Poemas neste tema

Coragem e Força

Nuno Gomes dos Santos

Nuno Gomes dos Santos

O mar é uma lonjura

O mar é uma lonjura entre dois portos
um ponto de chegada e de partida
o mar é esta noite em que dois corpos
descobrem a maré-cheia da vida  

O mar é uma lágrima perdida
mil vezes retratada em corpo inteiro 
uma colcha de penas estendida
na cama deste barco marinheiro

E quando a solidão não é ser mar 
é ser apenas água de um ribeiro
ou então se uma jangada a naufragar
se cruza com a soberba de um veleiro

Então é que começa o mar revolto
que é esta gaivota no meu peito
e então é que o poema fica solto
liberto como um rio fora do leito

Que eu sempre hei-de dizer que navegar 
não é estar no porão como quem teme
que a vida há-de ser um barco no mar  
e eu um marinheiro sempre ao leme.
762
Herberto Helder

Herberto Helder

V B

Não peço que o espaço à minha volta se engrandeça,
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
1 045
Adélia Prado

Adélia Prado

Choro a Capela

O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
1 193
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nós Somos

Como uma pequena lâmpada subsiste
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
743
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Manifesto I - Contra o Vento

Príncipe,
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.

Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.

840
José Saramago

José Saramago

15

Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas

É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo

Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela

Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável

Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro

Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível

Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado

E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes

Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas

E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma

Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra

E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar

O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos

Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes

Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
921
Herberto Helder

Herberto Helder

11

queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / esteia
932
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Fim

Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?

Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?
624
Everaldo Ygor

Everaldo Ygor

Pensar o Próprio Pensamento

Pensar o próprio pensamento
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade

Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem

Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação

Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho

806
Everaldo Ygor

Everaldo Ygor

Somos Estranhos

Somos estranhos
Estranhos ao tempo
Mas vamos sentir
Os versos da liberdade
Abraçar o vôo no Azul
Amar
Os amantes da liberdade
Beber desse suor
E não vamos errar
Não vamos viver a impunidade
Chega de perversidade
Apenas tocar
Vamos seguir os passos
E o rastro dos pássaros
E voar para o Horizonte
E deixar o grito de espanto
Morrer nos lábios
E voar...

830
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nervos

contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
763
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 576
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Grande Voz

É terrível, Senhor! Só a voz do prazer cresce nos ares.
Nem mais um gemido de dor, nem mais um clamor de heroísmo
Só a miséria da carne, e o mundo se desfazendo na lama da carne.

É terrível, Senhor. Desce teus olhos.
As almas sãs clamam a tua misericórdia.
Elas creem em ti. Creem na redenção do sacrifício.
Dize-lhes, Senhor, que és o Deus da Justiça e não da covardia
Dize-lhes que o espírito é da luta e não do crime.

Dize-lhes, Senhor, que não é tarde!

Senhor! Tudo é blasfêmia e tudo é lodo.
Se um lembra que amanhã é o dia da miséria
Mil gritam que hoje é o dia da carne.
Olha, Senhor, antes que seja tarde
Abandona um momento os puros e os bem-aventurados
Desvia um segundo o teu olhar de Roma
Dá remédio a esta infelicidade sem remédio
Antes que ela corrompa os bem-aventurados e os puros.

Não, meu Deus. Não pode prevalecer o prazer e a mentira.
A Verdade é o Espírito. Tu és o Espírito supremo
E tu exigiste de Abraão o sacrifício de um filho.
Na verdade o que é forte é o que mata se o Espírito exige.
É o que sacrifica à causa do bem seu ouro e seu filho.
A alma do prazer é da terra. A alma da luta e do espaço.
E a alma do espaço aniquilará a alma da terra
Para que a Verdade subsista.

Talvez, Senhor meu Deus, fora melhor
Findar a humanidade esfacelada
Com o fogo sagrado de Sodoma.
Melhor fora, talvez, lançar teu raio
E terminar eternamente tudo.
Mas não, Senhor. A morte aniquila — ao fraco a morte inglória.
A luta redime — ao forte a luta e a vida.
Mais vale, Senhor, a tua piedade
Mais vale o teu amor concitando ao combate último.

Senhor, eu não compreendo os teus sagrados desígnios.
Jeová — tu chamaste à luta os homens fortes
Tua mão lançou pragas contra os ímpios
Tua voz incitou ao sacrifício da vida as multidões.
Jesus — tu pregaste a parábola suave
Tu apanhaste na face humildemente
E carregaste ao Gólgota o madeiro.
Senhor, eu não os compreendo, teus desígnios.

Senhor, antes de seres Jesus a humanidade era forte
Os homens bons ouviam a doçura da tua voz
Os maus sentiam a dureza da tua cólera.
E depois, depois que passaste pelo mundo
Teu doce ensinamento foi esquecido
Tua existência foi negada
Veio a treva, veio o horror, veio o pecado
Ressuscitou Sodoma.

Senhor, a humanidade precisa ouvir a voz de Jeová
Os fortes precisam se erguer de armas em punho
Contra o mal — contra o fraco que não luta.
A guerra, Senhor, é em verdade a lei da vida
O homem precisa lutar, porque está escrito
Que o Espírito há de permanecer na face da Terra.

Senhor! Concita os fortes ao combate

Sopra nas multidões inquietas o sopro da luta
Precipita-nos no horror da avalancha suprema.
Dá ao homem que sofre a paz da guerra
Dá à terra cadáveres heroicos
Dá sangue quente ao chão!

Senhor! Tu que criaste a humanidade.
Dize-lhe que o sacrifício será a redenção do mundo
E que os fracos hão de perecer nas mãos dos fortes.
Dá-lhe a morte no campo de batalha
Dá-lhe as grandes avançadas furiosas
Dá-lhe a guerra, Senhor!
1 151
Adélia Prado

Adélia Prado

Agora, Ó José

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
1 657
Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Conclusão

Coro das raparigas de Jerusalém

Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?

Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.

Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
509
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Esta Luz Súbita

Esta luz súbita
que nasce das raízes
onde o implacável vive

Homens
tímidos passageiros
eu rangerei os dentes
até à violência extrema
em que a paz me aniquilará
644
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Última Oportunidade É Sempre

A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua

eia! um homem
sem nada para a morte
978
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Condições

atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.

sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 164
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

RAINHA ONÇA

Sou Elza.
Sou onça.

Canto
sem pedir
licença.

Sou onça.
Sou Elza.

Eu onço
desde
nascença.
760
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Canção

Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...

Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!

1 144
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pássaro de Braque

Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.

Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta

papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
949
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Como São As Coisas

ele morreu num domingo à tarde
e o enterro foi numa quarta;
pouca gente apareceu: sua esposa, seus
filhos, membros da família, um que outro
roteirista mais 3 ou 4 outros;
ele foi descoberto por H.L. Mencken
nos anos 30;
escrevia uma frase clara e simples
uma frase ardente,
belos contos e romances;
foi acometido no fim da vida,
ficou cego, teve ambas as pernas
amputadas, e não paravam de
cortá-lo, operando repetidas
vezes.

no hospital
ele ficou naquela cama por anos;
tinha de ser virado, alimentado,
evacuado,
mas ali
ele ditou um romance totalmente novo
para sua esposa.
jamais desistiu: esse romance foi
publicado.

um dia numa das minhas
visitas
ele me disse “sabe, Hank,
quando estava bem eu tinha um
monte de amigos, e aí... quando isso
aconteceu, eles me largaram, foi como
se eu tivesse lepra...”

e ele sorriu.

havia uma brisa passando pela
janela
e ali estava ele
a luz do sol o cobrindo
pela metade.

aqueles amigos não
o mereciam.

um grande escritor
e um ser humano maior ainda.

John, a multidão nunca terá
o amor dos poucos –
como se eu precisasse dizer isso
a você.
668
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Roído Por Maçante Crise

não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.

os gatos ficam me encarando.

o calendário cai da parede.

preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.

preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.

preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?

quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?

enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 045
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão

Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.

As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.

No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
1 134