Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Com Um Odor Brilhante Como Diz
Com um odor brilhante como diz
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
1 065
Walmir Ayala
Ciclo
III (passeio)
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
1 436
António Ramos Rosa
Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto
Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 114
Jaumir Valença da Silveira
O papagaio
Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
842
Augusto Massi
Nudez
Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 266
Angela Santos
Indeléveis
Sinais
Olho
as minhas mãos,
como as mãos que em ti pousaram
nelas busco a textura,
e a vibração do corpo que tocaram...
Olho dentro dos meus olhos
e no fundo deles busco
um outro olhar que em mim vive
preso ao que vejo e ao que sinto...
Olho o meu corpo onde leio sinais
de um sol que o queimou
o mesmo sol que nos viu
de mãos dadas e olhos fitos
num belo horizonte azul
fundindo-se com o infinito
E tento chegar à alma com os olhos que ela tem
aí não vejo....só sinto
as marcas inconfundíveis
que lapidaste em mim.
Olho
as minhas mãos,
como as mãos que em ti pousaram
nelas busco a textura,
e a vibração do corpo que tocaram...
Olho dentro dos meus olhos
e no fundo deles busco
um outro olhar que em mim vive
preso ao que vejo e ao que sinto...
Olho o meu corpo onde leio sinais
de um sol que o queimou
o mesmo sol que nos viu
de mãos dadas e olhos fitos
num belo horizonte azul
fundindo-se com o infinito
E tento chegar à alma com os olhos que ela tem
aí não vejo....só sinto
as marcas inconfundíveis
que lapidaste em mim.
1 041
António Ramos Rosa
Que Diz a Palavra Quando a Plena Rectitude
Que diz a palavra quando a plena rectitude
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
1 007
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 097
Luís Amaro
Bairro
Em teu corpo enfim repousarei
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
900
Walmir Ayala
A Bailarina Gris
de Degas
PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.
PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.
In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).
NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
PENDIDA
como de uma corola o tempo de
uma flor, ela treme:
seu rosto de vinho e maçã
flui no nostálgico acento
com que ao vento se curva, uma tênue
figura.
De chuva
é a leveza de seu olhar parado, de espuma
é seu sapato, e seu pé
informado e prudente arma um pássaro triste na
[sombra.
PENDIDA,
debruçada de si como uma lágrima
a bailarina rompe
o segredo: do outro lado é que se esvai
a rosa, seu sangue
é este espanto de que se forma o corpo
do silêncio.
In: AYALA, Walmir. Museu de câmara = Museo de camara. Madri: Artes Gráf. Luis Pérez, 1986 (Xanela).
NOTA: Título em espanhol: "La Bailarina Gris
1 317
António Ramos Rosa
Nada Para Dizer Nem Como Dizer Nada
Nada para dizer nem como dizer nada
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
1 050
António Ramos Rosa
Fina Nobreza de Ombros Que Persigo
Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
851
Sophia de Mello Breyner Andresen
L’Âge D’Airain
(Rodin)
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
1 864
António Ramos Rosa
Cabelos São Os Teus Cabelos As Tuas Mãos
Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água
Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água
Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
1 071
António Ramos Rosa
A Mão E o Muro
a Maria de Fátima Marinho
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
1 182
António Ramos Rosa
A Caminho Na Ausência
à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue
Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome
Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?
A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo
A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?
A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel
Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?
O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?
O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa
O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas
Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja
Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome
Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro
A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo
O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho
E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 080
António Ramos Rosa
Como Se
Tocar as margens desta página
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
558
António Ramos Rosa
As Palavras No Centro Vazio
à Cinda
Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
talvez um gesto em chamas
se levante
O pudor do toque sobre a página
uma colina uma porosa
lâmpada
onde nada se passa
a não ser talvez
a língua que se acende
áspera e verde
sobre a sombra
sobre o vento
Talvez o corpo se liberte
das mandíbulas dos insectos
talvez um olho brilhe
nas palavras entre as pedras
Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde
Talvez elas repousem no espaço
Talvez melhor do que o silêncio
nesta folha
digam o que o silêncio quer dizer
Deixa as palavras caírem sobre o centro
vazio
Talvez só a pálpebra de uma sombra
ou um leve movimento da folhagem
seja o breve sinal
de ser
ou de não ser
Talvez o corpo se erga da sombra
e do vazio da página
cheio do silêncio
da sua própria forma
no simples esplendor
do seu nascer
Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore
Talvez nada se passe
ou quase nada
e isso seja o todo do que é
que nunca é
A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o princípio do desejo que não cessa a chama do corpo nas palavras
Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são
O corpo livre enfim
no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
e morre sem cessar Talvez
renasça no poema Talvez
recomece
por nunca ser senão pelo desejo
de um quase nada
que é todo o seu ser
Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
talvez um gesto em chamas
se levante
O pudor do toque sobre a página
uma colina uma porosa
lâmpada
onde nada se passa
a não ser talvez
a língua que se acende
áspera e verde
sobre a sombra
sobre o vento
Talvez o corpo se liberte
das mandíbulas dos insectos
talvez um olho brilhe
nas palavras entre as pedras
Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde
Talvez elas repousem no espaço
Talvez melhor do que o silêncio
nesta folha
digam o que o silêncio quer dizer
Deixa as palavras caírem sobre o centro
vazio
Talvez só a pálpebra de uma sombra
ou um leve movimento da folhagem
seja o breve sinal
de ser
ou de não ser
Talvez o corpo se erga da sombra
e do vazio da página
cheio do silêncio
da sua própria forma
no simples esplendor
do seu nascer
Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore
Talvez nada se passe
ou quase nada
e isso seja o todo do que é
que nunca é
A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o princípio do desejo que não cessa a chama do corpo nas palavras
Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são
O corpo livre enfim
no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
e morre sem cessar Talvez
renasça no poema Talvez
recomece
por nunca ser senão pelo desejo
de um quase nada
que é todo o seu ser
555
António Ramos Rosa
Presença Ausência
a Jean Malrieu
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra
Se te encontrasse diria esplendor diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha
Tantas sombras sombras Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra
Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres
Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?
Porquê estas palavras estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia
Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra
E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se
tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio
Chamo-te com as mãos da terra
Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo
lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
1 154
António Ramos Rosa
A Mão Ainda Resiste
à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
975
António Ramos Rosa
A Imagem Que Conduz Ao Corpo
A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?
Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema
Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada
Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?
Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?
As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva
Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
1 101
Ana Paula Ribeiro Tavares
A Abóbora Menina
Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
Benguela, 83
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
Benguela, 83
2 928
António Ramos Rosa
O Corpo Sob As Palavras
à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore
Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra
Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa
Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia
Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho
Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio
O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha
Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra azul
Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?
Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio
Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.
O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?
Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?
O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva
Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido
Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra
Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra
As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio
Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca
Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda
Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez
Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono
Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra
e fria
O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca
Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra
O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca
Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas
E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)
Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 051
Mário Hélio
5 - V (Cais sombrio)
eu te reparo nos olhos:
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.
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