Poemas neste tema

Corpo

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As tuas mãos terminam em segredo.

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
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Lila Ripoll

Lila Ripoll

Floresta

De olhos fechados
mergulho em teu ventre.
Perfumes se encontram
no meu rosto. Braços
apanham meus cabelos.

Braços leves, pesados,
amorosos ou rudes,
Braços de cedro
ou espinheiro,
de parasitas
ou cravos selvagens.

No ar e na boca
um gosto de erva
amanhecida. Um gosto
de coisa lavada.
Um ar de chuva
e terra. Um gosto
de mundo amanhecendo.

Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.

Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento
secreto das raízes!


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
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Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Banquete Ilúdico

Quando me chegam, subitamente,
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.

Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.

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Luís Palma Gomes

Luís Palma Gomes

Natação

Os olhos ardem-me,
quando afloram o limiar verde das coisas,
as abelhas, a película correctíssima dos teus.

Perdoa-me, Amor,
se deixei fugir o prazo
para reclamar o espólio herdado
e requerido em papel selado
na conservatório do registo predial...

Aqui, de onde te escrevo,
não há princípios, nem fins,
e até o tráfego estagnou
retratando-se temporariamente
na superfície morta do lado municípal...

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Carlos Fino

Carlos Fino

a teia do olhar

as duas mãos no rosto

descrevo-te o silêncio sob os lábios
juntos
agora celebrando as delicadas sedes
e rindo sobre a haste
onde a saliva tarda

o tacto é uma arma onde o esplendor devora
os sinuosos dedos
e paira sobre o ardor
onde incendeio os pulsos

o amor é uma dança
a demolir-me o peito

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Stela Fonseca

Stela Fonseca

Prazer e êxtase

O prazer se
faz em êxtase:
quando o
meu corpo,
feito água,
descobre
todos os
caminhos
do seu.
E deixa-se
ficar
onde você
mergulha em
mim.

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Sebastião Alba

Sebastião Alba

Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


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Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Elogio do pecado

Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Brincando Com Os Dentes do Tubarão

You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom
tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters

Acompanhar teu percurso
natural
é muito bom
falar contigo
sobre tipos de alimentos
também

Neste começo d’hoje
tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu

My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

O Silêncio

Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.

Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.

Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
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Cláudia Marczak

Cláudia Marczak

O sexo é sagrado

O sexo é sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.

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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Assim é o medo 

Assim é o medo:
cinza
verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.

Da sombra espreita
à espera de algo
que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.

No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.

E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.

Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.

Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,
as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.

As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?

de Além da imagem (1963)

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Bruna Lombardi

Bruna Lombardi

Uma mulher

Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.

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José Saramago

José Saramago

De Paz E de Guerra

Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.

Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.

Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.

Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.

Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Roma Amor

Seu cabelo está vermelho
você falou
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
I never wanna be
your weekend lover
respondi certeiro
rebobinando 600 dias
Você lembra da canção?
I never wanna be
your weekend lover
suas mãos desenhando a dança
no oxigênio daquele julho
e o pó se levantando
desde os seus calcanhares
até a nuca de fogo
Você fazendo pouco
de tudo que antes havia
sido chamado de baile
Purple Rain
seu cabelo está todo iluminado
de vermelho & luz
Você se lembra daquele julho?
Uau
você falou
sua pele cresce no vaso
da melanina cada ano mais
E por falar em canções
imagine Maria Teresa
arrumando a casa
arrastando os móveis
na interminável busca
por vestígios de pó
Quem sabe
se na centésima partícula
não será possível achar um pedacinho
do genoma do marido morto
Imagine Maria Teresa
de cabeça enfaixada
varrendo varrendo varrendo
até ficar envolta
na nuvem de pó em genomas
que acontece brilhantemente
no centro da sala
És faxinação, amor
Seu cabelo está todo iluminado
de partículas galácticas
sua pele brota toda negra
ameaçando a primeira visão
que o centauro ofereceu
ao menino de 13 anos
Quando apontou a concha de ouro
La deite a mano no tempo expresso diano
Você falou
é a forma como maio bate na janela
se refrate na geladeira
vai bater nos azulejos
se aloja em seus cabelos
respondi
é a época
das sementes e das explosões
amante de final de semana
não, meu bem
muito menos de quinta-feira
Pense nas crianças
nos avós das crianças
no olho de couro do tio das crianças
Veja só
nem todo mundo tem a possibilidade de ver
entrar em sua família
Um dançarino suspenso
um dançarino su-suspenso
constantemente suspenso
entre o rochedo e a flor
Pense nas crianças
e na fé de nossas crianças
Seu cabelo está todo vermelho
você falou
tudo está muito iluminado
I never wanna be
your weekend lover
eu falei
Então você abriu a porta
para interromper com a refração
para acabar com a promessa
para fechar o desenho
para espulsar o centauro
para estilhaçar a concha
para calar o príncipe
para colocar o móvel no lugar
e empurrar Maria Teresa
Você falou
vai embora
Desça as escadas e suma
Saia agora
Tem alguém chegando aí
e hoje
hoje é só segunda-feira
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José Saramago

José Saramago

Antes Calados

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
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António Ferra

António Ferra

Tatuagem

Ele tem um tigre gravado no braço
ela uma fada colada para sempre
ele uma árvore crescendo nas costas
ela uma ave voando no ventre

ele traz um gato pregado no braço
ela uma rosa bordada no seio
ele um lagarto atrelado à perna
ela uma estrela mesmo no meio

ele mostra a caveira rodeada de rosas
ela ramagens correndo-lhe o corpo
ele uma cobra subindo ao pescoço
ela mensagens de um pássaro morto

Eles pertencem àqueles que posam
entre cardumes azuis e vermelhos
ele com sorte, silêncio e futuro
ela com música a sair dos joelhos

Aqueles que adornam o seu próprio corpo
trazem imagens que alimentam a crença
de serem marcados por quem lhes pintar
um sinal na alma que lhes diga a pertença
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Otacílio de Azevedo

Otacílio de Azevedo

Catavento

"Alto, de frente ao revoltoso oceano,
e exposto à eterna rispidez do vento,
levanta-se ao prestígio soberano
dos músculos de ferro, o catavento.

Pulse-lhe a vida a cada movimento
e parece oxidar-lhe o desengano,
quando se lhe transforma num lamento
todo o seu vão clamor, vezes humano.

Pregado ao solo, numa infinda mágoa,
de mil sonhos, talvez, sobre os escombros,
chora, enchendo de pranto a caixa d’água...

É que ele, preso à angústia de existir,
sente a revolta de suster, aos ombros,
asas de ferro, e não poder subir!"

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Núbia Marques

Núbia Marques

Itinerário

Se tua cabeça de repente
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la

Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo

Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo

Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la

Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los

Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.

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Michelangelo

Michelangelo

AL COR DI ZOLFO

Um coração de enxofre, a carne estopa,
e de bem seca lenha o atro seio,
alma sem qualquer norte, alma sem freio,
desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,
e quanto o mundo é de ciladas cheio-
não é grã maravilha, se um anseio
a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo
se alguém as traz, a Natureza enfreia,
se a força aplica em toda a parte e logo...

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,
entregue o coração ao que o incendeia,
culpa será de quem me deu ao fogo.

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Núbia Marques

Núbia Marques

Tacto

Meu tacto-tateia-tonal no teu corpo
traumáticas-transidas-lembranças
tentando-contacto-intacto
tonteia-tensa-terna
na epiderme medonha carne
táctil-corpo-dútil-argamassa

Tenaz-tentativa-encontro
transitando corpo-espaço
tento-ativa
atenta segurança braço-aço
titubeio entre seio-anseio
trágica nelvrágica pálida-pele
bipartindo-patético-pasmos
plasmados-armados-magoados.

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Alice Ruiz

Alice Ruiz

lá ia eu

lá ia eu
toda exposta
àquele olhar
de garfo e faca
vendo
a mesa posta
minhas postas em fatias
ouvindo dos convivas
piadas macarrônicas


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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Manuela Amaral

Manuela Amaral

O espírito do sexo

Hoje acordei debaixo de mim

e senti o orgasmo do mundo
no corpo dos outros.

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Nauro Machado

Nauro Machado

Ofício

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.

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