Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Frei Agostinho da Cruz
LXI Ipse dixit et facta sunt
Se bastou só dizer para ser feito,
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?
E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!
Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.
Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?
E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!
Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.
Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
648
Angela Santos
Âmago
Estendo
os meus braços para ti
e de olhos cravados nos teus
sussurro-te:
vem, vem comigo ao centro
do que em nós é fundo e mais além
Vê, desce a tardinha sobre as nossas vidas
o sol é morno e doura este caminho…
ainda é tempo de olharmos os campos
sentir a terra e o vento no rosto
Vem
plantar uma flor e abrir os olhos da alma
ao desconhecido
adorar deus no alto de uma montanha
e doar-nos o amor nascido assim
um quase nada que se fez tudo
que nos ata à vida e à firme certeza
de o querer viver até ao fim.
Vem meu amor é hora de regressarmos
ao lugar que sente a nossa ausência
ao tempo de sermos nós
ao âmago da nossa essência
e sermos em cada uma esse pedaço de alma
que um dia se ausentou
e anseia regressar.
os meus braços para ti
e de olhos cravados nos teus
sussurro-te:
vem, vem comigo ao centro
do que em nós é fundo e mais além
Vê, desce a tardinha sobre as nossas vidas
o sol é morno e doura este caminho…
ainda é tempo de olharmos os campos
sentir a terra e o vento no rosto
Vem
plantar uma flor e abrir os olhos da alma
ao desconhecido
adorar deus no alto de uma montanha
e doar-nos o amor nascido assim
um quase nada que se fez tudo
que nos ata à vida e à firme certeza
de o querer viver até ao fim.
Vem meu amor é hora de regressarmos
ao lugar que sente a nossa ausência
ao tempo de sermos nós
ao âmago da nossa essência
e sermos em cada uma esse pedaço de alma
que um dia se ausentou
e anseia regressar.
1 318
Anísio Melhor
Poema
Tenho somente dois versos
O eu, verso e meu reverso
Tenho somente dois lábios
Para beijar-lhe no espelho
Tenho somente dois passos
Percorrendo os seus caminhos
Apenas dois livros tenho
Céu distante e chão presente
Motivos ambos eu tenho
Meu encanto e desencanto
Solidão e solidão
Rompidas no coração
E uma única alegria
A Sagração da Poesia.
(Hospital Juliano Moreira — 1966)
O eu, verso e meu reverso
Tenho somente dois lábios
Para beijar-lhe no espelho
Tenho somente dois passos
Percorrendo os seus caminhos
Apenas dois livros tenho
Céu distante e chão presente
Motivos ambos eu tenho
Meu encanto e desencanto
Solidão e solidão
Rompidas no coração
E uma única alegria
A Sagração da Poesia.
(Hospital Juliano Moreira — 1966)
876
Anísio Melhor
Elegia para um Nascimento
Da noite em que, lúcidos, sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
Pouca coisa resta a esquecer:
Do que sonhamos na extrema lucidez
Nada mais resta para se sofrer.
De um profundo silêncio
— Íntimo como o fundo do mar —
O sonho emergiu trazendo os vestígios de sangue e de linfa,
Onde antes o Ser repousava,
E a noite era um mundo fechado,
Era um ventre obscuro,
Gerando monstros ou deuses.
Lúcidos, de nossos sonhos, emersos,
Os fizemos nascer, monstros ou deuses,
Reais como nunca fomos
Ou pudéramos ser.
Da noite em que lúcidos sonhamos
Pouca coisa resta a esquecer.
fonte menor(Sanatório Ana Nery — março 1960)
Eu, sob o látego da fome e sede compelido,
Atado à roda de Krishna, paralisados, abúlicos dedos.
Eu,
Sem remorso ou maldição,
Agora
Bebo do copo que Fausto recusou.
(Hospital Juliano Moreira)
851
Angela Santos
Eterno Retorno
Os pés fincados
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.
1 127
José Paulo Paes
Canção do adolescente
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
1 611
António Ramos Rosa
As Palavras Têm Rosto: Ou de Silêncio Ou de Sangue.
As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
1 117
José Paulo Paes
O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE
o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
587
Aleilton Fonseca
motivo
calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
1 332
Angela Santos
Relatividade
O
belo e o vulgar se misturam
e um dia é belo o que não vi,
vulgar o que esgotou em cansaços meu olhar.
Desempoeirando meus olhos, olhei um dia
e o que não via ou parecia vulgar
o vi cheio de uma outra luz
e seus contornos antes inalcançaveis
tinham um não sei que me bordavam a alma.
Aquele objecto o olhei e quis um dia
pelas formas, harmonia e cor,
nada mais que um vulgar biblot
hoje cansa-me o olhar
Neste mesmo lugar, quotidianamente,
olho as coisas que enchem meus dias
olho hoje, e sei ver o que meus olhos
transfigurados, nem eu sei porquê.
não verão amanhã.
belo e o vulgar se misturam
e um dia é belo o que não vi,
vulgar o que esgotou em cansaços meu olhar.
Desempoeirando meus olhos, olhei um dia
e o que não via ou parecia vulgar
o vi cheio de uma outra luz
e seus contornos antes inalcançaveis
tinham um não sei que me bordavam a alma.
Aquele objecto o olhei e quis um dia
pelas formas, harmonia e cor,
nada mais que um vulgar biblot
hoje cansa-me o olhar
Neste mesmo lugar, quotidianamente,
olho as coisas que enchem meus dias
olho hoje, e sei ver o que meus olhos
transfigurados, nem eu sei porquê.
não verão amanhã.
1 093
Angela Santos
A Sós
Vai!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
1 075
Alberes Cunha
Dilema
Você passou por mim despercebida,
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.
As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.
No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...
E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.
As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.
No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...
E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!
994
Angela Santos
Fórmula
Desço
aos porões
para me sentir e respirar por dentro
descer é o acto
que quebra a superfície branca dos meus dias
Afasto-me para pensar
e resgatar os sentidos
mas como se pode sentir e pensar
a um tempo único?
Indivisos são o que penso e sinto,
estou nesse ponto
onde a um só tempo sentir e pensar
é o exercício em que me equilibro.
Sei o que em mim e por mim é sentido,
e sei que o penso, como sei que o vivo se o não defino
viver é o versus do presumido acto
que nos agrilhoa ao que nos explica.
Sem, maniqueísmo ou falsas fronteiras
sou um tanto de tantos
e aos bocados inteira
cocktail sem receita, pensamento, barriga
emoção com asas e sonho com pés
sou a ocasional mistura que herdei
não quero saber-me , nem que me expliquem,
se eu vivo comigo
quem saberá de mim
o que eu não sei?
aos porões
para me sentir e respirar por dentro
descer é o acto
que quebra a superfície branca dos meus dias
Afasto-me para pensar
e resgatar os sentidos
mas como se pode sentir e pensar
a um tempo único?
Indivisos são o que penso e sinto,
estou nesse ponto
onde a um só tempo sentir e pensar
é o exercício em que me equilibro.
Sei o que em mim e por mim é sentido,
e sei que o penso, como sei que o vivo se o não defino
viver é o versus do presumido acto
que nos agrilhoa ao que nos explica.
Sem, maniqueísmo ou falsas fronteiras
sou um tanto de tantos
e aos bocados inteira
cocktail sem receita, pensamento, barriga
emoção com asas e sonho com pés
sou a ocasional mistura que herdei
não quero saber-me , nem que me expliquem,
se eu vivo comigo
quem saberá de mim
o que eu não sei?
694
Albano Dias Martins
Relógio Sem Ponteiros
Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projetado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.
1 499
Sophia de Mello Breyner Andresen
Gráfico
I
Curva dos espaços, curva das baías,
Vida que não é vida com os gestos inúteis,
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
II
Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
III
A mulher branca que a noite traz no ventre
Veio à tona das águas e morreu.
IV
Chego à praia e vejo que sou eu
O dia branco.
Curva dos espaços, curva das baías,
Vida que não é vida com os gestos inúteis,
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
II
Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
III
A mulher branca que a noite traz no ventre
Veio à tona das águas e morreu.
IV
Chego à praia e vejo que sou eu
O dia branco.
2 347
Angela Santos
Cristais do Tempo
Agora
quero apenas ser daqui...
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso
sinto e fruo por inteiro
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol
Aqui e agora
Ser
chão rude e àspero
anjo sem asas
brisa que passa
poeira de estrelas....
e até lodo ser
se a beleza de um Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pantano
teimosamente se erguer.
quero apenas ser daqui...
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso
sinto e fruo por inteiro
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol
Aqui e agora
Ser
chão rude e àspero
anjo sem asas
brisa que passa
poeira de estrelas....
e até lodo ser
se a beleza de um Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pantano
teimosamente se erguer.
1 007
António Ramos Rosa
Quem Vive No Silêncio, Quem Vibra No Silêncio,
Quem vive no silêncio, quem vibra no silêncio,
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
959
Al Berto
Retrato de Fugitivo
ele caminha pela solidão nocturna dos quartos de hotel
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo
e bebe
e ama
e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia
mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo
e bebe
e ama
e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia
mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos
6 258
Vasco Graça Moura
Auto-retrato com a musa
1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmegianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.
sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).
ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,
palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra
e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.
2
quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,
nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo
não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,
amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmegianino,
nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.
3
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço
tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,
nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições
de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.
é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.
2 586
Angela Santos
Parêntesis
Há dias em
que se acorda com a cabeça repleta,
o peito querendo explodir por todos os seus ângulos,
como se ao regressarmos do fundo da noite,
retornássemos da safra de um qualquer campo que existe
num lugar que não sabemos,
onde revisitamos os lugares só possíveis enquanto
o manto da noite cobre a razão, amacia ânsias,
disfarça nas vestes do sonho
medos, limites e nos devolve à luz da manhã,
vindos dessa "terra de ninguém
e do todo", renovados, renascidos,
já que cada dia se morre um pouco, e se
renasce em igual medida.
O pensamento em suas pausas,
deixa então que me sente junto á corrente do coração,
sempre a transbordar.
Há muito que busco esse diálogo que não é
concorrente,
antes cooperante, da razão e das emoções.
Em seus avanços o coração galga as margens
e os limites do espaço
do possível, porque nele não é contido.
Por vezes não sei, se nesses instantes regresso à infância,
ao domínio absoluto do sonho e do imaginário,
ou a um qualquer tipo de consciente demência,
que me induz a surrealizar,
tão certa de ser essa a brecha por onde a minha sanidade mental
e o meu equilíbrio,
obrigatoriamente devem passar.
Não chego nunca a entender
(e para que preciso?)
se é o lado melhor do pensar misturado com o sentir
que ali se mesclam, já que esse é o instante
que nos torna maiores,
e nos faz pairar numa dimensão
onde a rosa dos ventos enlouqueceria
no seu imparávelrodopiar.
Momentos de tudo ser, tudo sentir. Mistura-se o
pretérito, o instante e o que desejamos que venha.
E o que há-de vir virá.
Mesmo se o que quisemos se transmuda e surge como
o que não esperávamos.
Ainda assim, surge o que haveria de vir.
Não vou dar às palavras a toada de
um qualquer "fatum", nem adorná-las de um qualquer determinismo:
se o que esperamos não se revela
com a face do esperado, é
porque confundimos a mascara com o rosto,
ou porque o verdadeiro rosto só o lapidará o tempo.
A luz entra de repente pela janela do meu
habitáculo. Faço de novo um parêntesis no curso
do meu pensamento, no instante em que estava
de novo tentada a parar,
ou pairar sobre os episódios da dimensão
"o que poderia ter sido".
Não quis ficar suspensa
sobre esses momentos em que em rewind surgiam
os momentos em que esperei "acontecer"
e acabei por viver o inesperado.
Suspendo a corrente do pensar,
sentindo esse chamado da luz para as coisas simples.
A nesga de sol me distrai da corrente sem norte
e sem lei , onde mergulho.
Receio, por vezes o destino dos navios que sulcam
os mares de sargaços.
A ousadia me seduz a descer, ou a subir
(como sabê-lo?),
já que se faz caminho ao andar.
É no compasso do passo que é
preciso ficar atenta,
é no movimento invisível das coisas
que tudo se joga e esse só o entende quem está atento
de uma outra forma.
Um dia de sol...é um dia de sol, talvez não seja
melhor nem pior do que um dia de chuva.
Afinal na sua sabedoria umas vezes simples,
chã, outras nem tanto,
Pessoa dizia que ambos são bons porque
existem. Aí reside quiçá a razão de tudo
ter razão de ser.
Mas um dia de sol, faz a diferença:
é que é de luz que vivem meus olhos,
porque é no calor que vibram meus nervos
e é nesse morno caldo em que estão mergulhadas, que sobrevivem
minhas células.
Um dia de sol a descoberto, é um dia de sol e
isso eu sinto-o por dentro de mim,
sem outra explicação.
E eu sei que todos os dias são dias de sol.
Mesmo que não o seja no lugar onde eu esteja.
É que um dia de sol que se descobre diante dos meus olhos,
existe aos meus olhos
e por dentro de mim.
E nada é igual à luz de um sol que se não abriu.
Quem sabe se um dia não velei o sol,
nos templos dos druidas, ou fui simples
adoradora da luz primordial?
Despertar assim, trazendo a cabeça e o peito
repletos de coisas, vagas ou não,
depois de atravessar esse campo imenso
onde se dilui a consciência em alerta,
requer uma espécie de exercício de equilibrista.
O dia nos toma inteiros, nos chamando,
requerendo a nossa atenção permanente.
É o vermelho que aparece ao cruzar de uma rua,
o choro ou riso de uma criança que atravessa nossa parede,
esse imenso mar de gente em que mergulhamos,
o louco vai e vem desse todo indefinido
sem contornos da multidão,
que nos dilui no seu atropelo, onde de repente
não somos mais nós,
somos mais um; as pequenas solicitações do quotidiano,
no encadeamento de actos, escolhas e decisões,
em que a cada momento construímos futuro.
E longe, diluídos na torrente do dia e de suas repetições,
o eco dos sonhos maiores, pacientemente
aguardando a vez na fila de espera.
De esperas e adiamentos se faz o correr da vida.
Porque há momentos e eles surgem do nada.
Não os esperamos e aí estão diante de nós,
puxando-nos para a vivência do inesperado,
vestindo outras vestes e
de um modo tal irreconhecíveis
que nem damos conta de que chegou o que
vivemos a esperar, trazendo em si outras esperas.
E a cabeça, que exige respostas simples se questiona,
sem devolução de resposta e cede, aguardando
um lampejo que chegue pela via da lucidez pressentida.
E é assim que podemos chegar a esse ponto da
existência, cujo estádio se não define claramente,
porque nada necessita de grande clarificação:
as coisas são, tal como são, nem sempre as entendemos,
e aceitar não saber é de algum modo
um certo começo de sabedoria.
Não é indiferença, não é renuncia,
nem resignação,
o que sobrevem ao tumulto do coração,
à rebelião da carne, à fome de querer e não
ter.
Não tem nome porque se dê esse momento,
em que sobre a vida se abre um parêntesis e nele
contido fica talvez o essencial, porque sem resposta.
Quem sabe,
se a elementar razão de todo o resto ser.
que se acorda com a cabeça repleta,
o peito querendo explodir por todos os seus ângulos,
como se ao regressarmos do fundo da noite,
retornássemos da safra de um qualquer campo que existe
num lugar que não sabemos,
onde revisitamos os lugares só possíveis enquanto
o manto da noite cobre a razão, amacia ânsias,
disfarça nas vestes do sonho
medos, limites e nos devolve à luz da manhã,
vindos dessa "terra de ninguém
e do todo", renovados, renascidos,
já que cada dia se morre um pouco, e se
renasce em igual medida.
O pensamento em suas pausas,
deixa então que me sente junto á corrente do coração,
sempre a transbordar.
Há muito que busco esse diálogo que não é
concorrente,
antes cooperante, da razão e das emoções.
Em seus avanços o coração galga as margens
e os limites do espaço
do possível, porque nele não é contido.
Por vezes não sei, se nesses instantes regresso à infância,
ao domínio absoluto do sonho e do imaginário,
ou a um qualquer tipo de consciente demência,
que me induz a surrealizar,
tão certa de ser essa a brecha por onde a minha sanidade mental
e o meu equilíbrio,
obrigatoriamente devem passar.
Não chego nunca a entender
(e para que preciso?)
se é o lado melhor do pensar misturado com o sentir
que ali se mesclam, já que esse é o instante
que nos torna maiores,
e nos faz pairar numa dimensão
onde a rosa dos ventos enlouqueceria
no seu imparávelrodopiar.
Momentos de tudo ser, tudo sentir. Mistura-se o
pretérito, o instante e o que desejamos que venha.
E o que há-de vir virá.
Mesmo se o que quisemos se transmuda e surge como
o que não esperávamos.
Ainda assim, surge o que haveria de vir.
Não vou dar às palavras a toada de
um qualquer "fatum", nem adorná-las de um qualquer determinismo:
se o que esperamos não se revela
com a face do esperado, é
porque confundimos a mascara com o rosto,
ou porque o verdadeiro rosto só o lapidará o tempo.
A luz entra de repente pela janela do meu
habitáculo. Faço de novo um parêntesis no curso
do meu pensamento, no instante em que estava
de novo tentada a parar,
ou pairar sobre os episódios da dimensão
"o que poderia ter sido".
Não quis ficar suspensa
sobre esses momentos em que em rewind surgiam
os momentos em que esperei "acontecer"
e acabei por viver o inesperado.
Suspendo a corrente do pensar,
sentindo esse chamado da luz para as coisas simples.
A nesga de sol me distrai da corrente sem norte
e sem lei , onde mergulho.
Receio, por vezes o destino dos navios que sulcam
os mares de sargaços.
A ousadia me seduz a descer, ou a subir
(como sabê-lo?),
já que se faz caminho ao andar.
É no compasso do passo que é
preciso ficar atenta,
é no movimento invisível das coisas
que tudo se joga e esse só o entende quem está atento
de uma outra forma.
Um dia de sol...é um dia de sol, talvez não seja
melhor nem pior do que um dia de chuva.
Afinal na sua sabedoria umas vezes simples,
chã, outras nem tanto,
Pessoa dizia que ambos são bons porque
existem. Aí reside quiçá a razão de tudo
ter razão de ser.
Mas um dia de sol, faz a diferença:
é que é de luz que vivem meus olhos,
porque é no calor que vibram meus nervos
e é nesse morno caldo em que estão mergulhadas, que sobrevivem
minhas células.
Um dia de sol a descoberto, é um dia de sol e
isso eu sinto-o por dentro de mim,
sem outra explicação.
E eu sei que todos os dias são dias de sol.
Mesmo que não o seja no lugar onde eu esteja.
É que um dia de sol que se descobre diante dos meus olhos,
existe aos meus olhos
e por dentro de mim.
E nada é igual à luz de um sol que se não abriu.
Quem sabe se um dia não velei o sol,
nos templos dos druidas, ou fui simples
adoradora da luz primordial?
Despertar assim, trazendo a cabeça e o peito
repletos de coisas, vagas ou não,
depois de atravessar esse campo imenso
onde se dilui a consciência em alerta,
requer uma espécie de exercício de equilibrista.
O dia nos toma inteiros, nos chamando,
requerendo a nossa atenção permanente.
É o vermelho que aparece ao cruzar de uma rua,
o choro ou riso de uma criança que atravessa nossa parede,
esse imenso mar de gente em que mergulhamos,
o louco vai e vem desse todo indefinido
sem contornos da multidão,
que nos dilui no seu atropelo, onde de repente
não somos mais nós,
somos mais um; as pequenas solicitações do quotidiano,
no encadeamento de actos, escolhas e decisões,
em que a cada momento construímos futuro.
E longe, diluídos na torrente do dia e de suas repetições,
o eco dos sonhos maiores, pacientemente
aguardando a vez na fila de espera.
De esperas e adiamentos se faz o correr da vida.
Porque há momentos e eles surgem do nada.
Não os esperamos e aí estão diante de nós,
puxando-nos para a vivência do inesperado,
vestindo outras vestes e
de um modo tal irreconhecíveis
que nem damos conta de que chegou o que
vivemos a esperar, trazendo em si outras esperas.
E a cabeça, que exige respostas simples se questiona,
sem devolução de resposta e cede, aguardando
um lampejo que chegue pela via da lucidez pressentida.
E é assim que podemos chegar a esse ponto da
existência, cujo estádio se não define claramente,
porque nada necessita de grande clarificação:
as coisas são, tal como são, nem sempre as entendemos,
e aceitar não saber é de algum modo
um certo começo de sabedoria.
Não é indiferença, não é renuncia,
nem resignação,
o que sobrevem ao tumulto do coração,
à rebelião da carne, à fome de querer e não
ter.
Não tem nome porque se dê esse momento,
em que sobre a vida se abre um parêntesis e nele
contido fica talvez o essencial, porque sem resposta.
Quem sabe,
se a elementar razão de todo o resto ser.
811
António Ramos Rosa
As Formas do Teu Ser São Várias,
As formas do teu ser são várias,
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.
És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.
Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.
És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.
Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
1 049
Antônio Barreto
A Sombra
Estou atrasado, lá vou eu correndo
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
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Leila Mícollis
Plano de Vôo
Deixar de encarar nossos sentimentos
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.5
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.5
1 122
Luís Filipe Castro Mendes
O Traidor
Tomaste o chá de folhas negras da melancolia?
Porque fugiste às palavras que te deixaram?
Espera-te o mais amargo fruto e depois vão-te sorrir.
E tu? Porque não disseste simplesmente quem eras?
Sabes que é tarde e já nada podemos fazer.
Como um médico na sala de operações, a tua alma encolhe os ombros,
porque tu renunciaste às palavras
e escolheste o silêncio das convicções.
Goa, 22 de Março de 2009
1 533