Poemas neste tema

Corpo

Társis Schwald

Társis Schwald

Puta suja

Queimo minhas mãos que sentiram teu corpo
Mas o gosto é eterno
Pode queimar minhas roupas
Lamber minhas botas
Beber meu leite
Queimaria minhas mãos que te tocaram?
Que amarram teu corpo e surram tua pele negra e doce
Quero sentir o horror disso e algumas vezes não tenho lágrimas
Preciso voltar para meu pai
Sentir o arrependimento
Subir me arrastando,
Mas tua pele não me deixa – é uma sede que não se mede
Tua dor foi acordada
Tua boca negra é minha
Tuas pernas me sugam
Me devoram e me findam

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Outra Porta do Prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
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José Paulo Paes

José Paulo Paes

À MINHA PERNA ESQUERDA

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Tão Bom Aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro do café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.
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Paul Groussac Mendes

Paul Groussac Mendes

Naquele apartamento

(Para Darci Quinha Castro)

À noite tarde, tarde noite,
Em transe de açoite
Naquele apartamento,
Eu te amei em tormento

Teus seios sob blusa carmesim
Pontudos me diziam sim;
Tua boca ávida, seca de prazer
Engoliu-me a ponto de jazer

Tuas gostosas coxas quentes
Enlaçavam-me em frementes
Amarras do trepar,
Já na iminência de gozar...

Arranquei tua calcinha, quinha
Senti a delícia de tua castanhinha
Quando em frenesi meu falo
Adentrou tuas entranhas em calo

Renasci e acalmei o teu desejo,
Que mesmo agora ainda vejo
E sinto o ardor, o sugar, o morder,
O mamar, o beijar, o penetrar, o foder...

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Dos formas del insomnio

¿Qué es el insomnio?
La pregunta es retórica; sé demasiado bien la respuesta.
Es temer y contar en la alta noche las duras campanadas fatales, es ensayar con magia inútil una respiración regular, es la carga de un cuerpo que bruscamente cambia de lado, es apretar los párpados, es un estado parecido a la fiebre y que ciertamente no es la vigilia, es pronunciar fragmentos de párrafos leídos hace ya muchos años, es saberse culpable de velar cuando los otros duermen, es querer hundirse en el sueño y no poder hundirse en el sueño, es el horror de ser y de seguir siendo, es el alba dudosa.

¿Qué es la longevidad?
Es el horror de ser en un cuerpo humano cuyas facultades declinan, es un insomnio que se mide por décadas y no con agujas de acero, es el peso de mares y de pirámides, de antiguas bibliotecas y dinastías, de las auroras que vio Adán, es no ignorar que estoy condenado a mi carne, a mi detestada voz, a mi nombre, a una rutina de recuerdos, al castellano, que no sé manejar, a la nostalgia del latín, que no sé, a querer hundirme en la muerte y no poder hundirme en la muerte, a ser y seguir siendo.



Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 533 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mulher Andando Nua Pela Casa

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d’água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pelos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
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Miguel de Unamuno

Miguel de Unamuno

El cuerpo canta

El cuerpo canta

El cuerpo canta;

la sangre aúlla;

la tierra charla;

la mar murmura;

el cielo calla

y el hombre escucha.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Era Manhã de Setembro

Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro
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Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Haicais

teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados

meus dedos-olhos
desvendam sem pressa
doces mistérios

palmo a palmo
dedo a dedo
inicio teu percurso

1 498 1
Paulo Montalverne

Paulo Montalverne

Cartografia

Deixe que meus versos
Acariciem teu pescoço
Para que cada palavra de minha boca
Busque os segredos profundos de tua pele.
Em verbos e adjetivos
Mapearei a geometria de tuas formas
Delirando entre sonhos e verdades
E desejos
E loucuras
E vivências.
Entre o toque da caneta no papel
E o de minha língua em tua língua
Vai uma distância tão curta
Que escala alguma representará.
Derrubando fronteiras
Com rios de prosa e versejar
Traçarei meandros de corpos em corpos
Estremecendo as atmosferas de nossos toques.
E quando o último verso meu
Escorregar de tuas pernas
Eu me afastarei
E contemplarei
Cada linha eterna de tua beleza,
Eternamente gravadas em mim.
E saberei não haver distância
Entre minhas palavras e tua boca.

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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Ignoro o que seja a flor da água

mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.

de Branco No Branco
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Rômulo do Amaral Filho

Rômulo do Amaral Filho

Sibilo

Sibilo me lembra serpente
Serpente me lembra bote
Bote me lembra picada
Picada me lembra veneno
Veneno me lembra teu beijo
Teu beijo me lembra desejo
Desejo me lembra amor
Amor me lembra prazer
Prazer me lembra teu corpo
Teu corpo me lembra sonhar
Sonhar me lembra te amar
Te amar lembra
Morrer de paixão

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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Como Uma Flor Na Chuva

cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.

Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
1 463 1
Douglas Mondo

Douglas Mondo

Eros

Sou preferido filho de Vênus
sinta minha libido molhada
que procura sua fenda imaculada
e inocula prazer feito veneno

Sou língua, enorme ou lingüeta
sou falus, penetro e me calo
no calor da sua rósea buceta
sou macho, falo com meu talo

Ouça trovões do poeta guerreiro
provoco a ira ou o desejo com ardor
sou um deus fruto da deusa do amor

Beba, sou deleite jorrando e engula
mate a sede, sou corpo na sua gula
quero, profano e arrombo, sou Eros

987 1
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

D Bailador-Bailarino

I

Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.

Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !

II

Emocionante,
A pantomina
Termina.

Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.

Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.

Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?

Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.

Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.

Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.

Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.

III

Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.

Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.

Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.

Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;

Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.

Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.

Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.

Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !

IV

Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................

Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................

Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...

V

Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...

IV

Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................

Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...

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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aliança

Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade

Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro

Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Desde a aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.

de Obscuro Domínio
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Paulo Montalverne

Paulo Montalverne

Homenagem

Ah, o pecado!
Viva o pecado
Que esconde em si
A mais casta virtude.
Pequemos todos, então,
Pois a alternativa
É sermos todos pequenos e vãos.

Deixemos correr
Mãos sobre nádegas
E olhares incestuosos
Sobre nossas próprias amantes.
Degolemos padres e pastores
(que também pecam, só que pecam
escondidos)
Pelo horror de terem inventado
As velhas beatas que nunca souberam
pecar.

E pequemos sem culpa
Porque culpa e pecado
Não sabem dançar um maxixe,
Só valsas vienenses.
Quando muito!
O pecado é belo,
Fulgurante e molhado;
Feito para ser deliciado
Como outra língua em nossa boca.

Fiquemos apenas com a angústia
Do pecado mal feito
Ou do jamais cumprido.
Pequemos o aqui e no agora
O pecado doce
Da quase-castidade abandonada.

Sem o pecado
Não acredito na sinceridade de Deus.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nocturno

Acordo quando os muros são o medo,
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.

Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
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Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

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Abus Novas

Abus Novas

Deus sabe que ninguém tem

Deus sabe que ninguém tem
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de temo ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sede vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vede quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
E coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores –
o gosto que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Carnicería

Más vil que un lupanar
la carnicería rubrica como una afrenta la calle.
Sobre el dintel
una ciega cabeza de vaca
preside el aquelarre
de carne charra y mármoles finales
con la remota majestad de un ídolo.


"Fervor de Buenos Aires", 1923


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 34 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Llegaste

Llegaste con ese modo de niña mujer
cuerpo hermoso, andar elegante
y gestos llenos de encanto.
Llegaste con una mirada de pena,
momentos de ausencia e intensa presencia.
Llegaste con ese modo franco,
suave, esparciendo y despertando
afecto y cariño.
Llegaste con ese dulce olor,
piel suave y voluptuosos labios.
Llegaste como si regresaras
de una larga ausencia
sembrada de los mejores recuerdos.

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