Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Capinan
Aprendizagem
(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
1 315
João Bosco da Encarnação
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!
Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.
Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.
Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.
Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.
A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"
931
Lucila Issa
Prisma de Momentos
floresta escura
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma
748
Truck Tumleh
Poeta
Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
902
Lucila Issa
Beyond the Invisible
Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.
Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.
685
Truck Tumleh
Mar
Sinto dentro do corpo
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
Um mar de sentimentos.
Tenho canalizá-lo
E expressá-lo em palavras.
Não consigo.
É muita água...
É muito sentimento..
Peço que entenda mais,
Do que possa perdoar...
Você não imagina...
O que sinto
Quando o mar
Que carrego
Entra em ressaca.
804
Adélia Prado
Contradança
Meu espelho me estranha,
despendo esforços injustificáveis
para amar um lugar que nem conheço.
Suspeito cidade crua, tudo pintado de fresco,
sem um musgo, um descascado no portão de ferro.
Como partícula em seu caráter instável,
sem história flutuo molestada
pelo gozo das trevas,
prazer maldito de uma certa dor.
Mas eis que a noite constela-se
e, com tanta acha de lenha
e tanta casca de pau,
já tenho como fazer uma fogueira bonita.
Espelho meu, estilhaça-te!
Escolho o baile,
quero rodopiar.
despendo esforços injustificáveis
para amar um lugar que nem conheço.
Suspeito cidade crua, tudo pintado de fresco,
sem um musgo, um descascado no portão de ferro.
Como partícula em seu caráter instável,
sem história flutuo molestada
pelo gozo das trevas,
prazer maldito de uma certa dor.
Mas eis que a noite constela-se
e, com tanta acha de lenha
e tanta casca de pau,
já tenho como fazer uma fogueira bonita.
Espelho meu, estilhaça-te!
Escolho o baile,
quero rodopiar.
1 654
Adélia Prado
Feira de São Tanaz
Os peixes me olham
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
1 043
Ivan Sarney da Costa
Sou Apenas um Homem
Sou apenas um homem
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
Perscrutando a Cidade.
Por favor, não temam meus passos.
Nem sei se são passos que me conduzem.
Às vezes, são sobressaltos, angústias e medos.
É necessário que acreditem no que digo.
Não direi muito porque não conheço muito.
Na verdade, eu sei tão pouco.
Tudo o que aprendi foi me extrair das coisas
E me integrar às coisas.
Nesse processo, sou poeira, limo, sujo,
Folhas, frutos, pétalas, pau e pedra.
Sou fontes do passado
E daquilo que há de vir,
Me confundo com o anônimo das faces.
Me escureço com o asfalto do chão.
Às vezes, brilho e resplandeço
Como as paredes de azulejos e as luzes da noite.
949
Adélia Prado
Sala de Espera
A Bíblia, às vezes, não me leva em conta,
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.
tão dura com minha gula.
Nem me adiantou envelhecer,
partes de mim seguem adolescentes,
estranhando privilégios.
Nunca me senti moradora,
a sensação é de exílio.
Criancinha de peito, essa já sabe,
seu olhar muda quando desmamada.
Tudo é igual a tudo,
mas por agora a unidade nos cega,
daí o múltiplo e suas distrações.
Deus sabe o que fez.
Mesmo com medo escrevo
que é 1º de julho de 2011.
Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.
Deus nunca me abandonou.
1 648
Adélia Prado
Espasmos No Santuário
Pesam como maus-tratos
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
854
Adélia Prado
Pontuação
Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
1 073
Adélia Prado
Pentecostes
Moro em casa de herança,
uma edificação com aposento que evito
paralisada por seu ar gelado.
Ocupo pequeno cômodo
onde até virtudes, algum riso
e sementes de alegria, ainda intactos,
guardam alguma vida.
Olho o grande portão sem me mover,
o medo me tem ao colo, o sorridente demônio:
‘Você está muito doente,
deixa que te cuido, filhinha,
com os unguentos do sono.’
Como um bicho respirando perigo,
às profundezas de que sou feita
rezo como quem vai morrer,
salva-me, salva-me.
O zelo de um espírito
até então duro e sem meiguice
vem em meu socorro e vem amoroso.
Convalescente de mim,
faço um carinho no meu próprio sexo
e o nome desse espírito é coragem.
uma edificação com aposento que evito
paralisada por seu ar gelado.
Ocupo pequeno cômodo
onde até virtudes, algum riso
e sementes de alegria, ainda intactos,
guardam alguma vida.
Olho o grande portão sem me mover,
o medo me tem ao colo, o sorridente demônio:
‘Você está muito doente,
deixa que te cuido, filhinha,
com os unguentos do sono.’
Como um bicho respirando perigo,
às profundezas de que sou feita
rezo como quem vai morrer,
salva-me, salva-me.
O zelo de um espírito
até então duro e sem meiguice
vem em meu socorro e vem amoroso.
Convalescente de mim,
faço um carinho no meu próprio sexo
e o nome desse espírito é coragem.
1 235
Liz Christine
Dor
Sozinha e vulnerável
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
997
Adélia Prado
Os Comoventes Preconceitos
As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
989
Adélia Prado
Sem Saída
Escreve-se para dizer
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
689
Adélia Prado
O Aproveitamento da Matéria
Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
1 170
Adélia Prado
Branca de Neve
Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
1 437
Sophia de Mello Breyner Andresen
Às Vezes Julgo Ver Nos Meus Olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
1 179
Adélia Prado
Senha
Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
eu vou gerar um cacto sem espinho.
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
eu vou gerar um cacto sem espinho.
1 538
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tudo Me É Uma Dança Em Que Procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…
1 425
Adélia Prado
Quarto de Costura
Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
1 437
Adélia Prado
Humano
A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
1 243
Maria do Carmo Lobato
Sina
Nasci
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado
E me prostituindo cada vez mais,
Na castidade postiça
E impingida,
Infinitamente mais,
Do que na minha
Devassidão inata.
E conheci a nata
Do Santo Meretrício
E conheci o amálgama
E a podridão
Do meretrício santificado
E purificado
E dei muito duro
Para ele me libertar
E me desacorrentar
E poder encontrar
O bordel da minha preferência,
O meu bordel,
Onde, na pontualidade
Da minha presença
Diária e determinada,
Pude encontrar
A minha ausência,
A ausência da minha castidade,
Que nunca existiu
E que me transpareceu
Na pureza da presença
Da minha própria prostituição
E do meu sentimento
Liberto e autêntico.
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado
E me prostituindo cada vez mais,
Na castidade postiça
E impingida,
Infinitamente mais,
Do que na minha
Devassidão inata.
E conheci a nata
Do Santo Meretrício
E conheci o amálgama
E a podridão
Do meretrício santificado
E purificado
E dei muito duro
Para ele me libertar
E me desacorrentar
E poder encontrar
O bordel da minha preferência,
O meu bordel,
Onde, na pontualidade
Da minha presença
Diária e determinada,
Pude encontrar
A minha ausência,
A ausência da minha castidade,
Que nunca existiu
E que me transpareceu
Na pureza da presença
Da minha própria prostituição
E do meu sentimento
Liberto e autêntico.
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