Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Carlos Nejar
Purificação
Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.
Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.
Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!
Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!
O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.
Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.
Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.
Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!
Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!
O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.
Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
852
Carlos Nejar
O Homem e as Coisas
As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
1 075
António Ramos Rosa
18. Esculpida Pelas Duas Mãos Amigas
18
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
993
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 207
Carlos Nejar
Comparecimento
Compareço
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.
Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.
Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.
Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.
Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.
E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.
E sou meu próprio alvo.
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.198-199. (Poiesis
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.
Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.
Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.
Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.
Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.
E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.
E sou meu próprio alvo.
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.198-199. (Poiesis
1 044
António Ramos Rosa
33. o Pensamento Será o Fruto E a Forma
33
O pensamento será o fruto e a forma
do próprio jeito do ser a imagem nula.
Os dedos dirão terra folha feliz terra.
Não grave nem límpida duplo encontro
na brisa neblina duplicada imagem
na água reflectindo o corpo e sua sombra.
Dupla imagem na simplicidade pura
da casa inabitada, verde espaço
de não pensar de não ser do duplo ser.
O pensamento será o fruto e a forma
do próprio jeito do ser a imagem nula.
Os dedos dirão terra folha feliz terra.
Não grave nem límpida duplo encontro
na brisa neblina duplicada imagem
na água reflectindo o corpo e sua sombra.
Dupla imagem na simplicidade pura
da casa inabitada, verde espaço
de não pensar de não ser do duplo ser.
501
Rogério Bessa
Hora da Morte
7
a coisa:a casa,
a luta contra o casoo dobro do pensar
o ocaso:o caso:
cada coisa em seu lugara dobra do penso lar
o acasoa casa
a coisa em sua casao cobro do comprar
o quase:
o qual dobro penso ar
o caso:
o qualquer logro pendurar
o quase:
o modo loquaz a par
o caso:
o quasimodo sem modo.
a coisa:a casa,
a luta contra o casoo dobro do pensar
o ocaso:o caso:
cada coisa em seu lugara dobra do penso lar
o acasoa casa
a coisa em sua casao cobro do comprar
o quase:
o qual dobro penso ar
o caso:
o qualquer logro pendurar
o quase:
o modo loquaz a par
o caso:
o quasimodo sem modo.
772
António Ramos Rosa
54. Os Aspectos da Figura Livre
54
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.
Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.
Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.
Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.
Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
1 004
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 125
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como Esquecida Voz de Um Amor Muito Antigo
Desgarram-se no ar as pancadas de um sino
A casa onde moro não fica rente às águas da laguna
Mas a parede é branca e vê-se o rio
E embora hydras e fúrias nos desfiem
A diversidade das coisas como Ponge diz
Nos constrói
A casa onde moro não fica rente às águas da laguna
Mas a parede é branca e vê-se o rio
E embora hydras e fúrias nos desfiem
A diversidade das coisas como Ponge diz
Nos constrói
1 192
António Ramos Rosa
65. Revelação da Visão Obscurecido o Ser
65
Revelação da visão obscurecido o ser
terra não a verde mas a terra e o nome
que segue a folhagem sem centro e sem as margens,
pura extensão, folhagem, violação das partes
densas onde o olhar se perde. Encontro
do alto muro do ser, de líquida voragem
violência de terra e da linguagem alta
que a linguagem ilumina nas falhas do olhar.
Violência verde; muro: voragem
interpretação ao rés da terra lisa
tempo sem tempo, olhar que vê sem ver.
Revelação da visão obscurecido o ser
terra não a verde mas a terra e o nome
que segue a folhagem sem centro e sem as margens,
pura extensão, folhagem, violação das partes
densas onde o olhar se perde. Encontro
do alto muro do ser, de líquida voragem
violência de terra e da linguagem alta
que a linguagem ilumina nas falhas do olhar.
Violência verde; muro: voragem
interpretação ao rés da terra lisa
tempo sem tempo, olhar que vê sem ver.
1 133
António Ramos Rosa
71. Eis a Frescura No Côncavo Das Pedras
71
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
1 030
Rogério Bessa
Do Canto III:
Onomatopéia e Cibernética; Orbitas do Homem:
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
Sua Aurora e Seu Ocaso
no princípio, não era o homem,
antes sonossexo, depois vigília,
o não-sono das coisas.
madrugada sono e sonho
com a descoberta de si,
fecha-se ao vir das sombras
e se despe homem vassalo
de sua mesma contextura
qual ode passada a limpo.
903
António Ramos Rosa
74. Porque Não o Encontro E Não o Encontro
74
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
942
Rogério Bessa
Do Canto VII:
Viagem de Retorno e Reencontro de SI, Seu Lenitivo:
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
971
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Vida Está Vivida
Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
1 276
António Ramos Rosa
No Côncavo da Sombra Sem Domínio
No côncavo da sombra sem domínio
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
1 042
Edmir Domingues
Soneto das inseguranças
O que é mau e o que é bom, no dia a dia,
fica sempre difícil de entendermos.
Seja tudo julgado nos seus termos
sem qualquer preconceito ou fantasia.
Toda verdade é de sujeito, via
essa coisa tão simples de sabermos,
um mago, que escreveu para nós lermos,
que nada há de objetivo na valia.
Quando, à tarde, de súbito, aparece
um sátiro num bosque de ninfetas,
o que é bom e o que é mau não se conhece.
Cochonilhas são rubras nas provetas,
e quem mata lagartas não merece
o futuro esplendor das borboletas.
fica sempre difícil de entendermos.
Seja tudo julgado nos seus termos
sem qualquer preconceito ou fantasia.
Toda verdade é de sujeito, via
essa coisa tão simples de sabermos,
um mago, que escreveu para nós lermos,
que nada há de objetivo na valia.
Quando, à tarde, de súbito, aparece
um sátiro num bosque de ninfetas,
o que é bom e o que é mau não se conhece.
Cochonilhas são rubras nas provetas,
e quem mata lagartas não merece
o futuro esplendor das borboletas.
688
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Duas Sombras Altas
Entre dois espaços duas sombras altas
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
1 095
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 185
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Minhas Mãos Mantêm As Estrelas
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
1 876
António Ramos Rosa
Nas Artérias da Atenção, o Rumor
Nas artérias da atenção, o rumor
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
1 054
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
548
Martha Medeiros
na vertical
na vertical
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página
sou uma mulher de classe
na horizontal
a mulher de alguém
palavra cruzada
sem resposta na última página
955