1 019
Vinicius de Moraes
Soneto de Carta e Mensagem
“Sim, depois de tanto tempo volto a ti
Sinto-me exausta e sou mulher e te amo
Dentro de mim há frutos, há aves, há tempestades
E apenas em ti há espaço para as consolações.
“Sim, meus seios vazios me mortificam — e nas noites
Eles têm ânsias de semente que sente germinar seu broto
Ah, meu amado! é sobre ti que eu me debruço
E é como se me debruçasse sobre o infinito!
“Pesa-me, no entanto, o medo de que me tenhas esquecido
Ai de mim! que farei sem o meu homem, sem o meu esposo
Que rios não me levarão de esterilidade e de tristeza?
“Mulher, para onde caminharei senão para a sombra
Se tu, oh meu companheiro, não me fecundares
E não esparzires do teu grão a terra pálida dos lírios?...”
Sinto-me exausta e sou mulher e te amo
Dentro de mim há frutos, há aves, há tempestades
E apenas em ti há espaço para as consolações.
“Sim, meus seios vazios me mortificam — e nas noites
Eles têm ânsias de semente que sente germinar seu broto
Ah, meu amado! é sobre ti que eu me debruço
E é como se me debruçasse sobre o infinito!
“Pesa-me, no entanto, o medo de que me tenhas esquecido
Ai de mim! que farei sem o meu homem, sem o meu esposo
Que rios não me levarão de esterilidade e de tristeza?
“Mulher, para onde caminharei senão para a sombra
Se tu, oh meu companheiro, não me fecundares
E não esparzires do teu grão a terra pálida dos lírios?...”
1 122
Rodrigo Carvalho
No Espelho
Vi as marcas do tempo em meu rosto.
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.
Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...
Salvador, 08 de janeiro de 1997
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.
Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...
Salvador, 08 de janeiro de 1997
943
Carlos Drummond de Andrade
Figuras de Carlos Leão
O corpo feminino revelado
em sua linha virginal e eterna
(cada manhã, surpresa e novo encontro
a cada novo olhar que nele pouse):
são de Carlos Leão estas figuras
fruto de sua mão ou se criaram
por si mesmas, à luz dos movimentos
que a mulher vai fazendo e desfazendo
no simples existir da intimidade?
A melodia corporal expande-se,
contrai-se, tudo é música no gesto
ou no repouso. O sono, esse escultor,
modela raras formas e aparências.
Carlos Leão, que tudo vê e sente,
recolhe-as no seu traço, com amor.
09/06/1970
em sua linha virginal e eterna
(cada manhã, surpresa e novo encontro
a cada novo olhar que nele pouse):
são de Carlos Leão estas figuras
fruto de sua mão ou se criaram
por si mesmas, à luz dos movimentos
que a mulher vai fazendo e desfazendo
no simples existir da intimidade?
A melodia corporal expande-se,
contrai-se, tudo é música no gesto
ou no repouso. O sono, esse escultor,
modela raras formas e aparências.
Carlos Leão, que tudo vê e sente,
recolhe-as no seu traço, com amor.
09/06/1970
1 057
António Ramos Rosa
A Caminho de Ti, Em Ti
Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 063
António Ramos Rosa
Um Pouco À Frente
Extrema e vaga lâmpada, um pouco à frente, onde o corpo vai entrar, murmúrio morno.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
975
Ricardo Aleixo
Labirinto
Conheço a cidade
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
961
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
1 001
António Ramos Rosa
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
949
Vinicius de Moraes
Poema Para Todas As Mulheres
No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
1 232
António Ramos Rosa
A Construção do Corpo
a André Frénaud
Sempre a tentativa nunca vã…
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a calma e a luz o movimento é livre.
Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.
No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.
Sempre a tentativa nunca vã…
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a calma e a luz o movimento é livre.
Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.
No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.
837
António Ramos Rosa
Entre As Raízes
Dedos articulados através das folhas,
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
folhas sobre folhas, num espaço verde, aberto
ao corpo que solta o olho à língua,
branda flecha perfurando frestas,
bichos lentos, fetos de ar, linhas fluidas,
palpo cabeça rente ao chão, caminho, inscrevo,
com a saliva, as finas raízes perceptíveis,
troncos visíveis nas fronteiras de água.
Avanço, caracol, a longa cama salivando,
raspando ervas, calcando o solo, na terra árida
com seus canteiros de treva e de silêncio, onde não há
nem rosto nem figura, caminho só de insectos,
longa cabeça suspensa sobre o ovo do silêncio.
A mão deitada escuta, um joelho num sulco,
longamente imóvel — eis o dorso da terra.
É o barco de ervas, a rotação lentíssima
que a tua mão recebe da terra e à terra imprime,
é o horizonte aberto que o teu rosto absorve,
é a página que o teu corpo sulca com o rumor da pedra sobre o sulco,
é o corpo que soluça sobre o solo, desliza solto,
deliciada duna adunando-se à terra,
um barco, um caracol saindo das raízes.
1 009
António Ramos Rosa
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
757
José Saramago
A Mesa É o Primeiro Objecto
A mesa é o primeiro objecto do sonho.
É branca, de madeira branca, sem pintura.
Tem papéis brancos que flutuam e se esquivam aos gestos.
O lugar seria um escritório se não fosse uma espécie de abside com degraus.
A parede curva, sem reboco, mostra as pedras roídas.
Quando o sonhador acordar, tentará saber onde esteve e há-de lembrar-se de uma ruína assim, em Paris, no museu de Cluny.
Mas não tem a certeza.
Os papéis brancos não obedecem, e isto impacienta o sonhador.
De repente há uma presença na abside, não bem uma presença, uma ameaça que se difunde e paira.
Começa o terror.
O homem que sonha quer resistir, mas o medo é mais forte, e não há ali ninguém a quem tivesse de mostrar coragem.
Foge por um longo corredor e pára junto de uma porta que dá certamente para um jardim.
Olha para trás, vai aparecer alguém.
Ao fundo do corredor passa de relance uma rapariga cor de fumo.
O medo é insuportável.
A rapariga vem pelo corredor, rodopiando em ziguezague, fazendo ricochete de parede a parede.
«Quem és?», pergunta o homem que sonha.
«Papoila», responde a rapariga, e ri sem ruído.
O medo lança o homem no jardim.
Cai no chão, e a rapariga, já não cor de fumo, mas suja, cai também.
Ao cair duplica-se, e as duas lutam arrancando-se bocados de roupas e de carne que logo se reconstituem.
O homem não aguenta mais, tem de libertar-se já.
Mas outra rapariga surge, igual às duas, e esta é muito maior.
Estão todos estendidos no chão, presos uns aos outros, e contudo não se tocam.
A rapariga grande tem um ovo dentro do bolso do avental.
Se aquele ovo for tirado e lançado pelo jardim fora e partido, será o fim do pesadelo.
Porque nesta altura o homem sabe que está a sonhar.
A rapariga grande senta-se no chão, dobra os joelhos, a saia escorrega sobre as coxas, o sexo fica à vista.
O ovo, é preciso tirar-lhe o ovo.
A rapariga começa a remexer-se, rindo.
Chegou o momento.
O homem mete-lhe a mão no bolso, agarra o ovo.
E acorda.
É branca, de madeira branca, sem pintura.
Tem papéis brancos que flutuam e se esquivam aos gestos.
O lugar seria um escritório se não fosse uma espécie de abside com degraus.
A parede curva, sem reboco, mostra as pedras roídas.
Quando o sonhador acordar, tentará saber onde esteve e há-de lembrar-se de uma ruína assim, em Paris, no museu de Cluny.
Mas não tem a certeza.
Os papéis brancos não obedecem, e isto impacienta o sonhador.
De repente há uma presença na abside, não bem uma presença, uma ameaça que se difunde e paira.
Começa o terror.
O homem que sonha quer resistir, mas o medo é mais forte, e não há ali ninguém a quem tivesse de mostrar coragem.
Foge por um longo corredor e pára junto de uma porta que dá certamente para um jardim.
Olha para trás, vai aparecer alguém.
Ao fundo do corredor passa de relance uma rapariga cor de fumo.
O medo é insuportável.
A rapariga vem pelo corredor, rodopiando em ziguezague, fazendo ricochete de parede a parede.
«Quem és?», pergunta o homem que sonha.
«Papoila», responde a rapariga, e ri sem ruído.
O medo lança o homem no jardim.
Cai no chão, e a rapariga, já não cor de fumo, mas suja, cai também.
Ao cair duplica-se, e as duas lutam arrancando-se bocados de roupas e de carne que logo se reconstituem.
O homem não aguenta mais, tem de libertar-se já.
Mas outra rapariga surge, igual às duas, e esta é muito maior.
Estão todos estendidos no chão, presos uns aos outros, e contudo não se tocam.
A rapariga grande tem um ovo dentro do bolso do avental.
Se aquele ovo for tirado e lançado pelo jardim fora e partido, será o fim do pesadelo.
Porque nesta altura o homem sabe que está a sonhar.
A rapariga grande senta-se no chão, dobra os joelhos, a saia escorrega sobre as coxas, o sexo fica à vista.
O ovo, é preciso tirar-lhe o ovo.
A rapariga começa a remexer-se, rindo.
Chegou o momento.
O homem mete-lhe a mão no bolso, agarra o ovo.
E acorda.
1 014
Vinicius de Moraes
Balada Para Maria
Não sei o que me angustia
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo...
Dá-me o beijo derradeiro?
— Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
— Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
E morro nessas montanhas
Entre as imagens castanhas
Da tua melancolia...
1 014
António Ramos Rosa
A Mão Que Principia Ao Alto
a Luiza Neto Jorge
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
764
António Ramos Rosa
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
1 134
Carlos Drummond de Andrade
Com Camisa, Sem Camisa
Cardin consulta o Velho Testamento
(um grão de cultura ajuda o talento):
O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, fazia-lhe agrados…
Tão bacaninha! Pierre decretou:
“Camisa, mes chers, agora acabou”.
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
“Olha só que pão!” exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pelo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
“Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo, bem folhudo,
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto, é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido”.
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste
com tua inovação, cabra da peste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.
14/03/1970
(um grão de cultura ajuda o talento):
O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, fazia-lhe agrados…
Tão bacaninha! Pierre decretou:
“Camisa, mes chers, agora acabou”.
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
“Olha só que pão!” exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pelo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
“Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo, bem folhudo,
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto, é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido”.
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste
com tua inovação, cabra da peste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.
14/03/1970
1 072
Vinicius de Moraes
Três Retratos
I
Joya
Joya, alegria da vida!
Joya entra, Joya brinca
Parola no telefone.
Joya, esses teus olhos são
Dois lagos de perfeição.
Joya dizendo nome feio
Joya falando inteligente
Joya fria? Joya quente?
(Inferiority complex).
Joya, alegria da vida!
Joya beija inefavelmente.
II
Maja Raquel
Pero, não és de Argentina
Muñeca de Barcelona?
Quem te deu pernas tão lindas
Peregrina, marafona?
Que Goya te fez, divina
tan cruda e calina, dona?
Nostalgias, de escuchar tu risa loca...
III
Milady
Tu étais si folle, chère, que nous avons joué la physique expérimentale,
l‘álgèbre supérieur et la géométrie analytique, et tu avais trois amours
d‘enfants et moi force d‘une angine de gorge qui me tuait.
Ta Hudson portait d‘affreuses trâces de nos amours.
Joya
Joya, alegria da vida!
Joya entra, Joya brinca
Parola no telefone.
Joya, esses teus olhos são
Dois lagos de perfeição.
Joya dizendo nome feio
Joya falando inteligente
Joya fria? Joya quente?
(Inferiority complex).
Joya, alegria da vida!
Joya beija inefavelmente.
II
Maja Raquel
Pero, não és de Argentina
Muñeca de Barcelona?
Quem te deu pernas tão lindas
Peregrina, marafona?
Que Goya te fez, divina
tan cruda e calina, dona?
Nostalgias, de escuchar tu risa loca...
III
Milady
Tu étais si folle, chère, que nous avons joué la physique expérimentale,
l‘álgèbre supérieur et la géométrie analytique, et tu avais trois amours
d‘enfants et moi force d‘une angine de gorge qui me tuait.
Ta Hudson portait d‘affreuses trâces de nos amours.
1 083
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Lírio
O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
1 058
António Ramos Rosa
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
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