Poemas neste tema

Corpo

Cristiane Neder

Cristiane Neder

Queria Experimentar no Seu Corpo

Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
843
Cláudia Marczak

Cláudia Marczak

O Sexo é Sagrado

O sexo é
sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
1 065
José Saramago

José Saramago

21

Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio

E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha

Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis

Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais

Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam

Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas

E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria

Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres

Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se

Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito

E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias

Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim

Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo

Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
1 022
Cristiane Neder

Cristiane Neder

Em Uma Só Unidade

Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.

Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.

Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.

Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
900
José Saramago

José Saramago

EPÍLOGO - Catorze de junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
1 313
Jorge de Sena

Jorge de Sena

Em Louvor da Promiscuidade

Quem tem de amor,
físico amor, ideia
que os olhos não possuem qual amor façamos
e que ele não vive do que os outros façam
ante os curiosos olhos com que bebamos
o ritmo das ancas como as formas
enlaçadas por mãos e pernas, sexos e bocas,
de pudicícia desastrada e matrimónica
com prostituta ou esposa. ou vive
de imaginar paixões por um só corpo
que não são mais que tê-lo tido e o hábito
de continuar a tê-lo. amor-amor
é uma outra coisa, mas não isto
nem o prazer que é feito de um prazer alheio
feito só de prazer sem pensamento
- que no promiscuo amor o imaginar
é só imaginar-se o que varia em acto.
3 879
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Escada do Paraíso

Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.

1 232
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Como se Estivesse Apaixonado

Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.

Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
1 118
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pintor de Mulher

A Augusto Rodrigues

Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
1 324
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Corpo

Que não
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.

Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.

(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.

Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...

1 078
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Minuto Depois

Nudez, último véu da alma
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.

Ai de nós, mendigos famintos:
pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois do êxtase.
1 128
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Elegia

Só tu que
não existes
Me dás calma.
Porque não tens alma,
Porque não consistes.

Mesmo quando voltas
- tu que não estiveste-
não me trazes nada;
nem mesmo o calor
da chama apagada.

Porque não te tenho
E vivo contigo,
Porque não te quero
Nem sou teu amigo
Deixa-me o teu corpo:
Ânfora vazia,
Vinho de ciúme.
Deixa-me o que fui
- o meu eco em ti...

1 380
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

ComPassos

Como compassos
Abrem-se em passos maiores
Apressadas, inquietas,
Sóbrias, nuas, indiscretas,
Lânguidas, em lentos passos,
Por avenidas, esquinas, corredores,
As duas pernas da mulher.
Secreto o centro que as une
E as afasta
Mantendo aceso o lume
Desse calor que as não gasta.
Deixam rastos, desenhos, arabescos
Pelas calçadas, ruas e passeios,
Se nos prometem na cor dos lábios frescos
A sombra nua da rosa dos seus seios.
Como se cruzam e se abrem em desafio,
Como convidam, sem silencio, se ela quer
A esse galope, às vezes terno, às vezes frio
À rédea solta rumo ao centro da mulher.
Marcam , a andar, o ritmo do Universo,
Do coração conhecem a rotina.
Por uma flor, às vezes por um verso
Da pura e casta desperta a libertina.

Compasso vivo, metrónomo complexo
Que marca o tempo e o andamento do prazer,
Chama-se amor ou profissão ou apenas sexo,
Seja ela amante, prostituta ou só mulher.

1 027
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Metafísica do Corpo

A Sonia von Brusky

A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.

Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.

Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.

De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.

Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
1 246
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Contemplação No Banco

i

O coração pulverizado range
sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sanguínea?

Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,
não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.

Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.

Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar
nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.

Escultura de ar, minhas mãos
te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.

Ele talvez compreenda com todo o corpo,
para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.
ii

Nalgum lugar faz-se esse homem…
Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.

Não lhe convém o débil nome de filho,
pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.

Irmão lhe chamaria, mas irmão
por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?

Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,
na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.

Meu retrato futuro, como te amo,
e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…


iii

Vejo-te nas ervas pisadas.
O jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.
1 800
John Berryman

John Berryman

26

As glórias do mundo me bateram, fizeram-me ária, certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.

Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima

além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.

(tradução de Ismar Tirelli Neto)



Dream Song 26
John Berryman


The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.

All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime

besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.



823
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Morto Vivendo

Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude na espera,
não repetiu mais os gestos
fora do rito amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?
1 563
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dissolução

Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
1 909
Sebastião Alba

Sebastião Alba

As mãos

Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.


1 139
António José Forte

António José Forte

Memorial

As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes


António José Forte, Uma Faca nos Dentes


1 428
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Inquietação

Estou disposta
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.

Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;

Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.

Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;

Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;

Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .

Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.

E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .

942
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

Bruços

Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...

805
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estigmas

De tanto ouvir falar, já decorei
e me arrepio.
Cancro gálico ozena
três nódoas indeléveis
no andar, na roupa, na lembrança.
Pior do que matar.
Pior até do que furtar.
Ninguém aperte a mão
daquele que tiver
cancro
gálico
ozena.
Só se cumprimenta de longe
sem tocar na aba do chapéu.
Todo medo é pouco.
Não apenas o corpo:
o próprio nome do infeliz
fica nojento.
648
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

A menina e a Brisa

Um sopro vem
vem mansinho
devagarinho ;
Um vento vem ,
vem ligeiro ,
faceiro .

O primeiro :
- calor ( de amor )
O segundo :
- vapor ( de tempo a girar nos ponteiros )

E respira a
acetinada pele da nuca .
E sacode ,
confunde os fios que escorrem
suave .

Ela não se move .
O sopro e o vento
se misturam e
a sensação engrandece ,
pele enrubresce ,
e a muda telepática
de tocar róseos úmidos
é concebido .

Um segundo
uma brisa .

Uma pulsação
de início .

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