Poemas neste tema

Coragem e Força

Emídia Felipe

Emídia Felipe

A Meu Pai

Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,

não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.

896
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Maior Fracassado do Mundo

ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
1 166
Adélia Prado

Adélia Prado

Deve Ser Amor

É preciso fé para cortar as unhas,
cuidar dos dentes como bens de empréstimo.
O cobrador invisível bate à porta.
Não durmo, ele também não.
Deve ser amor o que nos deixa unidos
neste avesso de mística.
Por orgulho de pobre
dou por bastante a pouca claridade
e prefiro a vigília
antes que ter repouso.
1 227
Emídia Felipe

Emídia Felipe

Os Muros

Deitado
no telhado vejo as estrelas
que as luzes da cidade escondem;
Com os pés no chão vou voando
Viajando só com o pensamento
Esbarrando nos montes de cimento;
A alma já acostumada com o breu;
O corpo já sabe de todas as dores;
A cabeça já cheia de tanta fumaça;
Os olhos já vacinados contra os horrores;
As mãos já grudadas na vidraça;
Olhe pra cima e agradeça;
È difícil buscar o que é bom;
Já basta de tanta maldade;
Pule os muros da cidade;
Vá buscar o que é bom;
Vá atrás do seu pássaro;
Vai menino do mundo;
Vai atrás do que é raro;
Vá buscar o que é bom.

1 049
Terezinha Rezende Moreira

Terezinha Rezende Moreira

Semear

Semeia,

o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.

2 446
Adélia Prado

Adélia Prado

Pingentes de Citrino

Tão lírica minha vida,
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornam mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.
1 014
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Quase Soneto

Mas, ai, aquela tarde o mataram:
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.

De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.

E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.

Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.

Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
623
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WORK

Thou wast not put on earth to ask
If there be God, or life or death.
Seize then thy tools and to thy task
And give to toil each panting breath.

Thy tools thou hast, nor needst to seek
Thy health or faith or useful art,
The strength to toil, the power to speak,
A mighty mind or kindly heart.
1 234
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PERSEVERANCE

Say not that work is e'er ill‑spent,
Say not that effort fails or seems;
Say not that he o'er labour bent
Is one in the world's many dreams.

For not in vain with patient shocks,
With timely rush and quick'ning roar,
The ocean crashes on the rocks
And bounds on to the sounding shore.

They check, ‘tis true, his rolling rush,
His sturdy beat they seem to scorn,
His surging waves with force they crush
And turn in spray his billows torn.

But days and weeks and months and years
He strikes and strikes and strikes amain.
And dent on dent in them appears
That shows his weary, patient gain.

And years may pass or ages go,
Those eaten rocks will smaller stand;
Still he, with measured aim and slow
Shall bend his surging to the land.

Sure as the sun, and unperceived
As is the growing of a tree,
He works and works, nor is deceived
By sturdy from that men can see.

And when his object full he gains
With last and sounding, rending crash,
His mighty power he still sustains
And onward still his waters dash.
1 645
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Contemplada a Grécia

Oh lágrimas, não é tempo
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.

Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
1 160
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Viii - Radiante Julius

Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
1 136
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Só o Homem

Eu atravessei as hostis
cordilheiras,
entre as árvores passei a cavalo.
O húmus deixou
no chão
sua alfombra de mil anos.

As árvores se tocam na altura,
na unidade trêmula.
Embaixo, escura é a selva.
Um vôo curto, um grito
a atravessam,
os pássaros do frio,
os zorros de elétrica cauda,
uma grande folha que tomba,
e meu cavalo pisa o brando
leito da árvore dormida,
mas sob a terra
as árvores de novo
se entendem e se tocam.
A selva é uma só,
um só grande punhado de perfume,
uma só raiz sob a terra.

As puas me mordiam,
as duras pedras feriam meu cavalo,
o gelo ia buscando sob minha roupa rasgada
meu coração para cantá-lo e adormecê-lo.
Os rios que nasciam
diante de meus olhos desciam velozes
e queriam matar-me.
De repente uma árvore ocupava o caminho
como se tivesse
andado e então
a houvesse derrubado
a selva, e ali estava
grande como mil homens,
cheia de cabeleiras,
pululada de insetos,
apodrecida pela chuva,
mas do fundo da morte
queria deter-me.

Eu saltei a árvore,
quebrei-a com o machado,
acariciei suas folhas formosas como mãos,
toquei as poderosas
raízes que muito mais que eu
conheciam a terra.
Eu passei sobre a árvore,
cruzei todos os rios,
a espuma me levava,
as pedras me enganavam,
o ar verde que criava
joias a cada minuto
atacava minha fronte,
queimava minhas pestanas.
Atravessei as altas cordilheiras
porque comigo um homem,
outro homem, um homem
ia comigo.
Não vinham as árvores,
não ia comigo a água
vertiginosa que quis matar-me,
nem a terra espinhosa.
Só o homem,
só o homem estava comigo.
Não as mãos da árvore,
formosas como rostos, nem as graves
raízes que conhecem a terra
me ajudaram.
Só o homem.
Não sei como se chama.
Era tão pobre como eu, tinha
olhos como os meus e com eles
descobria o caminho
para que outro homem passasse.
E aqui estou.
Por isso existo.

Creio
que não nos juntaremos na altura.
Creio
que sob a terra nada nos espera,
mas sobre a terra
vamos juntos.
Nossa unidade está sobre a terra.
1 247
João Filho

João Filho

Quase Gregas - Segunda

quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
490
Adélia Prado

Adélia Prado

O Bom Pastor

Me deixo estar inerte,
porque não há em mim qualquer coragem.
Não posso ter, nem ser,
nem morrer, nem viver,
não posso entrar nem sair.
Clamo por Deus e Ele me devolve ao tempo,
às notas fiscais que
— por ordem do governo —
devo exigir dos maus negociantes.
Por que todo este peso sobre mim?
Não quero ser fiscal do mundo,
quero pecar, ser livre,
devolver aos ladrões
sua obrigação com os impostos.
Tudo me está vedado,
não há lugar para mim,
parece que Deus me bate,
parece que me recusa,
pedir auxílio é pecar,
não pedir é loucura,
é consentir no auxílio do diabo.
Quem é o estranho a quem chamo de Jonathan?
Por Deus, quem sou?
Escorpião está no céu,
em dias felizes eu faria um verso:
‘brilho de escorpião na friagem da noite’.
Soa agora como bajulação à divindade,
a fala de um mentiroso,
de um falastrão covarde.
Não ireis acreditar
se pensáveis que líeis um poema —
alguém me entrega uma carta:
“eu agora coloquei dentes,
estou mais jovem,
só a canseira de velho continua”.
O terror sumiu,
porque ao reproduzir-vos a carta
corrigi duas palavras
e não há quem às portas do inferno
socorra-se das gramáticas.
Portanto, um poder novo me salva,
uma compaixão,
que usa as constelações e os correios
e a mesma língua materna
que me ensinou a gemer.
O Misericordioso pôs nos ombros
Sua ovelha mais fraca.
1 022 1
Ademir Assunção

Ademir Assunção

Caverna

me tranquei na caverna com platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
1 187
Adélia Prado

Adélia Prado

O Conhecimento Bíblico

Deus me deu um amor e estas palavras
pra que eu possa erigi-lo,
palavras e um rito,
um lugar entre ruínas, longe
de todo bulício humano conhecido.
A felicidade é tão grande
que desperta os demônios,
os que se ocupam em gerar o medo,
pois de onde mais pode vir
este pensamento sujo:
você exposto, nu,
à minha sanha de perfeição.
São teus pés que nunca vi
que ameaçam minha vida
porque tua alma já é minha;
teu amor por orquestras,
tua inacreditável humildade.
Eu só quero o que existe,
por isso erijo este sonho,
concreto como o que mais concreto pode ser,
vivo como minha mão escrevendo
eu te amo,
não em português. Em língua nenhuma,
em diabolês, que quer dizer também
eu te odeio,
me deixa em paz,
não exija de mim tanta coragem.
Me deem um lugar no mundo,
onde não tenha ninguém,
um lugar entre ruínas.
O dia da santidade se aproxima,
o dia pagão em que nascerá minha vida.
Jonathan, antes de Cristo
eu te amo.
1 255
Adélia Prado

Adélia Prado

O Encontro

Jonathan,
se resolvermos que o céu
é este lugar onde ninguém nos ouve,
quem poderá salvar-nos?
Quanto tempo resistiríamos
sem falar a ninguém deste acontecimento?
Acompanhei com os dedos
o desenho miraculoso do teu lábio,
contornei-lhe as gengivas,
bati-lhe no dente escuro
como em um cavalo,
um cavalo meu na campina.
Pedi-lhe: faz com tua unha um risco
na minha cara,
o amor da morte instigando-nos
com nunca vista coragem.
Vamos morrer juntos
antes que o corpo alardeie
sua mísera condição.
Agora, Jonathan,
neste lugar tão ermo,
neste lugar perfeito.
1 380
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Melhor da Raça

não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer

é triste
e
não é
triste

parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus

a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda

alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar

outros
encaram
de frente

e à saúde destes

eu bebo
esta noite.
1 427
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Homem do Terno Marrom

porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.

um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.

o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.

mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.

saí antes que a
polícia
chegasse.

quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
1 052
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Estar Aqui

quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.

eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.

talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.

somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.

nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.

quando chega o pior, nada deveria ser
pior.

a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
986
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Dias Gloriosos

os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.

você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.

os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.

sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.

você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”

o desperdício
mas a coragem da
aposta.

de onde virá o aluguel devido?

vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.

eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.

é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”

“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”

o telefone batido com força.
poder.

sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.

“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”

andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.

4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.

você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.

existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
972
Charles Bukowski

Charles Bukowski

1813-1883

ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...

Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto

tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta

sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas

certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem

mas estamos todos vivos
nesta noite.
1 587
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Canção Para Este Pesar Suavemente Arrebatador...

é preciso subir
além de toda essa merda,
continuar crescendo...
o destino só é uma puta se fizermos com que
seja.
acendamos luzes
soframos em grande estilo –
palito na boca, dentes arreganhados.
podemos fazer.
nascemos fortes e morreremos
fortes.
nosso modo de viver
como transatlânticos na névoa...
espinhos em rosas...
garotos blasés trotando nos parques em trajes de banho...
tem sido muito
bom.
nossos ossos
como caules que furam o céu
para sempre vão gritar
vitória.
1 023
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Coisa da Boa

sugando este charuto,
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.

mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.

eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.

cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
1 060