Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mother of things impossible,

Mother of things impossible,
Sister of what can never be,
Thou whose closed lips will never tell
The words whose lack is misery
Sit by my side while I ignore.
Smile by my ignorance of thee,
And my lost solitude restore.

O life is sad as things unwilled,
Love is the day that never comes
To those blind as my soul, and filled
With that presade of coming drums
When the city shall fall, that haunts
The inner vision whose night hums
In us while death startingly chaunts.

O interpret my soul to me!
Give me no truth, no sight, no road,
But take from me the misery
Of conciousness and the unseen goal
Of seeking ever what doth seem.
Lighten with being-near my load!
O let me hold thy hand and dream!


22/07/1916
4 422
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

11 - LOOKING AT THE TAGUS

LOOKING AT THE TAGUS

She led her flocks beyond the hills,
Her voice backs to me in the wind,
And a thirst for her sorrow fills
All that in me is undefined.

Spiritual lakes walled round with crags
Sleep in the hollows of her song.
There her unbathing nudeness lags
And looks on its pooled shadow long.

But what is real in all this is
Only my soul, the eve, the quay
And, shadow of my dream of this,
An ache for a new ache in me.
4 206
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O mistério dos olhos e do olhar

O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!

Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
1 190
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXI - I am older than Nature and her Time

I am older than Nature and her Time
By all the timeless age of Consciousness,
And my adult oblivion of the clime
Where I was born makes me not countryless.
Ay, and dim through my daylight thoughts escape
Yearnings for that land where my childhood dreamed,
Which I cannot recall in colour or shape
But haunts my hours like something that hath gleamed
And yet is not as light remembered,
Nor to the left or to the right conceived;
And all round me tastes as if life were dead
And the world made but to be disbelieved.
Thus I my hope on unknown truth lay; yet
How but by hope do I the unknown truth get?
4 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Saído apenas duma infância

Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente

Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)

E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.

E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
861
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXIII - He that goes back does, since he goes, advance,

He that goes back does, since he goes, advance,
Though he doth not advance who goeth back,
And he that seeks, though he on nothing chance.
May still by words be said to find a lack.
This paradox of having, that is nought
In the world's meaning of the things it screens,
Is yet true of the substance of pure thought
And there means something by the nought it means.
For thinking nought does on nought being confer,
As giving not is acting not to give,
And, to the same unbribed true thought, to err
Is to find truth, though by its negative.
So why call this world false, if false to be
Be to be aught, and being aught Being to be?
4 000
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXII - When I have sense of what to sense appears,

When I have sense of what to sense appears,
Sense is sense ere 'tis mine or mine in me is.
When I hear, Hearing, ere I do hear, hears.
When I see, before me abstract Seeing sees.
I am part Soul part I in all I touch –
Soul by that part I hold in common with all,
And I the spoiled part, that doth make sense such
As I can err by it and my sense mine call.
The rest is wondering what these thoughts may mean,
That come to explain and suddenly are gone,
Like messengers that mock the message' mien,
Explaining all but the explanation;
As if we a ciphered letter's cipher hit
And find it in an unknown language writ.
4 258
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É Carnaval, e estão as ruas cheias

É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 178
Gil Vicente

Gil Vicente

Assi como foi cousa

Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas é a Madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares as insígnias da Paixão. E desta perfiguração trata a obra seguinte.

Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.

Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D.#Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom#Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.


Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S.#Tomás, S.#Jerónimo, Santo#Ambrósio e Santo#Agostinho. E diz Agostinho:

AGOSTINHO Necessário foi, amigos,
que nesta triste carreira
desta vida,
pera os mui p'rigosos p'rigos
dos imigos,
houvesse alguma maneira
de guarida.
Porque a humana transitória
natureza vai cansada
em várias calmas;
nesta carreira da glória
meritória,
foi necessário pousada
pera as almas.

Pousada com mantimentos,
mesa posta em clara luz,
sempre esperando
com dobrados mantimentos
dos tormentos
que o Filho de Deus, na Cruz,
comprou, penando.
Sua morte foi avença,
dando, por dar-nos paraíso,
a sua vida
apreçada, sem detença,
por sentença,
julgada a paga em proviso,
e recebida.

A Sua mortal empresa
foi santa estalajadeira
Igreja Madre:
consolar à sua despesa,
nesta mesa,
qualquer alma caminheira,
com o Padre
e o Anjo Custódio aio.
Alma que lhe é encomendada,
se enfraquece
e lhe vai tomando raio
de desmaio,
se chegando a esta pousada,
se guarece.

Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:

ANJO Alma humana, formada
de nenhüa cousa feita,
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágoa perfeita,
gloriosa!
Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas,
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas!

Planta sois e caminheira,
que ainda que estais, vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdei
da glória que conseguis:
andai prestes.
Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais!
Um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.

ALMA Anjo que sois minha guarda,
olhai por minha fraqueza
terreal!
de toda a parte haja resguarda,
que não arda
a minha preciosa riqueza
principal.
Cercai-me sempre ò redor
porque vou mui temerosa
de contenda.
Ó precioso defensor
meu favor!
Vossa espada lumiosa
me defenda!

Tende sempre mão em mim,
porque hei medo de empeçar,
e de cair
ANJO Pera isso sam e a isso vim;
mas enfim,
cumpre-vos de me ajudar
a resistir
Não vos ocupem vaidades,
riquezas, nem seus debates.
Olhai por vós;
que pompas, honras, herdades
e vaidades,
são embates e combates
pera vós.

Vosso livre alvedrio,
isento, forro, poderoso
vos é dado
polo divinal poderio
e senhorio,
que possais fazer glorioso
vosso estado.
Deu-vos livre entendimento,
e vontade libertada
e a memória,
que tenhais em vosso tento
fundamento,
que sois por Ele criada
pera a glória.

E vendo Deus que o metal
em que vos pôs a estilar,
pera merecer,
que era muito fraco e mortal,
e, por tal,
me manda a vos ajudar
e defender.
Andemos a estrada nossa;
olhai: não torneis atrás,
que o imigo
à vossa vida gloriosa
porá grosa,
Não creiais a Satanás,
vosso perigo!

Continuai ter o cuidado
no fim de vossa jornada,
e a memória,
que o espírito atalaiado
do pecado
caminha sem temer nada
pera a Glória.
E nos laços infernais,
e nas redes de tristura
tenebrosas
da carreira, que passais,
não caiais:
siga vossa fermosura
as gloriosas.

Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:

DIABO Tão depressa, ó delicada,
alva pomba, pera onde isso?
Quem vos engana,
e vos leva tão cansada
por estrada,
que somente não sentis
se sois humana?
Não cureis de vos matar
que ainda estais em idade
de crecer
Tempo há i pera folgar
e caminhar
Vivei à vossa vontade
e havei prazer.

Gozai, gozai dos bens da terra,
Procurai por senhorios
e haveres.
Quem da vida vos desterra
à triste serra?
Quem vos fala em desvarios
por prazeres?
Esta vida é descanso,
doce e manso,
não cureis doutro paraíso.
Quem vos põe em vosso siso
outro remanso?
ALMA Não me detenhais aqui,
leixai-me ir que em al me fundo.

DIABO Oh! Descansai neste mundo
que todos fazem assi:
Não são em#balde os haveres.
não são em balde os deleites,
e fortunas;
não são debalde os prazeres
e comeres:
tudo são puros afeites
das criaturas:

Pera os homens se criaram.
Dai folga à vossa passagem
d'hoje a mais:
descansai, pois descansaram
os que passaram
por esta mesma romagem
que levais.
O que a vontade quiser
quanto o corpo desejar,
tudo se faça.
Zombai de quem vos quiser
reprender
querendo-vos marteirar
tão de graça.

Tornara-me, se a vós fora.
Is tão triste, atribulada,
que é tormenta.
Senhora, vós sois senhora
emperadora,
não deveis a ninguém nada.
Sede isenta.
ANJO Oh! andai; quem vos detém?
Como vindes pera a Glória
devagar!
Ó meu Deus! Ó sumo bem!
Já ninguém
não se preza da vitória
em se salvar!

Já cansais, alma preciosa?
Tão asinha desmaiais?
Sede esforçada!
Oh! Como viríeis trigosa
e desejosa,
se vísseis quanto ganhais
nesta jornada!
Caminhemos, caminhemos.
Esforçai ora, Alma santa,
esclarecida!

Adianta-se o Anjo, e torna Satanás:

DIABO Que vaidades e que extremos
tão supremos!
Pera que é essa pressa tanta?
tende vida.

Is muito desautorizada,
descalça, pobre, perdida,
de remate:
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não leio já; queria abrir um livro

Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...

Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...

Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

19 - EMPTINESS

EMPTINESS

The day sickens into the lake
The colour that its pallor wears.
A loss of outline overtakes
The landscape, and the horizon bears
Like a defeated flag the dim
Purposelessness of its dead rim.

Let my heart forsake everything.
I shall be richer by all I.
Every breath, each passing wing
Takes me from myself. The whole sky
Eats into my self-consciousness
And detracts from my true distress.

For my true sorrow is not that
The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
The pain that I but pain have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.

No: vaguer things than skies and plains
Are dark and lowered o'er in me;
My sorrows are more empty pains
Than of which plains can symbols be;
And my void weight of life and self
Resembles nothing but itself.
4 512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MANIA OF DOUBT

MANIA OF DOUBT

All things unto me are queries
That from normalness depart,
And their ceaseless asking wearies
My heart.
Things are and seem, and nothing bears
The secret of the life it wears.
All thing’s presence e’er is asking
Questions of disturbing pain
With dreadful hesitation tasking
My brain
How false is truth? How much doth seem
Since dreams are all and all’s a dream.
Before mystery my will faileth
Torn with war within the mind,
.............

Alexander Search
4 626
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITAPH - Here lies who thought himself the best

EPITAPH

Here lies who thought himself the best
Of poet’s in the world’s extend;
In life he had not joy nor rest.

He filled with madness many a song,
And at whatever age he died
Thus many days he lived too long.

He lived im powerless egotism,
His soul tumultuous and disordered
By thought and feeling’s endless schism.

In everything he had a foe
And without courage bore his part
In life’s interminable woe.

He was a slave to grief and fear
And incoherent thoughts he had
And wishes unto madness near.

Those whom he loved, by arts of ill
He treated worse than foes; but he
His own worst enemy was still.

He of himself did ever sing,
Incapable of modesty,
Lock’d in his wild imagining.

Useless was all his toiless trouble
Empty of sense his fears and pains
And many of them were ignoble.

Vile thus and worthless his distress;
His words, though bitterer far than hate,
His bitter soul could not express.
.........

Let not a healthy mind pollute
His grave, but fitly there will pass
The traitor and the prostitute;

The drunkard and the wencher there
May pass, but quick, lest they should ponder,
Perchance, that pleasure is but air.

Each weak and execrable mind
Which plagued man with its rotteness
Its conscious master here will find.

Conscious, for in him he could tell
Madness and ill were what they were,
But neither did he will to quell.

Pass by therefore ye who can weep,
Let rotteness work in neglect,
While the rough winds the dead leaves sweep.

His slumbering brother to the sod
Not even in imagining
Disturb not with the name of God.

But let him lie and peace for ever
Far from the eyes and mouth of men
And from what him from them did sever.

He was a thing that God had wrought
And to the sin of having lived
He joined the crime of having thought.

Alexander Search, Julho de 1907
5 093
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DOUBT

DOUBT

Tell me, tell me who dreams most –
He who sees the world aright
Or the man in dreaming lost?
What is true? What is’t that seems –
The lie that’s lie that is in dreams?

Who is unto truth less near –
He who sees all truth a shadow
Or he who sees dreams all clear?
He who is a good guest, or he?
Who feels alien at the feast?


Alexander Search, 19/06/1907
4 386
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CARNAVAL [b]

CARNAVAL

3

(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...

Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)

Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei

Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.

Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu

Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)

Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.

Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)

Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.

Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!

Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!

Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
2 228
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Saber? Que sei eu?

Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...

A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 610
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sopra de mais o vento

Sopra de mais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...

Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...

Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
1 886
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai redonda e alta

Vai redonda e alta
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...

Não sei o que quero.
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...

Ponho-me a sorrir
P'ra a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir

Uma voz que o chama
Mas não sabe d'onde
(Voz que em si se esconde)
E Só a ela ama...

E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...

Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego

No meu pensamento,
Na rainha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento

Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só p'ra a sua calma.
1 367
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Meteorito

O meu cérebro é um meteorito.
Vejo-o a cair do

                            C   éu

como se tivesse sido talhado
pela imaginação      mas não.

A vida é um novelo de resistências
às quais nem a minha mão
nem os meus olhos se adaptam.

O novelo é um nó
o nó é um laço
uma cruz      um traço
terrivelmente
soberano.

Desato-o, desmancho-o,
com ele reato o acto
o mesmo acto-pacto
alado rasgado amado.

E é como se ouvisse o Anjo
e a sua voz inaudível
nas pedras do caminho.

Desenho então,
assim me estendam
os braços,
o círculo      a coroa,
a cintura nua, a lua
e o nome de Helena
ou Karenina, Ana,
Ariana – esse regresso
da morte
entre a mão e o espírito.
854
Felipe Vianna

Felipe Vianna

IDIOSSINCRASIA

Homem,
Quem és tu?
Sem personalidade,
Sem caráter.

Que entre a turba
Exacerbadamente
Idiossincrático se faz.

Do emendado
Ao mais rebelde
Não foge nunca
Desta estirpe social.

II

Quem és tu?
Insurgente idiota
Que, para fugir da rota,
Idiossincrático se faz.

III

Vulgo certo,
Emendado, correto.
Burro de carga
Da ideologia te faz.

11/06/2001

960
Felipe Vianna

Felipe Vianna

LOUCURA

Loucura é:
Mostrar o meu Eu ao teu Tu
E se o teu Tu achar louco o meu Eu
Não permitas, Deus,
Que eu seja o Tu.
Pois, se todo louco é feliz,
Mais vale curtir o éden de minha loucura à
Curtir o teu Tu das jaulas da sociedade.

25/05/2001

906
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Epílogo

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!...

1919
1 243
Luís Vianna

Luís Vianna

SOLIDÃO

Solidão é estado
De espírito,
E não, físico.

12/04/1996

917
Daniel Francoy

Daniel Francoy

O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS

Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
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