Poemas neste tema
Corpo
Giuseppe Belli
A embocadura
Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.
Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.
Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.
É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.
Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.
Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.
É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
1 001
Julio Ludemir
Escarpas
As minhas mãos escapam
pelas escarpas do seu corpo
e esculpem sensações indecifráveis
quando nos vemos nus em Vênus
ou nas vezes que navegamos até Veneza
descendo lentamente pelas correntezas do orgasmo.
pelas escarpas do seu corpo
e esculpem sensações indecifráveis
quando nos vemos nus em Vênus
ou nas vezes que navegamos até Veneza
descendo lentamente pelas correntezas do orgasmo.
1 101
Helga Holtz
Já espero
Certo livro de Jaspers despenca da estante fria,
acerta o ventre do meu corpo ao chão morno...
Há chamas em minhas mucosas; nos seios, fogo.
Incendeiam-me as inspirações transcendentais
Salvem, atirem as concepções do mundo à pia!
Traga-me, bombeiro, o além do mito/ideologia;
Apague toda dor, agonia e mea culpa depois...
Atire água na morte, o avesso atalho da fantasia.
Faça-me prenha com uma genital Philosophie,
transparentemente. À luz: Karlquer um, nós Dois.
acerta o ventre do meu corpo ao chão morno...
Há chamas em minhas mucosas; nos seios, fogo.
Incendeiam-me as inspirações transcendentais
Salvem, atirem as concepções do mundo à pia!
Traga-me, bombeiro, o além do mito/ideologia;
Apague toda dor, agonia e mea culpa depois...
Atire água na morte, o avesso atalho da fantasia.
Faça-me prenha com uma genital Philosophie,
transparentemente. À luz: Karlquer um, nós Dois.
848
Isabel Machado
Secundário
No círculo
dos quatro cantos
no meio, nós
somos dois ou um?
Abrimos os corpos
as pernas, a vida
adentram os poros
a seiva
a cada subida
e cada entrega
rega
o suor de orgasmos
múltiplos
sem clímax...
O poder do toque
nas mãos
não qualquer um
mas aquele
não qualquer língua
mas a sua
não qualquer sexo
mas o tanto
possante que me adentra
saliva que alimenta
o gozo
extraordinário
que torna o auge
do ato
um ato
secundário
dos quatro cantos
no meio, nós
somos dois ou um?
Abrimos os corpos
as pernas, a vida
adentram os poros
a seiva
a cada subida
e cada entrega
rega
o suor de orgasmos
múltiplos
sem clímax...
O poder do toque
nas mãos
não qualquer um
mas aquele
não qualquer língua
mas a sua
não qualquer sexo
mas o tanto
possante que me adentra
saliva que alimenta
o gozo
extraordinário
que torna o auge
do ato
um ato
secundário
1 067
Eliane Stoducto
Pororocas
Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
294
Fernando Correia Pina
Longa ia a noite
Longa ia a noite e a mulher sem sono,
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.
Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.
Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!
Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.
Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.
Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!
Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.
1 213
Cristiane Neder
Sexualidade
Eu sou heterossexual
sou roxo.
Eu sou homossexual
sou cor de rosa.
Eu sou bissexual
sou violeta neon.
Eu sou trissexual
abro meu leque na mão.
Eu sou quadrissexual
sou amarelo – limão.
Eu sou quinssexual
sou laranja – dourado.
Eu sou seis vezes
a cor do pecado.
Vou mudando de cor
até chegar no estado puro dos tons.
Sou branco virgem
na tonalidade assexuada.
sou roxo.
Eu sou homossexual
sou cor de rosa.
Eu sou bissexual
sou violeta neon.
Eu sou trissexual
abro meu leque na mão.
Eu sou quadrissexual
sou amarelo – limão.
Eu sou quinssexual
sou laranja – dourado.
Eu sou seis vezes
a cor do pecado.
Vou mudando de cor
até chegar no estado puro dos tons.
Sou branco virgem
na tonalidade assexuada.
1 336
Fernando Correia Pina
Ó mão direita
Ó mão direita, nobre mão que empunhas
copo, garfo, caneta, mão que escreves,
mão sempre de luto sob as unhas,
mão que catas burriés com gestos breves.
Mão cujos tremores são testemunhas
de longas noites de alegrias breves,
mão que ousas mais do que supunhas,
dócil senhora que tão bem me serves.
Mão, ó esplendor da anatomia,
ó foz de cinco rios de alegria
em cuja água renasço e sou poeta.
Mágica mão que em digital concerto
me alivias às vezes num aperto
fazendo-me, a cappella, uma punheta.
copo, garfo, caneta, mão que escreves,
mão sempre de luto sob as unhas,
mão que catas burriés com gestos breves.
Mão cujos tremores são testemunhas
de longas noites de alegrias breves,
mão que ousas mais do que supunhas,
dócil senhora que tão bem me serves.
Mão, ó esplendor da anatomia,
ó foz de cinco rios de alegria
em cuja água renasço e sou poeta.
Mágica mão que em digital concerto
me alivias às vezes num aperto
fazendo-me, a cappella, uma punheta.
1 511
Cristiane Neder
Em uma só unidade
Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
892
Nálu Nogueira
O terceiro elemento
eram ele e ela
dois,
os dois apenas
ela por ele
em cima
ele dentro
embaixo
atrás
ao lado
dentro dela
ela gemia
ele sorria
ela gritava
ele batia
puxava os cabelos
dela e ela inclinava
ainda mais as ancas
giros fortes
ela
ele
dentro dela,
apenas os dois.
então ela por cima
o comia
feito um homem
dizia quieto
dizia mexe
dizia goza
ela por cima
dele,
ele dentro dela
ela pedia
dizia mete
dizia fode
mandava nele
e ele só fazia
o que ela queria.
e então um dia
ele dentro dela
o dedo dela
escorregou pra
dentro dele
ele gemeu
brigou
não quero
machuca
e ela ouviu
sorriu
enquanto o dedo
dela brincava gentil
dentro dele
e ele não mais
resistia.
e não bastou
para ela, não.
ela sabia
o que ele queria
embora ele não
soubesse que podia
então no ouvido
dele
sussurrava
coisas esquisitas
aflita, louca
ele dentro dela
sempre
ela se contorcia
em gozo, tonta
mas queria outro
com eles
queria outro
na sua boca
enquanto ele
a fodia.
então dizia rouca
a ele
a sua fantasia
no ouvido dele
o outro descrito
como ela queria
contava e ele
o que o outro
fazia
enquanto ele,
cada vez mais louco
a fodia
forte
um garanhão
ela
tesão que o consumia
pedia mais
mais forte
enquanto dizia
e ele o que seus
olhos viam: o outro
sobre ele
enquanto ele a
comia
as pernas dele
abertas
enquanto ela
puxava as nádegas
dele e o abria
para o outro
que o fodia
o outro que a
beijava sobre
os ombros dele
e ele via
e punha a própria
língua entre as
línguas deles: do outro
que o comia e dela, que
ele fodia bem e forte
como só ele sabia
ela falava
e ele via
e ele sentia
e queria
desvairado
louco
tonto
embarcar naquela
fantasia
que era dela - e por
ser dela,
ele se desculpava
isso o redimia
e então ele
podia
ser o macho
ser a fêmea
e ele podia
ser qualquer
coisa
qualquer forma
de prazer valia
e ele punha
os dedos dele, juntos
na boca que ela
oferecia
e junto com ela
lambia
chupava os dedos
grossos,
os dois
ao mesmo tempo
e os dedos eram
o pênis do
outro que ela
queria.
juntos
podiam tudo
até tornar o outro
mais que fantasia
e isso era
o que ele mais queria
e isso era
o que ele mais temia.
dois,
os dois apenas
ela por ele
em cima
ele dentro
embaixo
atrás
ao lado
dentro dela
ela gemia
ele sorria
ela gritava
ele batia
puxava os cabelos
dela e ela inclinava
ainda mais as ancas
giros fortes
ela
ele
dentro dela,
apenas os dois.
então ela por cima
o comia
feito um homem
dizia quieto
dizia mexe
dizia goza
ela por cima
dele,
ele dentro dela
ela pedia
dizia mete
dizia fode
mandava nele
e ele só fazia
o que ela queria.
e então um dia
ele dentro dela
o dedo dela
escorregou pra
dentro dele
ele gemeu
brigou
não quero
machuca
e ela ouviu
sorriu
enquanto o dedo
dela brincava gentil
dentro dele
e ele não mais
resistia.
e não bastou
para ela, não.
ela sabia
o que ele queria
embora ele não
soubesse que podia
então no ouvido
dele
sussurrava
coisas esquisitas
aflita, louca
ele dentro dela
sempre
ela se contorcia
em gozo, tonta
mas queria outro
com eles
queria outro
na sua boca
enquanto ele
a fodia.
então dizia rouca
a ele
a sua fantasia
no ouvido dele
o outro descrito
como ela queria
contava e ele
o que o outro
fazia
enquanto ele,
cada vez mais louco
a fodia
forte
um garanhão
ela
tesão que o consumia
pedia mais
mais forte
enquanto dizia
e ele o que seus
olhos viam: o outro
sobre ele
enquanto ele a
comia
as pernas dele
abertas
enquanto ela
puxava as nádegas
dele e o abria
para o outro
que o fodia
o outro que a
beijava sobre
os ombros dele
e ele via
e punha a própria
língua entre as
línguas deles: do outro
que o comia e dela, que
ele fodia bem e forte
como só ele sabia
ela falava
e ele via
e ele sentia
e queria
desvairado
louco
tonto
embarcar naquela
fantasia
que era dela - e por
ser dela,
ele se desculpava
isso o redimia
e então ele
podia
ser o macho
ser a fêmea
e ele podia
ser qualquer
coisa
qualquer forma
de prazer valia
e ele punha
os dedos dele, juntos
na boca que ela
oferecia
e junto com ela
lambia
chupava os dedos
grossos,
os dois
ao mesmo tempo
e os dedos eram
o pênis do
outro que ela
queria.
juntos
podiam tudo
até tornar o outro
mais que fantasia
e isso era
o que ele mais queria
e isso era
o que ele mais temia.
1 144
Anibal Beça
Canto IV
Meus olhos vão seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança
os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:
o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta
para o mergulho calmo de amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança
os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:
o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta
para o mergulho calmo de amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.
1 064
Isabel Machado
Inevitável
Inevitável foi o toque
a procura
a consumação da loucura
a transformar nós dois
em um.
Nada foi comum
Tudo foi vital
anormal...
dentro da normalidade contida
no ato.
Inevitável foi o tato
e meus seios foram teus
... tudo... o corpo todo
sentiu-te em gula
nas entranhas
nas loucas manhas
da manhã-festim...
Inevitável
tatear-me em falso
pra sentir-te pleno
em mim...
a procura
a consumação da loucura
a transformar nós dois
em um.
Nada foi comum
Tudo foi vital
anormal...
dentro da normalidade contida
no ato.
Inevitável foi o tato
e meus seios foram teus
... tudo... o corpo todo
sentiu-te em gula
nas entranhas
nas loucas manhas
da manhã-festim...
Inevitável
tatear-me em falso
pra sentir-te pleno
em mim...
940
Léa Waider
Meu corpo teu ninho
A simples lembrança dos teus dedos na minha nuca me arrepiam
Teu cheiro me habita a alma e meu peito, arfante, te recebe.
Me abraça, vem dormir comigo
Me ajuda a apagar do peito aquela dor do querer.
A noite se instala em mim.
Lá fora, apenas o silêncio da noite do teu olhar.
Vem.
Ocupa com teu corpo esse abrigo que te chama.
Volta a ser minha morada, teu abrigo
Faz de mim tua caverna, teu porto seguro.
Faz do meu corpo teu ninho.
Atordoada pelas saudades crescentes,
meu corpo todo se ouriça à tua procura.
Teu cheiro me habita a alma e meu peito, arfante, te recebe.
Me abraça, vem dormir comigo
Me ajuda a apagar do peito aquela dor do querer.
A noite se instala em mim.
Lá fora, apenas o silêncio da noite do teu olhar.
Vem.
Ocupa com teu corpo esse abrigo que te chama.
Volta a ser minha morada, teu abrigo
Faz de mim tua caverna, teu porto seguro.
Faz do meu corpo teu ninho.
Atordoada pelas saudades crescentes,
meu corpo todo se ouriça à tua procura.
1 086
Helga Holtz
Partida
Em torno de ti tudo o que é ser
balança incansável a cauda...
Eu desaponto teu fiel séquito
com a desobediência civil
da minha atormentada alma.
Incontáveis lendas legendam
teu porte, tua alvíssima pele.
A mim, consideram partida...
Mas do teu pau, tantas asas,
quantos castelos construíram?
Eu desmonto teu exército
de bacantes, ovelhas rivais...
Exibo, impassível, a todas,
as feridas abertas, latejantes
da tua morada em meus canais.
balança incansável a cauda...
Eu desaponto teu fiel séquito
com a desobediência civil
da minha atormentada alma.
Incontáveis lendas legendam
teu porte, tua alvíssima pele.
A mim, consideram partida...
Mas do teu pau, tantas asas,
quantos castelos construíram?
Eu desmonto teu exército
de bacantes, ovelhas rivais...
Exibo, impassível, a todas,
as feridas abertas, latejantes
da tua morada em meus canais.
918
Carlos Seabra
Teu fruto
Chupo
teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher
teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher
1 141
Fernando Correia Pina
Fado da Serafina
Por trás ou pela frente, é indiferente.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
1 554
Renata Pallottini
Cerejas, meu amor
Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.
E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba
e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.
E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba
e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...
2 152
Leila Mícollis
Sem divã
Você fala bonito
sobre fases sexuais
– orais, anais, vaginais –
mas,
cadê que as faz?...
sobre fases sexuais
– orais, anais, vaginais –
mas,
cadê que as faz?...
1 040
Isabel Machado
Bis
Da base ao topo
deslizantes areias
uma cama de teias
de aranhas
e manhas.
E a manhã escondida
por detrás da cortina
permitiu meia-luz
ante dois corpos nus.
Despidos do dia
entregues à euforia
de fazer chorar
Imersos em bocas
sussurros e roucas
palavras de amar
A língua percorre
o habitat natural
em doses perfeitas
de açúcar e sal
Adentra profundo
arromba as entranhas
teu sexo um mundo
fecundo...
Cravada em teu corpo
como em sonhos te quis
pensamento segreda:
- quero bis...
deslizantes areias
uma cama de teias
de aranhas
e manhas.
E a manhã escondida
por detrás da cortina
permitiu meia-luz
ante dois corpos nus.
Despidos do dia
entregues à euforia
de fazer chorar
Imersos em bocas
sussurros e roucas
palavras de amar
A língua percorre
o habitat natural
em doses perfeitas
de açúcar e sal
Adentra profundo
arromba as entranhas
teu sexo um mundo
fecundo...
Cravada em teu corpo
como em sonhos te quis
pensamento segreda:
- quero bis...
1 134
Anibal Beça
Canto III
O dorso que se curva elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança
toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.
Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.
Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança
toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.
Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.
Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.
1 027
Eugénia Tabosa
Prelúdio
A noite era quase dia
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
1 316
Eugénia Tabosa
Despertar
Do longe
ainda vinha
um som
longo
de luar
e senti
ainda viva
essa noite
a te sonhar
Na janela
que se abria
um pássaro
veio pousar
era hora
era dia
era sol
a despontar
À minha porta
batias
e corri nua
a te abraçar.
ainda vinha
um som
longo
de luar
e senti
ainda viva
essa noite
a te sonhar
Na janela
que se abria
um pássaro
veio pousar
era hora
era dia
era sol
a despontar
À minha porta
batias
e corri nua
a te abraçar.
1 225
Mônica Banderas
Útil estima
De suas partes
a que mais gosto
é a que tem vontade própria
a que se levanta em riste
e que, às vezes, obedece à minha vontade:
uso e abuso,
ordenho a haste,
corro riscos,
devoro e devolvo,
e depois
de maravilhosamente gozada,
me encara e dorme.
a que mais gosto
é a que tem vontade própria
a que se levanta em riste
e que, às vezes, obedece à minha vontade:
uso e abuso,
ordenho a haste,
corro riscos,
devoro e devolvo,
e depois
de maravilhosamente gozada,
me encara e dorme.
960
Jorge de Sousa Braga
Escalada
Chamar-te colibri sussurrar-te
ao ouvido coisas acidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nadegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas
Selar-te as palpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas
A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua
De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.
ao ouvido coisas acidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nadegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas
Selar-te as palpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas
A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua
De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.
2 228