Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
1 168
Ana Garrett
Quem se esconde
Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
842
Ruy Belo
Ácidos e óxidos
É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 113 a 115 | Editorial Presença Lda., 1984
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 113 a 115 | Editorial Presença Lda., 1984
3 175
Fernando Pessoa
Rezas porque outros rezaram,
Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.
1 266
Ruy Belo
Figura jacente
Meu rosto nasce desta condição horizontal
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos
Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és
Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola
Deus é perto de mim como uma árvore
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
1 427
Fernando Pessoa
49 - MOOD
My thoughts are something my soul fears.
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
1 531
Fernando Pessoa
47 - FIAT LUX
Into a vision before me the world
Flowered, and it as when a flag, unfurled,
Suddenly shows unknown colours and signs.
Into an unknown meaning, evident
And unknown ever, it outspread its lines
Of meaning to my passive wonderment.
The outward and the inward became one.
Feelings and thoughts were visible in shapes,
And flowers and trees as feelings, thoughts. Great capes
Stood out of Soul, thrust into conscious seas,
And on all this a man‑sky spoke its breeze.
Each thing was linked into each other thing
By links of being past imagining,
But visible, as if the skeleton
Were visible and the flesh round it, each one
As if a separate thing visibly alone.
There was no difference between a tree
And an idea. Seeing a river be
And the exterior river were one thing.
The bird's soul and the motion of its wing
Were an inextricable oneness made.
And all this I saw, seeing not, dismayed
With the New God this vision told me of;
For this was aught I could not speak nor love
But a new sentiment not like all others,
Nought like the human feelings, men are brothers
In feeling, woke on my astonished spirit.
With a great suddenness did this disinherit
That thought that looks through mine eyes of the pelf
Of ordered seeing that maketh it itself.
O horror set with mad joy to appal!
O self‑transcendency of all!
O inner infinity of each thing, that now
Suddenly was made visible and local, though
No manner of speech to speak these things in words
Followed that vision! Sight whose sense absurds
Likeness of like, and makes disparity
Contiguous innerly to unity!
How to express what, seen, is not expressed
To the struck sight that sees it? How to know
What comes to senses' threshold to bestow
A visible ignorance upon the knowing?
How to obey the analogy‑behest,
Community in unity to prove
The intellectual meaning of to love,
Shipwrecking difference upon the sight
Renewed from God to Inwards infinite?
Nothing: the exterior world inner expressed,
The flower of the whole vision of the world
Into its colour of absolutely meaning
In the night unfurled,
And therefore nought unfurling, abstract, that,
Vision self‑screening,
Patent invisible fact.
Nothing: all,
And I centre of to recall,
As if Seeing were a god.
The rest the presence of to see,
Hollow self‑sensed infinity,
And all my being‑not‑souled‑to‑oneness trod
To fragments in my sight‑dishevelled sight.
This Night is Light.
Flowered, and it as when a flag, unfurled,
Suddenly shows unknown colours and signs.
Into an unknown meaning, evident
And unknown ever, it outspread its lines
Of meaning to my passive wonderment.
The outward and the inward became one.
Feelings and thoughts were visible in shapes,
And flowers and trees as feelings, thoughts. Great capes
Stood out of Soul, thrust into conscious seas,
And on all this a man‑sky spoke its breeze.
Each thing was linked into each other thing
By links of being past imagining,
But visible, as if the skeleton
Were visible and the flesh round it, each one
As if a separate thing visibly alone.
There was no difference between a tree
And an idea. Seeing a river be
And the exterior river were one thing.
The bird's soul and the motion of its wing
Were an inextricable oneness made.
And all this I saw, seeing not, dismayed
With the New God this vision told me of;
For this was aught I could not speak nor love
But a new sentiment not like all others,
Nought like the human feelings, men are brothers
In feeling, woke on my astonished spirit.
With a great suddenness did this disinherit
That thought that looks through mine eyes of the pelf
Of ordered seeing that maketh it itself.
O horror set with mad joy to appal!
O self‑transcendency of all!
O inner infinity of each thing, that now
Suddenly was made visible and local, though
No manner of speech to speak these things in words
Followed that vision! Sight whose sense absurds
Likeness of like, and makes disparity
Contiguous innerly to unity!
How to express what, seen, is not expressed
To the struck sight that sees it? How to know
What comes to senses' threshold to bestow
A visible ignorance upon the knowing?
How to obey the analogy‑behest,
Community in unity to prove
The intellectual meaning of to love,
Shipwrecking difference upon the sight
Renewed from God to Inwards infinite?
Nothing: the exterior world inner expressed,
The flower of the whole vision of the world
Into its colour of absolutely meaning
In the night unfurled,
And therefore nought unfurling, abstract, that,
Vision self‑screening,
Patent invisible fact.
Nothing: all,
And I centre of to recall,
As if Seeing were a god.
The rest the presence of to see,
Hollow self‑sensed infinity,
And all my being‑not‑souled‑to‑oneness trod
To fragments in my sight‑dishevelled sight.
This Night is Light.
1 731
Tatiana Ramminger
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...
1 296
Teresa Tenório
Medida
a medida do amor é ser deserto
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo
axial
porque o real do amor é fragmentar-se
No decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil
desvelar-se
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo
axial
porque o real do amor é fragmentar-se
No decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil
desvelar-se
311
Fernando Pessoa
Duas vezes jurei ser
Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
1 213
Ruy Belo
Um prato de sopa
Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
1 648
Valdir L. Queiroz
Dissertação III
Também te vi sobre a colisão
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
dos desejos;
te vi com aspecto de
amor imoral
te vi corroendo o orgulho
e alcançando a incógnita
te vi de sol pintada
de penumbra coberta e
de orgasmo sofrido
te vi de vontade imperfeita
e de amor engolida
também te vi, no meu espelho
inacabado naquela noite de sol
sem pincel e luar qual gaivota
sem mar.
te vi.
896
Sandro Penna
A Eugenio Montale
É festa no poente e eu sigo
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
931
Raul de Leoni
De um Fantasma
Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 844
Angela Santos
Além-Limite
Partir
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
685
Angela Santos
Inscrição
Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
659
Adélia Prado
A Convertida
A liturgia,
o ícone,
o monacato.
Descobri que sou russa.
o ícone,
o monacato.
Descobri que sou russa.
1 285
Angela Santos
Vozes
Dos
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
1 189
Angela Santos
Escravo e Senhor
Vem
ao meu castelo
Senta-te à mesa
com os fantasmas que o habitam,
ergue a taça e brinda
à vida
que não se sabe ainda
Vai pelos corredores,
labirintos
olha os retratos antigos
as paredes decaídas,
mas não te detenhas diante
daquela moldura vazia
Vem!
Senta-te no trono destruído
sente a força do que servi
e diz-me se é senhor
o que é escravo de si.
ao meu castelo
Senta-te à mesa
com os fantasmas que o habitam,
ergue a taça e brinda
à vida
que não se sabe ainda
Vai pelos corredores,
labirintos
olha os retratos antigos
as paredes decaídas,
mas não te detenhas diante
daquela moldura vazia
Vem!
Senta-te no trono destruído
sente a força do que servi
e diz-me se é senhor
o que é escravo de si.
1 054
Angela Santos
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
1 031
Angela Santos
Conjugação
Sonhei
que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou
vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação
Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.
Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!
que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou
vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação
Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.
Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!
1 171
Alice Ruiz
Projesombras (Nós)
por causa de
Regina Silveira
no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas
silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente
calculadas
inauguram com humor
o outro lado do rigor
o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?
em toda arte
as coisas sonham sombras
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
Regina Silveira
no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas
silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente
calculadas
inauguram com humor
o outro lado do rigor
o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?
em toda arte
as coisas sonham sombras
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
1 478
Angela Santos
Sentidos
Cheiro,
provo, toco
Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.
provo, toco
Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.
1 305
Angela Santos
Cifra
Regresso
à minha forma
de ser
inscrita nas palavras
às palavras regresso
como a um espelho…
profano o silencio,
quem sabe, a verdade
no regresso indevido
ou inexacto às cifras
que não dizem.
à minha forma
de ser
inscrita nas palavras
às palavras regresso
como a um espelho…
profano o silencio,
quem sabe, a verdade
no regresso indevido
ou inexacto às cifras
que não dizem.
1 002