Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
António Ramos Rosa
Tu Existes Na Lentidão de Um Círculo
Tu existes na lentidão de um círculo
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
1 071
António Ramos Rosa
No Abrigo Idêntico Ao Intacto Aceso,
No abrigo idêntico ao intacto aceso,
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
1 052
António Ramos Rosa
O Que Desperta E É Um Reino Suave
O que desperta e é um reino suave
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
1 128
Martha Medeiros
frente a um filho, somos santos
frente a um filho, somos santos
frente a um soco, somos fracos
frente a um rosto, somos meigos
frente a um doce, somos magros
frente a um bicho, somos gente
frente a um cego, somos raros
frente a um dote, somos pobres
frente a um pobre, somos caros
frente a um soco, somos fracos
frente a um rosto, somos meigos
frente a um doce, somos magros
frente a um bicho, somos gente
frente a um cego, somos raros
frente a um dote, somos pobres
frente a um pobre, somos caros
1 170
José de Paula Ramos Jr.
Murilo Mendes ad Oraculum
Serei pastor de meus dias?
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?
............................................
Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?
............................................
Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.
837
António Ramos Rosa
Generosa É a Lentidão Que Rasga
Generosa é a lentidão que rasga
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
949
Fernando Pessoa
Sonhos dentro de sonhos,
Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 441
António Ramos Rosa
Não Querer Na Espera
Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
1 004
António Ramos Rosa
Já Não Há Desespero Onde Desperta
Já não há desespero onde desperta
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
1 037
Fernando Pessoa
III - Somos meninos de uma primavera
IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 100
António Ramos Rosa
O Que Súbito No Vértice Reconhece
O que súbito no vértice reconhece
o vazio navegável do instante.
o vazio navegável do instante.
1 118
Fernando Pessoa
As mortes
As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
1 313
Martha Medeiros
o homem do campo
o homem do campo
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
1 043
Fernando Pessoa
Só a inocência e a ignorância são
Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
4 080
Fernando Pessoa
NIRVANA
A non-existence deeply within Being,
A sentient nothingness ethereal,
A more than real Ideality, agreeing
Of subject and of object, all in all.
Nor Life, nor Death, nor sense nor senselessness,
But a deep feeling of not feeling aught;
A calm how deep! ‑ much deeper than distress,
Haply as thinking is without the thought.
Beauty and ugliness, and love and hate,
Virtue and vice ‑ all these nowise will be;
That peace all quiet shall eliminate
Our everlasting life ‑ uncertainty.
A quietness of all our human hopes,
An end as of a feverish, tired breath...
For fit expressions vainly the soul gropes;
It is beyond the logic of our faith.
An opposite of joy's stir, of the deep
Disconsolation that our life doth give,
A waking to the slumber that we sleep,
A sleeping to the living that we live.
All difference unto the life we have,
All other to the thoughts that through us roam;
It is a home if our life be a grave,
It is a grave if our life be a home.
All that we weep, all to which we aspire
Is there, and like an infant on the breast,
We shall e'er be with more than we desire
And our accursed souls at last shall rest.
A sentient nothingness ethereal,
A more than real Ideality, agreeing
Of subject and of object, all in all.
Nor Life, nor Death, nor sense nor senselessness,
But a deep feeling of not feeling aught;
A calm how deep! ‑ much deeper than distress,
Haply as thinking is without the thought.
Beauty and ugliness, and love and hate,
Virtue and vice ‑ all these nowise will be;
That peace all quiet shall eliminate
Our everlasting life ‑ uncertainty.
A quietness of all our human hopes,
An end as of a feverish, tired breath...
For fit expressions vainly the soul gropes;
It is beyond the logic of our faith.
An opposite of joy's stir, of the deep
Disconsolation that our life doth give,
A waking to the slumber that we sleep,
A sleeping to the living that we live.
All difference unto the life we have,
All other to the thoughts that through us roam;
It is a home if our life be a grave,
It is a grave if our life be a home.
All that we weep, all to which we aspire
Is there, and like an infant on the breast,
We shall e'er be with more than we desire
And our accursed souls at last shall rest.
1 636
João Rui de Sousa
Roteiro
Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
1 205
Fernando Pessoa
Em cada Consciência o Grande Horror
Em cada Consciência o Grande Horror
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
1 065
Fernando Pessoa
Não me concebo amando, nem dizendo
Não me concebo amando, nem dizendo
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
1 363
Fernando Pessoa
Quem passa e me olha ou me conhece mal sabe
Quem passa e me olha ou me conhece mal sabe
Vendo-me apenas um cansado e triste
O que em mim há distante disto tudo!
Como é que a negra e lúcida verdade
Pode chegar às almas
Que na luz concebem? Tudo o que vive
Ao sol deste existir e quer o sol
Brilhe sem nuvens, anuviado seja
Ou (...) — vive à luz
E não suspeita o que é a escuridão
Das cavernas da alma, esquecida
De luz e vida, e onde a existência íntima
Tem outra forma, outro ser e outro (...)
Vendo-me apenas um cansado e triste
O que em mim há distante disto tudo!
Como é que a negra e lúcida verdade
Pode chegar às almas
Que na luz concebem? Tudo o que vive
Ao sol deste existir e quer o sol
Brilhe sem nuvens, anuviado seja
Ou (...) — vive à luz
E não suspeita o que é a escuridão
Das cavernas da alma, esquecida
De luz e vida, e onde a existência íntima
Tem outra forma, outro ser e outro (...)
1 185
José Sarney
Meditação sobre o Bacanga
As águas passam
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
1 707
Herberto Helder
Uma Espuma de Sal Bateu-Me Alto Na Cabeça
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
790
Fernando Pessoa
O horror metafísico de Outrem!
O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
1 304
Fernando Pessoa
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
938
Lígia Diniz
Eu Sei
Qual é o teu nome?
O nome de verdade
não esse que ouço te chamarem
Qual a palavra que posso dizer
E te ver te virar para me responder?
Aquela palavra que nunca ouviste
E quando disser
Tu já tenhas ouvido mil vezes?
Qual é o teu nome?
Quais as letras, os sons?
Quais as palavras?
Por que não respondes?
Eu sei: tu nem sabes
Não é estranho entender
Que um dia eu vou saber
(sem que tu saibas)
qual é o teu nome?
Eu sei.
O nome de verdade
não esse que ouço te chamarem
Qual a palavra que posso dizer
E te ver te virar para me responder?
Aquela palavra que nunca ouviste
E quando disser
Tu já tenhas ouvido mil vezes?
Qual é o teu nome?
Quais as letras, os sons?
Quais as palavras?
Por que não respondes?
Eu sei: tu nem sabes
Não é estranho entender
Que um dia eu vou saber
(sem que tu saibas)
qual é o teu nome?
Eu sei.
924