Corpo
Antonio Roberval Miketen
Mendes and the Bullfight in the Round
millimeter by millimeter,
the petal-like tissue
to the finest needles.
To weave, weave, weave,
weave the bull in pink,
without yielding the very terrain
of the matador.
In the smothness of the silk,
in the cutting edge of a glimpse,
to slide over the sword
the purity of fire.
To retain the fate of the bull,
to feel the vein on the fingertip,
to bring the leather close to the body
without a flip of fear.
With the thinness of the needle,
even if the blood chills,
retain the dark rose
on the petal-like skin.
In the bullfight in the round,
to spill blood and salt,
weaving a rose
of fatal red color.
Millimeter by millimeter,
to yield, yield, yieid,
to yield until the very minute
when feeling that death has come.
Gilka Machado
Esboço
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
Nuno Júdice
Poema de amor para uso tópico
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
Nuno Júdice, in "Poesia Reunida"
Eugénio de Andrade
Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
Janice Caiafa
Luz-sem luz
na unha é anel
de musa, ao céu
é ranhura de luz
no sexo marca difusa
vala ventosa que suga
com ar rarefeito
Palma acidental só vulto
varia vertente convulsa
versátil em ondas em outra
de uma estrela
ausente veluda
o rastro de pontas.
Antonio Fernando De Franceschi
Corpo
João Gilberto Noll
o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
Edmir Domingues
Dístico para as portas do Recife
A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
Carlos Felipe Moisés
Mais um Dia
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
Nuno Júdice
A vindima de Eros
de outono. Com a precisão do vindimador, agarro
as suas vides e corto os cachos de névoa que
caem sobre a terra. Ponho-os no carro do poema,
e levo-os para a adega abandonada do sonho
para os transformar num vinho de palavras
feitas com as sílabas mais líquidas, as que se
podem beber pela taça da estrofe. E um fumo
da antiga inspiração evola-se da cuba
dos mistérios. As raparigas descalças, com
os seus aventais de sol, sobem para o lagar
e pisam as uvas. O cheiro do sumo sobe
até ao fundo da sua cabeça, e antes que fiquem
tontas começam a contar as memórias perecíveis,
as que nasceram de uma fuga nocturna
pelos campos impunes do estio. Espero
que acabem o seu trabalho, e vejo-as sair com
as pernas roxas até aos joelhos, e as saias subidas
até às coxas. Os seus olhos rodam como
as velas de um moinho ébrio de vento; e
abrem os braços à luz, como se desejassem
que ela limpasse os seus corpos da espuma
que os envolve. E canto esses corpos, como
se elas me pedissem que transformasse
o mosto dos seus lábios no vermelho puro
da madrugada. Assim, uma levada de versos
recitados nos rituais da origem inunda
os seus seios e restitui-lhes a brancura inicial,
enquanto me obrigam a beber os líquidos
que os seus pés destilaram. E apenas lhes peço,
quando vestem as suas túnicas de nuvem,
que atravessem de novo as videiras decepadas
e abracem os vindimadores, beijando-os,
para que eles provem o vinho novo dos seus lábios.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 18 e 19 - Lisboa, Outubro 2015
António Ramos Rosa
Um Pequeno Vulcão
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
Carlos Figueiredo
Jardins Secretos
Além do espaço que o corpo esculpe
existem abismos.
São segredos que vão se consumindo
em silêncio como cera
no calor da vida
são silêncios de uma cor tão clara
são como flores.
Como são pássaros
as almas.
Dalton Trevisan
Cantar 2
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?
como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?
se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?
maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua
não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego
como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados
é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?
Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar
oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada
sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile
quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?
me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?
quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente
como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?
ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas
desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes
vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua
eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
Antônio Massa
A Teia da Vida
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
Adélia Prado
Entrevista
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem
[é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
António Lobo de Carvalho
Soneto VIII
Põe-se a toalha, chega-se a bacia,
A lanceta na mão, pé na água quente,
Assustado o barbeiro, e reverente
Para a freira voltado assi dizia:
Se dá licença, vossa senhoria...
Pico?... ‹Sim, Ihe diz ela, e tão valente
Que parecia só estar doente
Por pica Ihe faltar naquele dia!
A sangria do barbeiro então se aplica,
E cuidando ao picar a freira morra,
Ela Ihe diz valente: Pica, pica:
E verás nesse sangue quando corra,
Que me fora melhor no que ele indica,
Se em lugar de lanceta fosse porra!
Amparo Jimenez
Entrega
en la playa de nuestros cuerpos
nos inunda un rugido de mar
contra las rocas.
Al retirarse,
lenta,
nos deja una brisa erótica
que nos envuelve
uniéndonos
para siempre
en un beso.
Chico Buarque
Caçada
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador
Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num mesmo impulso me expulso e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador
De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pêlo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador
Nuno Júdice
Poema de amor com imagens naturais
para os teus cabelos, os teus seios, a linha
exacta dos teus olhos, onde o destino se fixa
como o centro das águas que nascem em todos os pontos da terra.
De súbito, todos os rios deixaram de correr:
para os teus lábios, quando te ris, e esse riso
desce como a mais alta das cascatas para o vale
obscuro onde procuro, sem ver mais do que as sombras do céu.
De súbito, as montanhas parecem pálidas,
as árvores sem um abraço de ramagens, os
lagos sem uma profundidade de abismo, o mar
sem o brilho azul de cada dia: quando te olho,
e os teus lábios sugam toda a luz do mundo.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento", pág. 23 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O amor, um dever de passagem
Fui envenenado pela dor obscura do Futuro.
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo.
Agora torço-me de agonia
nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo
do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
já não sei nem o que digo nem o que isso importa. Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.
A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.
Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.
Almeida Garrett
com a polpa dos dedos
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota
até desmoronar
as vigas
dos meus olhos
Nuno Júdice
Tempo livre
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.
Corrêa de Araújo
Cinema
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos,
exagerado como folhas de árvores,
e eu tive de despejá-lo em outra boca.
Depois uma bala de coco apagou
o gosto da violência na penumbra
e a luz me entregou a impressão
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
Fernando Pessoa
Neste mundo em que esquecemos
Somos sombras de quem somos,
E os gestos reais que temos
No outro em que, almas, vivemos,
São aqui esgares e assomos.
Tudo é nocturno e confuso
No que entre nós aqui há.
Projecções, fumo difuso
Do lume que brilha ocluso
Ao olhar que a vida dá.
Mas um ou outro, um momento,
Olhando bem, pode ver
Na sombra e seu movimento
Qual no outro mundo é o intento
Do gesto que o faz viver.
E então encontra o sentido
Do que aqui está a esgarar,
E volve ao seu corpo ido,
Imaginado e entendido,
A intuição de um olhar.
Sombra do corpo saudosa,
Mentira que sente o laço
Que a liga à maravilhosa
Verdade que a lança, ansiosa,
No chão do tempo e do espaço.
09/05/1934
Gabriela Mistral
Ausência
Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.
Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.
Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me borro.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques
Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.
Se nos vai tudo, se nos vai tudo!