Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
796
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
974
Alice Ruiz
Projesombras (Nós)
por causa de
Regina Silveira
no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas
silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente
calculadas
inauguram com humor
o outro lado do rigor
o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?
em toda arte
as coisas sonham sombras
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
Regina Silveira
no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas
silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente
calculadas
inauguram com humor
o outro lado do rigor
o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?
em toda arte
as coisas sonham sombras
In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
1 478
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 114
Vinicius de Moraes
Poética
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.
Nova York, 1950
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.
Nova York, 1950
1 342
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 265
Fernando Pessoa
Quando te apertei a mão
Quando te apertei a mão
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
1 256
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 372
Charles Bukowski
Alma
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
1 273
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
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Manuel de Sousa?
1 123
Vinicius de Moraes
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
1 242
Fernando Pessoa
Dizem que não és aquela
Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
735
Raul de Leoni
De um Fantasma
Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 844
Fernando Pessoa
INTERVAL - 3
I could not be thou, being yet not thou
Were I not God; so to God my thoughts go
(To reach thee, to possess from within
To possess from being not from seeing)
Because, substance of substance, He alone
Can love being all things, and all in each one.
Thus is my love (...) religion.
And by being born, not born; by being love
None; and by being made move, not made to move,
But, indefinable and indistinct,
Wearing no form nor purpose nor precinct
Of use, it hangs, with my soul in its wake
An interval between me and thee, between
Ourselves and God, between thou being but seen
And being loved, abstract absance of place
(...) that
Life, substance of thou being a living thing
Where thought and will and feeling are one thing.
Of the two parts of love, becoming other
And unbecoming self, I do one choose —
The unbecoming, and the other lose.
Yet, as to unbecome must be becoming
Some other thing, as the end for roaming
Makes the thing found where will no matter binds,
The unbecoming of me sure love finds.
Yet if it finds the loved thing, yet not thee,
What thing finds it, that it sought not to be?
What but love's own abstraction, interval
Between souls. And as aether is purest of all
Where filling the mere spaces between things,
Because the more unmixed, the love that clings
To my large disembodiment is best,
Because no object, save love, limits its
(…)
But here not aether but consciousness is
The universal substance, so in this
Less difference between this substance and
God is there — so, if right I understand,
This love which to obtain thee loses thee
And which to complete me uncompletes me,
Which the mere interval doth occupy
Whether neither thy soul nor my soul doth lie,
To which my mere love's force abstractly sends
My void outgoing, and there my being ends,
And so the ends my being had in going
Equally endeth — this love thus foregoing
The object and the subject to be done
By missing into pure Relation;
This love finds God by its internal force,
For when all things are lost God is the loss.
See then how I, starting from me to thee,
Have like a sailor that sets out i' th' sea
For some shore, and the winds drive him away
And this chance casts him on some better bay
Than his intention had been to discover.
Yet if discovering were intended, ever
By what discovered is, where it not willed,
The purpose of discovering is filled,
And if the unwilled discovery is better,
The loss is gam, and that which seemed to fetter
The original purpose, the harsh wind,
Does lead the unled to where he best can find.
Yet this is not the journey's end, for whence
The sailor now arrived, to recommence
He may begin his voyage original
And from the better to the worse recall
For as the original purpose, better less,
Is in the found included, he may thence
His foiled task recompose and now to miss
The purpose that his (...)
So I, from God, the better may go out
To thee, and from within thee, not about
Thy presence, enter into thee and be
The very personality of thee.
Were I not God; so to God my thoughts go
(To reach thee, to possess from within
To possess from being not from seeing)
Because, substance of substance, He alone
Can love being all things, and all in each one.
Thus is my love (...) religion.
And by being born, not born; by being love
None; and by being made move, not made to move,
But, indefinable and indistinct,
Wearing no form nor purpose nor precinct
Of use, it hangs, with my soul in its wake
An interval between me and thee, between
Ourselves and God, between thou being but seen
And being loved, abstract absance of place
(...) that
Life, substance of thou being a living thing
Where thought and will and feeling are one thing.
Of the two parts of love, becoming other
And unbecoming self, I do one choose —
The unbecoming, and the other lose.
Yet, as to unbecome must be becoming
Some other thing, as the end for roaming
Makes the thing found where will no matter binds,
The unbecoming of me sure love finds.
Yet if it finds the loved thing, yet not thee,
What thing finds it, that it sought not to be?
What but love's own abstraction, interval
Between souls. And as aether is purest of all
Where filling the mere spaces between things,
Because the more unmixed, the love that clings
To my large disembodiment is best,
Because no object, save love, limits its
(…)
But here not aether but consciousness is
The universal substance, so in this
Less difference between this substance and
God is there — so, if right I understand,
This love which to obtain thee loses thee
And which to complete me uncompletes me,
Which the mere interval doth occupy
Whether neither thy soul nor my soul doth lie,
To which my mere love's force abstractly sends
My void outgoing, and there my being ends,
And so the ends my being had in going
Equally endeth — this love thus foregoing
The object and the subject to be done
By missing into pure Relation;
This love finds God by its internal force,
For when all things are lost God is the loss.
See then how I, starting from me to thee,
Have like a sailor that sets out i' th' sea
For some shore, and the winds drive him away
And this chance casts him on some better bay
Than his intention had been to discover.
Yet if discovering were intended, ever
By what discovered is, where it not willed,
The purpose of discovering is filled,
And if the unwilled discovery is better,
The loss is gam, and that which seemed to fetter
The original purpose, the harsh wind,
Does lead the unled to where he best can find.
Yet this is not the journey's end, for whence
The sailor now arrived, to recommence
He may begin his voyage original
And from the better to the worse recall
For as the original purpose, better less,
Is in the found included, he may thence
His foiled task recompose and now to miss
The purpose that his (...)
So I, from God, the better may go out
To thee, and from within thee, not about
Thy presence, enter into thee and be
The very personality of thee.
1 581
Fernando Pessoa
Why do I desire
Why do I desire
What I do not need?
Why does my soul, like fire,
Or a hot abstract greed,
Seek all that is higher?
Why, if not because
It is a soul? (...)
Who can know the cause
When it lies in its whole
Hidden in (...) laws?
Yet this matters not.
What matters is pining
And that stress of thought
That comes of divining
What to wish that may not be got.
What I do not need?
Why does my soul, like fire,
Or a hot abstract greed,
Seek all that is higher?
Why, if not because
It is a soul? (...)
Who can know the cause
When it lies in its whole
Hidden in (...) laws?
Yet this matters not.
What matters is pining
And that stress of thought
That comes of divining
What to wish that may not be got.
1 218
Herberto Helder
Uma Espuma de Sal Bateu-Me Alto Na Cabeça
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
790
Fernando Pessoa
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
1 172
Fernando Pessoa
42 - THE FORESELF
I had a self and life
Before this life and self.
When the moon makes woods rife
With possible fay or elf,
There comes in me a dreaming
That is like a light gleaming
Somewhere in me away,
On seas that I have known
And placeless lands that own
Another kind of day.
I dream, and as a blast
Fans into fire an ember,
My heart gleams with a past
That I cannot remember.
And as the ember's glowing
Is not fire but fire's showing,
I waste the empty pelf
Of my mute sense of me.
As rain within the sea
I fade within myself.
There are mazes of I.
I am my unknown being.
I have, I know not why,
Another kind of seeing
(Other than this vain vision
That is my soul's division
From what girds sight about)
Where to see is to know,
Whose life is faith, and woe
Fled by the hand of Doubt.
My life has happy hours:
'Tis when I feel not living;
And, as the scent of flowers
Round flowers a flower‑soul weaving
That is a corporate spirit,
From myself I inherit,
My soul's blood's spirit‑air,
A foreself and inself
Which is the being‑pelf
That with God's loss I share.
Before this life and self.
When the moon makes woods rife
With possible fay or elf,
There comes in me a dreaming
That is like a light gleaming
Somewhere in me away,
On seas that I have known
And placeless lands that own
Another kind of day.
I dream, and as a blast
Fans into fire an ember,
My heart gleams with a past
That I cannot remember.
And as the ember's glowing
Is not fire but fire's showing,
I waste the empty pelf
Of my mute sense of me.
As rain within the sea
I fade within myself.
There are mazes of I.
I am my unknown being.
I have, I know not why,
Another kind of seeing
(Other than this vain vision
That is my soul's division
From what girds sight about)
Where to see is to know,
Whose life is faith, and woe
Fled by the hand of Doubt.
My life has happy hours:
'Tis when I feel not living;
And, as the scent of flowers
Round flowers a flower‑soul weaving
That is a corporate spirit,
From myself I inherit,
My soul's blood's spirit‑air,
A foreself and inself
Which is the being‑pelf
That with God's loss I share.
1 577
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
926
Ana Maria Ramiro
Iniciação
Oráculos em sonhos,
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
827
Fernando Pessoa
Ah, tudo é símbolo e analogia!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
1 634
Fernando Pessoa
O mistério dos olhos e do olhar
O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
1 189
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
837
Ana Maria Ramiro
Navegando a Poesia
Quem diz que o poeta mente
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
é alguém em distonia
Cá estou eu sinceramente
Navegando a poesia.
Poesia é viagem
pelo subconsciente,
pelo sonho,
pela alma,
pela lira de um valente.
O poeta é maestro,
rege a pena com destreza
Mas também é timoneiro
no Universo da tristeza.
Navegar a poesia
é conhecer toda a gente
As de hoje, as de outrora
e as que virão pela frente.
Quem diz que o poeta mente?
Pouco deve conhecer
sobre antropologia e sobre a busca do ser:
Por amor, fraternidade,
conhecimento e alegria
Que o poema é a saga do homem
em forma de antologia.
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