Poemas neste tema
Coragem e Força
António Osório
Perguntas a Várias Mãos
Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
1 230
António Osório
Cântico do Filho Maior
Ao Antônio Cândido
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
1 207
Lêdo Ivo
Advertência a um Gavião
O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
1 015
Angela Santos
Serpente
Salvé
Eva
mãe de tudo o que é…
O teu gesto hábil
trouxe o gosto pela ousadia
e nos fez saber
ir pra além do medo..
Salvé Eva
teu corpo é fruto
que o fruto dá
Eva,
Mãe,
Mulher,
escrava libertadora
à força de o ser!
Eva
mãe de tudo o que é…
O teu gesto hábil
trouxe o gosto pela ousadia
e nos fez saber
ir pra além do medo..
Salvé Eva
teu corpo é fruto
que o fruto dá
Eva,
Mãe,
Mulher,
escrava libertadora
à força de o ser!
1 168
Angela Santos
Esteio
Acalma-me
e dá sentido,
quando estendes tua mão e sinto
a firmeza dessa presença ao meu lado
sinto-me mais e sinto- te esteio
quando perdida no turbilhão das minhas dúvidas
e medos
abro-te o coração magoado e o tocas com dedos de renda
ou me puxas para realidade
com a palavra mais certa...
Eu sei então porque caminho ao teu lado
porque conto contigo,
saboreio a palavra amizade,
estendo-te a mão
e te chamo amiga!
e dá sentido,
quando estendes tua mão e sinto
a firmeza dessa presença ao meu lado
sinto-me mais e sinto- te esteio
quando perdida no turbilhão das minhas dúvidas
e medos
abro-te o coração magoado e o tocas com dedos de renda
ou me puxas para realidade
com a palavra mais certa...
Eu sei então porque caminho ao teu lado
porque conto contigo,
saboreio a palavra amizade,
estendo-te a mão
e te chamo amiga!
1 038
Angela Santos
Utopia
O
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
1 010
Américo Gomes
Beira Molhada
Tu és muito sem vergonha
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?
Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho
E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu
Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena
Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso
E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?
Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho
E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu
Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena
Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso
E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.
870
Aleilton Fonseca
motivo
calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
1 330
Carlos Nejar
Cântico
Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Demarcação.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.353. (Poiesis
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Demarcação.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.353. (Poiesis
1 048
Lindolf Bell
Exercício para Garcia Lorca
Quando o vento das primaveras anuncia as florações
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 950
José de Paula Ramos Jr.
Lição de Elementos
Para faca, água;
para murro, terra;
para fera, fogo;
para vida, ar.
Em você se acanhe o medo,
em você se mostre a raça
de água, terra, fogo e ar.
para murro, terra;
para fera, fogo;
para vida, ar.
Em você se acanhe o medo,
em você se mostre a raça
de água, terra, fogo e ar.
832
José de Anchieta
Quando, no Esp Sto
Diabo
Temos embargos, donzela,
a serdes deste lugar.
Não me queirais agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em toda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo
Ó peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
Diabo
Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair!
Anjo
Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com eles é.
Que com execessivo amor
lhes manda suas esposas
— onze mil virgens formosas —,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena,
a tua soberba inchada
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo
Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo
Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo
Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Imagem - 00570009
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
Temos embargos, donzela,
a serdes deste lugar.
Não me queirais agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em toda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo
Ó peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
Diabo
Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair!
Anjo
Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com eles é.
Que com execessivo amor
lhes manda suas esposas
— onze mil virgens formosas —,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena,
a tua soberba inchada
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo
Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo
Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo
Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Imagem - 00570009
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 488
Raymond Carver
O Padeiro
Então Pancho Villa chegou à cidade,
enforcou o prefeito
e convocou o velho e trêmulo
Conde Vronski para jantar.
Pancho apresentou sua nova namorada,
junto com o marido em seu avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois pediu ao Conde que lhe contasse
sobre seu infeliz exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Os dois eram especialistas.
A garota dava risadinhas
e mexia nos botões de pérola
da camisa de Pancho até que,
precisamente à meia-noite, Pancho pegou no sono
com a cabeça na mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa segurando as botas
sem fazer um gesto
à mulher ou a Vronksy.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.
tradução de Angélica Freitas
enforcou o prefeito
e convocou o velho e trêmulo
Conde Vronski para jantar.
Pancho apresentou sua nova namorada,
junto com o marido em seu avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois pediu ao Conde que lhe contasse
sobre seu infeliz exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Os dois eram especialistas.
A garota dava risadinhas
e mexia nos botões de pérola
da camisa de Pancho até que,
precisamente à meia-noite, Pancho pegou no sono
com a cabeça na mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa segurando as botas
sem fazer um gesto
à mulher ou a Vronksy.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.
tradução de Angélica Freitas
1 366
Raymond Federman
Diga-lhes
Diga-lhes
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome
(tradução de Ricardo Domeneck)
934
Oswaldo Osório
Cavalos de silex
ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 151
Renata Trocoli
Sem Titulo II
Ás vezes a gente se pergunta
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
754
Carlos Nejar
Inscrição
Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
900
Carlos Nejar
Cântico
Limarás
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
1 154
Cruz e Sousa
Visionários
Amam batalhas
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
1 510
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Navegadores
O múltiplo nos inebria
O espanto nos guia
Com audácia desejo e calculado engenho
Forçámos os limites —
Porém o Deus uno
De desvios nos protege
Por isso ao longo das escalas
Cobrimos de oiro o interior sombrio das igrejas
O espanto nos guia
Com audácia desejo e calculado engenho
Forçámos os limites —
Porém o Deus uno
De desvios nos protege
Por isso ao longo das escalas
Cobrimos de oiro o interior sombrio das igrejas
2 277
Mauricio Segall
Na ponte de comando
Na ponte
de comando
da nave que singra as vagas
como a noz que flutua na corrente
a vista comanda a linha do horizonte
avistada no infinito
pelo navegante de todas as eras
que no convés ou tombadilho
tal escultura de pedra
perscruta sem piscar
e migra do longe para o perto
para imergir do fora para o dentro
na hipnose do encontro do céu e mar.
A coragem preparada para o mergulho
na cachoeira do fim do mundo plano
como a flechada da gaivota para o fundo
do oceano turvo de um mundo curvo
sonhando sempre com mistérios e perigos
da descoberta de algum novo porto
Portal de horizontes mais profundos.
de comando
da nave que singra as vagas
como a noz que flutua na corrente
a vista comanda a linha do horizonte
avistada no infinito
pelo navegante de todas as eras
que no convés ou tombadilho
tal escultura de pedra
perscruta sem piscar
e migra do longe para o perto
para imergir do fora para o dentro
na hipnose do encontro do céu e mar.
A coragem preparada para o mergulho
na cachoeira do fim do mundo plano
como a flechada da gaivota para o fundo
do oceano turvo de um mundo curvo
sonhando sempre com mistérios e perigos
da descoberta de algum novo porto
Portal de horizontes mais profundos.
870
Reynaldo Valinho Alvarez
Não Busco Outro Caminho, Cedo a Calma
Não busco outro caminho, cedo a calma
À angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra a penetrá-la
Para entregar-lhe o amor de uma semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro.
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A pá o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência.
À angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra a penetrá-la
Para entregar-lhe o amor de uma semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro.
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A pá o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência.
967
Reynaldo Valinho Alvarez
Canto Em Si
1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...
2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.
Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.
Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.
Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.
Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.
Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...
2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.
Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.
Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.
Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.
Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.
Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Serenamente Sem Tocar Nos Ecos
Serenamente sem tocar nos ecos
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.
Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.
No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.
Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.
No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
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