Poemas neste tema
Corpo
José Carlos Augusto Ferreira
O sexo sem risco
O sexo sem risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
952
Adélia Prado
O Aproveitamento da Matéria
Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
1 170
Adélia Prado
As Demoras de Deus
Quero coisas pro corpo,
o que se suja sozinho
e diligente produz sua própria escória.
Por astúcia Vos lembro, ó Criador,
apesar de eterno e eu histórica,
tendes também um corpo.
Portanto, feitos um para o outro,
Vosso ouvido e minha língua.
Ouvi-me pois,
antes que, de tanto pedir-Vos,
do céu da boca me desabem os dentes.
o que se suja sozinho
e diligente produz sua própria escória.
Por astúcia Vos lembro, ó Criador,
apesar de eterno e eu histórica,
tendes também um corpo.
Portanto, feitos um para o outro,
Vosso ouvido e minha língua.
Ouvi-me pois,
antes que, de tanto pedir-Vos,
do céu da boca me desabem os dentes.
1 088
Mirela S. Xavier
Ela
Agora que a sede cala
com o suco
do beijo...
E o desejo fala
com o suco
do sexo...
O carinho
espera
a luz
do olhar...
com o suco
do beijo...
E o desejo fala
com o suco
do sexo...
O carinho
espera
a luz
do olhar...
644
Virna G. Teixeira
Visita
criado-mudo:
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
bíblia e
rosário de contas
na cama, ao lado
a nudez
sem nome
349
Paulo Montalverne
Canto de nudez
Dá-me tua nudez,
Tua nudez úmida
Outorgada em pêlos e dobras,
Nas dobras desfeitas
De dez e mil lençóis
Dá-me tua nudez,
Tua nudez traçada,
Declarada em gotas e curvas,
Nas vidas desfeitas
Por uma ou tantas canções.
Dá-me tua nudez,
Tua nudez rasgada,
Marcada em veias e carnes,
Nos pactos esquecidos
De todas e outras juras.
Dá-me tua nudez,
Tua nudez faminta,
Destrancada de almas e corpos,
Nos sonhos destruídos
De meus e teus desejos.
Tua nudez úmida
Outorgada em pêlos e dobras,
Nas dobras desfeitas
De dez e mil lençóis
Dá-me tua nudez,
Tua nudez traçada,
Declarada em gotas e curvas,
Nas vidas desfeitas
Por uma ou tantas canções.
Dá-me tua nudez,
Tua nudez rasgada,
Marcada em veias e carnes,
Nos pactos esquecidos
De todas e outras juras.
Dá-me tua nudez,
Tua nudez faminta,
Destrancada de almas e corpos,
Nos sonhos destruídos
De meus e teus desejos.
1 161
Maria do Carmo Lobato
O meu pedaço de ti
Por que será
Que só consigo
Te ver muito mais
Da cintura
Para baixo?
Isso me deixa intrigada...
Será que é essa
A tua parte
Que me pertence mais
E que por isso mesmo
Me deixa as pernas trôpegas,
Quando a entrevejo
Nas minhas miragens
E nas minhas etéreas divagações?
Será que é essa
A tua parte que,
Sôfrega,
Me sacia exaustivamente,
Por alguns instantes,
Na sua sofreguidão
Benfazeja?
Será que é essa
A tua parte
Que me mata o desejo
E que por isso mesmo
É que, quando procuro
Te vislumbrar
Na mente,
Só consigo
Te ver mais nitidamente,
Da cintura para baixo?
Que só consigo
Te ver muito mais
Da cintura
Para baixo?
Isso me deixa intrigada...
Será que é essa
A tua parte
Que me pertence mais
E que por isso mesmo
Me deixa as pernas trôpegas,
Quando a entrevejo
Nas minhas miragens
E nas minhas etéreas divagações?
Será que é essa
A tua parte que,
Sôfrega,
Me sacia exaustivamente,
Por alguns instantes,
Na sua sofreguidão
Benfazeja?
Será que é essa
A tua parte
Que me mata o desejo
E que por isso mesmo
É que, quando procuro
Te vislumbrar
Na mente,
Só consigo
Te ver mais nitidamente,
Da cintura para baixo?
952
Adélia Prado
O Enfermo
O doente quer ir-se
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
1 111
Genaro Vencato
O pescador
Abri a ostra e encontrei a pérola
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta jóia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta jóia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.
901
Isabel Machado
Alforria
Beba do meu leite
para o meu e seu
deleite
Ponha em tua boca
a minha força
mame como filho
desmamado
há quatro dias quatro noites
ávido
impávido
insano
Sugue a minha teta
enquanto as mãos
desbravam a terra
que já é sua
em completa escravidão
Faça a festa nesta teta
e a buceta
– doidivanas lacrimada –
se abre em festa
implorando o sol
do meio-dia
Chegue, menino-senhor,
em cantoria...
Beba da fonte
da alforria...
para o meu e seu
deleite
Ponha em tua boca
a minha força
mame como filho
desmamado
há quatro dias quatro noites
ávido
impávido
insano
Sugue a minha teta
enquanto as mãos
desbravam a terra
que já é sua
em completa escravidão
Faça a festa nesta teta
e a buceta
– doidivanas lacrimada –
se abre em festa
implorando o sol
do meio-dia
Chegue, menino-senhor,
em cantoria...
Beba da fonte
da alforria...
1 163
Maria do Carmo Lobato
Veneno sagrado
Tu és uma puta,
Saudável,
Invejável,
Desejável,
Adorável.
Não és uma puta de bordel
E a cascavel que te habita
Possui um veneno muito especial,
Que, por incrível que pareça, não faz mal
E extasia os teus amantes de uma forma tal,
Que eles contigo se comprazem tal qual
Feras soltas na floresta
E contigo fazem a festa
De te quererem
Por apenas uma noite de seresta,
Pois o prazer que a eles propicias
Nas tuas noites de orgia
Os assusta
E por isso eles fogem de ti,
Pois a eles custa
A degusta deste prazer inexóravel.
Saudável,
Invejável,
Desejável,
Adorável.
Não és uma puta de bordel
E a cascavel que te habita
Possui um veneno muito especial,
Que, por incrível que pareça, não faz mal
E extasia os teus amantes de uma forma tal,
Que eles contigo se comprazem tal qual
Feras soltas na floresta
E contigo fazem a festa
De te quererem
Por apenas uma noite de seresta,
Pois o prazer que a eles propicias
Nas tuas noites de orgia
Os assusta
E por isso eles fogem de ti,
Pois a eles custa
A degusta deste prazer inexóravel.
1 129
Adélia Prado
Línguas
Meu coração
é a pele esticada de um tambor.
Como tentação a dor percute nele,
travestida de dor, pra que eu desista,
duvide de que tenho um pai.
Vem tudo em forma de carne,
grandes mantas de carne palpitante,
recobrindo ossos, frustrações, desejos
sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me
até que eu mesma seja apenas ossos.
Um sujo me salvará,
quando pegar minha cuia
e comer à vista dele
sem sentir ânsia de vômito.
As sombras dos satélites
conspurcaram as estrelas.
Que faço para escrever de novo
‘louvado sejas pelo capim verde’
ou até mesmo o gemido
‘meu coração nem em sonhos repousa’.
Vou perguntar até que interpolado
e ininteligível tudo se ordene
como oração em línguas
e em forma de um cansaço me abençoes.
é a pele esticada de um tambor.
Como tentação a dor percute nele,
travestida de dor, pra que eu desista,
duvide de que tenho um pai.
Vem tudo em forma de carne,
grandes mantas de carne palpitante,
recobrindo ossos, frustrações, desejos
sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me
até que eu mesma seja apenas ossos.
Um sujo me salvará,
quando pegar minha cuia
e comer à vista dele
sem sentir ânsia de vômito.
As sombras dos satélites
conspurcaram as estrelas.
Que faço para escrever de novo
‘louvado sejas pelo capim verde’
ou até mesmo o gemido
‘meu coração nem em sonhos repousa’.
Vou perguntar até que interpolado
e ininteligível tudo se ordene
como oração em línguas
e em forma de um cansaço me abençoes.
1 152
Adélia Prado
Branca de Neve
Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
1 437
Wanderley da Costa Júnior
Título IV
O amor
Este moleque
Que tanto faz
Traz junto ao prazer
A segurança do látex
Que a mim reveste
E só assim
Posso entregar
Meu corpo
Ao te moleque
Este amor
Que me dá tanto prazer
E assim não me contamino
E não te corrompo
Apenas
Meu amor
Se reveste sempre de látex
Com carinho
Naturalmente
Seguramente
Confortavelmente
Este moleque
Que tanto faz
Traz junto ao prazer
A segurança do látex
Que a mim reveste
E só assim
Posso entregar
Meu corpo
Ao te moleque
Este amor
Que me dá tanto prazer
E assim não me contamino
E não te corrompo
Apenas
Meu amor
Se reveste sempre de látex
Com carinho
Naturalmente
Seguramente
Confortavelmente
545
Isabel Machado
Seios
O branco
todo alvo
realça na pele bronze
No alvo, círculo rosado
ao centro um olho
pedinte, esbugalhado
Todo ele na palma da mão
na tua mão encaixado
faminto se enrijece
sedento pede tua língua
afoito geme ao contato
feito coito alucinado
Os dois são felicidade
nas tuas mãos e cuidados
bichos presos, enjaulados
não querendo liberdade
todo alvo
realça na pele bronze
No alvo, círculo rosado
ao centro um olho
pedinte, esbugalhado
Todo ele na palma da mão
na tua mão encaixado
faminto se enrijece
sedento pede tua língua
afoito geme ao contato
feito coito alucinado
Os dois são felicidade
nas tuas mãos e cuidados
bichos presos, enjaulados
não querendo liberdade
1 107
Paulo Montalverne
Dança
Eu me lembro de teu corpo
Esgueirando-se sensual
Pela gula de meu olhar.
No compasso rítmico,
Sibilando,
Trazendo para mim
Tua arte feita de carne.
Degusto na memória,
Ansioso,
O arfar de teus seios
E o suor de tua face.
Que gozo escondia teu sorriso?
Esgueirando-se sensual
Pela gula de meu olhar.
No compasso rítmico,
Sibilando,
Trazendo para mim
Tua arte feita de carne.
Degusto na memória,
Ansioso,
O arfar de teus seios
E o suor de tua face.
Que gozo escondia teu sorriso?
914
Carlos Queirós
Erótica
A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.
e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,
pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...
E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:
ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,
ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;
perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.
e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,
pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...
E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:
ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,
ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;
perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...
1 864
Camila Sintra
Tu e eu
eu entro
entro
entro
entro dentro
dentro
dentro
dentro de ti
de ti
ti ti ti ti ti
tiro
ponho
tiro ponho, ponho, ponho
ponho tudo
tudo, tudo, tudo,
em toda tu,
boca, boceta e cu,
olhos, nariz e alma,
coração, veias e vida
vida, minha vida,
não sei mais quem sou
nem quem és,
pois sou tu e sou eu
eu e tu
tu e eu
entro
entro
entro dentro
dentro
dentro
dentro de ti
de ti
ti ti ti ti ti
tiro
ponho
tiro ponho, ponho, ponho
ponho tudo
tudo, tudo, tudo,
em toda tu,
boca, boceta e cu,
olhos, nariz e alma,
coração, veias e vida
vida, minha vida,
não sei mais quem sou
nem quem és,
pois sou tu e sou eu
eu e tu
tu e eu
1 081
Nico Fagundes
Mulher querência
Na querência do teu corpo
tem coxilhas e canhadas
cacimbas de luas claras,
matas escuras fechadas
e dois cerros de granito
com pitangas coloradas
só eu sei achar o rumo
dos atalhos e picadas
e bebo a noite em teus olhos
no frescor das tuas aguadas
e fumo a brasa escondida
das coivaras e queimadas
como quem acende um sol
no largo das madrugadas
Eu morro em ti,
e me enterro,
e ressuscito outra vez
semente chuva e mormaço,
berro de potro e de rês.
Gineteio sem espora,
faço o que ninguém fez.
Coração de ressolana
com um ovo guacho de indês.
Nas quatro luas campeiras
de volta em roda do mês:
dono, patrão, bolicheiro,
escravo, peão, e freguês.
tem coxilhas e canhadas
cacimbas de luas claras,
matas escuras fechadas
e dois cerros de granito
com pitangas coloradas
só eu sei achar o rumo
dos atalhos e picadas
e bebo a noite em teus olhos
no frescor das tuas aguadas
e fumo a brasa escondida
das coivaras e queimadas
como quem acende um sol
no largo das madrugadas
Eu morro em ti,
e me enterro,
e ressuscito outra vez
semente chuva e mormaço,
berro de potro e de rês.
Gineteio sem espora,
faço o que ninguém fez.
Coração de ressolana
com um ovo guacho de indês.
Nas quatro luas campeiras
de volta em roda do mês:
dono, patrão, bolicheiro,
escravo, peão, e freguês.
2 089
Elisa Grec
De mim, você pode conseguir
De mim,
Você pode conseguir
Tudo que deseja
Tudo que sempre quis ter
Desde um simples
Objeto material
Até prazeres
Prazeres que nunca esquecera
Vá fundo dentro de mim
(entenda isso como quiser)
Descubra meu corpo
Descubra minha mente
Vejamos se consegue
E se depois
Vai gostar do que encontrou
Vai querer algo mais...
Você pode conseguir
Tudo que deseja
Tudo que sempre quis ter
Desde um simples
Objeto material
Até prazeres
Prazeres que nunca esquecera
Vá fundo dentro de mim
(entenda isso como quiser)
Descubra meu corpo
Descubra minha mente
Vejamos se consegue
E se depois
Vai gostar do que encontrou
Vai querer algo mais...
756
C. Almeida Stella
Descoberta
Um CD
uma música
nós dois
um clima
o amor
Noite de estrelas
perfume de madrugada...
sensualidade
A camisa de botões entreabertos
me dá uma pequena amostra
da tua masculinidade...
eu não resisto
e abrindo botão por botão
deixo cair no chão
este primeiro obstáculo
eu te desnudo...
e te toco
te invado
percorro os teus caminhos,
invento trilhas,
descubro o teu ponto G
eu te sinto...
sem atropelos
eu brinco nos teus pêlos,
ora tímida,
ora ousada...
minhas mãos no teu corpo
fazem a sua "Cavalgada".
Te exploro
te provoco
te causo alvoroço,
brinco no teu cabelo
na tua boca
no teu rosto
te acaricio o peito
tuas costas
teu pescoço.
Passeio na tua cintura...
e pouco a pouco
eu te deixo louco
te acarinho aqui,
ali primeiro,
te toco no corpo inteiro
te encho de desejo
te levo ao delirio
incendeio esse corpo teu.
Então eu te descubro...
Eu te possuo
já não és mais o menino.
És um homem
tão...e somente meu!
uma música
nós dois
um clima
o amor
Noite de estrelas
perfume de madrugada...
sensualidade
A camisa de botões entreabertos
me dá uma pequena amostra
da tua masculinidade...
eu não resisto
e abrindo botão por botão
deixo cair no chão
este primeiro obstáculo
eu te desnudo...
e te toco
te invado
percorro os teus caminhos,
invento trilhas,
descubro o teu ponto G
eu te sinto...
sem atropelos
eu brinco nos teus pêlos,
ora tímida,
ora ousada...
minhas mãos no teu corpo
fazem a sua "Cavalgada".
Te exploro
te provoco
te causo alvoroço,
brinco no teu cabelo
na tua boca
no teu rosto
te acaricio o peito
tuas costas
teu pescoço.
Passeio na tua cintura...
e pouco a pouco
eu te deixo louco
te acarinho aqui,
ali primeiro,
te toco no corpo inteiro
te encho de desejo
te levo ao delirio
incendeio esse corpo teu.
Então eu te descubro...
Eu te possuo
já não és mais o menino.
És um homem
tão...e somente meu!
1 003
Adélia Prado
Quarto de Costura
Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
1 437
Adélia Prado
Humano
A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
1 243
Adélia Prado
Jó Consolado
Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
1 226