Poemas neste tema

Corpo

José Saramago

José Saramago

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Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará

Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento

Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham

Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos

Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres

Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra

Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega

Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores

Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas

Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo

Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se

Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar

Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas

Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados

Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular

E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
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Adélia Prado

Adélia Prado

Um Silêncio

Ela descalçou os chinelos
e os arrumou juntinhos
antes de pôr a cabeça nos trilhos
em cima do pontilhão,
debaixo do qual passava um veio d’água
que as lavadeiras amavam.
O barulho do baque com o barulho do trem.
Foi só quando a água principiou a tingir
a roupa branca que dona Dica enxaguava
que ela deu o alarme
da coisa horrível caída perto de si.
Eu cheguei mais tarde e assim vi para sempre:
a cabeleira preta,
um rosto delicado,
do pescoço a água nascendo ainda alaranjada,
os olhos belamente fechados.
O cantor das multidões cantava no rádio:
“Aço frio de um punhal foi teu adeus pra mim”.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Olhos Mortos

Algum dia esses olhos que beijavas tanto
Numa carícia sem mistérios
Olharão para o céu e pararão.
Nesse dia nem o teu beijo angelizante
Poderá novamente despertá-los.
A luz que lhes boiava nas pupilas
Tu a verás talvez na face magra
Do Cristo prisioneiro entre as mãos crispadas.
Eles serão brancos — a imagem desse céu alto e suspenso
Que foi a sua última visão.
Eles não te dirão mais nada.
Não te falarão aquela linguagem extraordinária
Que te repousava como uma música longínqua.
Não olharão mais nada que uma distância qualquer, longe
Uma distância que nem tu nem ninguém saberá qual é.
Eles estarão abertos, compreensivos da morte, parados
Nem tu conseguirás mais despertá-los.
E eu te peço — tu que tanto amavas repousá-los
Com a luz clara do teu olhar sem martírios —
Não os prendas à angústia triste do teu pranto.
Silêncio... silêncio... Beija-os ainda e vai...
Deixa-os fitando eternamente o céu.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Ruim

Me apanho composta:
as vísceras, o espírito,
meu ânima em dispneia.
Nem uma seta consigo pintar na estrada.
Ô tristeza, eu digo olhando meu livro.
Ô bobagem.
Ô merda,
polivalentemente, eu digo.
De que me adiantou pegar na mão do poeta
e mandar pra frente da batalha feminista
a mulher do meu amado,
se o que me sobra é um nó,
uma ruga nova,
a lembrança da gafe abominável?
Tudo para encruado.
Nem ao menos o rabo da poesia,
o fedor de vida
que às vezes deixa no ar
seu intestino grosso.
Ô Deus, eu digo enraivada,
esmurrando o ar com meu murrinho de fêmea.
Ó. Ai. Ai ai ai...
Se chovesse ou eu ficasse grávida,
quem sabe?
Na saída da cidade desconhecida
duas placas altas apontavam:
IBES.................ARIBIRI
Um preto no cruzamento
olhava atentamente para o fim dos tempos.
Eu olho meu olho fixo.
Como se não houvesse cantochão nem monges.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Árvore

Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 075
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para a Linguagem Necessária

Minhas palavras, meus saltos
bruscos, pontiagudos
para dizer o espaço
que subjaz sempre novo.

Para dizer o que resta
ou o que falta de súbito,
o que nos faz continuar,
água livre.
*
A linguagem sem pintura
mas bela de natural
envelhecendo ao sol
carne pungente e dura
com nervos de pedra à mostra
*
Não saber não querer e no silêncio
desejar esse abraço inerte e idêntico
a liberdade de não querer
o desejo de ser esse não ser
de pedra e água sem ninguém,
descer à imóvel dureza do osso,
ganhar a força elástica do animal.
*
Insisto, não insisto, é só uma tentativa,
porque desejo o gosto renovado,
perder-me é encontrar-me aberto, sem desejos,
o corpo reunido, intensamente solto,
o ar suspenso.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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na morte de Mário Cesariny
corpos visíveis,
nobilíssimos,
inseparável luz que move as coisas,
ter um inferno à mão seja qual for a língua,
toda a água é inocente e escoa-se entre as unhas,
à porta do forno crematório alguém lhe toca,
vai lá, vai que te acolham, brilha, brilha muito, brilha tanto quanto não possas, brilha acima
faz brilhar a mão que melhor redemoinha,
a mão mais inundada,
e ele entra sem esperança nenhuma,
só na última linha quando o coração rebenta,
reconhece quem o olha
1 229
Herberto Helder

Herberto Helder

5B

Os tubos de que é feito o corpo,
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
726
Herberto Helder

Herberto Helder

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talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
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Herberto Helder

Herberto Helder

Astro Assoprado

Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei.
Nada me toca.
Apenas um dedo de mármore na cabeça.
Trespassa-a, têmpora a têmpora, coroa de uma agonia
na escuridão das camas. Para dançar.
A roupa treme ao choque do sangue,
magnetizada,
viva repentinamente. Ninguém me diz como
se tece o casulo, e a seda
transpira de si mesma. O arpão de mármore traz,
directa do coração,
a ferida. Depois danço, e carne e roupa
são a mesma coisa, a coisa que dança, a chaga
dessa leveza. Prodígio
do talento pontuado à força de branca pedra
demoníaca.

Que me dê essa coroa, que me levante
da sonolência, da obscura inocência
que em mim corre também, entre os lençóis e o tremendo
esplendor das vísceras. Das partes negras,
da queimadura
na boca, os intestinos onde brilha o alimento,
o ânus que me fundamenta
nas trevas, e
dentre a raiz dos membros — arranca
um planeta que dance, limpo, apenas com um anel
saturnino à volta. E o eixo
de mármore implacável.

Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as chispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
— aquela baixa música mortal.
Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.

Animal de Deus, eu.

Uma ferida.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
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Herberto Helder

Herberto Helder

4

Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.

Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.

Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.

Nunca durmo.

Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.

Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

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há muito quem morra precipitadamente,
ainda o ar não faísca contra o prodígio das frutas,
ninguém ainda está maduro,
uns são varados por uma bala na bôca,
outros deitam os pulmões queimados pela bôca fora,
ou são cortados ao meio por uma serra eléctrica,
há quem avance pela água e vá pela água abaixo e morra coberto de água,
quem talhe a veia jugular frente ao espelho para ver o que faz a morte
com tanto sangue à volta dela,
são mortes académicas,
et parce que l’on ne peut pas ne pas écrire,
talvez se devesse morrer de ter escrito uma frase, ou respirada ou
irresistível ou arrancada, excedendo o mundo,
ou uma expressão de amor obscena e dôce,
então sim já se estaria pronto para as perguntas:
dói? doem? onde? como? quando?
sempre, o corpo todo, toda a memória, o que pára ou se move,
como junto a um monte de sete adjectivos de sêco e fero a informe,
onde tudo dor lhe era e causa que padeça,
eu, substantivo,
já pouco sôfrego,
já estrito, mínimo,
apanhado nos distúrbios de março a junho, e o ouro
sobe à pôlpa das nêsperas, e o sangue
sobe
para debaixo das pálpebras quando se dorme e o corpo é luminoso,
e a mão que então acorda é mais na luz ou mais na água leve,
oh dias esses saídos assim do sono com um golpe na mão sestra,
manhã, noite, o golpe sangrando sôbre
entre papel e fôgo linha a linha recosidos num caderno portátil até onde,
delicadeza e turvação nos dedos,
e então, algures, um nó tão físico mas que,
passado à mente,
doía em tudo,
que em língua era: a morte a trabalhar entre recto e uretra e,
mexendo por aí,
trabalhava na alma das palavras,
punha-as em teorema, demonstração inexplicável, lei
externa à dor, à espera de
como ela vem célula a célula, como devora
o idioma, a gaja scienza, o quotidiano, a escrita,
já sôbre linho e louça,
já frente à amada fêmea:
rins quebrados, quadris luxuosos, púbis alto,
o cego odor do mênstruo,
já triunfam nas mãos as frutas do tempo,
já lavra a escarlata no cabelo frio,
já como é mortífero,
já o espírito encontra a forma,
à mesa, em pé, suspenso, vendo de repente o ar inteiro metido pela
árvores dentre
pela água salgada dentro,
às portas acá da noite avonde,
e como abunda a noite!
o ar inteiro metido pela noite dentro, e que ébrio,
redivivo
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Herberto Helder

Herberto Helder

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não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração apenas, do fundo da
madeira,
do saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
diz-se às vezes: posso colher os elementos que se movem,
colhê-los, e recolhê-los, e ser movido por eles, e caminhar pés nus
em cima de água,
luz salgada contra o rosto,
quem morre morre só, morre de amor e desamor, ou muito dentro ou
muito fora,
todos os palmos da mão em prática na morte própria
durante quanto tempo a um homem depois de morto lhe crescem unhas e cabelo?
que a terra me não côma vivo,
o sangue, cortem-no cerce e fresco
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Herberto Helder

Herberto Helder

3

Sei às vezes que o corpo é uma severa
massa oca, com dois orifícios
nos extremos:
a boca, e aos pés a dança com a coroa de labaredas
— a cratera de uma estrela.
E que me atravessa um protoplasma
primitivo,
uma electricidade do universo,
uma força.
E por esse canal calcinado sai
um ruído rítmico, uma fremente
desarrumação do ar, o verbo sibilante,
vento:
o som onde começa tudo — o som.

Completamente vivo.
1 129
Herberto Helder

Herberto Helder

2

Aberto por uma bala
de fora para dentro. Como um olhar de Deus,
ou da paisagem,
até à raiz do nervo de que vivo todo.
Aberto, descoberto.
Ou fechado inteiro para sempre.
E ao furo imaginário queimado
reflui o sangue do mundo.
O nó mais duro, o puro nó da carne
— o centro.
Furioso fulcro do espírito.
E aí que penso.
Por onde falo ainda tão depressa
que ressuscito, ardido.
1 068
Adélia Prado

Adélia Prado

Bairro

O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
1 901
Herberto Helder

Herberto Helder

Não Te Queria

Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
— aterrada pela riqueza —
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som e unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra.

Nome do mundo, diadema.
579
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Espaço a Espaço

Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 099
Herberto Helder

Herberto Helder

5C

Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.


1985, revisto em 1987.
1 120
Herberto Helder

Herberto Helder

Adolescentes Repentinos

Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.

Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.

E então a sua carne é uma estrela suada.
533
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Desencanto

Eu canto o canto
do meu desencanto.

Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.

E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.

Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.

964
Herberto Helder

Herberto Helder

4

filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando
dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela abaixo
— a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
1 082
Herberto Helder

Herberto Helder

1

nunca estive numa só linha a tão vertiginosa altura,
oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!
quando nos vimos nus um em frente do outro,
na nossa primeira noite nos começos do mundo,
numa pensão rasca de um bairro de quinta ordem,
o putedo sai que entra pelos quartos à volta
— peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido
seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.
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