Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Com teu gesto pintado e exagerado
Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
1 058
Fernando Pessoa
O bêbado caía de bêbado
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
1 842
Fernando Pessoa
E quanto sei do Universo é que ele
E quanto sei do Universo é que ele
Está fora de mim.
Está fora de mim.
727
Fernando Pessoa
EXISTÊNCIA: Vaga noção abstracta,
Vaga noção abstracta,
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
1 305
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
1 302
Fernando Pessoa
SER: Sou assim a íntima essência
Sou assim a íntima essência
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
2 488
Fernando Pessoa
Pequeno é o espaço que de nós separa
Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
1 561
Fernando Pessoa
Memórias de pensar vivem em mim
Memórias de pensar vivem em mim
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
1 452
Fernando Pessoa
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta,
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
1 251
Fernando Pessoa
Sinto horror
Sinto horror
À significação que olhos humanos
Contêm;
À prescrutação que dum ser fazem
Revelado de gestos e palavras
As almas.
Não quero entregar-lhes, pois,
Em desmando ou abertura do meu ser
O que em mim me faz meu. Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos prescrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer,
Mais há que aquilo que dizer não se pode.
Não se pode dizer porque não se pode.
À significação que olhos humanos
Contêm;
À prescrutação que dum ser fazem
Revelado de gestos e palavras
As almas.
Não quero entregar-lhes, pois,
Em desmando ou abertura do meu ser
O que em mim me faz meu. Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos prescrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer,
Mais há que aquilo que dizer não se pode.
Não se pode dizer porque não se pode.
1 394
Chacal
Ministério do Interior
pensamento é o fragmento fugaz
do caos estruturado
a palavra é o estágio
imediatamente after da sensação
que faz parte do estágio necessário
do aperfeiçoamento humano
de sentir a melhor maneira
de relacionamento franco
a palavra é um domingo de sol
no estádio municipal do pacaembu
se ela pinta tudo mais se cria
não mais que num instante
existindo no mesmo movimento
que a crassa ignorância
em que se fica só naquela
ânsia de comer melância
de comer melância na santa ignorância
de comer melância com muita exuberância
de comer melância com maria constância
de comer melância
de comer.
In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.97. (Cantadas literáris, 16). Poema integrante da série Drops de Abril, 1980/1983
do caos estruturado
a palavra é o estágio
imediatamente after da sensação
que faz parte do estágio necessário
do aperfeiçoamento humano
de sentir a melhor maneira
de relacionamento franco
a palavra é um domingo de sol
no estádio municipal do pacaembu
se ela pinta tudo mais se cria
não mais que num instante
existindo no mesmo movimento
que a crassa ignorância
em que se fica só naquela
ânsia de comer melância
de comer melância na santa ignorância
de comer melância com muita exuberância
de comer melância com maria constância
de comer melância
de comer.
In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.97. (Cantadas literáris, 16). Poema integrante da série Drops de Abril, 1980/1983
3 823
Fernando Pessoa
Occasion cannot make me weak or strong
Occasion cannot make me weak or strong
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
838
Fernando Pessoa
O abismo é o muro que tenho
O abismo é o muro que tenho
Ser eu não tem um tamanho.
Ser eu não tem um tamanho.
1 803
Janete, Rosa dos Ventos
Erótica, é ótica!
Duas da madrugada,
as palavras ficaram ressoando,
erótica, erótica...
Deve haver um erro,
sem ar,
quente, abafado,
derreteu-se algo em mim,
e ficou: é... ótica!
É isso.
Visão.
Noite quente,
calor, fornalha,
corpo quente,
fogo...
Acendo a luz,
fecho a porta,
lembro do fado:
"de quem eu gosto,
nem às paredes confesso";
o anúncio da TV, chama a atenção:
- me liga, vai... Liga!
Erótica...
Sim, visão...
Começo a me despir
lentamente,
solto os cabelos,
eles se espalham
e cobrem as protuberâncias
de minhas curvas...
Acaricio lentamente meu corpo,
descendo suavemente as mãos,
a carne é firme,
sinto as pernas trêmulas,
olho no espelho,
gosto do que vejo,
sou uma mulher bonita,
sensual,
firme, gostosa, macia,
lembro outra vez:
"liga, vai... Liga"
O telefone está perto,
companheiro único,
preto,
frio,
mudo,
estático...
Ainda espero.
Continuo descendo as mãos
com suavidade,
sinto falta de carinhos,
olho a imagem,
é... ótica...
As pessoas não se olham,
não conhecem seu corpo,
não olham a si mesmas,
não se amam,
não se desejam,
não se tocam...
"Eu me amo... Eu me amo
"Tinha uma música assim,
seriam loucos?
Coisa de jovens?
Rock?
Não.
Amar a si mesmo
é o ponto de partida,
se não nos amarmos,
não amaremos a mais ninguém!
Eu amo a muitos...
Em cada um, eu amo alguma coisa;
a voz,
o gosto,
o cheiro,
o pensamento,
o olhar,
as idéias,
o desafio,
o perigo,
o desejo,
o sexo...
Mas estou só,
absolutamente só,
eu, comigo!
Erótica?
Talvez nos pensamentos,
nas rimas,
na inspiração,
só na ponta dos dedos,
digitando freneticamente,
nada mais...
Na verdade, só é.. ótica!
Visão de uma realidade virtual
visão de um sonho
que embalo no seio
como um filho que suga
meu leite,
aquela deliciosa sensação
de ser sugada,
amada,
comida, esmagada!
Lembranças...
Gostos, cheiros, fatos,
o passado...
Hoje já é o passado de amanhã,
então, só tem eu aqui;
preciso me amar!
Se não me amar,
se não houver um tico de narcisismo,
chegará a depressão,
mulher mal amada,
mulher vencida!
Penso...
Que desperdício!
O tempo vai correndo,
eu grito,
meu grito não tem eco,
os ventos espalham as pétalas da Rosa,
e o tempo continua veloz,
implacável!
Preciso,
sinto que preciso,
dividir, somar,
esse corpo com alguém,
preciso sentir outras mãos
que não as minhas,
tocando minha pele macia,
buscando meus caminhos,
palavras quase inaudíveis
arrancando meus gemidos,
sugando meu sangue...
Jogo os cabelos para trás,
acabei de escová-los,
coloquei a roupa de dormir,
deixo minha imagem
reflexa no espelho,
sou capaz de ver o brilho
das estrelas cintilando nos meus olhos,
na minha pele,
desnudo meu pescoço
mas nenhum vampiro
entra pelas vidraças...
Silêncio total,
só a brisa da noite
e os raios da lua
banham meu corpo quase nu,
chega um misto de prazer e sono...
Começo a dormir e
viajo dentro de mim mesma...
O que encontro?
Minha sombra vagando
pelos espaços vazios dos caminhos,
solidão...
É... ótica.
Nada mais.
Não existe nada,
além da imaginação!
O devaneio adormece
em meus braços,
viajo nos sonhos
e encontro meu príncipe,
ele vem da floresta encantada,
cavalga em minha direção,
me joga meio sem jeito
no dorso do seu garanhão,
o galope é forte,
e, no embalo da ilusão,
adormeço, só,
completamente só!
Quando os raios de sol
entram e me aquecem pela manhã
a cada aurora,
volto à rotina...
Ali adormeceu a poesia
e, agora, acordou a realidade...
Um dia como outro qualquer,
a rotina,
a vida,
a esperança,
a solidão,
a mesma ótica... Erótica!
as palavras ficaram ressoando,
erótica, erótica...
Deve haver um erro,
sem ar,
quente, abafado,
derreteu-se algo em mim,
e ficou: é... ótica!
É isso.
Visão.
Noite quente,
calor, fornalha,
corpo quente,
fogo...
Acendo a luz,
fecho a porta,
lembro do fado:
"de quem eu gosto,
nem às paredes confesso";
o anúncio da TV, chama a atenção:
- me liga, vai... Liga!
Erótica...
Sim, visão...
Começo a me despir
lentamente,
solto os cabelos,
eles se espalham
e cobrem as protuberâncias
de minhas curvas...
Acaricio lentamente meu corpo,
descendo suavemente as mãos,
a carne é firme,
sinto as pernas trêmulas,
olho no espelho,
gosto do que vejo,
sou uma mulher bonita,
sensual,
firme, gostosa, macia,
lembro outra vez:
"liga, vai... Liga"
O telefone está perto,
companheiro único,
preto,
frio,
mudo,
estático...
Ainda espero.
Continuo descendo as mãos
com suavidade,
sinto falta de carinhos,
olho a imagem,
é... ótica...
As pessoas não se olham,
não conhecem seu corpo,
não olham a si mesmas,
não se amam,
não se desejam,
não se tocam...
"Eu me amo... Eu me amo
"Tinha uma música assim,
seriam loucos?
Coisa de jovens?
Rock?
Não.
Amar a si mesmo
é o ponto de partida,
se não nos amarmos,
não amaremos a mais ninguém!
Eu amo a muitos...
Em cada um, eu amo alguma coisa;
a voz,
o gosto,
o cheiro,
o pensamento,
o olhar,
as idéias,
o desafio,
o perigo,
o desejo,
o sexo...
Mas estou só,
absolutamente só,
eu, comigo!
Erótica?
Talvez nos pensamentos,
nas rimas,
na inspiração,
só na ponta dos dedos,
digitando freneticamente,
nada mais...
Na verdade, só é.. ótica!
Visão de uma realidade virtual
visão de um sonho
que embalo no seio
como um filho que suga
meu leite,
aquela deliciosa sensação
de ser sugada,
amada,
comida, esmagada!
Lembranças...
Gostos, cheiros, fatos,
o passado...
Hoje já é o passado de amanhã,
então, só tem eu aqui;
preciso me amar!
Se não me amar,
se não houver um tico de narcisismo,
chegará a depressão,
mulher mal amada,
mulher vencida!
Penso...
Que desperdício!
O tempo vai correndo,
eu grito,
meu grito não tem eco,
os ventos espalham as pétalas da Rosa,
e o tempo continua veloz,
implacável!
Preciso,
sinto que preciso,
dividir, somar,
esse corpo com alguém,
preciso sentir outras mãos
que não as minhas,
tocando minha pele macia,
buscando meus caminhos,
palavras quase inaudíveis
arrancando meus gemidos,
sugando meu sangue...
Jogo os cabelos para trás,
acabei de escová-los,
coloquei a roupa de dormir,
deixo minha imagem
reflexa no espelho,
sou capaz de ver o brilho
das estrelas cintilando nos meus olhos,
na minha pele,
desnudo meu pescoço
mas nenhum vampiro
entra pelas vidraças...
Silêncio total,
só a brisa da noite
e os raios da lua
banham meu corpo quase nu,
chega um misto de prazer e sono...
Começo a dormir e
viajo dentro de mim mesma...
O que encontro?
Minha sombra vagando
pelos espaços vazios dos caminhos,
solidão...
É... ótica.
Nada mais.
Não existe nada,
além da imaginação!
O devaneio adormece
em meus braços,
viajo nos sonhos
e encontro meu príncipe,
ele vem da floresta encantada,
cavalga em minha direção,
me joga meio sem jeito
no dorso do seu garanhão,
o galope é forte,
e, no embalo da ilusão,
adormeço, só,
completamente só!
Quando os raios de sol
entram e me aquecem pela manhã
a cada aurora,
volto à rotina...
Ali adormeceu a poesia
e, agora, acordou a realidade...
Um dia como outro qualquer,
a rotina,
a vida,
a esperança,
a solidão,
a mesma ótica... Erótica!
1 500
Fernando Pessoa
VIAGEM
VIAGEM
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
6 076
Eugénia Tabosa
Sonhei comigo
Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.
1 191
Fernando Pessoa
Não inquiro do anónimo futuro
Não inquiro do anónimo futuro
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.
1 294
Alice Ruiz
na esquina da consolação
na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 157
Sebastião Uchoa Leite
Máquina
Máquina de signos
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 350
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
1 123
Naâmir
Paixão
Será, mago, que esquizóides se apaixonam?
Paixão é peregrinação
de pés descalços
em meio ao baile da superfície
É carregar uma cruz de odores e vácuos
por entre uma platéia barulhenta
para depositar aos pés
do ser desejado.
Esquizóides são eremitas do subterrâneo,
e tu estás em meio a uma orgia de palpáveis cheiros,
existires que se roçam,
e se umedecem,
e se mordem.
Esquizóides não suportam os grupos
de humana carne pensante.
estás confortável nas coisas e nos entes,
mandando que se curvem
ao teu egocentrismo bizarro
e és obedecido fielmente (?).
Esquizóides não suportam taras alheias
só há a própria loucura
a neurose do outro não comove.
Esquizóides têm covas
têm teias
suspiram hipnose.
Nunca vão à caça.
Apenas esperam.
Famintos,
sedentos,
inanes.
Com garras pontiagudas,
veneno em riste,
dentes rebrilhando na escuridão:
O esfacelamento dos curiosos é óbvio.
Não se iluda, mago, nem tema.
Enquanto estiveres na luz do mundo
Nenhum esquizóide te perseguirá para refeição.
Estás protegido pela realidade
que destrói esquizóides.
Ah... !
Mas deixaste cair uma migalha de ti num tango
no qual eu navegava
guiada por tua voz...
Não sabes o que esquizóides podem fazer com restos...
Nem te atrevas a prever
toda a poesia que vou criar
com tua lembrança.
Paixão é peregrinação
de pés descalços
em meio ao baile da superfície
É carregar uma cruz de odores e vácuos
por entre uma platéia barulhenta
para depositar aos pés
do ser desejado.
Esquizóides são eremitas do subterrâneo,
e tu estás em meio a uma orgia de palpáveis cheiros,
existires que se roçam,
e se umedecem,
e se mordem.
Esquizóides não suportam os grupos
de humana carne pensante.
estás confortável nas coisas e nos entes,
mandando que se curvem
ao teu egocentrismo bizarro
e és obedecido fielmente (?).
Esquizóides não suportam taras alheias
só há a própria loucura
a neurose do outro não comove.
Esquizóides têm covas
têm teias
suspiram hipnose.
Nunca vão à caça.
Apenas esperam.
Famintos,
sedentos,
inanes.
Com garras pontiagudas,
veneno em riste,
dentes rebrilhando na escuridão:
O esfacelamento dos curiosos é óbvio.
Não se iluda, mago, nem tema.
Enquanto estiveres na luz do mundo
Nenhum esquizóide te perseguirá para refeição.
Estás protegido pela realidade
que destrói esquizóides.
Ah... !
Mas deixaste cair uma migalha de ti num tango
no qual eu navegava
guiada por tua voz...
Não sabes o que esquizóides podem fazer com restos...
Nem te atrevas a prever
toda a poesia que vou criar
com tua lembrança.
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Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.
Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
954
José Eustáquio da Silva
Coadjuvante
não sou dono, tomo conta
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
não sou pai, sou referência
não sou filho sou produto
não sou estou
não tenho alugo
não choro me calo
não sorrio riem de mim...
não sofro, me agüento
não rezo, espero
não faço, obedeço
não crio, recrio
não durmo, adormeço
não quero, basta-me sonhar
não vejo, me mostram
não penso, dispenso
não falo, ouço
não vou, já estou de volta
não grito, silencio
não dou opiniões, observo
não tenho amigos, brinco com letras
não tenho motivos, faço poesias
não tenho razão, tenho coração
não tenho dinheiro, tenho inspiração
não construo, imagino
não canto, caetaneio
não escrevo, sinto
não minto, invento
não sou nada, sou eu
não tento, desisto
não vivo
existo...
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José Eustáquio da Silva
Quem Somos Nós?
desenvolva
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar
arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis
ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor
a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?
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