Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Martha Medeiros

Martha Medeiros

solidão que tanto temem

solidão que tanto temem
que tanto ignoram o bem que faz
sozinha não minto, não finjo
não causo nenhum escarcéu
sozinha não maltrato, não disfarço
não há pesquisa que me sonde
sozinha não retruco, não provoco
não deixo ninguém sem resposta
sozinha não julgo nem condeno
não trato ninguém como réu
sozinha não grito, não rogo praga
não renego meu deleite
sozinha não trapaceio, não peco
não falto nem chego atrasada
sozinha não sumo, não volto
não tenho presença notada
sozinha eu sou quem eu posso
sozinha eu faço o que quero
sozinha não há céu que me rejeite
1 075
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Depois (de pensar em mim)

De tudo não fica nada
Nem sei se estou em mim
Me dou sem me ter, me entrego
Não sobra, não basta.

De tudo, o que era para ficar não fica
Me tiram de mim porque consinto
Também dos outros tiro
Me troco, nos trocamos.

E o que me resta sou eu,
um salão vazio tão cheio
sozinha em uma multidão.

E assim me vou, me deixando por aí
A cada dia menor e maior
A cada dia menos e mais eu.

693
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O pensar, e o pensar sempre

O pensar, e o pensar sempre
Dá-me uma forma íntima e (...)
De sentir, que me torna desumano.
Já irmanar não posso o sentimento
Com o sentimento doutros, misantropo
Inevitavelmente e em minha essência.

Toda a alegria me gela, me faz ódio,
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito
Que outras. E a alegria faz-me odiar
Porque eu alegre já não posso ser,
E, conquanto o não queira assim sentir
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz.
O rir insulta-me por existir,
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder! Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida.
E às vezes com pensar sinto crescer
Em mim loucuras de (...)
E impulsos que me transem de terror
Mas são apenas   (...)   e passam.
Mais de sempre é em mim (quando não penso
E estou no pensamento obscurecido)
Uma vaga e (...) aspiração
Quiescente, febril e dolorosa
Nascida do   (...)   pensamento
E acompanhando-o comovidamente
Nas inércias obscuras do meu ser.
1 818
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu triste sou calada

eu triste sou calada
eu braba sou estúpida
eu lúcida sou chata
eu gata sou esperta
eu cega sou vidente
eu carente sou insana
eu malandra sou fresca
eu seca sou vazia
eu fria sou distante
eu quente sou oleosa
eu prosa sou tantas
eu santa sou gelada
eu salgada sou crua
eu pura sou tentada
eu sentada sou alta
eu jovem sou donzela
eu bela sou fútil
eu útil sou boa
eu à toa sou tua
1 061
Leda Costa Lima

Leda Costa Lima

Nuvens do Passado

Nuvens do passado,
negras, nebulosas,
de fatos marcantes
— já semi-esquecidos,
por que relembrar?
Contidas em caixa,
o tempo-borracha,
às vezes apaga,
lançando bem fundo,
dentro de um porão.
A caixa é escura:
— é o inconsciente,
parede invisível...
Confirmado, Freud?

Nuvens cor-de-rosa,
de sonhos dourados,
já concretizados,
de amores vividos
no nosso passado
ou vivenciados
no nosso presente,
convém relembrar!
Confirmado, gente?

Nuvens tão douradas,
sonhos aguardados,
que ainda estão por vir
no nosso porvir,
convém esperar
e sempre a sonhar!
Confirmado, amor?

909
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outr'ora quis a fama — e não a quis,

Outrora quis a fama — e não a quis,
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.

Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
1 027
Leda Costa Lima

Leda Costa Lima

Percebendo Paradoxos

Palmilho,
planícies,
pacato,
pastor
paciente,
padrão
pactual.
Palpitante,
percorro
penhascos,
pântanos.
Paro,
pensativo,
patético,
poluído,
porque
pasmo,
profundamente
perplexo:
— percebo
paradoxos!...

981
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio

Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 344
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Many an evil, many a bliss

Many an evil, many a bliss
        Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
        To live and to know it well.

Since this from life at once we see
        Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
        To die and know oneself dead?

That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
1 228
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE WORLD OFFENDED

I said unto the world one day:
        «I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
        To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.

Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
        Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
        In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
        Are more than I can pay.)
1 323
Leão Júnior

Leão Júnior

Tempo Tempo

certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia

do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio

para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria

o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história

a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história

aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio

e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas

que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas

são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)

que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens

que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam

sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio

é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça

pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas

obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição

mal começada a jornada
chegam arquitetos do não

tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado

e rumina arruinando
a forma não digerida

tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo

enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes

quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez

aos homens transmitiu a técnica
de não esperar

nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu

perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente

o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados

quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado

os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado

fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho

(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória

se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)

a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais

quase nada extrai da falta
de origem ou fim

a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte

quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado

a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas

no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar

a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência

a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.

no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa

como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta

e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada

tua vida recordada
Por um apagado de charge

o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente

expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo

e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo

mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo

quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação

que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias

quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável

que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem

a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça

se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado

a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato

para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados

escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala

mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam

e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age

escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga

e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga

deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo

teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez

derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo

os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda

os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda

saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos

que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias

nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia

nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados

pelos becos mais dispersos
das páginas e
405
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Canto Grande

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

1 563
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A essência de mistério o seu horror

A essência de mistério o seu horror
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
1 325
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Então vindas d’Além de Deus

(Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:)

                O INOMINÁVEL:

No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.

O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
1 371
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Soneto Presunçoso

Que forma luminosa me acompanha
quando, entre o lusco e o fusco, bebo a voz
do meu tempo perdido, e um rio banha
tudo o que caminhei da fonte à foz?

Dos homens desde o berço enfrento a sanha
que os difere da abelha e do albatroz.
Meu irmão, meu algoz! No perde-e-ganha
quem ganhou, quem perdeu, não fomos nós.

O mundo nada pesa. Atlas, sinto
a leveza dos astros nos meus ombros.
Minha alma desatenta é mais pesada.

Quer ganhe ou perca, sou verdade e minto.
Se pergunto, a resposta é dos assombros.
No sol a pino finjo a madrugada.

1 522
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sou mais que o SER que transcende

Sou mais que o SER que transcende
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.

Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
1 251
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não é medo que faça estremecer

Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.

Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 323
Martha Medeiros

Martha Medeiros

narcisismo do avesso

narcisismo do avesso
costumo não gostar
das pessoas com as quais eu me pareço
1 150
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A CRIME

Do you know the crime I committed
        Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
        What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.

And every day another crime
        I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
        Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.

Do you know what evil's disgrace
        Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
        Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
1 560
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A QUESTION

«Tell me», one day to a poet said
        A deep, brutal man,
«If you had to choose between seeing dead
Your wife whom you do love so well
And the loss complete, irreparable,
        Of your verses all, instead -
Which loss would you rather feel?»

The poet glanced with sudden woe
And deep distress at him who so
Broke with a question ill‑foreseen
His inner silence half‑serene,
And he did not answer; and the other
Smiled, as elder to younger brother:
The tortured glance of startled sense
And sudden self‑knowledge intense
And newness of self‑consciousness
Was bitter, as ev'n he could guess.
More than a smile were violence.
1 568
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Concordar não posso

Concordar não posso
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
1 318
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Oiço, como se o cheiro

The Literary Narcissus

Único! Original!
A ninguém me assemelho,
nem mesmo à minha imagem
refletida no espelho.

Unique! Original!
I resemble no one,
not even my image
in the mirror.

1 685
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Às vezes passam

Às vezes passam
Em mim relâmpagos do pensamento
Intuitivo e aprofundador
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.

No sangue frio que nas veias minhas
Gira, no ar que sorvo, luz que vejo,
Circula, entra, nada-me uma dor;
E eu talvez à ternura outrora afeito
(Se o pensamento me não dominasse)
Sinto — como não sei — a alma mirrada
E pálida no ser.

Não é apenas, (...), o pensamento
Que assim me traz; é o pensamento fundo,
A consciência funda e absoluta
De todos os problemas minuciosos
Do mundo, transsentidos no meu ser.
1 234
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Abrigo

Enigma vivo, avança na busca impenetrável
sobre o abismo ou sobre a maravilha. Só há um movimento
de descida à nascente. Vivo, eu vou também
para o lugar que me aspira, verde coincidência
de um abrigo que é espaço de descanso e de encontro.

Estamos no fundo incessante, na espessura materna
da figura submersa em profusão harmoniosa.
Ela não é ainda real, mas já é um ritmo, uma cintilação,
o fulgor de uma folha, um queixume exultante.
Que movimentos lentos, que pensamentos suaves!

Alguma vez se abriram as portas do início?
Uma voz se eleva entre o pressentido e o sentido.
As frases não se distinguem das sílabas da folhagem.
O que não cessa apaga-se e desaparecendo nasce.
A água adormece. A sombra declina.
1 133