Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Manuel Bandeira
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 055
Fernando Pessoa
Saído apenas duma infância
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
860
Fernando Pessoa
Não leio já; queria abrir um livro
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
754
Álvaro Viana
Eu
Eu tenho amor pelo meu tipo feio,
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
Esguio e magro, muito magro e alto.
Às vezes fico embevecido e creio
Que o meu semblante é de terroso asfalto.
E noite adentro sonho um lago e em meio
Às águas calmas que em meu sonho exalto,
Vejo entre os astros, a mim próprio alheio,
O meu perfil tristonho de pernalto.
Entre os dois céus iguais em que me perco,
De um grande amor pelo meu Ser me cerco
Abrindo as asas deste Ideal que é meu.
E assim perdido na quimera, absorto,
Espera pela paz, depois de morto,
Quem nunca soube para quê nasceu.
915
Antônio Barreto
A Sombra
Estou atrasado, lá vou eu correndo
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
e a sombra atrás...
Pé-pra-que-te-quero, a língua de fora
e a sombra atrás...
Vou achar um pé-de-ventania
para escapar dessa mania
de fugir da sombra todo dia
e noite
como um bicho-papão...
Pé-de-anjo, pé-de-pato e pano,
pé-de-chinelo sem pé-de-meia,
perambulando,
pererecando
por aí...
Estou adiantado, lá vou eu pensando
e a sombra atrás...
Olho no relógio, está atrasado,
e a sombra atrás...
(...)
Mas tem uma coisa
a mais pra contar:
essa grande safada
que vive acordada
é o meu avesso!
Se tento pegá-la,
até mesmo no sonho,
me desconheço:
ela me fantasia.
Se tento guardá-la
no travesseiro
ela me dá um beijo:
— Já é meio-dia!
In: BARRETO, Antônio: Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.10-13. (Falas poéticas
2 075
Augusto Massi
Nudez
Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 265
Luci Collin
peça
o homem
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes
a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada
a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher
o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes
a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada
a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher
o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras
737
Luci Collin
aos pés da letra
não sei você
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
mas eu por dentro estou quase num
nem existo______quase na lona no limbo
na face escura da lua
na rua a ver navios
quase imprevisto
não sei você mas eu
por dentro estou com um estrepe um engasgo
parece indeferimento
por dentro é rés movimento
é sem balanço___sem serventia
por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco
tinha me abstido dessa cena
tinha desistido desse filme
— espelho bissexto e algo turvo —
não fora o sol que entendi esplêndido
passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício
pelo oficioso desse esforço
não sei você mas eu por dentro
sou só
_________texto
735
Leila Mícollis
Plano de Vôo
Deixar de encarar nossos sentimentos
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.5
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.5
1 120
Marília Garcia
pelos grandes bulevares
[do lado de dentro]
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
683
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
917
Moacyr Felix
Quinteto no Outono
(2a. versão)
A Fátima Pires dos Santos
I
Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.
II
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.
III
No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.
(...)
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993.
NOTA: Poema composto de 5 parte
A Fátima Pires dos Santos
I
Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.
II
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas luas.
III
No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua própria lei.
(...)
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993.
NOTA: Poema composto de 5 parte
1 362
Weydson Barros Leal
Noite
Docemente o tempo soava, ela contou como a noite que habitava seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
859
Charles Bukowski
Feijão Com Alho
isto basta em sua importância:
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
1 277
Weydson Barros Leal
E Deusas não Aravam Rosas
conto fantopoético ou
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
947
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
703
Fernando Pessoa
Estou acima do que agrada aos grandes
Estou acima do que agrada aos grandes
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
Ou aos cultos apraz, a sós comigo
E com o mistério.
Tornei a minha alma exterior a mim.
1 291
Fernando Pessoa
OXFORD SHORES'
OXFORD SHORES'
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
1 152
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 062
Felipe Larson
IMPREVISÍVEIS
A verdade é tão ruim,
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
Mas sofrer pra que?
Se nascemos com o dom de mentir
E você sabe fazer muito bem
Mas quando descubro suas mentiras
Eu minto também
Pois nós temos os mesmos direitos
E criamos nossas próprias leis
Então meu bem
Nós somos imprevisíveis
Por alguns anos me perguntei
Mas agora entendi
Qual é à força do sentimento, tente descobrir?
Mas pense bem antes de responder
Pois não é bem assim
E sei que logo você descobrirá
E a todos contará
Então meu bem
Nós somos impossíveis
826
Fernando Pessoa
Longe de mim em mim existo
Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
1 272
Fernando Pessoa
Estou escrevendo sonetos regulares
Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 370
Fernando Pessoa
HERE AND THERE
Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 364
Fernando Pessoa
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
1 338