Poemas neste tema
Coragem e Força
Felipe Vianna
VAE SOL!
(ai do homem só)
Não te deixes morrer
Antes que a morte
Te alcance.
Não te abandones,
Meu amigo.
Nada posso fazer
Por alguém
Que não se faz.
A luta é tua,
A vitória é tua.
Na vida,
Não há tempo para
Chorar.
Não te deixes morrer
Antes que a morte
Te alcance.
Não te abandones,
Meu amigo.
Nada posso fazer
Por alguém
Que não se faz.
A luta é tua,
A vitória é tua.
Na vida,
Não há tempo para
Chorar.
862
Charles Bukowski
Classe
esses garotos têm classe
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
1 245
Felipe Larson
DIA ETERNO
Mas você e eu, vivemos e morremos...
Mas o mundo não entende...
E nós não sabemos por quê?
Mas entenda, isso é uma vida.
E viver é preciso
É uma dor que temos que sentir dentro de nós
Então aprenda a viver um dia de cada vez
E será feliz
Então me diga o que você fez
Pra dizer que é apenas um aprendiz
Ainda não conheci o amor
Ainda não aprendi a vencer
O que adianta nadar contra corrente
Se vou continuar no mesmo lugar
Mas às vezes ter força de vontade é bom
Querer lutar como se fosse sua ultima vida
Mostre toda sua força
Mostre todo o seu poder
Se os jardins dos leões rugissem
Anunciando a chegada de um novo dia eterno
Mas o mundo não entende...
E nós não sabemos por quê?
Mas entenda, isso é uma vida.
E viver é preciso
É uma dor que temos que sentir dentro de nós
Então aprenda a viver um dia de cada vez
E será feliz
Então me diga o que você fez
Pra dizer que é apenas um aprendiz
Ainda não conheci o amor
Ainda não aprendi a vencer
O que adianta nadar contra corrente
Se vou continuar no mesmo lugar
Mas às vezes ter força de vontade é bom
Querer lutar como se fosse sua ultima vida
Mostre toda sua força
Mostre todo o seu poder
Se os jardins dos leões rugissem
Anunciando a chegada de um novo dia eterno
693
Jorge Luis Borges
Milonga para um soldado - O jogo da vida
O hei sonhado nesta casa,
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais.
Uma de tantas províncias,
do interior foi sua terra,
não convém que se saiba
que morre gente na guerra.
O sacaram do quartel,
Puseram-lhe nas mãos
as armas e o mandaram
a morrer com seus irmãos.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
Sua morte foi uma secreta vitória
ninguém se admire que me dê inveja e pena
o destino daquele homem.
Ouviu as balas arengas
dos vãos generais,
viu o que nunca havia visto,
a neve e as areias.
Ouviu vivas, e ouviu morras
ouviu o clamor da gente,
ele só queria saber
se era ou não era valente.
O soube naquele momento
em que lhe entrava a ferida,
se disse não teve medo,
quando o deixou a vida.
1 810
Marilina Ross
Dança
Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
1 014
Augusto dos Anjos
O Negro
Oh! Negro, oh! filho da Hotentotia ufana
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
4 636
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
911
Fernando Pessoa
Ah quem tivesse a força para desertar deveras!
Ah quem tivesse a força para desertar deveras!
1 327
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 117
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
925
Gerardo Mello Mourão
Quem de vocês matou o uruguaio
"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
970
Gerardo Mello Mourão
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico
Barão publicou na Revista do Instituto Histórico as
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
Memórias de Alexandre Mourão:
muito sangue e muito amor nessa história
e as velhas da família contam com ódio e orgulho a devastação das terras dos Mourões
pela tropa imperial
Alexandre Mourão salvou-se atravessando a nado o rio Parnaíba com um patacão
de dois mil réis na boca
e o ódio e o orgulho e o sangue e o amor e os patacões de prata são
a herança de meus filhos
e a minha tarefa é atravessar o rio a nado
com o ódio o orgulho o sangue o amor e os patacões de prata
na boca
e nunca perecer na travessia
e saltar na terra estrangeira
a água de meus rios escorrendo dos cabelos
e o barro de minha terra no couro das alpercatas e do peito.
Francisco, neto de Tobias, tinha os cabelos de ouro
e arrancava comigo no quintal as penas dos pavões azuis
e caiu da grande cajazeira sobre a lança do gradil
e houve um jorro de sangue em sua coxa
o sangue pintou a cauda azul dos pavões
o sangue dos Mourões se derrama no país dos Mourões há quatro séculos
o velho Tobias derramou o seu nos dentes de um jacaré do Amazonas
também o derramam das coxas as raparigas fecundas
temos cobrado largamente o nosso sangue
e do alimento da bravura o nosso coração
faz a sua pureza e a sua força
e na festa rústica à beira da fogueira
nossos adolescentes ensinavam os meninos
a cantarem na viola em mesmo tom
o amor e a morte. E as primas prometiam
o seio e o ventre
às estrelas de agosto
e à lua do Equador.
A linha do Equador passa aqui perto
e o signo de Capricórnio já me envolve
no tempo e no espaço e envolta nele
ao luar do trópico
— ó noite de Crateús! —
veio Elisa banhada no açude
veio Carmen banhada nos jasmins da noite
vieram as primas de vestido encarnado e veio
ao coração do infante o vaticínio
do rosto que trarias
o anúncio de teus olhos e o desejo
dos quadris adivinhados
noutras noites mais longe possuídos.
A linha do Equador passa aqui perto
e de seu fio de fogo o meu novelo
há de levar ao coração varado do Minotauro
e dali devolver a alegria
dos rapares e raparigas de Atenas
a linha do Equador passa aqui perto
e em portulanos
de Gênova e de Sagres fui sonhado:
Vicente Yañez Pínzón e Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral
e Bartolomeu Perestrello e o Infante Dom Henrique e Isabel, a Católica,
me caçavam no mar entre hipocampos.
"Se o Amor servir de guia, terás êxito"
disse a Teseu o oráculo de Delfos.
De tuas mãos, amor, recebo o novelo de fogo da linha do Equador
e vou e volto e devolvo aos conquistadores rijo e novo
o pênis que por mim se murchara no ventre
da índia Iracema da tribo tabajara.
Branca filha de Telefasse!
Crescem ao sol numa terra de sol
essas flores de cactus da grinalda
que me dói na cabeça
cresce a fome
das ervas que já vou pastar em tua mão:
sobre as margens do Letes
os plátanos de Creta
aprenderão as palmas sempre verdes
do buriti selvagem.
Não me temas se venho coroado dos cactus e talictres do país dos Mourões
e trago o rosto rude das terras imaturas
sou filho de Calíope e fui eu
que recebi de Apolo na floresta virgem
a cítara de Linos
e aprendi a tanger a cítara de Linos
e fui o primeiro a juntar mais duas cordas à cítara de Linos
e de volta do país moreno
sou eu que vou introduzir de novo em tua casa
a expiação dos crimes, o culto de Dionísios, de Hécate Ctônia
e os outros mistérios órficos.
Todas as noivas mortas voltarão
quando eu tanger a lira no Tenaro
e condoer os capitães do inferno.
Não, eu não te perdi; ao teu encalço
viajei o inferno e demorei no inferno
e ainda espedaçado nas orgias trácias
as águas do rio a arrastar-me a cabeça cortada
os lábios à torrente clamariam
teu nome — e tu serias no meu canto
e touro e cisne e degolado Orfeu
a flor do talictres tem o cheiro da semente humana
em meu lombo em minha asa em minha lira em minha toledana
celebrarás, ó bem amada,
o teu guerreiro e o teu cantor.
1 118
Gerardo Mello Mourão
Era uma vez Manuel Mourão
Era uma vez Manuel Mourão
e a forja do equinócio forjara
os seus braços de ferro
Manuel de Ferros era chamado e uma noite
ao luar do alpendre sobre a rede fresca
foi o uivo da fula suçuarana:
desafiado o chumbo miúdo
veio em cima da fumaça:
sobre a mandíbula quadrada dos Mourões
os olhos negros dos Mourões
e a mandíbula fulva e os olhos fulvos
da suçuarana e a insolência
de Manuel de Ferros:
e o convite ao bote e o bólide
rabeia as fauces
e as presas e os caninos
e músculos e garras e a garganta
se chofra na cilada da forquilha
e à Parnaíba iluminada à lua
as juguleiras jorram e um instante
do ar, da lâmina embebida, dos tendões de ferro
de Manuel de Ferros
e de seu sorriso e do sorriso
dos Mourões de dentes largos e mandíbula quadrada
é o baque da fera.
E as feras e as coisas e as pessoas
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal
e do novelo de fogo da linha do Equador
são as cordas desta citara e o fio do labirinto:
no hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda
ni espada como su espada
ni corazón tan de veras
como un rio de leónes
ergue a cabeça morena
donde su risa era un nardo:
morreu na praça em Sevilla
teu último noivo — Ignácio:
que gran torero en la plaza!
que gran serrano en la sierra!
que blando con las espigas!
que duro con las espuelas!
que tierno con el rocio!
que deslumbrante en la féria!
que bom no rifle e na faca
que macho em qualquer função
que Mourão entre os Mourões!
e a forja do equinócio forjara
os seus braços de ferro
Manuel de Ferros era chamado e uma noite
ao luar do alpendre sobre a rede fresca
foi o uivo da fula suçuarana:
desafiado o chumbo miúdo
veio em cima da fumaça:
sobre a mandíbula quadrada dos Mourões
os olhos negros dos Mourões
e a mandíbula fulva e os olhos fulvos
da suçuarana e a insolência
de Manuel de Ferros:
e o convite ao bote e o bólide
rabeia as fauces
e as presas e os caninos
e músculos e garras e a garganta
se chofra na cilada da forquilha
e à Parnaíba iluminada à lua
as juguleiras jorram e um instante
do ar, da lâmina embebida, dos tendões de ferro
de Manuel de Ferros
e de seu sorriso e do sorriso
dos Mourões de dentes largos e mandíbula quadrada
é o baque da fera.
E as feras e as coisas e as pessoas
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal
e do novelo de fogo da linha do Equador
são as cordas desta citara e o fio do labirinto:
no hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda
ni espada como su espada
ni corazón tan de veras
como un rio de leónes
ergue a cabeça morena
donde su risa era un nardo:
morreu na praça em Sevilla
teu último noivo — Ignácio:
que gran torero en la plaza!
que gran serrano en la sierra!
que blando con las espigas!
que duro con las espuelas!
que tierno con el rocio!
que deslumbrante en la féria!
que bom no rifle e na faca
que macho em qualquer função
que Mourão entre os Mourões!
846
Gerardo Mello Mourão
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.
O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.
Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.
Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.
1 003
Gerardo Mello Mourão
Alexandre cavalga
Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.
Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.
Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade
"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.
O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.
— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.
Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim
antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.
Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele
E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:
Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:
na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.
"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"
E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.
Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.
Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,
Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele
nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"
e a semente do a
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.
Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.
Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade
"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.
O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.
— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.
Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim
antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.
Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele
E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:
Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:
na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.
"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"
E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.
Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.
Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,
Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele
nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"
e a semente do a
1 246
Manuel Bandeira
Improviso
Para Odylo e Nazareth
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
1 112
Milena Azevedo
As Guerreiras das Quadras
Quanta guarra,
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
832
Manuel Bandeira
Oração a Teresinha do Menino Jesus
Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
1 207
Bento Prado Júnior
A Minha Cruz
Esta cruz que me coube por herança,
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
1 230
Vitor Casimiro
Ciclo Vicioso
O início
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
Não me esqueço
O vício
Só tem começo.
O trauma,
Que perfura
A alma
De que procura
Com toda calma
Perder o medo
Essa mania
De que ainda é cedo
De que ainda é dia
E seja o que aconteça
Não há mais perigo
Mesmo que desapareça
O meu amigo
Encontrarei a cura
Para a insensatez
Talvez loucura
De se perder de vez,
De um vez por todas.
833
Manuel Bandeira
Desafio
Não sou barqueiro de vela,
Mas sou um bom remador:
No lago de São Lourenço
Dei prova do meu valor!
Remando contra a corrente,
Ligeiro como a favor,
Contra a neblina enganosa,
Contra o vento zumbidor!
Sou nortista destemido,
Não gaúcho roncador:
No lago de São Lourenço
Dei prova do meu valor!
Uma só coisa faltava
No meu barco remador:
Ver assentado na popa
O vulto do meu amor...
Mas isso era bom demais
— Sorriso claro dos anjos,
Graça de Nosso Senhor!
1938
Mas sou um bom remador:
No lago de São Lourenço
Dei prova do meu valor!
Remando contra a corrente,
Ligeiro como a favor,
Contra a neblina enganosa,
Contra o vento zumbidor!
Sou nortista destemido,
Não gaúcho roncador:
No lago de São Lourenço
Dei prova do meu valor!
Uma só coisa faltava
No meu barco remador:
Ver assentado na popa
O vulto do meu amor...
Mas isso era bom demais
— Sorriso claro dos anjos,
Graça de Nosso Senhor!
1938
1 570
Zbigniew Herbert
Crônica de uma cidade sitiada
Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
e registro – sem saber para quem – a história do cerco
tenho de ser rigoroso mas não sei quando teve início a invasão
há duzentos anos em Dezembro Setembro ontem de manhã
aqui todos perdemos a noção do tempo
só nos deixaram este lugar a ligação a este lugar
governamos sobre ruínas de templos de fantasmas de casas e jardins
se perdêssemos as nossas ruínas ficaríamos sem nada
escrevo como posso ao ritmo de semanas sem fim
Segunda-feira: as lojas estão vazias o rato converteu-se em unidade monetária
Terça-feira: o presidente da câmara foi assassinado por desconhecidos
Quarta-feira: rumores de armistício o inimigo pôs a ferros os nossos enviados
não sabemos onde eles os têm presos isto é onde os mataram
Quinta-feira: após uma assembleia tempestuosa a maioria votou contra
a proposta de rendição incondicional apresentada pelos mercadores
Sexta-feira: a investida da peste Sábado: suicidou-se N. N.
o valoroso guerreiro Domingo: não há água repelimos
o ataque até à porta oriental chamada a Porta da Aliança
eu sei que é monótono tudo isto não vai comover ninguém
evito comentários mantenho sob controle as emoções descrevo fatos
parece que só os fatos têm valor nos mercados estrangeiros
com uma espécie de orgulho quero dizer ao mundo
que graças à guerra criamos uma nova raça de crianças
as nossas crianças não gostam de contos de fadas brincam aos tiros
dia e noite sonham com sopa pão ossos
tal como os cães e os gatos
gosto ao entardecer de passear nos limites da cidade
ao longo das fronteiras da nossa incerta liberdade
olho de cima a multidão de soldados com as suas luzes
ouço o rufar dos tambores e os gritos dos bárbaros
é incrível que a cidade continue a resistir
o cerco dura há muito os inimigos atacam-nos à vez
nada os une a não ser a vontade de nos destruírem
os Godos os Tártaros os Suecos as tropas do Imperador regimentos
da Transfiguração do Senhor
quem os pode enumerar
as cores dos estandartes mudam como as duma floresta ao longe
de um delicado amarelo de ave na primavera até ao preto invernal
passando pelo verde
e assim à noitinha libertado dos fatos posso meditar
em longínquos assuntos passados por exemplo nos nossos
aliados de além-mar cuja compaixão é sincera eu sei
enviam-nos sacos de farinha conforto toucinho e bons conselhos
sem sequer se aperceberem que foram os seus pais quem nos traiu
os nossos antigos aliados do tempo do segundo Apocalipse
mas os filhos não têm culpa merecem a nossa gratidão e por isso agradecemos
eles nunca passaram pela eternidade de um cerco
as pessoas marcadas pelo infortúnio estão sempre sozinhas
defensores do Dalai Lama dos Curdos e dos afegãos
no momento em que escrevo estas palavras os partidários do compromisso
ganham uma ligeira vantagem sobre a facção dos destemidos
habituais são as oscilações de ânimo o nosso destino está ainda a ser pesado
os cemitérios tornam-se maiores diminui o número dos defensores
mas a defesa continua e continuará até ao final
e se a Cidade cair e apenas um de nós sobreviver
esse levará dentro de si a Cidade pela estrada do exílio
será ele a Cidade
olhamos para o rosto da fome o rosto do fogo o rosto da morte
e o pior de todos – o rosto da traição
e só os nossos sonhos nunca foram humilhados
(Versão, do inglês, de José Miguel Silva).
1 427
Valeria Braga
Sobre a Página em Branco
Sobre a Página em Branco
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
Persisto em alguns minutos.
Persisto também nas palavras e sílabas
inconjuntas - o risco de conjugar.
Ainda mora dentro das minhas vísceras
um ruminar laborioso de tecer caminhos
e meu estômago se corrói: desejo alcalino
de gritar.
Mansa, a quietude da noite no dorso de um corcel
emerge e crava os dentes em minha face.
Quem sou eu pra contestar os teus delírios?
Na mesa, o ser pronta, o ser aceite
de todas as delícias e dilaceramentos.
Parir um sonho a cada dia - há que ser mãe.
Mãe inconteste, mãe entregue, seio exposto.
Leite, suor e lágrimas pra cria.
A renúncia extrema de ser livre a cada letra
ou a cada despertar da coragem.
Não morre a luta - guerreira, amazona
infatigável.
Contemplo e celebro. Rendo-me.
Há que ser mãe e mulher,
criança e dona do abandono.
761
Mário Donizete Massari
A voz do louco II
Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.
Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.
Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.
mas assumo
o gosto amargo da vida.
Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.
Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.
887